Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Tu, que tens por mapa o firmamento

por Laura Ramos, em 28.04.13

Coisas da Ana Vidal

O estado do comentário político em Portugal

por José Gomes André, em 28.04.13

"Eu acho que..."

 

Como bem dizia o saudoso Gore Vidal, "the major problem of our time, is that everyone has an opinion, but nobody has a thought".

Os comentários da semana

por Pedro Correia, em 28.04.13

«Somos um país de gente invejosa - e minada por uma desconfiança campónia.
Arrependermo-nos ou percebermos anos depois é pouco relevante: o que é preciso é abandonar o pé atrás (que não a inteligência) e o medo, precisamos de boas e limpas primeiras impressões. Das outras está o inferno cheio.»

Do nosso leitor FGH. A propósito deste texto da Gui Abreu de Lima.

 

«O “nosso” 25 de Abril foi o termos crescido como crescemos. Confunde-se, identifica-se, em grande medida, com a forma como vivemos a nossa adolescência e nos tornámos adultos. É isso. Quero fazer uma confissão, encorajada pela troca de comentários a este post... Sinto-me muito triste por verificar que não há espaço para alguém como eu comemorar o 25 de Abril, o facto de ter vivido o que viveu, como viveu. E não há espaço - leia-se em qualquer comemoração oficial, promovida por qualquer quadrante político - porque toda a celebração faz parte de uma agenda política actual à qual estou alheia. Restam algumas pessoas avulsas com quem uma verdadeira e autêntica celebração possa ser feita. Sob reflexão, talvez seja melhor não me sentir triste com isto. Faz parte da natureza das coisas. E é preciso aprender a viver com aquilo que não se pode mudar. Se é que alguém pode deixar de se sentir triste por verificar sob reflexão que é inútil sentir-se triste!»

Da nossa leitora Adriana Silva Graça. A propósito deste texto do José Navarro de Andrade.

As canções do século (1214)

por Pedro Correia, em 28.04.13

Abram alas pró Nódoa

por Rui Rocha, em 27.04.13

 

Quando se pensa um pouco nisso, o Congresso do PS bem pode ser uma versão piorada de uma conhecida série infantil. Ana Gomes é a Macaca Marta, sempre desbocada e pronta a pregar partidas. A Maria de Belém fica bem o papel de Ursa Teresa, muita amiguinha de Seguro e de Sócrates e deste e daquele e daqueloutro. Edite Estrela é a Gata Rosa, sim, um nadinha vaidosa. O Mafarrico desta vez não apareceu, embora haja quem diga que o viu a espreitar atrás dos arbustos. Deve estar a preparar o comentário de amanhã, na televisão. O Sonso, Pedro Silva Pereira, é que não faltou. Vi-o ainda há pouco a conversar com aquele que é agora o melhor amigo do líder, nem mais nem menos do que António Costa, que acabou por aceitar o papel de Orelhas. Por casa ficou o paquiderme Senhor Volumoso, o paizinho do regime. Nos últimos tempos tem andado de trombas. O Turbulento, João Galamba, não pára um segundo. Ele é entrevistas, é twitter, é o camandro. Andou apagadote por alturas da visita do Krugman a Lisboa, mas já se recuperou e agora é um virote. Em termos de declarações de João Galamba, está na hora de estimular a procura pois vivemos tempos de excesso de oferta. O Urso Rechonchudo, Francisco Assis, estava ainda agora sentado ao lado de Carlos Zorrinho, o Senhor Sempre em Pé, e de Almeida Santos, o Rato Relojoeiro. Todos ficaram muito animados quando ouviram falar o Tó Zé, o boneco de madeira. No fim, cantaram a plenos pulmões o Abram Alas pró Nódoa. Depois, entraram no seu carro amarelo. O Nódoa é o taxista de serviço. Enquanto for abanando o guizo, vão deixá-lo conduzi-los até ao poder. Mas, no fundo, cada um deles tem o seu próprio destino. O PS é isto. E Portugal é a cidade dos brinquedos.

António Ramos Rosa

por Patrícia Reis, em 27.04.13
Quem escreve

Quem escreve quer morrer, quer renascer
num ébrio barco de calma confiança.
Quem escreve quer dormir em ombros matinais
e na boca das coisas ser lágrima animal
ou o sorriso da árvore.
Quem escreve quer ser terra sobre terra,
solidão adorada, resplandecente, odor de morte
e o rumor do sol, a sede da serpente,
o sopro sobre o muro, as pedras sem caminho,
o negro meio-dia sobre os olhos.

Tags:

Fotografias tiradas por aí (127)

por José António Abreu, em 27.04.13

 Porto, 2013.

Europe - The Final Cut Down

por Rui Rocha, em 27.04.13

Tags:

O pesadelo espanhol

por Pedro Correia, em 27.04.13

 

Olhemos para Espanha, nosso principal parceiro económico: como vão ali as coisas? Piores que nunca: 6.202.700 desempregados, segundo as estatísticas oficiais referentes ao primeiro trimestre de 2013 - isto é, 27% da população activa.

Seis em cada dez jovens não encontram trabalho: há hoje 2,8 milhões de espanhóis com menos de 30 anos sem emprego - números correspondentes a 57% do total. Em cinco comunidades autónomas, duas das quais fronteiras com Portugal, a taxa de desemprego ultrapassa 30%: Andaluzia com 36,87%, Extremadura com 35,56%, Canárias com 34,27%, Castela-La Mancha com 31,51% e Múrcia com 30,37%.

Há na Andaluzia já mais desempregados do que em toda a Grécia. A nível provincial, o recorde vai para Cádis, também na Andaluzia: 42% de desempregados.

 

Desde que começou a crise, em Agosto de 2007, o flagelo do desemprego passou a atingir mais 4.410.800 pessoas, o equivalente à população somada da Extremadura, Baleares, Aragão e Astúrias, e foram destruídos quase 3,2 milhões de postos de trabalho só no sector privado. Desde que o anterior primeiro-ministro, Zapatero, deu lugar a Mariano Rajoy desapareceram 1.117.800 - à média de 2579 por dia e 107 por hora. E o Governo já admite que a situação não será invertida durante a actual legislatura, iniciada em Dezembro de 2011.

 

Restam hoje apenas 16,6 milhões de empregos, enquanto no terceiro trimestre de 2007 havia 20,5 milhões. E, dos que restam, há muitos precários: 15% dos espanhóis ainda empregados recebem à hora. A noção de precariedade dos postos de trabalho consolida-se a cada dia que passa, multiplicando los lunes al sol, título de um perturbante filme de 2002, espantosamente visionário.

Outro registo muito preocupante: a soma dos desempregados e pensionistas (15 milhões) está extremamente próxima do número daqueles que ainda têm emprego (16,2 milhões). Nunca esta diferença foi tão reduzida.

Pior: existem 1,9 milhões de lares espanhóis em que todos os seus membros estão sem trabalho remunerado.

Pior ainda: nos últimos seis meses deixaram de existir 80.200 lares - algo nunca antes registado nesta escala. "A crise tem reagrupado as famílias", noticia o diário El Mundo, que tinha uma manchete bem expressiva na sua edição de ontem: "O recorde da vergonha".

 

São números aterradores, espelho fiel de uma receita que falhou. Prossegui-la é desembocar no desastre: como Santiago González escreve na sua coluna de hoje, também no El Mundo, Hitler chegou ao poder precisamente quando a Alemanha acabara de ultrapassar a cifra dos seis milhões de desempregados.

Manter esta receita é fomentar a revolta daqueles que, sem nada, estão dispostos a tudo. Atribuir-lhe a caução de instituições como a União Europeia e o Banco Central Europeu é implodir o projecto europeu, condenando-o a um irremediável fracasso - e fazer a Europa recuar 80 anos. À década de 30, precisamente. Lembrem-se do que ocorreu em Espanha nesse período de má memória: uma guerra civil com um saldo sangrento de mais de 600 mil mortos. O franquismo acabou por conduzir ao pleno emprego, mas à custa da asfixia de todas as liberdades essenciais e de movimentações maciças de espanhóis para os destinos da emigração, com destaque para a França, a Alemanha e a América Latina.

Jean-Claude Juncker bem avisou, recentemente: os piores fantasmas da História podem sempre voltar.

 

Imagem: fotograma do filme Segundas-Feiras ao Sol (2002), de Fernando León de Aranoa, com Javier Bardem e Luis Tosar

As canções do século (1213)

por Pedro Correia, em 27.04.13

Cry me a river, Argentina

por Rui Rocha, em 26.04.13

A Argentina kirchnerista das estatísticas manipuladas, da inflação martelada, em todo o seu esplendor. Uma entrevista lamentável do ministro da economia e finanças públicas Hernán Lorenzino que acaba por pedir a sua interrupção com a frase: me quiero ir.

 

muito bom

por Patrícia Reis, em 26.04.13

Tags:

Bandeira de Papel

por Bandeira, em 26.04.13

José Bandeira/DN
José Bandeira/DN

Ao trigésimo nono ano da nossa era

por José Navarro de Andrade, em 26.04.13

Jantámos a comemorar mais do que o 25 de Abril, porque ainda somos do tempo em que. Apesar das crenças, deliberei que não era bem a data da “alvorada da liberdade” o que nos juntava, mas o que vivemos mais adiante, entre 78 e 82. Se não tivesse havido 25 de Abril nunca teríamos sido o que fomos na faculdade, nem teríamos feito coisas que, decorridas estas idades, não lamentamos nem renegamos, mas as guardamos com a imensa benevolência da maturidade.

O 25 de Abril, por mais que haja quem o incomplete em lamentos, o nosso foi afinal podermos ter crescido assim, foi terem-nos sido permitidas, pela confusa tolerância dos pais e pelo desnorte de costumes subitamente descomprimidos, todas as tropelias em que alegremente nos empenhámos. Queríamos mudar o mundo, e a verdade é que contribuímos para mudá-lo, mas não assim como pensávamos, porque foi em preservá-lo tal como o habitámos que o mudámos realmente.

Mas o melhor veio depois do jantar. A Xana abespinhou-se sem razão nenhuma – foi ela que pediu mais uma garrafa de vinho quando já queríamos desbancar – e acabou por não passar a meia-noite onde tanto desejava. Divagámos então por um Bairro Alto distante do nosso dos anos 80, porque cresceu desmesuradamente e já não é o secreto esconderijo da irreverência. Um belíssimo Bairro Alto, digo eu agora, território franco, sem exigir certificado de memória nem teste de consciência, para que nele possam beber, cantar na rua, sentar-se no passeio, todos a quem apetecer fazê-lo sem limite de autenticidade. E a multidão que entupia as ruas, essa gente quase toda mesmo quase toda, embora se calhar entre ela houvesse pais e mães de família, via-se pela míngua de rugas e grisalhadas que não tinha idade para vinte cincos de abris. Dele sabiam o que ouviram dizer e dele estavam tão distantes como da batalha de Aljubarrota, porque tudo o que sucedeu antes de nascermos é pano de fundo, não é existência.

E foi essa a felicidade que me acometeu nessa noite: o 25 de Abril é de todos – juro que não haverá melhor maneira de celebrar o 25 de Abril senão a de tomá-lo como óbvio, como parte da natureza das coisas.

Ao nervo, ao osso e à alma

por Pedro Correia, em 26.04.13

Este é um livro que eu gostaria de ter escrito. Um livro que nos devolve ao convívio com algumas das mais fascinantes personagens da literatura portuguesa. Um livro que não se confina ao chamado cânone consagrado, recuperando obras e autores que costumam estar arredados da análise crítica, condenados à pior das marginalizações - a que opera através do silêncio.

Guia para 50 Personagens da Ficção Portuguesa, de Bruno Vieira Amaral, é um livro de quem gosta de ler e de quem sabe ler. "Não há nenhuma fórmula para os grandes livros e não há nenhuma fórmula para as grandes personagens. O efeito de uma personagem sobre o leitor depende, por vezes, de minúsculos pontos de ligação que criam empatia, que facilitam a tarefa de imaginar como será aquela vida", assinala o autor na nota introdutória.

Estamos no reino da ficção, mas convictos de que esta se entrelaça muitas vezes com o real, enquanto testemunho de uma época ou reflexo de um avassalador impulso existencial. À semelhança do que Steiner disse sobre Hamlet, como sublinha também Vieira Amaral, "as grandes personagens de ficção são mais reais do que nós".

Partilhei inesquecíveis horas da minha vida com algumas delas que aqui reencontro de forma inesperada - e, até por isso, ainda mais gratificante. A dilacerada Clarisse de Domingo à Tarde (Fernando Namora, 1961), recriada por Isabel de Castro na magnífica adaptação cinematográfica de António de Macedo, expoente do efémero 'Cinema Novo'. A irresistível Léah, do conto homónimo de José Rodrigues Miguéis, um dos meus autores de eleição, tão injustamente esquecido. A esfuziante Madalena d' A Morgadinha dos Canaviais (Júlio Dinis, 1868). Há quanto tempo as não via...

 

Desfilam aqui algumas das personagens consideradas obrigatórias da literatura portuguesa - a Joaninha dos olhos verdes, d' As Viagens na Minha Terra (Almeida Garrett, 1846), Tomás Manuel da Palma Bravo, o Delfim (José Cardoso Pires, 1968) e o par Baltasar Sete-Sóis/Blimunda Sete-Luas, do Memorial do Convento (José Saramago, 1982). Mas também - e a justificar aplauso - o Benito Prada, de Fernando Assis Pacheco (1993), o Viriato, de João Aguiar (A Voz dos Deuses, 1984), o Rapaz, de Dinis Machado (O Que Diz Molero, 1977), e o inapagável Gineto, de Soeiro Pereira Gomes, um dos melhores retratos infantis da nossa ficção (Esteiros, 1941).

Adivinharam, certamente: o escritor aqui mais representado é Eça de Queirós. Com o padre Amaro, João da Ega, o Raposão d' A Relíquia e esse prodígio digno de figurar no quadro de honra das figuras literárias portuguesas que é a eterna criada Juliana, d' O Primo Basílio (1878). Cardoso Pires, Júlio Dinis e Camilo Castelo Branco surgem representados com duas obras cada. E há vários autores já do século XXI: Dulce Maria Cardoso (O Retorno, 2011), Miguel Real (A Ministra, 2009), Ricardo Adolfo (Mizé: Antes Galdéria do que Normal e Remediada, 2006), Miguel Sousa Tavares (Equador, 2003) e Francisco José Viegas (Um Crime Capital, 2001), por exemplo.

O desfile não surge por ordem alfabética ou cronológica, como eu teria preferido, até para efeitos de consulta recorrente, e há lapsos muito ocasionais que poderão ser corrigidos em edições posteriores - Mau Tempo no Canal, de Vitorino Nemésio, surgiu em 1944 e não em 1949, a obra mais antiga aqui representada é Eurico, o Presbítero (Alexandre Herculano, 1844) e não Viagens na Minha Terra. Mas é notável a capacidade de inclusão revelada por Bruno Vieira Amaral, crítico literário que foi conquistando leitores em blogues como Circo da Lama e acaba de estrear Atentado ao Pudor - prova evidente de que a blogosfera, ao contrário do que alguns juram, também pode ser um viveiro de talentos.

 

Proeza digna de registo é igualmente o modo como o autor, de forma subtil mas inegável, adapta o seu próprio estilo ao dos escritores nas personagens que destaca. Isso é evidente, para mim, nas notas sobre António Malhadinhas (Aquilino Ribeiro, 1922), o Calisto Elói, d' A Queda dum Anjo (Camilo, 1866), a Quina, de Agustina (A Sibila, 1954), e o Ricardo Reis, de Saramago (1984), entre outros.

E não há aqui romancistas "menores": todos são maiores na capacidade de inventar figuras capazes de perdurar na memória de quem lê. Este é um dos méritos mais evidentes de um livro que nos envia ao reencontro de Clara Pinto Correia (Adeus, Princesa, 1985), Mário Zambujal (Crónica dos Bons Malandros, 1980), Baptista-Bastos (Cão Velho Entre Flores, 1974) ou José Rentes de Carvalho (A Amante Holandesa, 2003).

Cada nota é sucinta, nunca excedendo duas páginas. Mas é também de uma precisão cirúrgica: Vieira Amaral consegue ir ao nervo, ao osso e à alma de cada personagem com louvável concisão e um requinte literário sem o qual esta resenha estaria condenada ao fracasso. Leiam as notas sobre Clara, d' Uma Abelha na Chuva (Carlos de Oliveira, 1953), Bento, da Seara de Vento (Manuel da Fonseca, 1958), e Tomás da Palma Bravo para confirmarem o que digo.

O título ilude: são afinal 55 personagens aqui retratadas - 50 de romance e apenas uma de conto (Léah). E quatro surgem emparelhadas (Y e Fernão, Renato e Marlene, Baltasar e Blimunda, Simão Botelho e Teresa de Albuquerque). Ainda assim, um número que acaba por nos saber a pouco. Em futuras edições talvez surjam outras. O Conde de Abranhos, Jacinto ou Dâmaso Salcede, da pena inesgotável de Eça. Eusébio Macário ou qualquer outra saída da imaginação trepidante de Camilo. O João Semana, d' As Pupilas do Senhor Reitor - tão marcante que até passou para o vocabulário comum como sinónimo de médico. O Barão, de Branquinho da Fonseca. O Mariano Paulo, de Casa na Duna (Carlos de Oliveira). O jovem seminarista António Lopes, de Manhã Submersa (Vergílio Ferreira). O Alberto d' A Selva (Ferreira de Castro). A Eva Lopo, d' A Costa dos Murmúrios (Lídia Jorge).

Tantas histórias que cada uma destas personagens nos narra. E tantas outras que nós pudemos viver através delas...

 

Guia para 50 Personagens da Ficção Portuguesa, de Bruno Vieira Amaral

Guerra & Paz, Lisboa, 2013. 229 pp.

"Gorduras do Estado" (76)

por Pedro Correia, em 26.04.13

Pórticos têm mais custos de manutenção do que receitas

Ontem, 25 de Abril

por jpt, em 26.04.13

 

Já é noite, avançada até, oito e tal, subo os corredores da faculdade para a última aula do dia. Vou como vou, a gripe voltou, a telha mantém-se, longa, ríspida, como sempre o é, neste amarfanhar do trapo. Pior, serão pormenores mas tanto moem, reparo agora que tenho uma enorme mancha na camisa, café decerto, mas não tenho tempo para me mudar, vou assim aparecer diante dos alunos, qual ogre abatido. Cruzo uma colega, saúda-me, arranjo alento - esse que falta quando só - para umas palavras sorridentes. Simpática, felicita-me pelo dia, "25 de Abril", lamenta-me, companheira, por não gozar o meu feriado, mas para logo mudar, como se até arrependida, "bem, mas para ti o 25 de Abril não é nada! tu não és disso!", qualquer coisa assim .... Fico gelado, transido, balbucio qualquer coisa como "então ...?", ou nem mesmo isso, e sigo trôpego para a sala, maçar quem me espera com qualquer coisa tão distante, umas quaisquer ideias de XIX, e antes de lá chegar ainda penso "que terei eu dito?, algum dia?, para ouvir isto?".
Depois regresso a casa, o jantar tardio das quintas-feiras d'agora. Enquanto os tachos reaquecem espreito o fb no portátil, muito 25 de Abril nos meus "amigos" dali. Entre o imenso "memeísmo" que dominou tudo aquilo, lá surge uma foto real das comemorações na minha Lisboa, impante lá está o bombista e assaltante, anos preso pelas malevolências e assassinato cometidos, para depois ser "amnistiado" por via de uma "absolvição", esta brotada daquele necessário irenismo reconciliatório dos anos 80s. Todo ele, gordo, encanecido, está ali qual também símbolo do 25 de Abril, e quem o ladeia enche blogs de democráticas aspirações. A este assassino os colegas não lhe questionam a democracia, que o folclore se globalizou, resmungo para mim.

Vou-me ao peixe, trago-o no tabuleiro e vejo um pouco as notícias portuguesas. Mais comemorações. Os jornalistas questionam os "populares" sobre o significado da data, e também algumas criancinhas, aperaltadas, vestidas a rigor, cheias de símbolos (a data é simpática, mas ninguém percebe o tétrico que é adornar as crianças para este tipo de situações, quais "anjinhos da democracia"?). Todos eles respondem da mesma forma, até os bem industriados petizes, o 25 de Abril representou a liberdade.

Sorrio. Nem um desses "donos" (e filhos de "donos") da data, da democracia, se lembra de falar na paz. Que a data significa a paz. A história pátria foi bem limpa ... Apetece-me enviar um sms à minha colega, mas ela não compreenderia. Nem o teor, nem a minha irritação. Que nem é com ela.

Depois surge um "não-popular", o cantor Carlos Mendes. Opina. Que  "o que se está a passar no país é indecente". E como tal é necessário um novo 25 de Abril! Isso mesmo: temos seis colónias, cheias de barreiras raciais (mesmo que os luso-tropicais afiancem que não, e nunca desistam de o lembrar); três guerras e dezenas de milhares de tipos a fazê-las, na esmagadora maioria sem perceberem para quê. Nelas, e também na metrópole (onde Carlos Mendes continua a cantar e vai opinando, sabe Deus com que coragem) temos as prisões cheias por delitos de opinião, mais a merda da censura. Temos o povo analfabetizado, pobre como o caraças, e mais no campo ainda, onde quase metade de nós se vai arrastando entre machambeiros, malteses e ratinhos, e nem falar da liberdade de associação, seja ela qual for, e mesmo a de culto, enfim esta com muito cuidadinho - nem de dessassociação, já agora, que nada de divórcio legal, não vá a gente meter-se com ideias. Eleições está visto, vota quem está nas listas, e depois no fim ainda vai tudo à "contagem". O Presidente, não o do Conselho, falo do da República, é fascista e da pide, dizem-me ainda no fb, e vários o fazem também com grande coragem. Tem razão o Carlos Mendes, e espero que o cante. A tropa tem que se revoltar, e o povo deve segui-la, a acabarem com este estado de coisas.

Passo de canal, para o Fenerbahce-Benfica, o Magdeburgo-Sporting de hoje.

Deve ter razão a minha colega. O meu feriado não é o mesmo deste cantor. Nem o do chefe das Brigate Rosse lusas. Fico mais sossegado e, imagine-se, desirrito-me. Pois a cada um o seu folclore.

É essa a democracia. O meu feriado. Ou, melhor, o meu folclore. 

 

(também colocado no ma-schamba)

Belles toujours

por Pedro Correia, em 26.04.13

 

Luciana Salazar

Tags:

As canções do século (1212)

por Pedro Correia, em 26.04.13

boa noite

por Patrícia Reis, em 26.04.13

Tags:



O nosso livro



Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.




Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2019
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2018
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2017
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2016
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2015
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2014
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2013
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2012
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2011
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2010
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2009
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D