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As canções do século (1095)

por Pedro Correia, em 30.12.12

Os melhores filmes de 2012 - parte 3

por José Navarro de Andrade, em 29.12.12

O povo português revelou-se o melhor activo de Portugal

Qualquer médico que vá à televisão predispõe-se a dizer coisas como “foi diagnosticada no paciente uma patologia de índole cutânea” só para complicar a frase “o doente tinha comichão”. Quando ele assim fala não é a nós leigos e abstractos que se dirige mas aos seus colegas de serviço que não o levariam a sério se se exprimisse doutro modo. Um dia numa viagem com um emérito gestor ele propôs que “consolidássemos as malas num dos quartos” antes de fazer check out no hotel. Pobre prisioneiro do seu linguajar, que já dele não se libertava mesmo em situações profanas.

A máxima em epígrafe, proferida com o crispado e possível enlevo, como o maior elogio ao seu alcance, é toda uma autópsia da mentalidade reduzidíssima do sr. Vítor Gaspar. Adeus ó personalismo cristão, sus ao humanismo existencialista, arreda-te ó cidadania iluminista; pela voz do Ministro passámos a existir meramente na coluna dos activos na folha de excel, como mais uma variável no cálculo.

 

STFU

por Leonor Barros, em 29.12.12

Um dos problemas do Sócrates, e eram alguns, era a sua arrogância. Ficou bem claro quando se aventurou numa língua que não era a sua e expôs ao mundo a incapacidade em comunicar em inglês e posteriormente em castelhano. Tendo tradutores/intérpretes ao seu dispor ter-nos-ia poupado a todos o vexame de ver o seu inqualificável discurso escarrapachado na página oficial da Casa Branca e, uma vez público este episódio de má memória, poderia ter-se calado. Poderia ter admitido que era um incapaz no que se refere a línguas estrangeiras e não reincidir. Como se sabe, era rapaz de convicções fortes também na asneira e humildade era uma entrada vazia no seu dicionário privado, como tal brindou-nos com aquele belo telefonema  ao seu querido e charmosíssimo Zapatero num portunhol manhoso mas sempre com ar convicto de galo fanfarrão. Nunca perder a face. Sócrates fazia-o muito bem. Ido o Sócrates o mundo respirou até uma coisa que foi eleita pelos portugueses para defender o povo da austeridade porque"o último pacote de austeridade não iria potenciar o crescimento mas impor sacrifícios inaceitáveis aos membros mais vulneráveis da sociedade. Eram demasiados impostos e uma redução de despesa insuficiente" ter-se dado ar de moderno e ter começado a usar o Facebook  para comunicar com os seus súbditos. Passou a assinar Pedro, Pedro e Laura, e diz que "muitas famílias não tiveram na Consoada os pratos que se habituaram e que "já nos sentámos em mesas em que a comida esticava para chegar a todos". Tamanha indigência linguística devia ser punida. Ao Sócrates ainda podiam valer os tradutores e intérpretes. A quem escreve assim na sua própria língua e que concomitantemente tem nas mãos os desígnios do país nada poderá valer. É tão hábil a dirigir o país como a escrever português. Que nos acudam os deuses e nos salvam destas coisas que ocupam as cadeiras do poder. Estamos fartos.

A escrita passoana

por Rui Rocha, em 29.12.12

Há muito tempo (diria, sem qualquer receio de errar, desde Fernando Pessoa) que não surgia em Portugal uma escrita que abrisse caminhos tão potencialmente fecundos ao nível da evolução linguística e, sobretudo, da riqueza psicológica. É certo que a erradicação do artigo definido (veja-se, a título de exemplo, a passagem Muitas famílias não tiveram na Consoada os pratos que se habituaram) constitui, só por si, uma proposta de ruptura com a norma que remete para um estado de desconstrução criativa que só admitimos aos que beberam as exclusivas águas da excepcionalidade e do génio. Não constitui, por isso, qualquer surpresa que logo nos ocorra que esta insurreição só encontra paralelo na rebeldia de Saramago contra os estreitos caminhos das regras de pontuação. Sublinhe-se, todavia, que ali onde Saramago rompia o cânone, era sobretudo uma questão de estilo, e como tal inconsequente do ponto de vista da língua portuguesa futura,  que se afirmava. Agora, estamos perante um abalo de outra ordem que poderá, logo veremos, rebentar definitivamente com o próprio edifício gramatical, abrindo uma infinidade de caminhos e possibilidades.  Todavia, devemos admitir que o traço fundamental de originalidade está sobretudo ali onde se revela uma superestrutura psíquica absolutamente inesperada. De facto, a literatura portuguesa, depois de ter proporcionado ao mundo a problemática nunca suficientemente estudada da unicidade e diversidade em Fernando Pessoa, colocando a multiplicidade dos heterónimos no centro de  um debate sempre inacabado, acaba de revelar o novo enigma da duplicidade de ortónimos em Pedro Passos Coelho. É este o desafio que o próprio primeiro-ministro nos lança quando afirma que nós não somos duas pessoas. Trata-de indubitavelmente de uma afirmação singular. Sobretudo porque é feita na primeira pessoa do plural.

Na morte de Paulo Rocha

por Pedro Correia, em 29.12.12

 

Era o amor

que chegava e partia

Estamos os dois

Era um calor

que arrefecia

sem antes nem depois.

Era um
segredo

sem ninguém para ouvir

eram enganos

e era o medo

a morte a rir

dos nossos verdes anos

 

Verdes Anos, de Pedro Tamen (para a música de Carlos Paredes)

O mundo é de quem o reinventa (101)

por Ana Vidal, em 29.12.12

As leituras do Pedro

por João Campos, em 29.12.12

Há alguns anos, gozou-se com o primeiro-ministro - muito justamente, aliás - a propósito de um livro da sua preferência, a misteriosa "Fenomenologia do Ser", atribuida de forma apócrifa, passe o sarcasmo, a Jean-Paul Sartre. Há dias, um fotojornalista tirou o retrato a Passos Coelho quando este saía do carro - e no interior da viatura podia ver-se com clareza a lombada de um livro na qual se podia ler "Salazar". A coisa apareceu em destaque nas páginas do Público, jornal dedicado a ultrapassar o Correio da Manhã pela esquerda, e logo se propagou pelas redes sociais como um incêndio: ai! que o homem é fascista, ai! que o homem anda a ler o mestre, ai! que o homem nos oprime a todos!

 

Da parte que me toca, fico algo satisfeito com a notícia: desconfio de quem despreza a leitura, pelo que saber que o primeiro-ministro anda com um livro no carro dá-me alguma esperança de que pelo menos esse defeito ele não tenha. É um fraco consolo, bem sei, mas os tempos são de crise e temos de nos contentar com o que houver. Claro que ter livros por perto não faz leitores de forma instantânea, mas sem ovos é que não se fazem omeletes.

 

E dou por mim a pensar: independentemente da escolha de leitura de Passos Coelho, ele ver-se-ia sempre aflito nesta situação. Se lê algo sobre Salazar, é fascista; se lesse algo sobre Cunhal, seria comunista (o que seria igualmente mau, ainda que o barulho na Internet fosse sem dúvida menor). Por outro lado, se lesse Margarida Rebelo Pinto, seria acusado de ler coisas idiotas; e se tivesse o "Guerra e Paz" no carro, estaria naturalmente a dar ares de intelectual, pois jamais lhe iria pegar. Tolkien ou Asimov fariam do nosso primeiro-ministro um nerd; já um Goethe, seria sem dúvida para agradar à amiga Ângela. Por fim, a ausência de livros daria a ideia que, depois da "Fenomenologia do Ser", Passos Coelho não voltara a pegar num livro, o que seria pior que todas as alternativas anteriores. 

 

Na pior das hipóteses, um livro sobre Salazar pode ser educativo. O que, nos dias que correm, já não é nada mau. 

Resistência activa ao aborto ortográfico (29)

por Pedro Correia, em 29.12.12

 

Biblioteca Nacional de Portugal

Fotografias tiradas por aí (103)

por José António Abreu, em 29.12.12

Porto, 2012. (Ontem, mais precisamente.)

Leio que anda por aí muita indignação com a deslocalização do Praça da Alegria e o corte de financiamento das actividades da Casa da Música. Pelo visto, há até quem proponha a realização de uma manifestação nos Aliados, uma espécie de 15 de Setembro com pronúncia do Norte. Tenho dificuladade em avaliar os fundamentos que levam a tais posições. Mas, de uma coisa estou certo. Se existe situação que justifica um levantamento popular, essa é a indicação pelo PSD de Menezes e de Marco António Costa como candidatos às Câmaras Municipais do Porto e de Gaia. Sejamos sinceros. Isto não se faz a ninguém, carago! 

 

 

«Os homens, por muito que se estimem, permanecem sempre distantes. Se alguém sofre, o sofrimento é unicamente seu, ninguém pode chamar a si uma pequena parte dele. Se alguém sofre, lá por isso os outros não sentem nenhuma dor, mesmo que o amor que os une seja grande, e isso é a causa da solidão da vida.»

Dino Buzzati (1906-1972)

As canções do século (1094)

por Pedro Correia, em 29.12.12

Os melhores filmes de 2012 - parte 2

por José Navarro de Andrade, em 28.12.12

Com a notória excepção das comédias românticas, e por vezes nem essas escapam, impressiona o facto de todos os filmes americanos serem sempre tão marcadamente políticos. Nem é preciso referir os casos evidentes dos dramas jurídicos, ou militares, ou detectivescos, ou policiais – o comentário institucional faz parte do DNA do cinema americano.

Ainda assim, atrevo-me a votar em “Being there” (“Benvindo mr. Chance” em português) como o melhor, e de certeza o mais premonitório, filme político de sempre. Peter Sellers interpreta supinamente o jardineiro de mente simples como uma criança, que nas voltas do enredo acaba consagrado como um formidável comentador político. Ao dizer na televisão coisas tão profundas como “First comes spring and summer, but then we have fall and winter.”, levanta um vendaval de análises, porque ninguém deixa de ver profundas alegorias no que ele profere literalmente.

Até este Dezembro de 2012 nunca entendi por que razão o realizador Hal Ashby arruína o filme com o plano final em que Chance caminha sobre as águas. Mas ao ver a prodigiosa esparrela do sr. Artur Baptista da Silva fez-se-me luz: o cineasta queria salvaguardar com aquele plano o carácter ficcional da sua obra, não fosse a realidade superar o resto.

O mundo é de quem o reinventa (100)

por Ana Vidal, em 28.12.12

Ora vamos lá descansar

por Patrícia Reis, em 28.12.12

A ironia do descanso: tu vais descansar, ok? levas o miúdo, ele ajuda e faz companhia, vai às compras contigo, faz-te companhia, diz-te que o Pinto da Costa faz 75 anos, e eu: quem?, liga e desliga máquinas, faz de aspirador e varre, anda à cata de trevos de quatro folhas (temos imensos de três, mas de quatro parece que não) e não te rales com nada, por isso quando o frigorífico estoirar na tua cara e ficares inundada de alho picado e de um monte de água podre é apenas o Universo a dizer que tens de descansar, quando a água quente não correr nem na cozinha, nem na casa de banho, pensa mais é em comer fora e em perfumar-te mesmo que sejas alérgica à maioria dos perfumes, quando o telemóvel continuar a tocar como um maluco tu atira-o para a lareira que não está acesa porque a dona Helena - jóia de senhora - mandou os homens entregar 50 quilos na porta ao lado, na porta ao lado estão uns vizinhos novos, eu até gostava muito, mesmo muito dos antigos, mas fazer o quê? é a vida, os vizinhos novos querem uma canalização para a máquina de lavar a roupa e eu penso - a ver o canalizador no pátio - que era uma boa ideia, mas esqueço-me logo do assunto, para quê mais problemas, deixem lá, preciso de ir ao Rio Sul, parece que é um shopping no Seixal à loja da cabovisão para trocar o equipamento mas para isso preciso de uma factura que o meu marido, muito diligente, levou para casa e, portanto, estou sem net, acho eu, até que volto a acender tudo e, milagre, o universo sorri: descubro um trevo de quatro flores, tenho acesso aos emails, chamo cabrão a um tipo que merece, telefone ao meu filho mais velho, vejo a lenha a ser carregada para dentro de casa sem mexer uma palha e, cereja no topo do bolo, dois homens levam o frigorífico mal cheiroso, embora imaculadamente limpo por mim durante uma hora. Ah, descansar deve ser isto (e não vou rever o texto, ok? é que estou a descansar e catar gralhas dá muito trabalho, ainda se fosse para o cabrão do velho, podia ser, mas como o texto é meu, estou-me a borrifar, expressão muito grata ao coordenador do meu filho mais novo, homem que eu admiro imenso)

 

«O oposto do amor não é o ódio, mas a indiferença.»

Érico Veríssimo (1905-1975)

Três anos comparados

por José António Abreu, em 28.12.12

Se em 2013 o PIB português cair menos de, vá lá, 3% e em 2014 já crescer qualquer coisinha poderemos dar-nos por muito satisfeitos.

 

Fonte: FMI (verificam-se discrepâncias de uma ou duas décimas em relação a outras fontes mas, para o caso, são irrelevantes).

Belles toujours

por Pedro Correia, em 28.12.12

 

Claire Danes

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As canções do século (1093)

por Pedro Correia, em 28.12.12

Roma não perdoa a traidores

por Patrícia Reis, em 27.12.12

Então hoje não posso, mas amanhã serei um gladiador e irei colocar todos os apetrechos e fazer-me ao circo que são estes últimos dias do ano.

Depois, em 2013, serei apenas eu e mais nada do que eu sem uma cambada de idiotas às costas e entro no ano com neon na cabeça que diz que tenho vontade de fazer, construir, ir e partir, escrever e fazer. Já disse fazer. Por estes dias repito-me muito.

Tenham um 2013 como eu vou ter.

Porque Roma não perdoa a traidores e eu tão-pouco.

Depois da porrada, a malta levanta-se e volta a entrar no circo.

Lição aprendida. Pela milésima vez.

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