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Ler

por Pedro Correia, em 30.09.14

Chicotada psicológica. De Vital Moreira, na Causa Nossa.

Uma grande vitória. De Francisco Seixas da Costa, no Duas ou Três Coisas.

Os despojos do dia. De Paulo Pinto, na Jugular.

A condessa Violet e o PS "de direita". Do Rui Bebiano, n' A Terceira Noite.

Primárias e humilhação. Do Mr. Brown, n' Os Comediantes.

Back to basics. Do João Gonçalves, no Portugal dos Pequeninos.

Democracia. Do Alexandre Borges, no 31 da Armada.

Remar, sempre. Do Filipe Nunes Vicente, no Nada os Dispõe à Acção.

 

Excerto 15

por Patrícia Reis, em 30.09.14

De madrugada ainda levantar-se, descer para a cozinha e enregar o trabalho reacendendo lume no fogão, lavar a louça que ficou da véspera, com sobejos de comida, em monte sobre a pia (durante o inverno a água gela, corta os osso da gente, faz doer às vezes até pelo braço acima – deve ser reumático – mesmo ao cotovelo) e só depois sair para o quintal em que os pardais já cantam sobre o carrapateiro, filhar da vassoura e, com ela, varrer a capoeira e aos bichos dar farelos e mais reção avondo (de manhã as capoeiras têm sempre um certo cheiro azedo como alguns quartos de homem) e também ao pintassilgo mudar a água para beber, pôr a tina do banho, dar-lhe ou alpista ou uma folha de alface ou atão ambas, retirar o papel que, ao fundo da gaiola, se enche de cagadelas dia a dia e de casca de alpista, voltar depois ao quarto, lá em cima, a fim de pentear-se, pintar-se se ele a espera, pôr arrelicas e se aparelhar do casaco comprido, cinzento e desbotado, meter a carteira na algibeira, descer de novo a escada em caracol para a cozinha

 

Almeida Faria, Paixão

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Navegações

por Luís Naves, em 30.09.14

Bons exemplos de textos da concorrência sobre os desenvolvimentos políticos:

Em Nada os Dispõe à Acção, Pedro Picoito opina sobre a dinâmica de vitória do PS, as expectativas elevadas em relação a António Costa e a resposta da coligação, com a possível tentação da demagogia. Os anos eleitorais são tramados. Só que, ao contrário de 2009, desta vez temos a troika à perna. O texto é excelente e, por erro, foi atribuído em versão anterior deste post a Filipe Nunes Vicente, autor que considero um dos mais argutos da blogosfera. Peço imensa desculpa pelo lamentável equívoco.

Acho notável este texto de rui a., em Blasfémias. O autor fala de um padrão constante na política portuguesa, a existência do número dois nas lideranças e questiona-se sobre quem será o possível braço direito de António Costa.

Francisco Seixas da Costa sublinha a forte legitimidade do novo líder do PS, que é superior à que teria numa vitória em congresso. Isto representa um capital político inestimável.

Também há textos como este, de Isabel Moreira, publicado em Aspirina B antes da votação nas primárias. A prosa sugere que o PS sai da crise (ou transição) com feridas profundas. As clivagens são entre os que querem uma coligação mais à esquerda, que nos levaria a uma possível ruptura europeia, e os moderados que julgam inevitável um bloco central que prossiga as reformas estruturais.

Finalmente, este é um dos melhores textos que li sobre o tema. O autor é Rui Bebiano. Simplesmente brilhante.

Um naco precioso de análise política

por Rui Rocha, em 30.09.14

Sempre considerei que o mês de setembro ia dar uma grande volta à situação económica e política portuguesa. Agosto foram as praias, por sinal com águas muito frias.

Mário Soares, no Diário de Notícias

Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 30.09.14

  

Na Montanha com Hitler, de Irmgard A. Hunt

Tradução de Maria Carvalho

Memórias

(edição Bizâncio, 2014)

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Encosta-te a mim

por Patrícia Reis, em 30.09.14

Delitos poéticos

por Patrícia Reis, em 30.09.14


Vem à Quinta-feira.



É quase fim-de-semana e podemos, talvez, beber uma cerveja

ao cair da tarde, enquanto planeamos a viagem a Paris. E se Paris

for muito caro - sei que isto não está fácil - podemos ir a Guimarães

assistir a um concerto, que ouvir é a maneira mais pura de calar.


Vem à Quinta-feira.


A seguir, temos ainda a Sexta e talvez me esperes à porta do emprego,

e talvez fiques para Sábado e Domingo, e talvez o mundo pare

de acabar tão depressa.


Vem à Quinta-feira.

Mas não venhas nesta, vem na próxima.

Nesta, tenho um compromisso que não posso adiar, é um compromisso

profissional - sabes que isto não está fácil - e talvez nos dê hipótese de irmos

a Paris ou a Guimarães. Vem na próxima, que eu preciso de tempo

para arranjar o cabelo, para arranjar o coração,

para elaborar a lista do que me falta fazer contigo.


Vem à Quinta-feira e não te demores.

Enquanto te escrevo, já fui elaborando a lista

(sabes como gosto de pensar em tudo

ao mesmo tempo)

e afinal o que me falta fazer contigo 

não é caro:

- viajar de auto-caravana,

- dançar pela Estrada Nacional,

- ver-te chorar.

Choras tão pouco. Ainda bem que estás contente.


Vem à Quinta-feira.


Se não pudermos ir a Paris ou a Guimarães, não te preocupes.

Vem na mesma, que eu vou apanhando as canas-da-índia, as fiteiras,

eu vou recolhendo a palha e reunindo cordas e lona.

Já estive a aprender no Youtube como se faz uma cabana.

Vem na mesma, que eu vou procurando um lugar seguro.

Vem na mesma porque a cabana, como a casa, só funciona com amor

- ou, pelo menos, é o que diz o Youtube.


Temos ainda tanto para fazer.

Por isso, se algum dia voltares, meu amor, volta numa Quinta.


Filipa Leal, in "21 Cartas de Amor"

As canções do século (1734)

por Pedro Correia, em 30.09.14

Ligação directa

por Pedro Correia, em 30.09.14

Ao Isto e Aquilo.

Penso rápido (53)

por Pedro Correia, em 29.09.14

António Costa falhou o primeiro passo na construção da unidade do partido quando ontem à noite, no discurso da vitória eleitoral, ignorou o nome de António José Seguro. Esta omissão não honrou as melhores tradições do sistema democrático, onde tão importante como saber perder é saber ganhar.
O futuro secretário-geral precisará dos seguristas para construir a nova maioria que ambiciona. Inútil fazer charme para fora das fronteiras do PS enquanto não assegurar a unidade interna.
Concorde-se ou discorde-se da sua actuação e do seu estilo, Seguro liderou o partido durante mais de três anos muito difíceis, em que mais ninguém se dispôs a fazê-lo. Três anos muito difíceis devido ao estado de emergência financeira em que Portugal se encontrava. Três anos muito difíceis para o PS enquanto partido da oposição num quadro político dominado pelo memorando negociado e assinado pelos próprios socialistas quando ainda eram governo, antes do mandato de Seguro. Três anos em que, apesar disso, o PS registou três vitórias eleitorais -- nas regionais açorianas, nas autárquicas e nas europeias.
Há uma tendência crescente para a perda de memória na política portuguesa. Até por isso convém ir lembrando alguns factos essenciais. Como estes.

A guerra contra o Estado islâmico.

por Luís Menezes Leitão, em 29.09.14

 

Uma das análises mais correctas sobre o que se estava a passar no mundo resulta de um livro de Samuel P. Huntington, de 1996, intitulado The Clash of Civilizations and the Remaking of World Order. Nesse livro demonstra claramente como se estava a formar uma nova ordem mundial para o séc. XXI e que nessa nova ordem um dos factores mais decisivos era o Ressurgimento Islâmico. A seu ver a civilização islâmica estava a tornar-se cada vez mais influente a nível mundial, não apenas pela sua maior capacidade de conversão de novos crentes, mas ainda pelo maior crescimento demográfico das suas populações.

 

Para Huntington a influência mundial da civilização islâmica só não era maior porque o islamismo radical não tinha um Estado religioso forte que pudesse servir de sustentáculo às suas pretensões. A esmagadora maioria dos Estados árabes não apoiava uma versão radical do islamismo, preferindo estar de bem com o Ocidente, e a única excepção, o Irão, baseava-se na corrente xiita do Islão, minoritária em face dos sunitas, o que levava a que não fosse seguido pelos militantes islâmicos radicais.

 

Por isso o Ocidente ficou descansado com o aumento da influência islâmica no mundo, uma vez que as guerras eram travadas entre os próprios Estadoa arábes, ainda que o ataque ao Kuwait tenha pela primeira vez obrigado a uma intervenção, dado que pôs em causa os interesses ocidentais. Mas Bush pai teve a inteligência de deixar Saddam Hussein no poder, uma vez que bem sabia que o seu derrube só serviria para aumentar a influência do Irão e dos movimentos islâmicos radicais na região.

 

Bush filho, com uma inteligência rudimentar, e movido por uma questão pessoal, quis derrubar Saddam Hussein, seguindo a estratégia de iluminados como Wolfowitz que achava que o Iraque tinha que ser conquistado, uma vez que "nadava num mar de petróleo". Consta que terá respondido o seguinte a quem o interrogava como é que depois os americanos sairiam do Iraque: "É simples. Não saímos". Nessa estratégia teve o apoio ainda mais desastrado de Blair, Asnar e do nosso Durão Barroso, que juntos criaram um enorme sarilho.

 

Obama, que é inteligente e tinha a vantagem de se ter oposto desde o início a este disparate, não conseguiu, porém, ver que Wolfowitz tinha razão num ponto: é que depois de se ter entrado no Iraque já não era possível sair de lá. A saída dos EUA do Iraque, associada a um apoio às primaveras nos outros países arábes, foi um campo fértil para os militantes islâmicos radicais, que conseguiram nos territórios sírios e iraquianos aquilo que desde sempre ambicionavam: a reconstrução do califado. Ora, esse Estado islâmico vai ser seguido pelos militantes radicais de todo o mundo e pode ter um sucesso muito mais rápido que o califado original, cujos exércitos chegaram em 80 anos desde a península arábica em 632 até Poitiers em 711. E esse Estado todos os dias proclama o seu ódio aos ocidentais, como se vê pelas execuções que sistematicamente são exibidas.

 

É manifesto, por isso, que o Ocidente está a ser constantemente desafiado para a guerra, só que já não tem coragem de mandar tropas para o terreno e os ataques aéreos podem fazer mossa, mas não alterarão a situação. Quanto a Portugal, é o ridículo de sempre. Mal li aqui que o Ministro da Defesa afirmava que Portugal vai participar na coligação contra o Estado islâmico, julguei que se estava a planear uma cruzada, ao velho estilo do "Por El-Rey e São Jorge aos Mouros!". Mas afinal o Ministro explicou que "a seu momento se verá" de que forma Portugal participará, tendo em conta que a colaboração pode acontecer de várias formas, designadamente através "de treino, de inteligência, de formação" ou humanitária. Quanto a tropas no terreno, cruzes canhoto. Está visto assim que o Ocidente não vai ter a mínima hipótese de ganhar esta guerra.

Pós-pós-Verão

por José António Abreu, em 29.09.14

O Verão já se acabou, Setembro está-se a acabar, Lisboa quase se afogou nas primeiras gotas de chuva mas a eleição de António Costa faz com que o Sol brilhe outra vez. Não soa assim fora de estação a power pop dos The New Pornographers, uma de várias superbandas canadianas (outras: Arcade Fire, Broken Social Scene) que colocam em palco um número inusitado de executantes*. O tema pertence ao novo álbum, Brill Bruisers, e devo tê-lo ouvido dezenas de vezes nas últimas semanas, muitas das quais enquanto assistia ao vídeo acima - em parte porque prefiro ligeiramente esta versão ao vivo àquela que surge no disco, em parte (bem-aventurados os que se deleitam com prazeres singelos) devido às calças da Neko Case.

 

* No vídeo ainda falta Dan Bejar.

 

Adenda para pessoas com tempo livre e propensão para actividades de relevância discutível (assim como ver vídeos de gatos no YouTube):

Pesquisem "the new pornographers" no site da Amazon. O sistema de sugestões, habitualmente solícito ao ponto do exagero, ignora teimosamente a hipótese "pornographers", apesar dos álbuns estarem disponíveis. O politicamente correcto adquire formas tão giras.

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O centro-direita está basicamente tramado. Em 2011, pegou num país à beira da falência e sujeito a um programa de resgate mal negociado, num contexto de crise da zona euro que dificultou a flexibilização das metas orçamentais, que foram mínimas e arrancadas a ferro. Apesar do espartilho, este governo pagou dívidas, conteve a despesa e evitou a saída do euro, mas esteve sempre dividido e atraiu a hostilidade de sectores importantes da própria direita, que serão aliás os primeiros a entrar agora em pânico e a tentar abandonar o barco a tempo. Com péssima comunicação e insistindo no absurdo de querer ir além da troika (o que nunca fez), o lado governamental terá escassos argumentos a seu favor: as pessoas ainda não sentem a economia a dar a volta e a estratégia de credibilização funcionou apenas nos mercados. Foi a opção correcta, mas não foi a escolha popular. Ninguém come taxas de juro.

A História será provavelmente mais branda do que o eleitorado está disposto a ser na campanha para Outubro de 2015, mas isso é fraca consolação. O descontentamento geral só não é percebido por quem não quer compreender. Nas próximas eleições, as pessoas vão votar de forma emocional e isso será visível de imediato nas sondagens, com forte subida do PS. António Costa não terá pressa e dispõe de muito tempo para esmifrar os ministros mais fracos e para encostar o Governo às cordas.

Acima de tudo, Costa não quererá interromper os erros do adversário, sobretudo se a estratégia governamental for a de tentar diabolizar os ex-socráticos que esvoaçam à volta do novo líder socialista. Falhou em 2009 com o próprio Sócrates, mas esta direita é burra, aprende mal e vai querer repetir o número.

Para não perder por muito nas próximas legislativas, a coligação deverá trazer a discussão política para os temas que verdadeiramente contam: como é que o PS de António Costa tenciona cumprir o Tratado Orçamental e o que prefere na questão da dívida pública? A reestruturação? Não sendo o crescimento económico suficiente para o milagre das contas públicas positivas, que cortes e reformas estão os socialistas dispostos a fazer? O líder do PS só precisa de fintar estes temas, de não se comprometer, de insistir na mudança e na esperança, de mostrar preocupações sociais, de falar aos desempregados e aos que vivem no medo de perder os seus empregos. Nestes assuntos, o governo estará em forte desvantagem. Costa evitou com êxito mencionar o Tratado Orçamental nas primárias do PS, tentará fazer o mesmo nas legislativas.

A renovação do PS

por José António Abreu, em 29.09.14

Para o futuro, de Costa(s).

Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 29.09.14

  

 

Teremos Sempre Paris, de Ray Bradbury

Tradução de Maria do Carmo Figueira

Contos

(edição Bizâncio, 2014)

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Primárias

por Sérgio de Almeida Correia, em 29.09.14

1. Tirando o caso da Guarda, que não serei eu a explicar, e o facto de no dia 29 de Setembro às 00:08 ainda estar a receber "sms" do queixoso, dizendo que contava comigo, vá-se lá saber porquê, os resultados correspondem ao esperado.

 

2. Aquilo que foi divulgado até agora não permite, penso eu, fazer a separação entre o resultado da votação dos militantes e a dos simpatizantes. Isso era fundamental para se perceber até que ponto o partido estava com o secretário-geral demissionário e estabelecer a comparação com o que se pensava fora do círculo restrito dos militantes. Não sei se será possível vir a apurar esse dado; como também ignoro se o facto dos votos aparecerem misturados ainda é o resultado de uma estratégia destinada a criar e arrastar a confusão durante três meses ou uma consequência da pressa do processo. Aproximando-se este acto do seu final, seria bom desde já repensar todo o processo das primárias. O ideal era que isso fosse feito nos próximos dias, corrigindo para futuro os desfasamentos já identificados e mostrando aos portugueses que se as primárias vieram para ficar importa que sejam sempre sérias, rigorosas e não dependam de ajustamentos de conveniência. 

 

3. As primárias podem ser um primeiro passo para a emissão da certidão de óbito do sinistro "aparelho". Se a ideia era fazê-lo funcionar, o resultado agora verificado pode ter acabado com ele.

 

4. Se os resultados das recentes eleições para as federações podiam de algum modo dar um sinal da força que secretário-geral demissionário e da separação de águas dentro do partido, os dados hoje conhecidos desequilibraram decisivamente os pratos da balança a favor de António Costa, dos simpatizantes e da maioria silenciosa em que Seguro apostava. O resultado de António Costa, avaliado na sua globalidade, demonstra que praticamente todas as federações que apoiaram Seguro estavam erradas e não souberam ler os sinais que chegavam de todos os lados do país. Por conveniência ou teimosia.

 

5. António José Seguro não perdeu sozinho. Com ele perderam os analistas e comentadores que saíram em sua defesa perante a óbvia mediocridade da sua liderança, invocando o direito ao prémio de se apresentar às legislativas pelo simples facto de ter "aguentado" o partido durante quase três anos. Como se o PS ou o país, no estado em que estão e entregues a grotescos e reconhecidos carreiristas, ainda pudessem suportar o pagamento desse tipo de prémios. Uma carreira política não pode ser o resultado da contagem da antiguidade partidária, do pagamento de quotizações e do número de fretes assumidos até que chegue a hora de se sentar na cadeira do poder.

 

6. Com António José Seguro perderam também Passos Coelho e Miguel Relvas. A sua derrota é a machadada final no modo sonso de estar na política, distribuindo afectos e sorrisos, ou abrindo portas e agilizando negócios, sem um percurso académico, político, ético e profissional que não ofereça dúvidas e com os quais as pessoas normais se revejam e reconheçam o mérito.

 

7. Seria bom que o Congresso do PS fosse marcado para a data mais próxima possível, de maneira a que todo este conturbado processo das primárias atinja o seu fim e o PS estabilize, se reorganize e possa pensar nas questões que importam a todos, a tempo de poder propor uma alternativa política de mudança susceptível de ser devidamente avaliada, ponderada e discutida pelos portugueses até às próximas eleições legislativas.

 

8. O resultado de António Costa - esmagador perante aquele que foi até há 48 horas o discurso alucinado de Seguro e dos seus apoiantes - é também um golpe vigoroso contra a teoria do coitadinho e a rejeição de todos aqueles que supunham que era possível dividir o país entre a gente boa, honesta e trabalhadora vinda do interior e da periferia, pobre e desertificada, e os malandros ociosos que vivem à tripa-forra na capital. Ou entre os filhos do povo e os de boas famílias. Os portugueses, sejam simpatizantes do PS ou de qualquer outro partido, não são estúpidos, detestam que façam deles uns tontos e abominam a criação ou agudização de clivagens para justificarem os fracassos que só aos fracassados podem ser imputados.

 

9. A partir de hoje, a eleição do secretário-geral do PS será o cumprimento de uma mera formalidade que se destinará, fundamentalmente, para dar a conhecer aos militantes e aos portugueses as propostas do PS para o futuro. Quaisquer que sejam deverão fugir ao modelo eleiçoeiro do tipo "cem medidas por semana para animar a malta". Os portugueses anseiam por ter gente séria nos partidos e na politica como de pão para a boca e estão fartos de folclore. Seria bom que António Costa tivesse isto sempre presente na hora de escolher os seus futuros colaboradores. 

 

10. O elevado e sem precedente nível de participação neste processo - sinal de que as pessoas não estão tão alheadas da política quanto alguns insistem em fazer crer - deve levar o Presidente da República a reavaliar, em especial face ao non liquet dos casos que envolvem o primeiro-ministro e a sua descredibilização completa (Pinto da Costa disse-o com todas as letras a propósito do caso BES), as suas condições de governabilidade e se perante o estado calamitoso a que chegaram algumas áreas da governação se justifica a manutenção em funções do actual elenco governativo até que se cumpra o calendário eleitoral regular.

As canções do século (1733)

por Pedro Correia, em 29.09.14

O António que se segue

por Pedro Correia, em 28.09.14

Foto Eduardo Costa/Lusa

 

1. Não vale a pena especular sobre quem terá contribuído mais para a eleição de António Costa como candidato do PS à chefia do próximo Governo. Militantes ou simpatizantes? Foram ambos. A diferença de votos em relação a António José Seguro, ao totalizar dois terços dos sufrágios, foi tão expressiva que dissipa qualquer dúvida.

 

2. Há que reconhecer: o processo de eleições primárias no PS foi o mais amplo do género desde sempre registado em Portugal e decorreu com irrepreensível civismo. Julgo tratar-se de um processo sem marcha-atrás, que funciona a crédito de Seguro. Embora a figura de "candidato a primeiro-ministro", em boa verdade, não exista no sistema constitucional português.

 

3. Os partidos que ainda não adoptaram esta solução para a escolha dos seus líderes terão rapidamente de adaptar-se às exigências dos novos tempos. A democracia, para se revigorar, não pode prescindir desta expressão da cidadania. Acabou o tempo em que os principais dirigentes partidários eram eleitos em petit comité.

 

4. Costa ganha por larga margem após uma campanha minimalista, em que nada prometeu e quase nada de concreto antecipou do seu futuro programa de Governo. Viu esta estratégia coroada de êxito: militantes e simpatizantes acabam de lhe passar um cheque em branco que ele preencherá como entender.

 

5. É uma vitória do PS histórico e uma espécie de desforra ao retardador da tendência sampaísta do PS, que perdeu para o guterrismo em 1992. Na altura, Seguro alinhou com o vencedor António Guterres enquanto Costa se manteve firme no apoio ao derrotado Jorge Sampaio. A tendência social-cristã eclipsa-se como nunca aconteceu nestes vinte anos de história do partido que se prepara para ter um terceiro lider chamado António.

 

6. Costa, que venceu em todas as federações socialistas excepto na Guarda, tem dois desafios fundamentais pela frente. O primeiro é unir e mobilizar todo o partido após uma campanha marcada por fortíssimas animosidades entre os dois candidatos. Parece ser o desafio menos difícil: a promessa de poder costuma congregar as hostes. E Seguro facilitou-lhe a tarefa ao abandonar o palco já esta noite.

 

7. Mais complexo é outro desafio que o ainda presidente da câmara de Lisboa, assumido apreciador de puzzles, tem pela frente: combater as tendências centrífugas no PS, à semelhança do que vem sucedendo nos partidos da sua família europeia. A atracção por novas forças partidárias, com protagonistas diferentes e um discurso mais radical, é um problema sério dos socialistas moderados.

 

8. Algumas figuras históricas do PS tenderão a empurrar Costa para entendimentos políticos à sua esquerda. Tenho as maiores dúvidas de que o caminho a seguir pelo novo líder acabe por ser este. O PCP, por exemplo, já separou as águas, reiterando a sua oposição a três pilares de uma futura governação socialista: manutenção de Portugal na União Europeia, no sistema monetário europeu e na Aliança Atlântica.

 

9. Com três dos quatro anos da legislatura decorridos, e depois de inúmeros vaticínios malogrados mês após mês sobre a iminente demissão de Passos Coelho da chefia do Governo, quem acaba afinal por sair antes do prazo inicialmente previsto é o líder do maior partido da oposição. Empurrado pelos seus pares, o que confere uma nota de amarga ironia ao percurso de um homem que exigiu vezes sem conta a resignação do primeiro-ministro, aparentemente convencido de que bastaria repetir este estribilho para que os seus desígnios se tornassem realidade.

 

10. À direita, Passos Coelho e Paulo Portas têm motivos para ficar preocupados. O novo rival, robustecido por este resultado, é muito mais temível do que o antecessor, que nunca encontrou uma linha de rumo clara na oposição ao Governo. Parafraseando o autarca lisboeta numa farpa que ele próprio dirigiu a Seguro no frente-a-frente da RTP, Costa deve sonhar ser primeiro-ministro desde pequeno. É uma ambição legítima -- e em política estas coisas contam. Mas ele, que aprecia citações, deve tomar esta em devida nota: "Tem cuidado com o que desejas porque pode tornar-se realidade."

Costa está disponível para prescindir do sigilo bancário?

Frases de 2014 (26)

por Pedro Correia, em 28.09.14

«Este é o primeiro dos últimos dias do actual Governo.»

António Costa, há pouco, no discurso de vitória das primárias do PS

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