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Mário Soares recebe o Óscar

por Rui Rocha, em 26.04.14

As canções do século (1577)

por Pedro Correia, em 26.04.14

Antes ir ao encontro dela do que "de encontro"...

por Sérgio de Almeida Correia, em 25.04.14

Dez jornalistas de Abril (5)

por Pedro Correia, em 25.04.14

Baptista-Bastos

Para MM

por Patrícia Reis, em 25.04.14

(com 24 horas de atraso)

Era um sítio onde nada existia porque era também onde tudo tinha nascido. Ali a olhar o vulcão, o fim da tarde e o silêncio ancestral das casas brancas, escadas azuis, portadas de madeira por abrir. Ela deixou-se ficar assim por um instante. E lembrou-se de coisas. Pequenas e estranhas coisas que faziam dela o centro a partir dali, da ilha. Primeiro a absoluta convicção de um fim qualquer. Depois os detalhes desse fim: minuciosos pontos avessos à realidade. Ela gostava, já se vê, de metáforas. Não por serem simples de conceber, pelo contrário, mas por serem uma forma simplificadora de tudo o resto. Explicar com clareza é exaustivo. Ela acreditava nisso. Mesmo olhando os barcos que deixavam riscos como trilhos terrestres nas águas duras, a beleza era - e seria sempre - sofrimento. Produzida por essa imensa dor que ela carregava. Ninguém sabia disso, claro. Era uma verdade dela. Talvez fosse a sua imagem. Quem sabe? Não se ajustava a nada daquilo que pertence ao imaginário dos outros, ideias seguras e certeiras sobre anjos e heróis e até, porque não?, sobre Deus.
Ao contrário de todos, ela sabia exactamente o cheiro do bafo do criador, a textura da sua pele, o odor mais cansado só dele, os gestos milenares de incompreensão, de amor e desamor. Sim, desamor. Deus também tinha essa capacidade única de deixar de amar e, depois de tanto tempo, era só disso que ela tinha receio. Não, não era receio, era medo. Um sentimento comum a todos os seres vivos, pensava ela na sua pose de vigilante do vulcão, da ilha e do mar. Ali estava o ralo do mundo. Se alguém poderoso suspeitasse a água desapareceria para sempre, fugindo rápida no ralo do mundo que conduz ao fim do universo. Ela também acreditava nisso: Deus, o ralo, alguém poderoso, no medo e no desamor. Para alguém com as suas responsabilidades era quase cómico prever as desgraças da Humanidade, acreditar na bondade da natureza.
Deus perdoa sempre, o homem por vezes, a natureza nunca, ouvira sentenciar uma vez, longe dali, na voz de um padre inspirado. E assim era.
A natureza é quem manda, é uma criação que tomou conta do criador, que goza na cara dele, que faz e desfaz qualquer sonho. A natureza não é uma forma bondosa de sobreviver e evoluir. Nada pode ser encarado com essa premissa tão fácil. Ela já o sabia. Quando se afastou do muro caído de branco, fixou o chão azul grego e seguiu, rápida, resolvida a procurar alguém para salvar.

Salvar uma pessoa não é o que se espera. A maioria das pessoas não quer ser salva, agarram-se a ideias, depois a coisas e de imediato ao tal medo dominador que tolda até os mais inteligentes. Ela era determinada e, por isso, ocupava grande parte do seu tempo nessa procura: alguém para salvar de uma forma eficaz, para sempre. Não tendo asas de anjo ou capa de super-herói, o seu lugar no mundo estava limitado. Era apenas mais uma, quem sabe se a precisar de salvação. Ninguém a reconhecia de imediato e, com o tempo, havia mesmo quem nunca chegasse a reconhecê-la. Para cada indivíduo ou situação ela era transformável. Se fosse preciso era boa ouvinte; se necessário não se calava; se argumentava, lutava; se lutava, argumentava. Andava contra a maré dos outros. A impor respeito, regras, sabedoria. Não tinha a certeza. Havia pessoas que diziam que o destino estava marcado no ciclo sanguíneo do código genético. De quem vens? Como serás? És o que outros foram? A tua inteligência é apenas a do outro e sem o outro não és nada? Ela não compreendia essa lógica. Ela não decifrar qualquer espécie de exercício lógico, fosse qual fosse. O seu papel era outro. Caminhar ao lado, levitar se fosse caso, mas nunca desvalorizar o potencial vislumbre de um génio descarnado. Um incompreendido. Um sofredor. Todos esses - com ou sem código genético inspirado no caldo cultural certo - eram a inteligência do mundo, mantinham-no a funcionar, contribuíam para a sua rotação. Quanto mais fora do padrão, melhor. A sobrevivência da natureza era apenas isso: encontrar pessoas fora daquilo a que se designava a ordem das coisas, a normalidade, e salvá-las para que tudo começasse de novo. Uma fórmula simples. Ela procurava nos pobres, nos ricos, nos sem abrigos, nas ilhas e nos continentes, pelos desertos e savanas. Ela tinha mais de um milhão de anos. Ela era chave de tudo. E ali, na Grécia, onde tudo começa e acaba, haveria também alguém para salvar, alguém importante. Era a sua missão. Sentiu-o quando chegou à ilha, sempre de barco, sempre na tal água dura e cristalina, uma água com a cor do coração dela, transparente e limpa, profunda e escura por vezes; implacável. Ninguém a imagina. Nem ela se imagina nesse tormento, é apenas uma vida, a dela. E agora parte pelas ruelas brancas de sombra fresca e junta-se à multidão para ir ver o pôr-do-sol em Oia, vai na onda humana que se desloca para a ponta da ilha. Recorda-se de um soneto e diz alto, como fazem os loucos nas grandes cidades, diz alto porque aqui não importa o que achem dela e porque também ninguém a vê, não é?

Vi que, durante a longa travessia
Das águas cor de vinho, num sinal
De passagem divina, o mar ardia
Com brancas labaredas de cristal.

E vi depois, ao pôr do sol, em Ia,
Coberto o céu de líquido metal
Num resplendor de aurora boreal.
E o povo, ateu, ao culto se rendia.

É que, ao ver a beleza do teu rosto,
A natureza se equivoca. E crê
Que um deus voltou. E, perturbada, vem

Fazer raiar auroras no sol-posto
E a água incendiar. Bem sei porquê:
Vejo o teu rosto e engano-me também.

Ela não se enganava. Estava à beira de um outro muro branco e o mar chamava-a, raios de prata, rasgos de luz, movimentos subtis, correntes e marés, vozes de outras margens, sentidos distintos. Quando o sol adormeceu no fim daquele desenho, as pessoas bateram palmas, alguns tímidas, outras esfusiantes. E foi então que, pela sombra, percebeu o seu destino, a alma a salvar. A sombra dizia tudo: o corpo pequeno, encolhido, a cabeça baixa, numa combinação de desistência e de melancolia que tantas vezes se confunde com tristeza. Ela caminhou na direcção da sombra.

Foi bom o pôr-do-sol.

É sempre bom. É o sol.

Diz isso como se não tivesse importância.

Disse? Não dei contei. Talvez tenha dito. Hoje nem estive a ver até ao fim, entristece-me o fim, sabe?

Quer dizer, quando o sol desaparece por fim?

Não, antes, quando fica aquela nesga de luz amarela ou laranja, não se sabe, a esconder-se do outro lado daquela ilha.

Compreendo.

Não é para compreender.

Talvez não seja, mas eu compreendo. Julgo sempre que o sol fica do outro lado, intacto, à espera. Bastaria ir à outra ilha, do outro lado, e lá estava ele...

Pois, pode ser, mas não é assim que sinto.

Como é que sente? Se não se importa que pergunte...

Não me importo. Não a conheço, não sei quem a senhora é. Não faz mal.

O homem não disse como se sentia e ela não insistiu. Ficaram ali. O vento começou a fustigar os toldos dos restaurantes, os vasos com flores, as cortinas das janelas por fechar. Quando percebeu o gesto dele, a mão na pedra do chão junto à anca, ainda sem esforço, ela fez o que fazia melhor: apagou a luz. Oia encheu-se de uma escuridão natural. Todos os candeeiros se apagaram, os restaurantes levariam um momento a repor a luz com geradores ruidosos, velas brancas em frascos coloridos. E, por um segundo, o coração dele parou, ela viu, e ficou, estático, perante o enorme céu, um manto de estrelas sem fim, uma outra perspectiva. Não conseguiu deixar de sorrir. Havia momentos em que valia a pena ser o que era. O corpo do homem abandonou-se à contemplação e ela voltou a perguntar

Como se sente?

Pequeno.

O céu tem esse efeito.

Não. Quer dizer, sim, é verdade que o céu é de uma imensidão sem fim. Eu sinto-me pequeno perante tudo. Estou a chegar a um fim.

Qual fim?

O fim do amor.

É por isso que está aqui sentado?

Lá em cima, na varanda da casa que aluguei, deve estar a minha mulher, a roer as unhas, a ler um livro, a falar ao telefone...

Ou a chorar, à sua espera.

Não. A minha mulher não chora por mim. Já não.

Ela calou-se. Não tinha previsto uma salvação amorosa. Não era o seu forte. O amor desassossegava-a. Fugia dos amorosos, dos perdidos e desiludidos, desses que eram capazes de exibir um coração partido com uma quase precisão médica. O tempo provara-lhe que o amor tinha sempre um rasto de desencantamento. O homem ali ao lado era apenas mais um fio desse rasto. Suspirou. E, depois, com um excesso de generosidade e paciência, preparou-se para cumprir a sua missão.

Então, conte lá. Eu sou uma desconhecida e gosto de histórias de amor.

Esta não é uma história de amor. É sobre o fim do amor, já lhe disse.

Conte lá.

E o homem contou. Conhecera a sua mulher por acaso. Havia até, pensando nisso, uma série de acasos e consequências, que o levaram a ficar junto a ela numa inauguração de uma exposição. Estavam os dois a tentar decifrar uma escultura feita com panelas e tachos. E a mulher disse

É demasiado conceptual.

Tudo o é nos dias que correm.

Tem toda a razão.

E a mulher rira-se de uma forma tão amorosa, delicada, que ele deixou de ver a escultura e concentrou-se nela: baixa, morena, algumas sardas, cabelo preso, calças pretas, camisa branca, mãos de unhas rentes, demasiado rentes, o final dos dedos arredondados adequados à sua condição de vítima. Era uma mulher bonita. Esperta. Viva. Ele soube logo estas coisas todas e outras que a vida confirmou mais tarde. Tomaram vinho tinto. Trocaram telefones e seguiu-se o resto até ao amor infantil do reconhecimento dos corpos, primeiro tímido, depois audaz com a sorte que os deuses reservam a estes casos. Era quase perfeito quando nada o é. Ela ria-se e deitava a cabeça para trás. Ele pegava-lhe na mão assim que chegavam à rua. Ao fim de um ano eram capazes de terminar as frases um do outro ou ainda; muito mais surpreendente para terceiros, dizer exactamente a mesma coisa ao mesmo tempo. Era uma operação matemática. Ele e ela e os dois e depois tudo o resto e o resto valia nada.

Foi assim durante dez anos.

E depois? O que aconteceu?

Acho que foi a vida. Deixámos de falar.

Mas já tentou, não tentou?

Falar? Sim, falar, conversar, discutir, ficar irritado e depois bater com a porta. É a minha especialidade.

Pode sempre dar a volta.

Dar a volta a quê? À Terra?

Não. Ao desamor.

O homem ficou a pensar naquilo. Ela fechou os olhos e suspirou de novo, um suspiro quase imperceptível. As luzes de Oia continuavam por acender, um capricho seu, mas isso agora não importava. Estava decidida a tirar o homem do fundo do nada, devolvê-lo à vida. Para isso era preciso o céu e as estrelas luminosas, a estrela do norte tão forte mesmo ali ao lado.

Já viu a estrela do norte?

Sim. Brilha muito.

É porque mantém o brilho. A questão é sempre essa: manter.

Pois, talvez. Eu não me mantive apaixonado e agora estou aqui preso numa ilha com a minha mulher e não tenho como fugir.

Bom e se caísse uma estrela cadente? Que desejaria?

Voltar atrás.

Onde? Exactamente...

Àquele momento em que o amor se perdeu.

O amor não se perde.

Ah, isso é tão fácil de dizer.

O homem não arredava da sua angústia e ela viu-se obrigada a ceder. Fez cair uma estrela cadente. Tocou no braço do homem para que ele a visse cair, o brilho como um desenho de arquitecto no topo do mundo. O homem levantou-se num repente. Ficou parado a olhar a queda da estrela. Ela levantou-se e disse

Agora já tem a sua oportunidade: volte atrás e mantenha o brilho aceso. Não existe nada de semelhante ao fim do amor. Se quiser, teve sorte, teve-me hoje só para si e eu decidi tomar conta, salvá-lo.

Dito isto, levantou-se devagar e começou a descer as escadas em direcção ao porto. Confundiu-se com as paredes e as casas esculpidas nas rochas, seguiu ligeira, sempre olhando o mar. As luzes de Oia regressaram, o céu voltou a esconder as estrelas e tudo regressou ao burburinho habitual dos turistas e locais. Já não viu o homem, continuou sempre em frente, descendo, até que os pés tocaram na pedra fria do pontão, passaram dois barcos atracados e o corpo dela mergulhou inteiramente no berço do mundo. Naquele dia não haveria mais ninguém a salvar.

(poema de Hélia Correia)

Desfile comemorativo em 25 de Abril de 2014

por Rui Rocha, em 25.04.14

Freitas do Amaral à direita. Também à frente Mário Soares. Soares a falar sempre de Mário Soares, ainda que pareça falar de outros. O coiso era meu amigo. O tal um democrata. Que passou uns dias em minha casa. E por aí adiante. Um pouco atrás Cavaco, arrastando as botas. Passos Coelho preso ao casaco de Cavaco por uma guita. Vai pronunciando frases vazias. Freitas do Amaral ao centro. Passos Coelho dizendo umas coisas sobre a iniciativa privada. Outras em murmúrio sobre o estado social. Um exército de formigas cede logo às primeiras palavras. As formigas retrocedem, desmotivadas. Alegre proclama. Alegre declama. Alegre exclama. Alegre rima: o tiroliro está la em cima. Jorge Sampaio ouve e toma notas. No próximo discurso dirá o mesmo em mais cinco mil e quatrocentas palavras. O exército de formigas acelera a marcha em sentido contrário. Sócrates tem um cartaz com a fotografia de Sócrates. Pinto Monteiro tem um cartaz com a fotografia de Sócrates. Freitas do Amaral está agora à esquerda. Já teve um cartaz com a fotografia de Sócrates. Teixeira dos Santos vai lá mais para trás. Tenta contar os participantes no desfile. E falha. Eanes foi convidado mas imperativos morais impedem-no de participar. Relvas está ao telemóvel. Vitor Gaspar ouve Alegre e toma notas. Há-de dizer dois ou três dos versos de Alegre demorando o mesmo tempo que levará Jorge Sampaio a ler o seu discurso. Seguro promete que quando chegarem ao fim da rua farão o percurso inverso. Aliás, indigna-se, deviam ter feito o desfile numa rua paralela. Freitas do Amaral está agora do seu lado direito. Perdão. Acabou de colocar-se do seu lado esquerdo. O exército de formigas já desapareceu completamente do campo de visão. Passos Coelho tem uma visão. Comprou-a ontem no quiosque. Comprou também a Caras e a Guia do Automóvel. Aguiar Branco vai de braço dado com Poiares Maduro. Otelo cumprimenta a filha de Marcello Caetano com um beijo. Jerónimo de Sousa distribui doces às criancinhas. Ajuda-se com uma bengala de cego. Nunca soube, nunca viu. O Bloco de Esquerda optou por participar na modalidade de 400 metros estafetas. Assim ficam representadas todas as tendências e sensibilidades. O desfile começou há exactamente quinze minutos. Relvas fechou três negócios e concluiu duas licenciaturas nesse período de tempo. Sócrates concluirá mais uma no próximo Domingo. Marques Mendes prevê chuva. Acerta em cheio. Freitas do Amaral abriga-se com o guarda-chuva de Vasco Lourenço que desfila em representação do Grande Oriente Lusitano. Perdão. Freitas está agora debaixo do guarda-sol de Eduardo Catroga que desfila em representação de si mesmo. César das Neves vergasta-se enquanto caminha. Mas mantém o sorriso. Compraz-se na mortificação do cilício. Isabel Jonet entrega um quilo de arroz carolino a um professor tornado indigente enquanto diz umas palavras a um repórter. Armando Vara segue às cavalitas de José Lello. Cavaco fala do mar. Soares fala da subida dos oceanos. Nomeadamente daqueles que desaguam à porta de sua casa. Passos Coelho fala de submarinos. Portas de contribuintes, agricultores, militares e pensionistas. Marcelo Rebelo de Sousa fala. Jorge Sampaio discursa. Freitas do Amaral adapta o discurso enquanto inicia um movimento em diagonal. O bispo que representa a Igreja Católica tem andado sempre atrás dele. Eanes, que por imperativo moral afinal sempre veio, cala. Guterres dialoga. Durão Barroso abandona. Santana Lopes fica. Oliveira e Costa aproveita um momento de distracção do professor indigente e abifa-se com o quilo de arroz carolino que Jonet lhe tinha dado. Desta vez, Armando Vara foi menos veloz. D. Januário é o único que desfila armado. Otelo distribui beijinhos. Jerónimo de Sousa leva uma criancinha às cavalitas. Ricardo Salgado segue com as mãos nos bolsos. A direita no de Passos Coelho. A esquerda no de Seguro. O exército de formigas recolheu há muito ao formigueiro.

Sofrimento por antecipação

por José António Abreu, em 25.04.14

Pois, pois... É óptimo o dia 25 de Abril este ano calhar a uma sexta-feira mas isso só quer dizer que, no próximo, calhará a um sábado.

40 anos

por Teresa Ribeiro, em 25.04.14

Os políticos ensinam-nos muito. Ensinam-nos, por exemplo, a desvalorizar a retórica e a descodificar declarações evasivas. Com o tempo também nos ajudam a separar o discurso da prática política e a identificar estratégias e tacticismos em comunicações inflamadas ou iniciativas populares. 

Provavelmente no dia-a-dia os políticos esquecem-se desta coisa elementar que é a influência que exercem na educação cívica e democrática das pessoas que representam. Mas a verdade é que os seus gestos continuados não se perdem no vácuo, antes configuram aquilo que se convencionou chamar em democracia "cultura democrática". E a nossa amadureceu. Sendo que amadurecer em democracia é, como se sabe, tornarmo-nos cínicos. 

Se os nossos políticos pudessem evitar este efeito perverso da acção política sobre a educação cívica das pessoas, como seria fácil meter conversa com os eleitores durante a próxima campanha eleitoral e, antes disso, falar ao povo das "conquistas de Abril" sem tropeçar no espectáculo degradante da desilusão que é o desta democracia chegada à meia idade.     

 

 

Discursos de capitão

por José António Abreu, em 25.04.14

Agradeço aos capitães de Abril algo que vários não tinham real intenção de me dar: liberdade. Liberdade até para, fugindo de endeusamentos pró-forma, afirmar que a posição deles quanto às políticas actuais me é totalmente indiferente. Não lhes reconheço capacidade analítica bastante para emitirem outra coisa que não opiniões de treinador de bancada. (Exactamente: como as minhas.) De resto, ao longo de dezenas de anos, não lhes ouvi desejos de palanques oficiais onde pudessem criticar as políticas que conduziram o país à bancarrota (pelo contrário, pareceram sempre apoiá-las e até achá-las insuficientes). Assente este ponto, a Assembleia bem os poderia ter deixado falar. Por um lado, como no caso das declarações quase diárias de vultos do passado recente, carregados de responsabilidades mas incapazes de se remeterem ao silêncio, muito menos de efectuarem um mea culpa (Mário Soares, Jorge Sampaio, José Sócrates, Teixeira dos Santos, Bagão Félix, ...), críticas fáceis embrulhadas em lirismo de pacotilha têm eficácia limitada (mas os políticos assustam-se facilmente e, ao fazê-lo, geram quase sempre efeitos contraproducentes). Por outro, o regime actual deveria fazer questão de mostrar a cada oportunidade que é infinitamente mais aberto à crítica do que o regime desejado por alguns dos capitães teria sido.

Meu Capitão

por Pedro Correia, em 25.04.14

 Salgueiro Maia fotografado por Alfredo Cunha (Lisboa, 25 de Abril de 1974)

 

Um verdadeiro herói nunca se considera herói. Cumpre o seu dever não por ser um dever mas por urgente imperativo de consciência. Dá o nome, a cara, o peito às balas e se for preciso a vida pela causa que crê ser mais justa entre todas as causas.

Um verdadeiro herói pensa em si próprio só depois de pensar nos outros. Avança sem temor com a noção exacta de que joga tudo numa ínfima fracção de tempo -- conforto, carreira, promoções, anonimato. Ficando a partir daí exposto ao escárnio imbecil de todos os cobardes -- aqueles que nunca dão um passo fora do perímetro de segurança mas quando a poeira assenta logo surgem muito expeditos a julgar os outros. A julgar aqueles como tu: os que arriscam, os que experimentam, os que se atrevem a romper as malhas de um quotidiano medíocre. Os que trocam a palavra eu pela palavra nós. Os que nunca se conformam.

Um verdadeiro herói é aquele que deixa a sua impressão digital nas insondáveis rotas do destino humano. Tu ousaste mudar um país. Não pelo sangue, não pelo ódio, não pela intriga -- mas pelo gesto, pelo rasgo, pelo exemplo. Sabendo como é ténue a fronteira entre glória e drama quando alguém irrompe de madrugada pronto a desafiar os guiões da História.

Foste um herói ao comandar a patrulha da alvorada, Fernando Salgueiro Maia. Voltaste a ser um herói quando decidiste retirar-te ao pôr-do-sol deixando outros pavonear-se sob o clarão dos holofotes. Recusaste ficar exposto na vitrina. Recusaste servir de bandeira. Recusaste ser "vanguarda revolucionária". Recusaste ser antigo combatente. Recusaste dar pretextos para dividir. Tu que foste um poderoso traço de união entre os portugueses naquelas horas irrepetíveis em que tudo podia acontecer.

Saíste do palco: aquela peça já não te dizia respeito.

E nunca a tua grandeza se revelou tão evidente como no momento em que abandonaste a ribalta, regressando à condição de homem comum. Indiferente a ladainhas e louvores. Longe da multidão que fugazmente te acenou na mais límpida de todas as manhãs. Sem outra medalha além desta: eternamente graduado no posto de capitão da liberdade.

Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 25.04.14

 

 

Alvorada em Abril, de Otelo Saraiva de Carvalho

Testemunho

(reedição Divina Comédia, 6ª ed, 2014)

Abril (25)

por Pedro Correia, em 25.04.14

Belles toujours

por Pedro Correia, em 25.04.14

 

Catarina Furtado

A quarta revolução (5)

por Sérgio de Almeida Correia, em 25.04.14

Estas breves notas de viagem ficariam demasiado incompletas sem uma referência ao novo museu da cidade de Cantão. Fazendo jus ao desenvolvimento de uma arquitectura renovada, a sua imagem impressiona pela cor vermelha que rompe o cinzento tão típico da região nesta altura do ano. Uma vez mais aberto todos os dias, com entradas gratuitas incluindo para estrangeiros, é um repositório do passado histórico, cultural e etnográfico da cidade. Com inúmeras indicações em chinês e inglês, ali é possível encontrar trajes regionais, costumes, a reprodução de casas e vilas tradicionais, réplicas de antigas embarcações usadas no comércio e de barcos-dragão, até gravuras do período colonial e do período da Guerra do Ópio, com imagens da antiga feitoria de Shamian, porcelanas de diversas dinastias, quadros a óleo e a fauna e flora da região. Uma vez mais com recurso a elementos multimédia da última geração, famílias inteiras, muitas vindas do interior da província, passeavam-se sem nos atropelarem nem incomodarem, registando também neste aspecto a diferença relativamente ao que acontecia há duas décadas.

Não sei se por causa das epidemias relacionadas com o terrível H5N1, ou se em resultado da evolução verificada no país a todos os níveis, as instalações sanitárias, outrora verdadeiros depósitos escatológicos onde a maioria se recusava a entrar, são agora, incluindo as que surgem em muitos outros locais públicos, dotadas de papel, desinfectantes, água e sabonete líquido em profusão. As toalhas de papel podem ter-se esgotado mas haverá pelo menos um secador de mãos japonês ou alemão a funcionar. Já o mesmo não direi das imundas casas de banho nacionais, a começar pelas das nossas estações de comboios, de algumas áreas de serviço das auto-estradas ou do Aeroporto da Portela, onde ainda recentemente tive oportunidade de registar uma reclamação no balcão da ANA devido à imundície que encontrei logo pela manhã após ter feito o check-in na área das partidas internacionais.

 

Como a evolução e o desenvolvimento de uma cidade não poderá ser visto apenas nas zonas mais modernas, resolvi percorrer parte da cidade antiga que eu já conhecia de anteriores deslocações, quer ao longo do rio, a partir de Shamian pela  Yanjiang West Road, quer por algumas artérias pedonais, como a Beijing Lu, que continua a ser um paraíso para os amantes de artigos contrafeitos, dos Rolex e IWC às malas tipo Hermès a preços de saldo. A apreensão das mudanças é imediata. Agora, ao longo do rio há uma via para bicicletas, que deixaram de ser um instrumento de trabalho para se transformarem em objecto de lazer, sendo possível ver muitos velocípedes de última geração, das melhores marcas, daqueles que fazem sonhar os habitués do percurso Cascais-Guincho. As coisas mudaram tanto que agora até os vendedores de fruta, legumes e cana de açúcar, se fazem transportar em triciclos dotados de motores do tipo das antigas Solex. Os autocarros são muito mais novos e menos poluentes, as paragens têm placas e indicações várias, nos cruzamentos já ninguém se atropela porque há semáforos e em muitos locais câmaras de vigilância. A limpeza melhorou, dos papéis às beatas, e pese embora uma noite, ao regressarmos a pé ao hotel, nos tenhamos confrontado com dois ratos em fuga. Nada que não tivesse visto já em Lisboa, Londres ou Nova Iorque, ou até na garagem do meu escritório. Antes era normal ver o lixo amontoado pelas esquinas, os caixotes e sacos depositados na via à espera que alguém os recolhesse. Actualmente há contentores de lixo como os nossos. Creio que talvez ainda não tenham consciência da necessidade deles serem regularmente lavados, mas o avanço é indiscutível num espaço de tempo relativamente curto, ainda que medido pelos nossos padrões.

 

As noites são hoje muito mais iluminadas, mas por volta das 23h as luzes mais intensas vão-se apagando. O que não invalida que alguns edifícios emblemáticos, como o velho edifício da Alfândega ou o soberbo Banco da Agricultura, continuem com os focos ligados até mais tarde. O espectáculo das iluminações começa a rivalizar com o de algumas outras grandes cidades ocidentais e é motivo de orgulho dos locais. Um passeio interessante poderá ser feito ao longo das margens do rio, ao cair da noite, numa das muitas embarcações que a partir de diversos pontos da cidade oferecem esse serviço, como se estivéssemos em Paris ou Amesterdão.

 

Do outro lado do rio a majestosa Canton Tower está entre as mais altas do mundo. Tem 600 metros de altura e um observatório a 433, sendo possível dar um passeio no exterior, quando o tempo o permite, numa espécie de carrossel. A Torre Eiffel em Paris tem 324 metros e por aqui já se pode ter uma ideia do que é a vista de lá de cima, em dias claros. À noite também está iluminada, possuindo no seu interior restaurantes e algumas lojas, e o metro vai até lá.

 

Enfim, em jeito de conclusão alguns diriam que são tudo maravilhas. Não caio nesse erro e tenho a sensação de que não será o facto de um destes dias começar a funcionar o elevador mais rápido do mundo (72km/hora) num edifício de escritórios, de uma companhia aérea local ter encomendado à Boeing mais seis dezenas de aviões de passageiros da última geração, que irá iludir outras realidades como os linchamentos populares que de um momento para outro podem ocorrer em qualquer local, a dificuldade em acomodar os direitos humanos, o passado próximo, a liberdade e processos transparentes e democráticos à imensidão do país. Por ora são realidades que não conseguem conviver. Só que de quem evoluiu tanto e tão depressa em pouco mais de duas décadas, levando educação e conhecimento a tantos milhões depois de ter passado num século por uma guerra civil, ter sofrido a humilhação da Manchúria, vivido a Guerra Fria com constantes revoluções e convulsões internas, purgas cíclicas e a ostracização dos seus melhores quadros, recuperou depois Hong Kong e Macau nas condições de segurança e paz em que o fez, estando a cumprir aquilo a que se comprometeu e que ainda recentemente deu mais um passo no aprofundamento das relações com Taiwan, é de admitir que as próximas duas décadas caminhem ao mesmo ritmo.

Esta é a China que o Presidente da República irá encontrar em Maio, quando aqui se deslocar em visita oficial. A política de pequenos grandes passos começa a dar frutos. Muitos. Para os homens livres, e que têm como aspiração e horizonte de vida sentirem-se cada vez mais livres, o tempo de viajar na China enquadrado e escoltado terminou. Essa experiência é agora parte da minha memória. Estou satisfeito por isso. Por mim e pelos chineses. E por conhecer a nova realidade. Hoje passo a fronteira sozinho, com o meu passaporte e um visto para entradas múltiplas válido para dois anos, emitido sem necessidade de explicações ou de responder a inquéritos imbecis, como alguns a que para entrar nos Estados Unidos já me pediram. Do outro lado, compro o meu bilhete para um comboio de alta velocidade, marco o meu hotel pela internet, levanto dinheiro nas ATM, desloco-me livremente, e mesmo sendo um ocidental posso circular discretamente. Não tenho de dar satisfações a ninguém. Se nos anos 80, ou ainda nos 90, do século passado, me dissessem que isso seria possível na China em 2014, eu não acreditaria. Ainda há milagres. E bem menos dolorosos do que muitos supunham.

E, também, dos que aqueles a que os portugueses, lamentavelmente resignados perante a catástrofe dos partidos que têm e as respectivas classes dirigentes, se habituaram nos últimos anos; fazendo com que a celebração de 40 anos de liberdade se tenha transformado num miserável jogo de comadres que se dilui em discursos de circunstância, questões protocolares próprias de parolos e idiotices institucionais de estalo. Enquanto os outros, partindo de patamares muito mais baixos, evoluem e os ultrapassam.

Depois dos submarinos e dos carros, chegou a hora do aeromodelismo

por Sérgio de Almeida Correia, em 25.04.14

Já se sabia que o ministro da Defesa era um apaixonado de brinquedos, mas aqui talvez arranjassem alguma coisa mais barata onde gastar o nosso dinheiro. E que voasse, mesmo investindo no treino.

As canções do século (1576)

por Pedro Correia, em 25.04.14

Podia Ser Literatura

por Francisca Prieto, em 24.04.14

Era um intelectual que exigia estética nas letras. Se, num jantar em sua casa, alguém se atrevia a citar um poema com metáforas de amoras ou mirtilos, logo saía porta fora, furibundo, que era só o que lhe faltava, ter de se dar com gente daquela.

Profetas da nossa terra (8)

por Pedro Correia, em 24.04.14

«O PSD, e eu próprio, não vamos mexer naquilo que são as taxas de IVA que estão previstas.»

Pedro Passos Coelho, 30 de Maio de 2011

Dez jornalistas de Abril (4)

por Pedro Correia, em 24.04.14

 

Artur Portela

Abril (24)

por Pedro Correia, em 24.04.14

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