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A propósito do ano de 2015

por Luís Naves, em 01.01.15

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Quem quiser antecipar para 2015 um ano de potenciais desgraças deve lembrar-se que em 1915 o mundo estava envolvido numa terrível guerra mundial, com milhões de soldados a viverem em trincheiras improvisadas e no perigo constante da aniquilação. A Europa sofreu uma das suas piores calamidades e esta guerra, que só terminou em 1918, após 9 milhões de mortos, foi certamente uma das causas da terrível epidemia de gripe que viria a matar mais dez milhões de pessoas. A Primeira Guerra Mundial destruiu quatro impérios europeus e lançou as sementes de uma guerra ainda mais destrutiva, que iria dizimar a geração seguinte.

O ano de 1815 não foi mais auspicioso do que 1915. Houve dois momentos explosivos, a fuga de Napoleão da ilha de Elba e a erupção do vulcão do monte Tambora, na actual Indonésia. O primeiro episódio culminou na batalha de Waterloo, em Junho, onde um tempo anormalmente húmido perturbou seriamente as tácticas militares: as armas não disparavam e a artilharia francesa não provocou o efeito esperado, apesar de Napoleão ter esperado uma hora (crítica) antes de lançar o ataque, na esperança de que o campo de batalha secasse. A chuva e a lama foram talvez a consequência imprevista da distante erupção vulcânica, que provocou um pequeno Inverno na Europa. O ano seguinte seria o famoso ano sem Verão, que provocou uma mortandade devido à fome e à doença. A década de 1810 teve um mínimo solar e foi uma das mais frias e húmidas dos últimos 300 anos.

Se 1815 não foi um ano bom, pode afirmar-se que 1715 não teve grande história e foi até auspicioso, pois a Guerra da Sucessão Espanhola terminara em 1714, com resultado medíocre para Portugal, que no papel foi um dos vencedores. Visto mais à lupa, este período deu início a uma longa fase de consolidação dos grandes poderes europeus, sobretudo do Reino Unido e da Áustria, ao mesmo tempo que ocorreu o declínio lento dos pequenos impérios, sendo Portugal uma das vítimas, apesar do ouro do Brasil descoberto nesta época.

A Europa estava em transição e vinha de uma longa série de conflitos, o maior dos quais, a Guerra dos Trinta Anos, começou em 1618. Este foi um período particularmente negro, com milhões de vítimas provocadas pela fome, batalhas, massacres, doenças e puro ódio religioso. E podia ter sido diferente. Em 1615 ocorrera um momento de vitalidade artística e científica, mas era como o canto do cisne: a literatura teve uma das suas maiores glórias nesse ano, com a publicação do segundo volume de D. Quixote, meses depois de ser publicado em Lisboa A Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto. William Shakespeare terminara anos antes a sua notável carreira e, tal como Cervantes, morreria em 1616. No início da década, Galileu fizera as primeiras observações com telescópio, mas entretanto enfrentava crescentes dificuldades com as autoridades eclesiásticas, devido à sua defesa do modelo heliocêntrico do sistema solar proposto por Nicolau Copérnico.

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Os grandes cientistas e escritores são o melhor símbolo do final de dois séculos de intensa mudança de mentalidade. Se recuarmos cem anos, em 1515 estava em rápido movimento o período dos Descobrimentos. O rei português Manuel I enviou ao papa um rinoceronte vivo, que muito impressionou quem o viu. Nesse ano ocorrera também uma autêntica revolução na arte, na botânica, na geografia, na matemática, na astronomia, na alimentação e na guerra. Os portugueses encontravam-se na vanguarda da exploração e da ciência, mas tinham rivalidades insuperáveis, espírito de facção e falta de disciplina. Vítima de intrigas palacianas, o vice-rei da Índia, Afonso de Albuquerque, um dos primeiros construtores dos impérios europeus, foi destituído vergonhosamente pelo monarca e morreu nesse mesmo ano de 1515, segundo dizem atingido pelo desgosto, proferindo uma frase célebre que resume toda a frustração de quem gastara a vida a lutar pelo insolúvel dilema do poder: “Mal com el-rei por amor dos homens, mal com os homens por amor de el-rei”.

A frase continua a ser um dos melhores sumários dos dois séculos portugueses. A aventura começara em 1415, com a tomada da cidade de Ceuta, na costa marroquina, episódio marcado pelo espírito das cruzadas típico da velha época, mas já com o embrião de uma nova curiosidade que mudaria o destino de toda a civilização europeia. Foi em Ceuta que começou a Era dos Descobrimentos, de forma porventura irreflectida, mas desencadeando um processo de acumulação de conhecimentos que levou o Ocidente à supremacia.

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Cem anos antes, em 1315, ninguém diria que isso era possível. A Europa viveu nesse ano o início de uma grande fome que matou porventura 10% da população. Muitos sobreviventes ficaram debilitados e viriam a ser vítimas fáceis da Peste Negra que se propagou a partir de 1348, com vários surtos em anos posteriores. Segundo se julga, a Grande Morte dizimou um terço da população europeia. É quase inexplicável que a Europa tenha sobrevivido ao século XIV, para mais com as desgraças associadas à guerra dos Cem Anos, vários períodos de fome e vagas de peste que actuavam como tsunamis regulares a devastar a população.

O mesmo se pode afirmar do século XIII, quando um momento de pura sorte evitou a provável destruição da Europa Central pelas hordas mongóis (1241), o que apesar de tudo não evitou a destruição de metade do poderoso reino húngaro, onde ocorreu um verdadeiro genocídio. Os mongóis tinham conseguido o seu primeiro grande triunfo externo em 1215, com a conquista da actual Pequim e respectivo massacre da população que, em desespero, usara artilharia primitiva e, à falta de ferro para as munições, teve de recorrer a ouro e prata. Nesse ano, desconhecendo as desgraças alheias, a Europa poderia estar despreocupada, mas era palco de um fanático fervor religioso e de cruzadas contra o Islão mas também contra as heresias cristãs. Os cátaros, por exemplo, foram massacrados de forma impiedosa. Este mundo medieval era cruel e pobre cem anos antes e também dois séculos antes. O ano de 1115 não foi melhor, nem 1015: a vida dos europeus era curta e penosa; as pessoas, analfabetas e supersticiosas, trabalhavam agarradas à terra onde nasciam, até ao dia em que morriam.

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As canções do século (1827)

por Pedro Correia, em 01.01.15

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