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Pensamento da semana

por Rui Rocha, em 30.12.14

Depois de ter lançado os alicerces da democracia há mais de 2000 anos, a Grécia poderá tornar-se o berço de uma nova syrização.

Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 30.12.14

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Era uma Vez um Professor..., de Júlio Machado Vaz

Reflexões

(edição Âncora, 2014)

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O que valeu a pena ver em 2014 - 2/3

por José Navarro de Andrade, em 30.12.14

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O Washington, o Jefferson e o Franklin da revolução televisiva

 

É possível que o actual apogeu da ficção televisiva constitua o preâmbulo da inexorável falência da indústria audiovisual tal como ela hoje opera, ou seja, segundo o modelo de negócio vigente. Para onde se vai ninguém sabe, onde se está só alguns entendem, aqueles que tomam decisões, quase todas em função de dilemas instantes. Olhando na direcção certa não é difícil verificar que constelação de influências deu azo a que hoje, na(lguma) televisão, se possam ver as mais inquietantes, refinadas e sagazes narrativas, com génio e têmpera de meter o cinema no sapato. Averiguando as audiências televisivas dos EUA (porque as respostas hão-de ser avistadas no terreiro dos mercados, lugar onde estas coisas se tramam, e não nas nuvens institucionais, no seu melhor limitadas a diagnosticar resultados), constata-se que os canais de cabo pago (HBO, Showtime, etc.) lograram uma massa crítica de assinantes que lhes propiciou orçamentos de produção ao nível das estações generalistas. Estribados nesta fartura, irreproduzível noutros territórios, nomeadamente europeus, demandaram à conquista dos segmentos de audiência mais sofisticados, por hábito resilientes à televisão e à sua corrente oferta ficcional. Significa isto que uma sequência de séries impossíveis em canal aberto, como “Sopranos”, “Dexter” Californication”, “The wire” “Generation Kill”, “Six feet under”, “Big love”, “True blood”, “Deadwood”, “Weeds”, “Boardwalk empire” e “Breaking bad”, teve o poder e a virtude de recolher ao redil da televisão espectadores desavindos, que nelas surpreenderam um desafogo de inteligência, irreverência e originalidade, assim alargando a base de clientes de tão selectos canais. Estamos elucidados quanto à “criação de novos públicos”, um mantra muito recitado e pouco acertado – it’s economics, stupid...

Ainda não houve neste século, nem na literatura nem no cinema, personagem com a dimensão comparável à de Walter White (o definitivo Bryan Cranston) de “Breaking Bad” (“Ruptura total”) quer lhe peguemos pela tragédia quer pela farsa. Com a temeridade própria dos desesperados, Walter White arrasta o seu cancro terminal ao longo de 62 horas, perverte toda a ordem estabelecida, seja a familiar, seja a legal, seja a criminal (porque no crime há uma ordem muito estrita) no passo em que eleva o sarcasmo, o farisaísmo e um sentido utilitário dos escrúpulos a patamares inéditos, sobretudo porque nunca resvala para fora das baias do quotidiano e não incorre na fastidiosa panóplia de tons épico, melodramático ou lírico, que habitualmente se usa para enlear o sentimento do espectador.

Tendo Walter White recebido ceptro & coroa de Tony Soprano, quem lhe terá sucedido no trono após a sua esplêndida morte? Ouso denominar Will McAvoy, o anchorman, ou pivô, em português de gema, de “The newsroom” – há condições para afirmar que Jeff Daniels era um actor persistentemente desinteressante até dar a pele por esta personagem.

“The newsroom” é apresentado como “uma criação” de Aaron Sorkin. Estamos assim em face de um ordenamento industrial em que argumentistas (uma bateria deles), realizadores (todos com crédito seguro, nenhum com cartel de auteur), produtores executivos e demais artistas ou colaboradores, subsumem a sua participação criativa à batuta abrangente de Sorkin. Sendo a ficção de cinema americana essencialmente politizada – fenómeno que tanto irrita as facções mais reacionárias dos Republicanos quanto é desapercebida pelos olhares europeus – Sorkin é aquele que melhor converteu a política pura e dura em ficção, com paralelo histórico talvez em I.A.L. Diamond e poucos mais. Do seu palmarés como argumentista avultam “A few good man” (“Uma questão de honra”) obsequiando Jack Nicholson com o melhor momento da sua carreira ao recitar um dos discursos mais ambíguos, desassombrados e desconfortáveis da história do cinema (perfeito anti-Capra); “Charlie Wilson’s war” (“Jogos de poder”), “Moneyball” (“Jogada de risco”), que devia ser de visão obrigatória para qualquer decision maker (pardon my french…) e a série de TV que lhe trouxe popularidade “West wing”. O que singularizar e sublima “The newsroom” será o abandono de qualquer pretensão naturalista, ideia prodigiosa sendo o jornalismo a matéria da série. Sorkin dispensa ostensivamente a credibilidade para ambicionar alguma verdade, pois essa coisa da “credibilidade”, tão diligenciada nas indústrias emparelhadas da informação e da ficção, é erário de burlões, sem o qual seriam incapazes de cultivar a sua arte. Cada episódio constitui-se, assim, num pequeno debate sobre ética, desde os processos de trabalho às relações afectivas. E este plano invejável e impossível de comportamentos revela-se por diálogos e frases de supina perspicácia e gramática; ninguém fala assim, com réplicas súbitas e argutas, com tamanha agilidade verbal e tanta intuição imediata das questões; ninguém discute desta maneira, tão mental e emotiva, sem, no entanto, descair na mesquinhez, na sua típica forma de insulto pessoal; ninguém em “The newsroom” pergunta que horas são ou se o café está quente, todas as palavras são usadas para exprimir estados de alma estratosféricos. “The newsroom” não imita a realidade, mostra-nos o que na realidade deveria passar no íntimo das cabeças jornalísticas em plena posse das suas faculdades. Que o faça de maneira amável com o espectador, sem lhe dar lições de moral nem fazer com ele chantagens emocionais, e de forma delicada com as personagens, permitindo-lhes a dúvida e a incerteza, que é a maneira de não as ajuizar, faz de “The newsroom” um prodígio de escrita e de narrativa, só ao alcance de talentos e recursos incomparáveis.

As canções do século (1825)

por Pedro Correia, em 30.12.14

Ligação directa

por Pedro Correia, em 30.12.14

À Insustentável Leveza do Ser.

Passos, o meteorologista

por Rui Rocha, em 29.12.14

O senhor primeiro-ministro não perdeu tempo a anunciar o fim das nuvens negras. O que o senhor-primeiro ministro não disse aos portugueses foi que vinha aí um frio do caraças! Cambada.

José Sócrates aproveitou a carta enviada a Mário Soares para elogiar o velho líder socialista e para proclamar, uma vez mais, a sua indignação pelas circunstâncias em que foi decretada a sua prisão preventiva. Todavia, como muitas vezes acontece nestas coisas, fugiu-lhe a caneta para a verdade. Por muito que agora o pretenda negar, os factos aí estão, irrefutáveis. José Sócrates atraiçoou, de forma reiterada e absolutamente voluntária, o Acordo Ortográfico:

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150 anos de 'Diário de Notícias'

por Pedro Correia, em 29.12.14

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O Diário de Notícias celebra hoje 150 anos de existência - número raro ao nível do jornalismo português e do próprio jornalismo europeu - com uma edição de luxo. Para coleccionar. Com textos de António Lobo Antunes, J. Rentes de Carvalho, Nuno Júdice, Gonçalo M. Tavares, Lídia Jorge, Miguel Sousa Tavares, Luísa Costa Gomes, Manuel Alegre, Manuel Villaverde Cabral e Mário de Carvalho, entre vários outros nomes destacados das letras portuguesas.

Tive a honra e o privilégio de trabalhar no DN durante 15 anos - ou seja, dez por cento da vida do matutino da Avenida da Liberdade - como repórter parlamentar, grande repórter, editor, editorialista e membro do Conselho de Redacção. Conheci lá excelentes profissionais e deixei lá muitos amigos, vários dos quais infelizmente já fora dos quadros do jornal, sobretudo na voragem dos dois despedimentos colectivos ali ocorridos - o primeiro em Janeiro de 2009, o segundo em Junho deste ano. Não tenho a menor dúvida: com os profissionais afastados, nas duas ocasiões, formar-se-ia o maior e mais competente elenco jornalístico do conjunto da imprensa portuguesa.

Há experiências que nos marcam para sempre. Integrar a Redacção do DN - cheia de inconfundíveis personagens e repleta de histórias de bastidores que um dia destes tenciono evocar em livro - foi, para mim, uma das mais inesquecíveis. Hoje é dia de dar os parabéns ao director, André Macedo, e a todos quantos participam com ele na complexa e por vezes tão incompreendida missão de produzir informação em papel - atenta, atractiva e actualizada.

Tenho a certeza de que Eduardo Coelho, que fundou o Diário de Notícias em 1864, se orgulharia deste jornal que hoje saiu para as bancas. O aniversário é do histórico matutino, mas quem recebe a prenda é o leitor.

O meu desafio para 2015

por Rui Rocha, em 29.12.14

Concluir uma volta completa ao Sol até 31 de Dezembro. É ambicioso, eu sei. Não faço por menos.

Caramba

por José António Abreu, em 29.12.14

Quase publiquei isto por engano.

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Família alargada

por Pedro Correia, em 29.12.14

I

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 II

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 III

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 29.12.14

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Crítica da Razão Negra, de Achille Mbembe

Tradução de Marta Lança

Ensaio

(edição Antígona, 2014)

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O que valeu a pena ver em 2014 - 1/3

por José Navarro de Andrade, em 29.12.14

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Scorsese na cama com os actores

 

Como estreou em 4 de Janeiro deste ano, começo logo por deturpar as regras protocolares do “filme do ano” elegendo “O lobo de Wall Street”, um original de 2013, entre os meus predilectos. Um Scorsese premium sem dúvida.

Tal como os grandes jogadores que sabem envelhecer em campo, Scorsese já não corre como outrora mas continua a imprimir velocidade no jogo. Os movimentos de câmara são agora menos ofegantes, a montagem é menos brusca, apostando não tanto no contraste (aquele espécie de “montagem de atrações” em que cada plano seria a antítese do anterior) como num constante incremento: o que vem a seguir precipita a potência do que ficou para trás; e toda a continuidade do filme já não tem a forma da típica montanha russa de Scorsese, mas faz-se numa espécie de “queda para cima”, em que o clímax coincide com o momento em que tudo e todos se estatelam. A duração das cenas permite entender “O lobo de Wall Street” como um filme de actores – em memória do confuso cinema dos sixties – com as alterosas dificuldades inerentes ao conflito entre uma ampla latitude de planos para especificarem as personagens mas sem qualquer margem para apontamentos digressivos e especulações histriónicas.

Que semelhantes e fatigantes propriedades estejam a cargo de um director de 72 anos e de uma montadora, a infalível Thelmas Schoomaker, de 73 anos, é obra de se lhes tirar o chapéu.

Só na vida real ou num filme de Scorsese poderia ser verosímil a história de um grupo de compinchas de infância, nados e criados num arrabalde proletarizado (Long Island, que no seu melhor será a Costa da Caparica de Nova Iorque…), de gosto e educação duvidosos, impostores e oportunistas, que exploram a cupidez da bolsa de capitais e de caminho comprovam que, nos métodos, haverá pouca diferença entre as gravatas de seda italiana dos correctores de Wall Street e os fatos de treino com grossa corrente de ouro que eles ostentam.

Desde que o calvinista Godard decretou que "os travellings são uma questão moral" ficou óbvio que a amoralidade (bem diferente da imoralidade) é uma perspectiva virtualmente inatingível em cinema. Está nisto o supino talento de Scorsese: gerar uma permanente sensação de alarme em cada enquadramento e em todas sequências, que nos arrasta para um estado de empatia com os escroques e nos suspende o juízo a pontos de darmos connosco do lado errado da ordem pública (sequer poderemos argumentar que seríamos inocent bystanders), emocionalmente envolvidos naquelas trapalhadas. Claro que isto é devastador, para nós, que estávamos tão agarradinhos aos nossos princípios, e para os sujeitos que Scorsese manipula, demonstrados desde o início como objetos à deriva na corrente do capitalismo financeiro, peças soltas da engrenagem, que a entopem e avariam mas não desmantelam – somos todos atirados para fora de pé sem bóia nem natação.

Gosto muito de filmes que se inclinam demasiado, em vias de desabarem a qualquer momento, sempre a pisarem o risco do grotesco e do burlesco – há lá coisa mais complicada em cinema? E esta arte de Scorsese, perfeitamente comandada em “O lobo de Wall Street”, só a vejo aproximada hoje em dia por David O. Russell, realizador dos magníficos e pouco estimados “Guia para um final feliz” (arriscada paráfrase do intraduzível “Silver lining playbook”) e “Golpada Americana”.

Por mim, estou em crer que apenas um jesuíta, e dos muito estufados, seria capaz de atravessar “O lobo de Wall Street” de sobrancelha franzida.

As canções do século (1824)

por Pedro Correia, em 29.12.14

As canções do século (1824-bis)

por Pedro Correia, em 29.12.14

Blogue da semana

por Pedro Correia, em 28.12.14

Um blogue recém-nascido, mas que já nos deixa de água na boca. É Dona Pavlova, o nosso blogue da semana.

O comentário da semana

por Pedro Correia, em 28.12.14

«Há um certo fatalismo na forma como encaramos a vida e suas transformações.

"Na natureza nada se cria e nada se perde, tudo se transforma". A lei de Lavoisier aplica-se também aos regimes.

Parece-me que não nos apercebemos da grandeza das transformações que estão para ocorrer, e que se iniciaram precisamente com o fim de um ciclo em que as massas eram controladas e/ou direccionadas para estruturar seus comportamentos por uma espécie de mimetismo.
Entretanto, com o fim do referido ciclo, entramos numa era em que a informação começou a ser em quantidade tal que as massas, elites e não elites, reagem quase que de forma paloviana.
Significa isto que este excesso de informação desestabiliza a mente, porque carece de julgamento e discernimento.

Para se poder viver e sobreviver é necessário ter uma razão para viver. É no meio de todas estas transformações, e por ausência da reflexão, que nos daremos conta que há um fundamento perdido, melhor, esquecido. Este fundamento é exactamente o mesmo que os alicerces de uma habitação, não se vêem mas seguram-na e tornam-na sólida. É simples reconhecer este alicerce: leva por nome ética.

Não necessitamos compreender e conhecer Aristóteles para aplicar a ética, para distinguir o que devemos ou não fazer para superar as desigualdades e contrariar as tendências que criam uma massa de esquecidos, para contrariar a institucionalização da pobreza e a exploração que desta se faz.
Esta ética, ainda que esquecida, já habita o Homem. É também conhecida por "regra de ouro"; e está traduzida nas mais diversas constituições que deviam reger e equilibrar as relações de um povo e entre os povos. Foi inicialmente escrita numa pedra ou tábua: "Ama o próximo como a ti mesmo", isto é, "não faças aos outros o que não queres que te façam".»

 

Do nosso leitor Vento. A propósito deste meu post.

Fotografias tiradas por aí (206)

por José António Abreu, em 28.12.14

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Vila Nova de Gaia / Porto, 2013.

Costa, vai depressa a Évora pá!

por Rui Rocha, em 28.12.14

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Mestre Alves, o 'bruxo' de Guimarães, esteve este domingo à porta do Estabelecimento Prisional de Évora. Falou com os jornalistas e, de seguida, matou uma galinha preta junto à cadeia.

 

Deixou também um papel, no qual estava escrito: "As pessoas que traíram José Sócrates sofrerão as consequências".

Uma vivência pessoal do tsunami de 2004

por João André, em 28.12.14

Faz agora dez anos estava eu a completar um ano de doutoramento e vida na Holanda. Chegada a época de Natal segui para Portugal, como de costume. Foi entre a família que ouvi falar do tsunami na Indonésia. Na altura não lhe prestei muita atenção. Um tsunami era algo que me tinha impressionado na altura da descrição do terramoto de Lisboa de 1755, mas tinha sido no passado, com construções mais fracas e limitado na destruição a uma cidade. Na forma como o imaginava com as primeiras informações disponíveis, este tsunami provavelmente seria uma tragédia para as pessoas na cidade afectada mas não mais.

 

Passadas umas horas começaram a chegar as informações que seria bastante mais grave. Muitos milhares estariam em risco. O tsunami teria atingido uma enorme frente costeira e atingido mais do que "simplesmente" a Indonésia. Com o tempo ficou claro que centenas de milhares de pessoas teriam morrido. Era uma tragédia enorme, uma das maiores alguma vez registadas. Era, no entanto, mais uma tragédia no outro lado do mundo, que me provocava pena e pouco mais. Não existia a sensação de proximidade.

 

Foi no dia 29, salvo erro, que tudo mudou. Nesse dia recebi - eu e os restantes membros do grupo de investigação - um e-mail que indicava que o Saiful, um nosso colega indonésio, tinha partido para a Indonésia em busca da família, a qual incluía a mulher e a filha de um ano de idade. Sem disso termos noção, o Saiful vinha precisamente da província de Aceh, a mais afectada pelo tsunami. Naquele momento a tragédia deixou de ser algo que tinha afectado um enorme grupo de pessoas a meio mundo de distância para afectar alguém que conhecíamos e com quem convivíamos todos os dias.

 

Depois da sua partida, não recebemos quaisquer notícias do Saiful por vários dias. Não sabíamos se teria conseguido chegar à zona afectada ou se teria encontrado os membros da família. A espera era angustiante, especialmente à medida que os vídeos iam chegando às nossas televisões.

 

Passados uns dias recebi um SMS do Saiful. Tinha pedido a um australiano para o enviar. Dizia que estava bem e que tinha encontrado a mulher e a filha e que o resto da família dele estava bem. Daria mais informações quando pudesse. Mais umas semanas e o Saiful estava finalmente de volta. Trazia a mulher e a filha e uma história de enorme sorte. A mulher e a filha tinham sido apanhadas pelas vagas, mas foram salvas por um vizinho que as puxara para a sua casa e as acolheu (bem como a muitas outras pessoas) no telhado da sua casa. O resto da família do Saiful tinha sobrevivido graças a um funeral: tinham-se deslocado ao interior do país, mais elevado, para as cerimónias fúnebres. Apenas um primo, que tinha ficado a trabalhar, tinha morrido. Perante as tragédias em volta o Saiful tinha tido bafejado pela fortuna.

 

Era no entanto uma sorte relativa. A filha ficou naturalmente traumatizada pela experiência e ficava em pânico perante ruídos súbitos ou movimentos rápidos. Quando o Saiful teve o segundo filho explicou-me que a filha acordava a gritar quando o irmão chorava à noite. Demorou vários anos a habituar-se a essas experiências e, quando o Saiful terminou o doutoramento e regressou à Indonésia para ser professor na universidade local, a filha insistia que não queria regressar. Não compreendia o porquê, mas associava instintivamente o local a algo de mau.

 

Falei recentemente com o Saiful. Tem uma vida calma e simples na Indonésia. Construiu a sua vida e ajudou a família a reconstruir as suas. A filha é agora uma criança - quase adolescente - feliz, mas que fica ainda algo carregada quando o tema passa pelo mar e ondas. Pelo que descreve, a zona onde vive é um repositório de esperança e tristeza. Um local onde o passado e o futuro convivem diariamente e o presente é apenas um ponto de passagem.

 

Não posso de forma nenhuma imaginar aquilo que as pessoas que estavam nas zonas afectadas ou lá tinham família terão sentido. Esta foi no entanto uma tragédia que, por uma vez, me afectou um pouco de forma pessoal. Isso torna-a também como menos irreal aos meus olhos.



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