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Delito de Opinião

Meditação na perfumaria (com a devida vénia a coisas mais elevadas)

Ivone Mendes da Silva, 01.08.12

Estive hoje a ver, em dvd, A última estação de Michael Hoffman. Belo filme sobre os últimos tempos da vida de Tolstói. Helen Mirren é sublime no papel de Sofia Andréievna. A certa altura, o escritor, irritadíssimo, diz-lhe: "Tu não precisas de um marido, precisas é de um coro grego." Adorei. Aliás, noutros tempos, os maridos que eu tive poderiam ter-me dito o mesmo. Bem, quando eu digo "os maridos que eu tive" convém notar que esta frase pode induzir em erro os leitores incautos. Foram só dois os maridos, mas, dito assim, cria toda uma atmosfera. 

Depois do filme, dediquei-me a uma tarefa mais pesada. Tinham-me pedido que vertesse para latim umas descrições de botânica. Foi árido e árduo e cheguei ao final da tarde cansada. Decidi que precisava de um café no exterior. De beber um café e de olhar umas montras. Tenho andado, por estes dias, com umas roupas na pré-reforma e com uns sapatos sem história. Com a roupa nada a fazer que isto do Verão limita-me os movimentos. Agora sapatos, como sabe quem sabe destas coisas, sapatos são uma religião. Os objectos sagrados guardam-se, bem estimados. Assim sendo, retirei do seu resguardo umas sandálias Luís Onofre a que os anos não tiraram o esplendor. São duas tiras de damasco  sobre o pé e uns saltos finos de 10 cm. É extraordinário o que tão pouca coisa faz pela alma de uma pessoa.

Fui, pois, com o propósito do café e de passar pela perfumaria a fim de investigar umas coisas. A linha de batôns Rouge Pur Couture, da YSL, tem uma colecção nova. Vi numa revista umas cores belíssimas com uns nomes incríveis, que o pessoal do marketing sabe-a toda: Rouge Hélios, Bronze Persépolis e o que me deixou de narizinho ar: Rouge Venise. Nas páginas da revista, era um rosso veneziano soberbo. Como fotografia em página de revista é muito enganadora no que respeita à cor, resolvi-me a ir ver se os via ao vivo, depois de bebido o café.

Na perfumaria onde vou há uma empregada muito simpática. Na maior parte das vezes, vou lá só para tagarelar um pouco, espalhar umas gotas de base nas costas da minha mão e apreciar a textura, enfim, estar por ali. Uma vez, passei lá um bocado muito engraçado. Ela disse-me, a certa altura: "Sabe... eu gostava de saber dizer o nome dos perfumes assim como a senhora diz.. ". Não percebi logo, mas cheguei lá. Tinha dificuldade em dizer o nome dos perfumes porque desconhecia as línguas. Ensinei-lhe uns pormenores e uns truques que foi anotando num caderninho de modo a treinar. Nessa tarde, quando saí, dizia na perfeição: NotoriousBlack OrchidPleasuresJasmin Noir e, a minha coroa de glória, Un Jardin en Méditerranée.

Hoje estava acompanhada de uma colega muito mais nova, também muito simpática e afável. Lá conversámos um pouco. Não, pois ainda não havia  batôns novos. E as colecções do Verão já tinham poucos. Em alturas de crise, batôn vende-se sempre. Mesmo nas grandes marcas, custa 25, 30 euros. Pode sair-se de uma perfumaria sem mais nada: quando se traz um batôn, comprou-se alguma alegria que dura uma estação inteira.

Eu gosto de batôns a sério, de mulher crescida. Nada de rosas imberbes, ou gloss que dá um ar de quem esteve a comer batatas fritas. Prefiro ter uns lábios de filme noir.

Lá estávamos, pois,  junto ao expositor da Dior, marca à qual ela sempre me tentou converter. Olhávamos para um rosa fundo, intenso, e a menina mais nova disse: "A senhora deve ficar bem com esse. A minha avó tem um igual e fica-lhe tão bem." Soltei uma gargalhada perante a pirueta que ela deu com a frase: "Eu .. eu... não estou a dizer que a senhora seja da idade da minha avó ... eu só queria dizer que ..." 

Sosseguei-a, que tivesse calma. Feitas bem as contas, se calhar, tecnicamente, eu poderia ser avó dela.

Foi divertido mas fiquei a pensar no assunto. Quando eu tinha 20 anos, queria ser mais velha. Achava que as mulheres mais velhas tinham, naturalmente,  uma elegância, um andar, uma segurança que eu demorava a achar. Andei ansiosa por fazer 40 anos, a pensar que a graça dos deuses cairia sobre mim. Não notei grandes diferenças. Nem agora aos 52. 

Lembro-me de, quando era garota e tinha como meta a alcançar uma autorização da minha mãe para pintar as unhas de vermelho, ver muitas vezes a passear em Faro, na rua de Santo António, uma senhora que eu achava a quintessência da elegância. Usava uns vestidos de seda pesada e uns casacos de corte imperturbável. Pisava a calçada com uns saltos finos com se subisse as escadas do Scala.

E eu queria envelhecer. E usar meias pretas e retocar o rosto com pó solto, com uma esponja aveludada segura na ponta das unhas vermelhas.

Ok, já cá cheguei. A minha mãe já me deixa pintar as unhas.  

 

(texto republicado)

O Bom Combate

Ana Cláudia Vicente, 01.08.12

«Voir loin, parler franc, agir ferme

 Pierre de Frédy

[Barão de Coubertin (1863-1937)]

 

[Foto: BBC Sport]

 

Se reais consequências se registarem após o arraial mediático du jour em torno do triste processo de qualificação para as finais olímpicas em Badminton, menos mal. Não deixa de ser justo e irónico que tal aconteça num território educativo tão admirado pelo pedagogo que reinstituiu Os Jogos na contemporaneidade.

Bem basta termos quase todos aceite que o futebol já não é o que era, e que muitas das regras básicas do desportivismo simplesmente deixaram de se lhe poder aplicar.

Elenco para um filme dos Sete Anões com actores nacionais: escolha a Branca de Neve (2ª volta)

Rui Rocha, 01.08.12

Tal como aconteceu na Grécia, o primeiro acto eleitoral não permitiu chegar a uma solução. Na verdade, registou-se um empate entre três fortíssimas candidatas: Assunção Cristas, Assunção Esteves e Clara Ferreira Alves. Torna-se assim necessário realizar uma 2ª volta em que só participarão as três candidatas mais votadas. A votação decorrerá até à meia-noite de hoje. A escolha continua a ser sua. Qual das três é a Branca de Neve?

 

 

Nota da Comissão Eleitoral - na 1ª volta, para além das três candidatas mais votadas, também receberam votos: Pinto Monteiro, Bárbara Guimarães, Maria José Morgado, Aguiar Branco, Maria de Belém, Vale e Azevedo, Joana Amaral Dias, Alberto João Jardim, Francisco Louçã, José Castelo-Branco, D. Otília, Heloísa Apolónia, Kátia Aveiro, a Mamã da Kátia Aveiro, Garcia Pereira, Marques Mendes, Djaló, Marcelo Rebelo de Sousa e Maria Cavaco Silva. Apesar de não terem os votos necessários para passar à 2ª volta, merecem todos um forte aplauso.

O último Verão?

Laura Ramos, 01.08.12

« A natureza das instituições avalia-se pela sua resiliência às crises. O carácter dos amigos mede-se pela sua capacidade de ficarem ao nosso lado, contra tudo e contra todos, nas horas de perigo e desgraça. O que está a suceder a Espanha, a mergulhar numa espiral de destruição, revela que a União Económica e Monetária, como está, se tornou uma sala de tortura, condenada a perecer, e que os Estados membros da União Europeia são governados por uma gente pequenina que não percebe que é preciso ajudar os nossos aliados para nos ajudarmos a nós próprios. O índice IBEX, das maiores empresas espanholas, tem hoje menos valor bolsista do que dívida conjunta dessas empresas. A dívida pública espanhola (e italiana) está a subir em todos os prazos, apesar do incrível pacote de terror económico imposto por Berlim e Bruxelas a Madrid, para a aprovação do empréstimo de cem mil milhões de euros para o sector bancário. As autonomias, com Valência à cabeça, estão arruinadas. O cínico Weidmann, o torquemada monetarista à frente do Bundesbank, aconselhou Espanha a pedir um "resgate completo". Suprema crueldade! O FEEF está reduzido a trocos e o MEE está na mesa do Tribunal Constitucional Alemão, sob observação, pelo menos até 12 de setembro... O BCE nunca mais fez compras no mercado secundário. Prometer o que não se tem é o máximo insulto a quem precisa... Reina o silêncio dos cobardes na maioria das capitais europeias. O de Lisboa é inqualificável. Só Monti, que sabe ser a Itália o próximo alvo, expressa a sua inquietação em voz alta. Por este caminho, este será o último verão da Zona Euro. O último verão antes de uma nova, perigosa e incerta geografia política europeia, cujas dores de parto não pouparão ninguém.»


"O  último estio", Viriato Soromenho Marques

DN 24/07/2012

 


Gosto de quem pensa pela sua cabeça e não se deixa contaminar pela ideologia oficial (valha esta o que valha e que até pode ter razão, no seu anti-catastrofismo).

Precisamos de consciência e dispensamos euforizantes.

Mas pensemos.

Naquela terra franca proibida aos 'pensadores' oficiais e ainda que sem o habitual derrotismo nacional.

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