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Delito de Opinião

Sophia de Mello Breyner Andresen

Patrícia Reis, 04.12.15

Há mulheres que trazem o mar nos olhos
Não pela cor
Mas pela vastidão da alma
E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos
Ficam para além do tempo
Como se a maré nunca as levasse
Da praia onde foram felizes
Há mulheres que trazem o mar nos olhos
pela grandeza da imensidão da alma
pelo infinito modo como abarcam as coisas e os Homens...
Há mulheres que são maré em noites de tardes
e calma.

 

De Quem nos Deixa Saudades

Francisca Prieto, 04.12.15

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A tia Mette sempre foi a nossa tia exótica. Dinamarquesa, casou com o meu tio Eduardo por duas vezes. Da primeira, de vestido branco, comprido, como manda a tradição. O cabelo curto e os dentes da frente ligeiramente encavalitados faziam adivinhar um espírito irreverente. Pelo menos nos anos sessenta de uma Lisboa onde as mulheres ainda andavam de saias e nem todas eram detentoras de carta de condução.

A tia Mette era para mim o cúmulo da sofisticação. Fumava longos cigarros SG gigante em pose de revista; à noite, na cozinha, segurava num copo de vinho de pé alto e brindava em dinamarquês com o meu tio e, sobretudo, conduzia o seu citroen com as mãos na parte de dentro do volante.

A sua casa combinava o melhor gosto das tradições portuguesas, com móveis de madeira nórdica, maciça, e algumas referências de pintura taitiana do seu bisavô – o pintor Paul Gauguin.

No Natal, ao contrário das árvores com bolas de todas as cores e fitas estridentes que povoavam as nossas casas, em casa da tia Mette havia sempre decorações de um bom gosto inédito. Claro que hoje sabemos que eram compradas no Ikea de Copenhaga, mas na altura sabíamos lá o que era o Ikea.

Como o aniversário de um dos meus primos é a 31 de Dezembro, passávamos sempre lá o ano em família. Os adultos à mesa, com talheres de um dourado baço a combinar com o serviço de loiça egípcio da minha avó, e nós, a miudagem, a correr pela casa, fazendo razias à árvore de Natal com velas verdadeiras acesas. Nem sei como nunca nos imolámos inadvertidamente.

Um dia, quando eu tinha uns doze anos, os meus tios desentenderam-se e a tia Mette pegou nos três filhos e em meia dúzia de malotes e rumou à Dinamarca.

Tive um desgosto tremendo e durante muitos anos lembrava-me desta tia com uma imensa saudade.

Passaram-se uma catrefada de anos e um dia fiquei a saber que o tio Eduardo e a tia Mette se iam casar outra vez. Parece que foram jantar fora um dia e que ela, arisca, lhe terá perguntado se ele queria ser seu amante. Reza a história que ele terá respondido que sim, mas só se ela se casasse com ele.

De maneira que foi assim que a tia voltou às nossas vidas. Um par de décadas mais velha, com mais meia dúzia de quilos, mas sempre com um sorriso e um piscar de olho que nos fazia saber o quanto gostava de nós.

Viveu em Portugal os últimos quinze ou vinte anos da sua vida, feliz, sempre de porta aberta para receber com pratos exóticos esta família que também era a sua.

Um dia, a dormir, chamaram-na do céu e lá foi ela, deixando-nos a nós outra vez cheios de saudades.

Lembrei-me disto tudo a propósito de uns enfeites de Natal que comprei no outro dia, iguaizinhos aos que ela costumava ter. Não sei se agora está no céu a evangelizar o Menino Jesus sobre a importância do sentido de humor, ou se só vive nos interstícios dos nossos corações mas, seja como for, desejo-lhe um Natal de arromba.

O léxico dos candidatos (1)

Pedro Correia, 04.12.15

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ABRIL

«Este é o tempo do futuro. Não podemos aceitar retrocessos no caminho feito depois de Abril.»

AMORFISMO

«Lutarei contra o amorfismo, a indiferença, a resignação, a passividade, o conformismo e o pensamento único.»

ATENTO

«Estarei especialmente atento à celebração, no futuro, de compromissos que reduzam os poderes soberanos do nosso país.»

CONTEMPORANEIDADE

«Estarei atento à pluralidade e à diversidade, às diferentes maneiras de pensar e de estar na vida, sempre aberto à contemporaneidade e às grandes questões do nosso tempo.»

DAR

«Há momentos na vida em que precisamos de dar tudo. Esse momento é agora.»

DIFERENTE

«Farei uma campanha diferente, durante a qual me preocuparei sobretudo em ouvir e pensar com as pessoas, em conhecer as diferentes histórias que coexistem num mesmo tempo e num mesmo espaço.»

ENCONTRAR

«Temos de encontrar soluções para uma dívida que sufoca os Estados.»

EMIGRAÇÃO

«Não podemos aceitar a emigração da nossa juventude mais qualificada, da nossa ciência e do nosso conhecimento.»

ESCUTA

«Procurarei não ficar por um conhecimento superficial da realidade e inscrever um outro conhecimento da vida e do país real, através do encontro e da escuta.»

ESPERANÇA

«Esta é, tem que ser, novamente, a nossa hora, a hora de todas as mulheres e homens deste país, a hora de Portugal. Abriu-se o tempo da esperança.»

EXISTIR

«É preciso unir uma sociedade rasgada, juntando os portugueses, as portuguesas, numa luta comum, sem medo de existir.»

HUMANIDADE

«É preciso trazer a vida para dentro da política, com humanidade.»

IMPACIENTEMENTE

«Apoiarei sempre as iniciativas mais dinâmicas, as forças de inovação e de progresso que existem na sociedade portuguesa. Impacientemente.»

LEGADO

«Em tudo, procurarei honrar a confiança em mim depositada, dando continuidade ao legado dos mandatos dos Presidentes Ramalho Eanes, Mário Soares e Jorge Sampaio.»

PALAVRAS

«As palavras não são só palavras. São pessoas, são vidas, são passado e são futuro.»

PESSOAS

«É preciso que a política se faça com as pessoas, pelas pessoas, com sentido de Estado e de serviço público.»

PROPOR

«Tentarei antecipar os problemas, propor, agir para que se alcancem soluções sólidas e duradouras.»

SOLIDARIEDADE

«A minha magistratura será de solidariedade nacional.»

URGENTE

«É urgente reforçar a confiança da população na Administração Pública.»

VITALIZAR

«O Presidente da República ajuda a vitalizar e a aprofundar a democracia, como voz independente que ouve e dialoga com todas as pessoas.»

 

Da Carta de Princípios de António Sampaio da Nóvoa

Não concordo

Sérgio de Almeida Correia, 04.12.15

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 (Miguel Baltazar/Negócios)

 

"O Governo é legítimo e não podemos continuar a falar dele como ilegítimo”

 

Penso que a senhora não está a ver bem o problema. Poder podem. E até penso que o ideal era deixá-los continuarem a discutir essa questão até à exaustão, até todos perderem o pio. Os que contestam a legitimidade do Governo e os que o apoiam e lhes dão o troco.

Porque a avaliar pelo debate da moção de rejeição do programa do Governo, pela compostura nas bancadas da oposição, pelas risadas, os apartes, o gozo, o palavrório das interpelações e o nível da linguagem da rapaziada das jotas, até parecia que tinham regressado todos às lutas académicas. Por momentos vi o Telmo Correia a discursar num dos anfiteatros da Faculdade de Direito de Lisboa, numa Assembleia de Representantes, nos idos de 80, a falar para a malta e a pedir uma recontagem dos votos do Costa e do Apolinário. E depois o chumbo da moção, os aplausos e a risada geral.

Um espectáculo que os portugueses devem ter sumamente apreciado, e comentado, enquanto emborcavam uma lambreta e comiam uns tremoços no Café do Zé. 

É sempre bom voltar à adolescência, é sempre bom recordar velhos tempos. 

Sem tutelas nem gurus

Pedro Correia, 03.12.15

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Fotografias de Ricardo Coutinho

 

Os meus amigos mais próximos, adeptos tal como eu de um clube que veste de verde e branco, sabem muito bem a relutância que tenho em frequentar esta zona de Lisboa onde se encontra o Colombo.

Devo dizer que essa relutância terminou hoje.

Porque não vou esquecer este dia. E este caloroso encontro com alguns dos meus melhores leitores, que são vocês.

Quero deixar um agradecimento muito especial ao professor Luciano Amaral, autor do prefácio, que muito valoriza esta edição.

Quero deixar também um agradecimento expresso ao professor José Adelino Maltez, cuja capacidade analítica sempre admirei.

Fomos colegas, o professor Maltez e eu, numa época irrepetível, num blogue que deu muito que falar – o Albergue Espanhol. Durou pouco mas deixou um rasto longo e até tem sido alvo de teses de mestrado e de doutoramento, ao que me dizem. Com histórias nem sempre bem contadas.

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Mas é também de outro blogue que eu quero hoje falar-vos.

O DELITO DE OPINIÃO. Existe vai fazer sete anos. É um blogue que cruza várias opiniões fortes capazes de existir num espaço de liberdade e de tolerância.

Um espaço onde ninguém abdica do seu ideário. Mas também um espaço onde ninguém se insulta. Nem precisa de gritar para comprovar que tem razão.

Infelizmente ao contrário do que cada vez mais vamos vendo e ouvindo por aí.

Estão aqui presentes vários dos meus colegas do DELITO que podem certamente comprovar que isto é verdade.

 

Foi no Albergue Espanhol que iniciei em 2010 uma série de textos intitulados PRESIDENCIÁVEIS. Cerca de um ano antes da eleição presidencial de 2011.

Eram textos que não se levavam demasiado a sério. Feitos sempre com algum registo irónico. Textos que procuravam antecipar quem seriam os candidatos a Belém.

Retomei esses textos cinco anos depois, já em 2015, no DELITO. Com o mesmo registo.

Pensei fazer dez ou vinte mas os leitores iam pedindo mais. E eu ia satisfazendo esses pedidos. Um desses pedidos foi para mim uma surpresa total. Vindo do editor da Topbooks, Fernando Silva, que imaginou este livro e me desafiou a escrevê-lo. Acabaram por ser 70. Um número que eu nunca teria imaginado à partida.

 

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Os textos foram publicados entre Fevereiro e Junho no DELITO e revistos em Setembro. Sem introduzir mais nome nenhum na passagem para livro. Impus a mim próprio essa regra.

Sempre com um ponto essencial: a candidatura a Belém não deve ser menosprezada.

Os acontecimentos mais recentes só me dão razão.

O sistema político português é semipresidencialista, ao contrário do que parecem imaginar aqueles que gostariam de ver o Presidente eleito em petit comité no Parlamento ou até aqueles que se dizem republicanos mas sonham com uma Rainha de Inglaterra em Portugal, que se limitasse a ler os discursos que o Governo lhe escreve.

 

Há outra ideia-base neste livro: o campo de recrutamento dos Presidentes da República deve alargar-se, não ficando confinado àqueles que os estados-maiores dos partidos gostariam que avançassem.

A cidadania não se compadece com estes jogos partidários de visão estreita que afastam as pessoas da política.

Felizmente a esmagadora maioria dos candidatos às presidenciais de 24 de Janeiro contraria esta lógica.

É um sinal dos tempos que devemos saudar.

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Para terminar, quero fazer-vos uma confissão: sou um eleitor muito atípico. Sobretudo nas presidenciais.

Já votei nos candidatos mais imprevisíveis e quase sempre segundo uma lógica de afinidade pessoal com o candidato. As pessoas, para mim, são mais importantes do que as ideologias.

Já votei em chamados candidatos “menores” - embora esta designação seja sempre subjectiva e com frequência injusta.

E já exerci votos de protesto. Por nenhum candidato “principal” me satisfazer.

 

Um desses votos aconteceu nas presidenciais de 2001.

Decidi levar a minha filha, então com oito anos, para lhe fazer de algum modo a pedagogia do voto.

Ela viu-me a pôr a cruz no boletim. Ficou em silêncio e quando saímos da assembleia de voto perguntou-me: “Papá, porque é que votaste naquele senhor que está sempre tão zangado no Telejornal?”

Era o candidato Garcia Pereira.

Rio-me sempre que penso nesta história. Mas as presidenciais são uma questão séria.

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No fundo escrevi este livro pelo mesmo motivo que levei a minha filha, naquele dia, à sala de voto.

Para mostrar que existem sempre opções. Seja no Senhor Zangado ou no Senhor ou na Senhora Sorridente.

E também para deixar claro que não devemos delegar em mais ninguém aquilo que, certo ou errado, deve ser decidido só por nós.

Em consciência, sem tutelas nem gurus.

 
Texto lido na apresentação do meu livro, anteontem, em Lisboa. 

Sinais

José António Abreu, 03.12.15

1. Não vou discutir questões de pedagogia. Os exames do quarto ano podem ou não fazer sentido. Mas a inexistência de qualquer análise prévia à decisão de os eliminar, bem como a não implementação de outro método para avaliar escolas e professores, faz com que a pedagogia seja pouco relevante. Muitos pais aplaudirão: é menos «stresse» para os filhos e hoje em dia o mais importante é as crianças não sentirem «stresse», em especial porque ele se reflecte nos pais. Quase todos os professores e directores de escola aplaudirão: é menos um elemento de avaliação do seu trabalho. O novo ministro da pasta... Ora, o que importa o que o novo ministro pensa quando os superiores interesses do Bloco e do PCP se levantam?

 

2. Em 2012, Vítor Gaspar implementou a Lei dos Compromissos e Pagamentos em Atraso. O objectivo era forçar as entidades do sector público a pagar a horas. Desde então, a dívida global das autarquias reduziu-se para cerca de metade (1500 milhões de euros em vez de 3000 milhões) e o montante em dívida há mais de 90 dias caiu para menos de um quinto (300 milhões em vez de 1600 milhões). Agora, o recém-empossado secretário de Estado das Autarquias Locais (por extraordinária coincidência, ex-presidente da Câmara Municipal de Torres Vedras) promete revê-la. Não se esperava outra coisa.

 

3. Ontem, no Parlamento, Costa respondeu às reservas de Jerónimo com a cristalina frase: «Aquilo que o PCP não está disponível para apoiar, é aquilo que nós não estamos disponíveis para propor». Já sabíamos que o programa do governo não é o mesmo que o PS levou às eleições onde foi derrotado. Já desconfiávamos que, mais do que uma obra do PS, será o que PCP e Bloco desejarem que seja. Ontem, Costa confirmou que as famosas «linhas vermelhas» são mesmo as do PCP.

 

4. Ainda ontem, ainda no Parlamento, o deputado do PSD Miguel Morgado citou um livro de Mário Centeno para ilustrar a contradição entre as ideias que este defendia para o mercado de trabalho e as ideias defendidas pelo governo que Centeno agora integra - e, com a sua pretensa imagem de seriedade, cauciona. A resposta do ministro foi a mais extraordinária de toda a sessão: «Não tente transpor conclusões de artigos científicos para a legislação nacional, porque se tentar fazer isso é um passo para o desastre.» Centeno admite pois ter andado a inventar e a defender modelos não passíveis de aplicação prática. Mais: estende esse carácter puramente teórico a qualquer conclusão de qualquer estudo científico. Seriedade? Não fosse a inconsciência, tê-la-ia pelo menos na assumpção da hipocrisia.

A longa crise

Luís Naves, 03.12.15

A economia brasileira está em queda livre e paira sobre o mundo o espectro de uma terceira vaga da crise financeira, desta vez iniciada num país emergente. A Turquia e a Rússia, dois outros candidatos a epicentro desse possível sismo, estão envolvidas num perigoso duelo em torno da guerra civil da Síria.

A Europa entrou em crise há sete anos. Na primeira fase, foi vítima do quase colapso do sistema financeiro mundial. Depois, enfrentou problemas internos que quase levaram ao fim da sua moeda única. Neste momento, está em causa o espaço de livre circulação de pessoas: a fragmentação do Islão produziu um vasto arco de instabilidade que vai da Nigéria ao Cáucaso, do Afeganistão à Argélia, da Somália ao Curdistão. A guerra civil na Síria e no Iraque provocou pelo menos sete milhões de deslocados e quatro milhões de refugiados, muitos dos quais procuram chegar à Europa. Cada país de recepção teve uma abordagem que ignorava os vizinhos e parceiros, instalando-se uma situação caótica que parece já não ter remédio.

Em sete anos de crise nos países industrializados, a prosperidade das elites mistura-se cada vez mais com o descontentamento e a sensação de crescente insegurança. A resposta tem sido o aumento regular das propostas populistas de esquerda ou de direita, que tipicamente atraem um terço do eleitorado em cada país. Esta ansiedade em relação ao futuro baseia-se na frustração que muitos europeus sentem: diluiu-se a protecção do Estado, mas não se concretizou a hipótese da abundância, pelo contrário, o europeu típico teme pelo seu emprego e receia cair na pobreza. As democracias são vulneráveis. Para mais, num mundo multipolar e perigoso, as grandes potências tentam encostar os rivais às cordas, relutantes em cooperar contra os seus inimigos comuns: as ideologias do apocalipse e a linguagem do terror.

Que parte é esta dos acordos?

Sérgio de Almeida Correia, 03.12.15

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Confesso que por esta não esperava e fico a pensar em que se baseiam os especialistas de comunicação para considerarem que este tipo de reportagens faz parte do cardápio do interesse público. Da coscuvilhice pública não tenho dúvidas, só que depois dos péssimos exemplos de José Sócrates e Passos Coelho pensei que a lição tivesse sido assimilada. Graças a uma nota do Carlos Vaz Marques, verifico agora, penosamente, que não. Ainda bem que onde estou só tenho acesso à capa. É quanto me basta. Porque se este é o modelo, se este é o caminho, se aquilo que é do domínio do privado, devia assim permanecer e ser resguardado, afinal deve ser público, então o melhor mesmo é estar ausente. E de preferência bem longe.

Os custos do populismo de esquerda

Luís Naves, 02.12.15

As torneiras do dinheiro público serão abertas e, nos primeiros meses, haverá dinheiro para tudo. O populismo de esquerda tem custos elevados. Os sindicatos defendem os privilégios de alguns trabalhadores e tentarão destruir as reformas impostas pelo FMI. A imprensa estende a passadeira vermelha ao governo minoritário do PS e já começaram as pequenas mentiras, tipo "afinal, os cofres estavam vazios" e "há estagnação económica". Na realidade, o novo governo recebeu um país com crescimento (modesto), contas externas positivas, criação de emprego e facilidade na obtenção de crédito nos mercados. O governo beneficiará também de bons ventos ocasionais, como petróleo barato e intervenções do BCE, mas não devia ter sido esquecida tão depressa a herança que a direita recebeu em 2011: programa de ajustamento mal negociado, economia em colapso, falência iminente do Estado, perda de soberania, sistema financeiro à beira da ruína, desemprego galopante e dívida insustentável.

Nos primeiros meses do novo ciclo político não existe qualquer ameaça interna, pois os partidos que apoiam o governo não cairão na tentação de o derrubar: quem o fizer abre as portas à direita e será punido. A maior ameaça vem do exterior, pois os credores europeus dificilmente permitirão o descontrolo das contas públicas. Quando chegar a factura, talvez já em meados de 2016, as novas medidas de austeridade implicarão o rompimento dos acordos de esquerda ou o não cumprimento dos compromissos externos, hipóteses que os mercados financeiros não perdoam. O PS tentará eleições antes deste desfecho, enquanto ainda forem visíveis os efeitos da sua generosidade. E haverá entretanto outras incógnitas, da atitude do futuro presidente ao grau de paciência da extrema-esquerda. E à direita, que acontecerá? Vão surgir novos partidos ao centro? Podemos esperar mudanças nas cúpulas partidárias?

É fácil culpar a Europa e o euro pelos nossos problemas, mas esta crise política promete ser longa. As dificuldades ainda não acabaram e mantém-se a fragilidade económica, nomeadamente o endividamento e a falta de poupança. As reformas de que o país continua a necessitar estão congeladas ou abandonadas de vez. Há demasiadas pessoas no desemprego, mas esta esquerda começou pelas causas fracturantes e pelos exames da quarta classe.

O Delito foi à apresentação do(s) Presidenciáveis

Adolfo Mesquita Nunes, 02.12.15

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O Pedro Correia é o Presidente do Delito. Não foi eleito, é certo, mas foi aclamado uma e outra vez, em liberdade e com mérito. Foi ele que nos juntou, que nos descobriu cumplicidades, que encontrou a geometria das diferenças. É nele que o Delito começa e foi com ele que todos aqui chegámos e ficámos. O Delito é de todos nós, que a presidência não confere ao Pedro qualquer direito acrescido, mas todos nós lhe devemos a alegria de nos ter colocado na vida uns dos outros. E não é pouco, isto de nos sabermos parte do percurso de quem gostamos.

E porque o Pedro publicou um novo livro, lá fomos, os que pudemos fazendo inveja aos que não puderam, à sua apresentação, como se testemunha na fotografia. Se foi um pretexto para estarmos juntos, foi também uma oportunidade de mostrar ao Pedro o apreço que lhe temos e de lhe falarmos do orgulho que sentimos ao ver uma parte do Delito transformar-se em livro.

Vale a pena reler os posts do Pedro, agora em livro. E vale a pena fazer parte do Delito. 

Uma sociedade de 70 cadeiras

Pedro Correia, 02.12.15

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Fotografias de Ricardo Coutinho

 

Foi um prazer enorme rever tanta gente amiga ao fim da tarde de ontem, na FNAC do Colombo, em Lisboa. O pretexto, na minha perspectiva, não podia ser melhor: o lançamento do meu livro Presidenciáveis - nascido e desenvolvido aqui no DELITO DE OPINIÃO entre Fevereiro e Junho. Como tenho dito a várias pessoas amigas nos últimos dias, é o primeiro filho deste blogue mas não será o último. Estou certo disso.

É um livro que dedico a vários colegas "delituosos": aos que me acompanham ininterruptamente desde o primeiro dia, já vai fazer sete anos. E a outro pioneiro do DELITO: o João Carvalho, tão cedo desaparecido e que tantas saudades nos deixou.

 

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Fica o meu agradecimento a todos quantos se deslocaram ontem ao Colombo. E em particular a José Adelino Maltez, que apresentou a obra.

"É raro, num livro, haver este exercício da adjectivação malandra, embora contida", salientou o professor, um dos mais prestigiados politólogos portugueses.

"O que este livro revela, a brincar, é que voltámos ao regresso dos notáveis (era assim que se dizia no século XIX). O que este livro nos diz é que estamos reduzidos a uma sociedade de 70 cadeiras", sublinhou Adelino Maltez.

O prefácio foi escrito por outro professor, Luciano Amaral, que destaca o seguinte: "Os retratos do Pedro são pequenas pérolas sintéticas, que oscilam de maneira desembaraçada entre o sério e o humorístico."

Agradeço-lhe também a ele as generosas palavras que me dedicou. 

 

O livro aí fica, a partir de agora, à consideração dos leitores. Espero que estes Presidenciáveis possam fazer pensar sorrindo e fazer sorrir pensando. Seguindo a matriz deste blogue, onde a opinião sempre foi livre, irreverente e plural.