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Postais de um Fotógrafo de Bairro (XII)

por Bandeira, em 29.05.13

José Bandeira

 

O Euclides emigrou de Cabo Verde para Lisboa quando soube pela mulher que lhe ia nascer um filho. A razão para o salto fora atendível: trabalhar, ganhar dinheiro para assistir a família na ilha. A mulher pediu o divórcio pouco depois da sua partida. Encontrara parceiro mais próximo, nestas coisas de matrimónio a distância é um terceiro elemento. Ficou-lhe o filho à espera em Santiago enquanto o Euclides trabalhava como factotum nas obras. Após um acidente de trabalho cujo processo nunca seguiu as vias direitas e o deixou com lesões na coluna, o Euclides foi tomar conta do tasco do pai. Passa ali os dias (e as noites, já que dorme num quarto contíguo à cozinha). De vez em quando lembra-se do dinheiro que nunca lhe pagaram em obras tão importantes como o foram as da Expo ou do Colombo. Não compreende o que se passou, ele que nunca falhou um dia de trabalho sequer e sempre fez o que lhe mandaram com competência e aprumo.

 

Algumas semanas atrás conseguimos fazer com que o Roni, agora com dezoito anos, recebesse um pequeno computador que eu mesmo configurei dentro do balcão do Café Africano. Servi ponchos e tudo! O Euclides, para quem um computador é um país estrangeiro, estava radiante. O único contacto que mantém com o filho é via o telefone de um vizinho do rapaz, proprietário de uma tenda de refrescos em Santiago. Nunca se viram, o Euclides e o Roni: o preço das viagens de e para Cabo Verde não se aguenta de tão caro. O portátil acabou por ser levado por uma tia do Euclides que calhou voar para as ilhas por esses dias. Há já notícia de que o Roni, que completou há uns meses o 12º ano, mexe no computador com destreza. Um tio dele tem uma loja de Internet por lá e ajuda-o. Eu já disse ao Euclides: “Dia em que o rapaz passe as portas do aeroporto, quero estar lá para vos tirar fotografias”.

 

O Euclides enrola cigarros porque não tem dinheiro para pacotes. Ele não fuma tanto quanto isso, é mais para matar o tédio, mas ainda assim o pai faz pressão para que corte no hábito. Um homem que não vê o filho há dezoito anos porque não pode pagar a viagem torna-se presa fácil para chamadas de atenção à moral. Mas eu estive com o Euclides nas horas de melancolia. Para quase toda a gente no bairro Clemente Vicente, partir é o outro nome da felicidade. “Para Santiago”, diz. “Plantar batatas?”, pergunto eu. “Plantar batatas”, ri-se. “E tu tens de ir também”.

Masterchef (USA)

por jpt, em 29.05.13

 

O nosso pacote tvcabo inclui 5 canais portugueses. Não é resmunguice minha mas são pobres. Não tanto (ou só) em conteúdo mas em estilo. Decerto que por causa dos custos a televisão portuguesa radializou-se, abundam os programas de conversa. Ou seja, basta um cenário mais ou menos pobre por detrás de uns convidados, cíclicos ou residentes, que vão falando. Seja no velho modelo dominical "Júlio Isidro", que reina nas manhãs mas não só (numa das quais vi há tempos a nossa co-bloguista Helena Sacadura Cabral ladeando o grande Mário Zambujal, e nisso suspendi a minha malevolência menosprezadora). Ou na mera conversa de painel, versão sisuda de cariz denunciatório (Medina Carreira, Rui Santos, etc.) muito apropriada ao estado de espírito popular, ou versão engraçadista, exemplo da qual vi há dias o falado "Governo Sombra", pungente programa com Araújo Pereira e Pedro Mexia, onde os tipos mandam umas bocas saídas do "achismo" e se riem das piadas próprias, falha primeva de qualquer humorista ou a isso candidato. Enfim, no meio disto ao longo dos anos fui deixando de ver tv portuguesa, até porque nem sou grande consumidor dos produtos tv. Se calhar até perdendo algum programa interessante.

 

Mas de quando em vez encanto-me na televisão. Aconteceu-me há algum tempo com Boston Legal, então repetido e que não conhecera antes. E agora, por razões bem diversas, ando a seguir o Masterchef (USA), porventura também uma repetição no canal Fox. E sigo-o tão afincadamente que até a mim me surpreendo. Não sou um bom garfo, contrariamente ao que a minha barriga filha do sofá e das teclas (e de alguma cerveja) anunciará. E na cozinha nada percebo nem faço, para além de ocasionais ovos mexidos e uma ou outra lata de atum a misturar com Hellmann's. O que me prende ao Masterchef é outra coisa. É mesmo acompanhar como de um assunto aparentemente nada visual, isso de juntar uns tipos diante de uns fogões e fazê-los cozinhar algo que nunca comeremos (nem cheiraremos), e como tal nada atractivo para TV, se faz um trepidante e entusiasmante programa, cheio de expectativa, ritmo, suspense, humor e emoção. Tudo saborosíssimo, de fazer crescer água na boca.

 

Será uma produção muito cara? Aparentemente nem tanto, pelo menos em termos comparativos com tantas outras. E é com toda a certeza uma prova que há imensos, e até inesperados, assuntos sobre os quais se pode telefazer. Precisando-se de alguma imaginação. E, acima de tudo, de técnica narrativa. A qual parece mesmo ser o grande défice na tv portuguesa. Isso do não saber como ...

Falta de responsabilidade

por João André, em 29.05.13

Quer eu concorde com as afirmações de Soares quer não (e até me parece que politicamente têm uma certa lógica), a verdade é que este tipo de acusações, dirigidas a ambos os partidos do governo (um por chantagear, outro por ser chantageado) não podem passar completamente em branco. É verdade que Soares tem o direito de dizer as asneiras que quiser, mas como antigo presidente e membro do conselho de estado, tem que mostrar mais responsabilidade.

Sem petróleo não há invasão, mas...

por João André, em 29.05.13

A UE e os EUA descobriram finalmente como fazer dinheiro com o conflito sírio. Acaba-se com o embargo aos rebeldes para lhes vender armas. A Rússia e a China fazem o mesmo a Hassad. Entra-se numa bola de neve onde o conflito se prolonga, necessitando sempre de mais armas e os cifrões vão crescendo. Se os rebeldes vencem, ganha-se dinheiro e um aliado. Se Hassad vence pelo menos fez-se dinheiro. Se o conflito se prolonga, muito dinheiro entrará. Que final feliz.

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Cortar sem pensar

por João André, em 29.05.13

Desde 1993 - ano em que entrei para a universidade - que ouço falar disto. Ou melhor, que presto atenção a este assunto (provavelmente é muito mais antigo). As universidades oferecem cursos sem interessados que acabam com uns 2 ou 3 gatos pingados a cada ano. Alguns deles foram sendo descontinuados (adoro este termo) e outros foram continuados à força de duas ou três pessoas por ano. Em Coimbra, o caso paradigmático era engenharia de minas, com a qual a AAC tinha frequentemente de gerir o interesse dos estudantes (não queriam que o curso acabasse) e da universidade (desperdício de recursos).

 

No passado, como a notícia esclarece, já se tinha cortado o financiamento a cursos com menos de 20 inscritos (pessoalmente parece-me um número baixo). Agora o governo decidiu mesmo acabar com os cursos com menos de 10 inscritos. Autonomia das universidades? Um termo giro.

 

Já os cursos e a necessidade de profissionais na área são ignorados. Não conheço todos os casos e admito que a maioria seja de cursos que, de facto, não tem saída. Algumas áreas haverá, no entanto, que não necessitando de muitos profissionais por ano, vão necessitando de alguns. Volto à engenharia de minas: passados uns anos encontrei alguns engenheiros num encontro internacional. Explicaram-me que tinham frequentemente que pagar valores exorbitantes pelos poucos engenheiros de minas portugueses ou para trazer outros do estrangeiro. Não era para trabalhos de minas. Era para construção de pontes, túneis, edifícios, estradas, etc. Não eram necessários muitos por ano, explicaram-me, mas havia necessidade deles.

 

E é isso que, mais uma vez, o Governo (e aqui falo do Governo em geral, não só deste) volta a falhar. Não há uma ideia real para o ensino superior em Portugal. Ao invés de fechar a maioria desses cursos mas mantê-los abertos em menos universidades, para continuar a fornecer estes profissionais, o Governo fecha. Contenção de gastos e cobrança de propinas, é a palavra de ordem. Uma visão, boa ou má, é aquilo que nunca aparece.

 

Voltarei a este assunto numa série de posts que ando a escrever.

Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 29.05.13

 

Contracorpo, de Patrícia Reis

(edição D. Quixote, 2013)

As canções do século (1245)

por Pedro Correia, em 29.05.13

Resistência activa ao aborto ortográfico (74)

por Pedro Correia, em 28.05.13

 

Associação dos Estudantes do Instituto Superior Técnico

 

Os sonâmbulos

por Luís Menezes Leitão, em 28.05.13

 

Acho que nunca uma capa do Economist teve uma imagem tão violenta como esta. Mas a seriedade da crise do euro justifica-a plenamente. Os líderes europeus parecem de facto um grupo de sonâmbulos caminhando para o abismo, insensíveis a tudo o que se passa à sua volta. Mas o mais chocante na imagem nem é o passo decidido dos que caminham à frente, liderados por Merkel e Draghi. O que mais me perturba é ver no canto direito Durão Barroso e Passos Coelho, irmanados e cabisbaixos, seguindo os líderes do grupo como cordeiros no caminho do suicídio.

 

Neste momento, a situação do nosso país é objecto de comentário à escala mundial, com Paul Krugman a dar Portugal como exemplo de um pesadelo económico-financeiro. Mas imagine-se o que perturba o nosso Ministro das Finanças? O facto de os jornalistas terem dirigido uma pergunta ao Presidente do Eurogrupo e não a ele. Efectivamente só pode ser de sonambulismo que estamos a falar.

 

Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 28.05.13

 

Servidões, de Herberto Helder

(edição Assírio & Alvim, 2013)

O Prémio Camões para Mia Couto

por jpt, em 28.05.13

 

Sou um mau leitor de Mia Couto, transporto-me com dificuldade para a sua ficção. E gosto muito dos seus textos de opinião, pelo que diz, pela forma como o apresenta. E nesse âmbito não esqueço nunca o seu extraordinário texto, de sentimento e de coragem, até física, lido no funeral do jornalista Carlos Cardoso, assassinado em 2000. Que mais me fez admirar o homem ali, sempre gentil no seu jeito muito próprio, para além do escritor afamado, reconhecido. E sempre amado pelos leitores, um tipo que não precisa de confrontar quem o aprecia, sinal de grandeza.

 

Neste agora em que lhe é atribuído o Prémio Camões deixo um poema que lhe foi dedicado: 

 

 

Praia do Savane

 

Tu apenas tu e rodeando-te

a imensidão do mar

e a savana imensa

e o céu abrindo e fechando

todo o horizonte à sua volta.

 

O bramido oceânico

e o fundo silêncio da savana.

E a solidão a solidão

e as aves marinhas

confirmando a solidão ...

 

Livre te sentes é verdade

mas também perdido

e inútil esta liberdade

Adão que és agora ínfimo

desolado e inquieto

contemplando o mar perplexo

contemplando-o como se as ondas

te pudessem decifrar o mistério

desta absurda criação

de deserto de mar e de terra

de silêncio de vento e de aves ...

 

[Fernando Couto, 1985, em "Monódia"]

 

 

E ocorre-me repetir o conteúdo de um postal colocado há dois anos, mostrando "as capas nas estantes cá de casa. Até para conferir(mos) o que falta ...", que então coloquei exactamente quando tive conhecimento da formação de um grupo dos seus leitores que apelavam a que se lhe atribuísse o "Camões".  

 

 

[Cada Homem é Uma Raça, Caminho, 1990]

[A Chuva Pasmada, Ndjira]

[Contos do Nascer da Terra, Ndjira, 1997]

[Estórias Abensonhadas, Ndjira, 2ª edição, 1997 (1994). Ilustrações de João Nasi Pereira]

[Ilha da Inhaca. Mitos e Lendas na Gestão Tradicional de Recursos Naturais, Impacto, 2001. Coordenação de Mia Couto]

[Idades Cidades Divindades, Ndjira, 2007]

[Jesusálem, Ndjira, 2009]

[Mar me quer, Ndjira, 1998]

[Na Berma de Nenhuma Estrada e outros contos, Ndjira, 2001]

[O Fio das Missangas, Ndjira, 2004]

[O País do Queixa-Andar, Ndjira, 2003]

[O Último Vôo do Flamingo, Ndjira, 2000]

[E se Obama Fosse Africano? e Outras Intervenções, Caminho, 2ª edição, 2009]

[O Pátio das Sombras, Escola Portuguesa de Moçambique/Fundació Contes pel Món, 2009. Desenhos de Malangatana]

[Pensando Igual, Moçambique Editora, 2005 (com Moacyr Scliar e Alberto da Costa Silva]

[Pensatempos. Textos de Opinião, Ndjira, 2005]

[Raíz de Orvalho e Outros Poemas, Ndjira, 2ª edição, 1999 (1983)]

[Terra Sonâmbula, Ndjira, 1996]

[Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra, Ndjira,  2ª edição, 2002]

[A Varanda do Frangipani, Caminho, 1996]

[Venenos de Deus Remédios do Diabo, Ndjira, 2008]

[Vinte e Zinco, Ndjira, 1999]

[A Confissão da Leoa, Caminho, 2012]

 

(postal também colocado, em versão algo diferente, no ma-schamba)

Parabéns!

por Ana Vidal, em 28.05.13

 

A Mia Couto, que acaba de ganhar o prémio Camões. É actualmente um dos meus escritores preferidos de língua portuguesa e o único (repito, o único) que me leva ao sacrifício de ler um livro escrito em acordês. Porquê? Porque, simplesmente, pior do que isso seria não poder lê-lo. Mas é pena que tenha cedido ao AO e ao enganador argumento da uniformização do português. Logo ele, que tem um vocabulário tão próprio e por isso contribui de forma tão expressiva para a diversidade da nossa língua.

As canções do século (1244)

por Pedro Correia, em 28.05.13

A Feira do Livro

por Helena Sacadura Cabral, em 27.05.13
Vencendo a intempérie do clima em Lisboa, lá estive na Feira do Livro na sexta, sábado e Domingo e lá estarei todos os próximos fins de semana, à excepção do 8 de Junho, em que irei ao Porto receber um prémio.
Muita gente me pergunta porque é que ali estou tantos dias, quando se sabe que é uma tarefa cansativa, sobretudo para quem, como eu, trabalha com três editoras. Respondo sempre que é o mínimo que eu posso fazer por quem compra os meus livros e vai àquele espaço para me ver e dar um abraço.
De um ponto de vista pessoal, quem publica deve ter uma componente de proximidade e de acessibilidade face aos seus leitores. Eu sei que os "intelectuais" não pensam assim e até há muitos que nunca foram à Feira. Mas eu não sou intelectual, não escrevo para intelectuais. Sou, sim, alguém que tem prazer em partilhar "estórias" e pedaços de si com aqueles que se identificam com as suas palavras. Por isso, estar com essas pessoas e conversar um bocadinho com elas, é uma forma humanizada de lhes dizer "muito obrigada"!

O que torto nasce nunca se endireita

por Pedro Correia, em 27.05.13
Numa semana de Outubro de 1990, dúzia e meia de sábios iluminados reuniram-se no velho edifício da Academia das Ciências de Lisboa para mudarem a ortografia de uma língua falada por mais de 200 milhões de pessoas. Foi assim, neste ambiente de secretismo, quando não havia nenhuma demanda social para esse efeito, que nasceu o acordo ortográfico.
Nasceu torto. E, como diz o povo, o que torto nasce tarde ou nunca se endireita. O acordo nasceu torto desde logo por ignorar a esmagadora maioria dos pareceres técnico-científicos sobre a matéria. Foram produzidas notáveis peças de análise crítica por parte de escritores, professores, linguistas - e todas acabaram no fundo de uma gaveta, olimpicamente ignoradas. O poder político fez tábua rasa dos alertas da comunidade científica - não só portuguesa mas também brasileira - que advertiam para as suas inúmeras deficiências técnicas, para as suas incongruências conceptuais, para os seus clamorosos erros.
Temos, portanto, um acordo que quase ninguém defende, que quase ninguém respeita, que quase ninguém aplica na íntegra. O Presidente da República, que o promulgou, confessa numa entrevista que em casa continua a escrever como aprendeu na escola. O Ministro da Educação, que o faz aplicar no sistema lectivo, admite que não gosta de mudar a maneira de escrever. O secretário de Estado que o assinou em nome do Governo português continua a escrever, em blogues e jornais, na correcta grafia anterior ao convénio de 1990.

Este acordo pretendia unificar o nosso idioma, na sua versão escrita, mas acabou por consagrar grafias diferentes. Hoje o Estado angolano, por exemplo, tem uma grafia diferente da do Estado português. E este, por sua vez, acolheu como boas mais de 200 novas palavras que passam a ser escritas de forma diferente entre Portugal e o Brasil. Palavras como recepção ou excepção, que viram cair o p nos documentos oficiais portugueses, enquanto mantêm o p que sempre tiveram no documentos oficiais brasileiros.
Entre nós, em resultado das chamadas "facultatividades" reconhecidas pelo acordo, vai-se abolindo o carácter normativo da escrita, dando lugar a uma espécie de ortografia à la carte, ao sabor da subjectividade de cada um. Assim é possível ver órgãos de informação pertencentes ao mesmo grupo editorial escreverem nuns casos sector, com c, e noutros setor, sem c. Há jornais que adoptaram o acordo, mas adiantando desde logo várias excepções à regra, continuando por exemplo a pôr acento na palavra pára. Ainda há dias, a propósito da co-adopção, registámos quatro grafias diferentes desta palavra: com p e sem p, com hífen e sem hífen.
E porque não haverá de se instalar a confusão geral na escrita jornalística se ela impera no próprio Diário da República, onde já foram consagradas na letra da lei expressões como fato ilícito ou união de fato?
 
O acordo acabou por conduzir, portanto, ao caos ortográfico.
O que fazer?
Aquilo que deve ser feito quando alguma coisa não está bem: mudá-la.
Deve ser constituída sem demora uma comissão de revisão do acordo, com carácter muito alargado e reunindo especialistas dos mais diversos saberes, de modo a produzir um dicionário ortográfico e regras claras, que não violem a etimologia das palavras, como no absurdo espetador em vez de espectador, e não separem famílias lexicais, como na frase «há egiptólogos no Egito».
Enquanto não houver essa revisão profunda e enquanto não for produzido esse dicionário, o acordo deve ser suspenso. E naturalmente a sua aplicação obrigatória, prevista para 2016, deve ser adiada, como aliás o Brasil já fez.

 

Alguém me perguntava há dias por que motivo não se ouvem as vozes dos defensores do acordo.
A resposta é simples: essas vozes não se ouvem porque os defensores deste acordo são em número muito diminuto. Basta folhearmos livros que vão sendo publicados, de escritores das mais diversas tendências, das mais diversas escolas estéticas e de todas as gerações para se perceber que fazem questão em escrever estas suas obras na ortografia anterior ao acordo ortográfico de 1990. Isto sucede não apenas com escritores portugueses: ainda agora foi editado um livro póstumo de Antonio Tabucchi, intitulado Viagens e Outras Viagens. Lá vem a advertência, na ficha técnica: «Por vontade expressa dos herdeiros do autor, a tradução respeita a ortografia anterior ao actual acordo ortográfico.»
O mesmo sucede nos jornais: mesmo naqueles que aplicam o acordo, aliás cada qual a seu modo, não faltam colunistas e articulistas que insistem em escrever na ortografia pré-AO.
Em todos os sectores da sociedade portuguesa a rejeição das normas acordísticas é claríssima. E maior seria ainda se não houvesse a imposição de adoptá-las na administração pública, incluindo nas escolas, onde são largos milhares os professores que se opõem às regras ortográficas emanadas do AO. A estes professores, tal como a todos os utentes qualificados da língua portuguesa, o poder político tem a estrita obrigação de reconhecer e garantir o estatuto de objecção de consciência.
 
Vou terminar. Mas antes gostaria de contar um episódio que protagonizei e do qual me lembro sempre que ouço alguns dizerem que não vale a pena discutir o acordo por ele ser irreversível. Já tenho anos suficientes para ter visto enterrar muitas coisas consideradas irreversíveis. Em 1984, estava eu no início da minha carreira jornalística, escrevi uma carta aberta a José Ramos-Horta que terminava assim: «Um dia hei-de abraçá-lo num Timor livre e independente.» O jornal onde eu trabalhava tinha uma linha editorial de apoio à integração de Timor na Indonésia precisamente por a considerar irreversível.
Afinal não era irreversível. E vinte anos depois dessa carta aberta, em 2004, pude abraçar de facto Ramos-Horta - já então galardoado com o Nobel da Paz e exercendo as funções de primeiro-ministro do seu país, num Timor livre e independente.
Os timorenses souberam resistir.
Nós devemos continuar a resistir também. Em nome daquilo em que acreditamos. Por isso dedico este livro à minha filha Joana, aqui presente. Porque nós, os mais velhos, somos fiéis depositários de valores culturais que temos o dever de legar às gerações futuras. E nenhum valor cultural é tão nobre e tão inestimável como a nossa língua.
 
Texto lido na apresentação do meu livro, dia 21, em Lisboa.

1. A Jorge Jesus, no Benfica, é pedido muito mais que o mero papel de treinador e gestor de recursos humanos, é pedido o papel de criador e valorizador de activos, activos esses que são alienados para enfrentar o passivo do clube. Não fosse isto e o Benfica podia, como fazem outros grandes da Europa, acumular no plantel valores como os vendidos nos últimos anos, e que dariam uma dimensão desportiva diferente pela antiguidade e desempenho técnico.

2. Ao analisar esta época, recuando a Setembro, tempo da venda de Witsel e Javi Garcia e lesões de Pablo Aimar e Carlos Martins, exercício que poucos analistas fazem, o que estranho não é o Benfica ter perdido três finais, é o facto de, perante os meios disponíveis e gestão seguida, lá ter conseguido chegar.

3. Vejamos, à entrada para a época desportiva 2012/13 o Benfica fez €71,49M em vendas e investiu €26M em aquisições. Mais uma vez o património desportivo do clube foi delapidado, com as vendas de Witsel e Javi Garcia, como sucedeu nas épocas anteriores. Nem assim, o Benfica deixa de, 9 meses volvidos, ter mais uma série de nomes cobiçados pelo mercado, como Garay, Matic, Enzo Perez ou Nico Gaitán, que prometem encaixe financeiro semelhante. 

4. Especialmente grave foi a oportunidade em que se desinvestiu este ano. Witsel e Javi Garcia são vendidos à segunda jornada, depois de toda uma pré-época trabalhada à volta de um meio campo composto por eles. Mais, quando o plantel parecia tornar-se curto, Bruno César e Nolito são dispensados em Janeiro, para reduzir custos. Em qualquer destes quatro caso não é feita qualquer contratação para suprir lacunas. Acresce a isto as indisponibilidades de Carlos Martins e Pablo Aimar, meio campo da época anterior e de Luisão, capitão e líder da equipa.

5. Nunca, desde que me lembro de ser gente, vi o Benfica jogar tão bom futebol e dar tanta luta na conquista das competições. Eu não sou da geração que viveu nas épocas de glória, sou da geração que só viveu vitórias dos adversários, e nunca o Benfica esteve tão perto de as quebrar. Se hoje assim é, deve-se a alguma visão estratégia de quem dirige, e a um grande gestor de activos e recursos humanos, que pratica autênticos milagres: Jorge Jesus. 

Se algo estiver errado no Benfica actual não é o treinador, é a estratégia da Direcção. É o atirar de areia para os olhos dos associados, com objectivos que contrariam a gestão praticada. É o momento absolutamente danoso em que são tomadas as decisões desportivas, privando o plantel de jogadores fulcrais com as épocas em curso, como aconteceu com todos os principais, à excepção de Di Maria e Coentrão. O Benfica não pode ser Campeão Nacional, muito menos Europeu, com esta estratégia, o triplete que este ano esteve quase a acontecer deve-se apenas ao facto de contar com um dos grandes treinadores da Europa nas suas fileiras. É importante que assim continue a ser.

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Bandeira de Papel

por Bandeira, em 27.05.13

José Bandeira
José Bandeira/DN

Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 27.05.13

 

Crónicas de Anos de Chumbo (2008-2013), de Eduardo Paz Ferreira

(edição 70, 2013)

As canções do século (1243)

por Pedro Correia, em 27.05.13

E o burro sou eu?

por Rui Rocha, em 26.05.13



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    156. D