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Delito de Opinião

Blogue da semana

Sérgio de Almeida Correia, 07.12.14

Passei por lá por mero acaso e gostei. Cada vez mais leio menos os outros, o que acontece por manifesta falta de tempo. Por isso, tornei-me mais selectivo nas leituras da blogosfera. Não conheço a Maria do Rosário de lado nenhum, não sei se é uma pessoa extraordinária, mas bastou-me a correcção, a simplicidade e a sinceridade da sua escrita para passar óptimos momentos no espaço que criou num Dia de São Ivo. Já lá vão quatro anos. Se o lerem de fio a pavio passarão umas Horas Extraordinárias com os seus gostosos comentários, sempre com a leitura e a escrita como pano de fundo.

Sócrates está em pânico, o Correio da Manhã está um penico

Rui Rocha, 06.12.14

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O sempre previsível Correio da Manhã abriu uma nova e profícua linha de investigação do chamado caso Sócrates. Pelo visto, aproveitando a recente queda do recluso mais famoso de Évora para o estilo epistolar,  decidiu pedir a um especialista em grafologia para analisar a última carta manuscrita por Sócrates. Com toda a credibilidade científica grangeada pela grafologia ao longo de anos como pano de fundo, o especialista não teve qualquer dúvida em concluir que: 1) Sócrates "está em pânico"; 2) Sócrates não é uma pessoa transparente; 3) por ter escrito a tinta vermelha, Sócrates está efervescente. Perante uma análise deste calibre, eu próprio me senti estimulado a utilizar os meus profundos conhecimentos científicos para formular duas conclusões que aqui partilho de forma absolutamente desinteressada. Por um lado, na qualidade de leitor experimentado de jornais, folhas-de-couve e pasquins, posso garantir que pela análise do estilo e conteúdo das suas notícias, o Correio da Manhã integra esta última categoria, situando-se, nesta ordem dos pasquins, entre os que são da pior espécie. Atrevo-me mesmo a afirmar que, se é possível dizer que Sócrates está em pânico pela inclinação da sua letra, por maioria de razão podemos afirmar que o Correio da Manhã está um penico pela qualidade dos seus artigos. Por outro lado, a minha vasta experiência na análise de ventas e focinheiras humanas diz-me que o especialista, cuja imagem reproduzo ali mais acima, apresenta uma elevada probabilidade de ser parvo. Cheguei a essa conclusão, entre outros indícios recolhidos com extrema perícia que questões de sigilo profissional me impedem de partilhar, pela análise da forma como arqueia as sobrancelhas.

Não há lei da rolha que resista

Pedro Correia, 06.12.14

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Bem pode António Costa tentar impor a lei da rolha no PS quanto ao caso Sócrates. Do estabelecimento prisional onde se encontra, o ex-primeiro-ministro tudo faz para contrariar este desígnio. Assumindo o máximo protagonismo de que há memória entre nós num cidadão em regime de prisão preventiva, insiste em captar para si próprio a luz dos holofotes. Não para se defender das acusações que lhe são imputadas - e em parte tornadas públicas no acórdão do Supremo Tribunal de Justiça que sustenta a legalidade da sua detenção - mas para acusar indiscriminadamente tudo e todos. Ministério Público, jornalistas, polícia, professores e o juiz Carlos Alexandre. Para apontar o dedo acusador ao Estado de Direito.

 

Imaginando-se na condição de preso político em ditadura - ele que tem todas as garantias processuais conferidas pela legislação produzida durante o seu mandato como chefe do Governo, ao contrário do que sucede com os opositores políticos na Venezuela, onde vigora um regime que ele tanto admira. Opositores como Leopoldo López, sujeito desde Fevereiro a um duríssimo regime de prisão preventiva, impedido de receber visitas dos próprios familiares e sem data marcada para julgamento num país onde a magistratura funciona hoje como mero braço punitivo do poder político.

Como escreve o Luís Rosa, em editorial no jornal i, «José Sócrates quase que se deve ver como um Nelson Mandela - ou tantos outros homens políticos que afrontaram verdadeiras ditaduras totalitárias em nome da liberdade, da igualdade de direitos e de uma sociedade próspera e justa. Não cabe na cabeça de um mitómano como Sócrates que esse tipo de comparação seja insultuosa para a memória dos verdadeiros combatentes contra todas as ditaduras que existiram e continuam a existir por esse mundo fora».

 

Segundo o princípio dos vasos comunicantes, quanto mais Sócrates se esforça por preencher as atenções mediáticas mais se esvazia o capital político de António Costa potenciado pela sua recente eleição como secretário-geral do PS. Imaginar, neste contexto, que as duas realidades funcionarão daqui por diante em compartimentos estanques é pura estultícia.

Razão tem pois Sérgio Sousa Pinto, um dos novos membros do Secretariado socialista, em declarar hoje sem rodeios em entrevista ao i: «Caso Sócrates prejudica objectivamente o PS.»

Como um eucalipto voraz que seca tudo à sua volta.

Reflexão do dia

Pedro Correia, 05.12.14

«Quando o assunto é José Sócrates, quase ninguém prescinde de registar uma declaração de interesses afectivos. O facto de esta declaração de interesses não ter interesse nenhum é muito interessante. Sócrates foi detido e acusado de crimes graves, e vai ser julgado por isso. (...) Mas o mais interessante é a excepcionalidade desta manifestação maciça de amor e desamor. Não ocorre a ninguém dizer o mesmo de outros réus ("não se pense que eu simpatizo especialmente com Manuel Palito"), nem mesmo de outros antigos políticos que são agora réus ("posso odiar Duarte Lima, mas tenho de me bater para que ele beneficie do direito de se defender"). Na verdade, ninguém odeia Duarte Lima. Nem mesmo os que já o ouviram tocar órgão. E também ninguém ama Duarte Lima. Sobretudo os que o ouviram tocar órgão. Mas José Sócrates, ao que parece, conseguiu penetrar no universo dos afectos. Não no meu, devo dizer. Guardo a minha afeição para um conjunto de coisas realmente importantes, ao qual não pertencem actuais ou antigos primeiros-ministros. Eu gosto, por exemplo, de arroz doce. Mas não se pense que simpatizo especialmente com gelatina. No entanto, se uma taça de gelatina ou um prato de arroz doce forem acusados de corrupção, branqueamento de capitais e burla agravada, espero que tenham um julgamento justo. Não virei para a rua gritar que o arroz doce é inocente e que a gelatina nunca me enganou.»

Ricardo Araújo Pereira, na Visão

Duas hipóteses

José António Abreu, 05.12.14

Depois do corte de quatro feriados anuais a todos os trabalhadores, só existem duas hipóteses lógicas (e, diga-se, não mutuamente exclusivas) para explicar a concessão aos funcionários públicos de dois dias de tolerância de ponto no curto período de tempo que já inclui o dia de Natal e o primeiro de Janeiro: eleitoralismo (caso em que ou o governo é extraordinariamente ingénuo ou os funcionários públicos de uma volubilidade assustadora); a assumpção de que dois dias de trabalho são muito mais importantes no sector privado do que no público.

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (59)

Luís Naves, 05.12.14

As histórias que lemos sobre este nosso mundo complexo raramente têm sentido ou conteúdo moral que possa ser extraído com facilidade e esta notícia, sem dúvida, obedece à regra. Um tribunal americano recusou a Tommy, o chimpanzé, a concessão de direitos humanos que o poderiam libertar da prisão. Embora esteja privado de liberdade, confinado a uma cela desconfortável e de pequenas dimensões, o juiz considerou que Tommy não pode ser responsabilizado pelos eventuais actos que venha a cometer, como partir coisa, sujar, fazer macaquices. Daí a rejeição do pedido feito por uma organização de defesa dos direitos dos animais.

Tommy não tem qualquer noção do seu caso, embora certamente tenha a percepção física de se encontrar confinado a uma cela, que é todo o seu mundo e onde decorre o essencial da sua experiência de vida. Ele gostaria certamente de ser livre, se pudesse escolher ou se soubesse escolher ou se tivesse qualquer recordação do seu habitat natural, que provavelmente já não existe. Alimentado todos os dias, sem consciência da escravatura, este simpático chimpanzé é talvez mais livre (num certo sentido de não sofrimento) do que muitos humanos e tem mais direitos humanos do que muitos humanos, mas assim vai o mundo em que vivemos, onde os direitos de Tommy se tornam notícia de interesse geral, pois a humanidade aprecia estas ambiguidades contemporâneas, discute com paixão o que lhe parece ser humano naqueles 99% de material genético (milhões de diferenças) idêntico ao nosso, naquele olhar perdido que parece conter alguma inteligência, nem que seja uma fímbria dela, onde nos revemos por um instante; e se fosse eu, ali, dentro daquela mente, de que forma veria as barras da minha cela e os limites da minha existência cativa? Enfim, parece que não estava apenas o chimpanzé ali a julgamento, mas uma parte de nós. Sem esta presunção de inocência, que teria para nos dizer este pedacinho de humanidade? E quanto é suficiente para ser um homem inteiro?

É a vida

Pedro Correia, 05.12.14

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 Stefan Lofven, o primeiro-ministro sueco

 

No discurso de encerramento do congresso do PS, domingo passado, António Costa iniciou a sua intervenção com uma referência especial a um parceiro ideológico: o primeiro-ministro da Suécia. "Quero agradecer as mensagens tão calorosas dos nossos camaradas socialistas europeus, a começar na mensagem do novo primeiro-ministro da Suécia, o mais recente socialista a dirigir um governo da União Europeia", declarou o secretário-geral do PS.

Três dias depois, a frágil coligação liderada pelo Partido Social-Democrata caía devido ao chumbo do orçamento para 2015, instalando-se o "caos político", segundo a definição do Guardian, ou a "pior crise política em décadas" em Estocolmo, de acordo com a versão do Financial Times. Foi o segundo governo mais curto na história da Suécia.

O cenário? Novas eleições já em Março. Este escrutínio poderá resultar na progressão eleitoral do partido populista Democratas Suecos, defensor de uma alteração radical da política de imigração no país, que tem uma das maiores percentagens de estrangeiros per capita na Europa entre os seus habitantes. Novas dores de cabeça para Stefan Lofven, o émulo sueco de António Costa.

É a vida, como costumava dizer um socialista muito habituado à ingrata, exigente e espinhosa arte de governar.

Não era preciso ser bruxo

Sérgio de Almeida Correia, 05.12.14

phpThumb.php.jpgConsiderando as intenções de voto da era de Seguro e o centrão convergente de Francisco Assis, calculo que a única coisa que aqueles tenham a dizer sobre estes resultados é que são apenas sondagens

Eu acrescentaria, também, que falta um ano para as eleições e que esta sondagem ainda não reflecte os acontecimentos da semana passada, nomeadamente a prisão preventiva de José Sócrates, o Congresso do PS e a peregrina decisão da Convenção do BE sobre a respectiva liderança.

Vai ser importante saber quais os efeitos destes factos no estado de espírito dos eleitores, e se estes lhe atribuem alguma importância, designadamente confundindo o arguido José Sócrates com o PS e o seu actual líder.

Os resultados desta sondagem são apenas sinais que poderão determinar as estratégias que serão seguidas pelos partidos nos próximos meses. Em relação ao PS e a António Costa eu diria que se abre uma janela de esperança em relação à maioria absoluta, que não permitindo lançar foguetes parece ser consentânea com a vontade dos inquiridos. Quanto ao PSD, 28% é apesar de tudo um bom resultado, pois parece demonstrar a contenção da sangria. O PCP segura o seu eleitorado tradicional e o BE e o CDS/PP prosseguem no processo de esvaziamento, o que revela o desacerto das decisões que as respectivas lideranças têm tomado. Vai ser interessante saber se as próximas sondagens já incluirão o Livre e Marinho e Pinto para se perceber até que ponto estes dois poderão influenciar as escolhas. Finalmente, registe-se também o elevado nível de popularidade do líder do PS, o mais alto entre todos os que surgem na sondagem. 

Coincidência

Pedro Correia, 05.12.14

Sabe-se agora, pelo relato cronológico dos factos contido no acórdão do Supremo Tribunal de Justiça que indefere o pedido de habeas corpus, que o despacho do juiz Carlos Alexandre a determinar a detenção de José Sócrates teve data de 18 de Novembro. A mesmíssima terça-feira em que o ex-primeiro-ministro se reuniu num almoço "completamente inocente" com o antigo procurador-geral da República, Fernando Pinto Monteiro. "Uma coincidência desagradável", como já reconheceu Pinto Monteiro, garantindo ter sido esta a primeira vez que "almoçou a sós" com Sócrates, que logo após o repasto se ausentou de Lisboa rumo a Paris.

Há sempre uma primeira vez. Mas tantos dias tem o ano - e há tantos anos que ambos se conhecem - e logo haviam de marcar este almoço inaugural para aquela terça-feira tão atribulada...

Acredite nesta coincidência quem quiser. Eu já deixei há muito tempo de prestar tributo ao Pai Natal. 

Comício ou gritício?

Rui Rocha, 04.12.14

A propósito de Congressos, sejam eles de que partidos forem. Ou de comícios. Qual a razão de os políticos, com apenas algumas excepções, estarem aparentemente tão zangados quando falam? E de discursarem aos gritos? Estão zangados contigo? Comigo? Com os apoiantes? Com os abstencionistas? Com os adversários? É que eu, pela minha parte, não lhes lhes devo nada. Faltava mais ter ainda de os aturar aos gritos.