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Delito de Opinião

Previsões do BdP

Helena Sacadura Cabral, 30.03.12

 

O Boletim Económico do Banco de Portugal reviu ontem, em baixa, as previsões para a economia nacional, a qual se admite que recue 3,4% este ano e que estagne no próximo.

O factor  que mais contribuiu para esta revisão foi a crise da zona euro, que pode deixar marcas mais profundas do que as esperadas no comércio externo português

De facto, as exportações são, em simultâneo, a maior esperança e o maior risco  da economia portuguesa e o Banco de Portugal (BdP), admite uma baixa na sua previsão para as vendas ao exterior.

O nosso país tem tido nas exportações,  o seu grande suporte e é com elas que terá de contar para que, em 2012, a economia não recue mais.

Este ano, "as exportações deverão manter um contributo determinante para sustentar a actividade, ainda que se anteveja um significativo abrandamento face ao crescimento robusto observado em 2011", diz o BdP, explicando que tal se deve à "deterioração marcada das perspectivas de evolução da procura externa". 

Egoísta vencedora

Patrícia Reis, 30.03.12
Egoísta

Tinha uma coisa para dizer e não disse. Não faz mal.

A Egoísta ganhou o prémio Ouro para cratividade e inovação na comunicação em papel com a edição dedicada ao tema Viagem e, para terminar em beleza, ganhou um dos 4 Grandes Prémios da Noite. Foi bonito. Obrigada à Estoril Sol por acreditar há 11 anos numa revista de curtas ficções e portfolios de artistas. Esta foi mais uma edição dos prémios da Meios e Publicidade.

Retratos(3): Le donne della signoria

Ivone Mendes da Silva, 29.03.12

(Pronto, é o último post da série.)

 

Ao abrir a pasta, na qual vou guardando imagens nos dias em que tomo a séria resolução de ser uma pessoa arrumada, vi alinhadas algumas das Médicis pintadas por Bronzino. Uma galeria de mulheres mortas pela doença, pelo poder, pelo turbilhão das muitas razões para morrer na Florença medicea.

Quando Bronzino se torna o pintor favorito de Cosme, os retratos oficiais, os retratos com vestidos de corte, as poses hieráticas começam a encher as paredes do pallazzo. Ei-los, sem ordem cronológica, retirados deste meu sótão virtual. Sacudi-lhes um pouco o pó, apenas.

 

 

 

Bia dos Médicis, filha bastarda de Cosme. A mãe, ninguém sabia quem era a não ser Cosme e, ao que se dizia na época, a mãe dele, a poderosa Maria Salviati. Quando Cosme se casa com Eleonora de Toledo, a jovem esposa desagrada-se da presença da criança no palácio e o marido envia-a para junto da avó, para a Villa di Castello. Morre aos seis anos e Cosme encomenda a Bronzino este retrato póstumo, feito a partir de outros retratos ou da máscara mortuária. Não é um retrato oficial, é um retrato para os aposentos íntimos, para o olhar do pai. O pintor imaginou-a séria, gravezinha nas suas pérolas, de seda branca, ela que, provavelmente se chamaria Branca ( Bianca), daí o Bia afectuoso.
 
De Eleonora de Toledo, o retrato mas conhecido é este que já mostrei lá mais para baixo. Há, todavia, um outro que me agrada bastante.
 

 

É Eleonora recém-chegada e tudo nela prenuncia o outro retrato em que a segurança da senhora de Florença atingiu a sua plenitude. O vestido é de um encarnado belíssimo, bordado a bouclé de ouro, e no encaixe dos ombros dispõem-se geometricamente pérolas que Eleonora também usava nos brincos, na rede que prendia o cabelo. Bronzino gostava de pintar as mãos à altura do peito: as mãos esguias com anéis pesados, até parecem ali estar casualmente, quando nada é casual nestes retratos.

 

Quero, também mostrar estoutro de Isabel, a do post anterior a este.

 

 

É, ainda, uma Isabel muito nova, com encaixe de renda no vestido e olhar firme. Parece-se com a mãe, mas o ruivo florentino dos cabelos e o sorriso contido mostram os genes de Cosme e da avó, Maria Salviati, com quem diziam que se parecia no carácter e no gesto.

 

Lucrécia tinha tanto de fragilidade quanto a irmã de força.

 

 

A outra das filhas de Eleonora e Cosme, estudou, como os irmãos, grego, latim, música, literatura. Estudou, mas não deve ter aprendido grande coisa porque os autores referem que os seus talentos não iam mais além do que escrever uma carta. É uma menina muito bonita e muito triste. Aos 13 anos, casam-na com Afonso II de Este. Dois ou três dias depois do casamento, o marido parte para a corte de França, onde tinha relações familiares, pois era filho de Renata da França, e de onde só regressa após a morte do pai, para receber o título de duque de Ferrara. Alguns meses depois manda chamar a duquesa sua mulher. Lucrécia chega a Ferrara mergulhada numa profunda melancolia. Nem os acordes do Te Deum celebrado em sua honra na catedral a animam. Alta, muito magra, muito triste, a duquesa de Ferrara definha nos seus 16 anos. Cosme manda, de Florença, Andrea Pasquali, o médico de confiança, mas a morte de Lucrécia é inevitável. De tuberculose, muito provavelmente.

Foi sobre este retrato, sobre a triste beleza de Lucrécia de Cosme dos Médicis, duquesa de Ferrara, que Robert Browning escreveu o seu poema My last duchess, aquele poema que começa "That's my last Duchess painted on the wall / Looking as if she was alive." É uma fala de Afonso, frio e calculista, que se dirige ao embaixador Nikolaus Mardruz, após a morte de Lucrécia, para negociar o casamento com  Bárbara da Áustria.

 

Outro retrato, ainda. Outro de Eleonora, ainda de Bronzino.

 

 

Ela continua  a gostar de pérolas, mas envelheceu. Envelheceu como se envelhecia naquela época. Eleonora morreu com 40 anos e este quadro foi pintado um ano ou dois antes de  a malária chegar. O colo cobre-se de rendas, não há anéis pesados nos dedos, apenas um lenço na mão enluvada. Uma senhora idosa.  

 

(mini-série republicada com supressões e alterações)

E no entanto temos 1230 km de costa

Teresa Ribeiro, 29.03.12

A frota pesqueira portuguesa só captura cerca de 1/4 do peixe que consumimos, o resto tem de ser importado para não se exceder a quota que a UE nos impingiu, lembra um relatório hoje divulgado nos jornais. Os donos da UE, sempre tão lestos a apontar os nossos vícios de governação, esquecem, como é óbvio, as responsabilidades que também tiveram no desconcerto da nossa economia, obrigando-nos a desmantelar boa parte da nossa frota e a abrir mão do nosso pescado, um dos melhores do mundo e uma das nossas grandes riquezas. Na agricultura os efeitos das políticas comunitárias também foram devastadores, condenando algumas espécies autóctones, hortícolas e frutíferas, à extinção. 

Como eu gostava que os nossos queridos mentores da Europa civilizada fossem confrontados com isto, quando se discutisse mais uma vez a ajuda a Portugal. Era mesmo fish!

O Sr. Marques no Centro Comercial

José António Abreu, 29.03.12

O Sr. Marques aprecia centros comerciais. Raramente lá compra alguma coisa mas gosta de deambular pelos corredores e de sentar-se nas zonas de restauração, observando as pessoas. Na verdade, é mais as mulheres mas ele considera que está a observar «as pessoas». Às vezes pensa que o interior dos centros comerciais é o local onde melhor se analisa a vida moderna. Um local onde toda a gente se encontra no mesmo plano e pode cobiçar e tocar em milhares de coisas. A vida actual é feita de cobiça, pensa o Sr. Marques enquanto suspira perante a visão de uma mulher de traseiro empinado parada em frente à montra de uma sapataria, e os centros comerciais são o local onde ela pode ser expressa de forma mais subtil e democrática. São também um local onde exemplares díspares do ser humano podem ser vistos sem parecerem assim tão diferentes entre si. Hoje, por exemplo, o Sr. Marques ficou igualmente encantado ao ver uma quarentona de fato justo, saltos altos e colar de pérolas movendo-se em passo saracoteado e uma rapariga mal saída da adolescência com um vestido leve, umas botas pesadas e três piercings no nariz esparramada num dos sofás. Há ambientes em que tanto uma como outra pareceriam deslocadas. Num centro comercial, ambas se podem sentir à vontade.

O Sr. Marques encontra-se agora sentado na zona dos restaurantes, cansado de tanto raciocínio – mas não de observar as pessoas. Numa mesa próxima, uma pessoa do sexo feminino com cerca de vinte e cinco anos de idade troca mensagens no telemóvel. Veste uma blusa fina e decotada e um soutien que deve ser de um número abaixo do adequado porque lhe deixa um mamilo quase inteiramente à vista. O Sr. Marques olha e pondera se deve tentar não olhar. Procura também imaginar a reacção dela se, simpaticamente, a avisar do descuido. Está absorto a elaborar uma lista mental de prós e contras quando uma segunda mulher chega junto da primeira, se inclina para a beijar e, enquanto se senta, diz: «Tens a mama à mostra.» A outra encolhe os ombros. «Ora, sempre alegra a vida a alguns coitados.» Primeiro o Sr. Marques sente-se ofendido. Chega mesmo a pensar: «Cabra!» Mas depois percebe que a rapariga acaba de lhe dar autorização para continuar a olhar. E assim, já sem disfarces, o Sr. Marques deixa-se ficar entretido a olhar para o mamilo, que é largo e pouco saliente e está rodeado por uma auréola rosada e ligeiramente granulosa. A certa altura, o olhar dele cruza-se com o da rapariga e o Sr. Marques permite-se mesmo sorrir com descontracção. Só então ela parece incomodada. Empurra a mama para dentro do soutien, pega na mala com a mão que o telemóvel deixa livre e diz para a outra: «Olha, vamos mas é andando.» O Sr. Marques observa-lhe o movimento das ancas enquanto ela se afasta e depois fica lá, sorrindo de vez em quando ao relembrar o acontecimento.

 

(Também aqui. Este é o terceiro episódio das, hmmmm, «aventuras» do Sr. Marques. Os outros dois podem ser lidos aqui.)

Pára com isso, Millôr, vai

Bandeira, 29.03.12

A Cioran, o homem que elevou o pessimismo à categoria de arte, perguntaram certa vez por que razão, se a vida lhe era assim tão insuportável, não acabava com ela de uma vez por todas; ele respondeu, com o habitual pessimismo, que “do outro lado” era capaz de ser ainda pior.

 

Se pode ser ainda pior, sei lá eu se não é pelo menos um pouco melhor. Daí não ser dado a homenagens póstumas. O falecido passaria a eternidade a gozar-me, repetindo o meu discurso enternecido para depois rir muito por nunca me ter devolvido aquele dinheirinho que me devia e tal. Desta forma poderei olhá-lo nos olhos – ou em lá o que é que sobra nessas circunstâncias, Santo Agostinho e São Tomás de Aquino não são completamente coincidentes no assunto – e dizer “Eu sabia que você estava a brincar” e rir-nos-emos muito e faremos libações, porque nesse outro mundo os comuns dar-se-iam com os génios e vice-versa.

 

A excepção é, naturalmente, Millôr: imagino que ele odiaria sentir-se homenageado por mim. E depois, tenho em incomum com ele (em Millôr nada havia de comum) o facto de termos trabalhado para o mesmo vespertino português, o Diário Popular, com a distância temporal de mais de uma vintena de anos. Claro, ao passo que ele fazia aumentar as vendas, eu estive presente no enterro do diário – mas qualquer responsabilidade que eu pudesse ter nisso já caducou, vire para lá esse seu olhar de vampiro.

 

Para terminar (antes que me torne mesmo, mesmo sentimental): o meu exemplar de “Millôr Definitivo – A Bíblia do Caos” foi comprado na Poesia Incompleta, que como todos sabem acaba de fechar.

 

Como Millôr: sem dívidas.

A brincar ou a sério?

José Navarro de Andrade, 28.03.12

Portugal sempre foi um país extraordinariamente violento.

Para não ir mais atrás, em 1807 participámos com brio na Guerra Peninsular, sendo que não houve por cá um pintor à altura de Goya para desenhar a carvão o que fazíamos aos franceses que se atrasavam da coluna. Seguiu-se uma assanhadíssima guerra civil que demorou a extinguir. Mesmo depois de assinado Évora-Monte, continuava o país a ser uma charneca fora de portas das cidades, com Brandões, Remexidos e outos bandoleiros que tais a ditar a lei do punhal onde lhes aprouvesse.

A coisa pareceu acalmar no último quartel do séc. XIX, mas foi só para tomar balanço. No curto período de 13 anos, entre 1908 e 1921 foram assassinados um Rei, um Presidente, um Primeiro-Ministro (António Granjo), um herói nacional (Machado Santos) e 2 Ministros, os 4 últimos na Noite Sangrenta. Fora alguns ajustes de contas avulsos, como o caso do Senador José João de Freitas que em Maio de 1915 tentou matar a tiro num comboio o Primeiro-Ministro indigitado João Chagas, mas acabou linchado pelos populares no Entroncamento. Um palmarés destes, nem nos famigerados Balcãs.

Seguiu-se o Estado Novo, que até foi levezinho em crimes de Estado, se o medirmos com os seus congéneres ditatoriais: Espanha e Grécia, por exemplo, para não falar dos pequenos fascismos que medraram à sombra de Hitler e Mussolini, como a Hungria, a Roménia, a Bulgária, Vichy, a Croácia dos Ustase ou a Sérvia de Nedic.

Manhoso como só ele, Salazar trocou os fusilamentos políticos e o derrame de sangue nas ruas, à maneira do Chile, da Argentina ou do Uruguai, por safanões num vão de escada. E fez pior, muito pior: destilou a ideia de sermos um povo de brandos costumes. Uma falácia que foi ganhando raízes ao mesmo tempo que durante mais de 10 anos, os mancebos de Portugal passavam os primeiros anos de adultos em África, a praticar brandas e discretas sevícias nos autóctones.

Desculpem o meu francês, mas brandos costumes my ass. Por isso não deixo de ficar estupefacto quando vejo umas correrias no Chiado, com uma polícia aparvalhada, uns rapazolas a menearem-se diante dela em danças tribais, um par de esplanadas de pernas para o ar a dar cabo do turismo e – agora é que não percebo mesmo – uns esganiçados a berrar “fascistas” – a sério?

Querem fazer isto como deve ser, à antiga portuguesa? Ponham então os olhos nos coreanos ilustrados abaixo. Senão será melhor ficarem em casa. Agora assim, com esta mariquices, só demonstram a póstuma e perene vitória do espírito salazarista.

 

Quando a realidade entra no domínio da ficção

João Campos, 28.03.12

Cadáver esquisito (6)

Patrícia Reis, 28.03.12

1. UM LIVRO, 2. CA...... SARKIS G........N, 3. OLHOS4. ESCAVAR, 5. IN VINO VERITAS

6

TO THE LEFT, AS PERNAS DE STELLA

 

João Cosme, por princípio, não gostava de fazer nada sozinho. A ideia aterrorizava-o desde miúdo, é certo. Coisas da cegueira, sim, um psiquiatra tinha explicado e dado o aval à sensação. Ter esse temor – a solidão – certificado por um médico, dava-lhe um certo conforto. Lembrou-se, de repente, de Vivelinda. Ela saberia o que fazer, mesmo sendo analfabeta. Era ela ou a imagem dela que lhe surgia quando o chão parecia estar incerto.

 

Cosme suspeitava de muito, sabia, porventura, pouco, mas acreditava que Vivelinda tinha um poder qualquer. Encarou Eduardo com uma certa frieza. Uma frieza de cabeça. Sim, podia ir sozinho, não fazia mal.

 

Mas primeiro haveria de tratar dos desejos de Stella, aquelas pernas à sua espera, ele a tactear, cego de outra natureza.

 

- Ó Lord! João, João, não me vejas, mas toca-me, sim, aí mesmo, um pouco mais à esquerda. To the left, to the left. 

 

Não olhando para a enorme cicatriz de Stella, ignorando essa pele enrugada, fruto de maus tratos ou má vida, Cosme não saberia dizer, aguardaria pelo momento do orgasmo – um ou dois, no caso dela. Sexo, puro e duro, no sossego da aldeia, sempre na esperança de que alguém possa ouvir e relatar, admitia interiormente, com um certo prazer. Isso, isso teria a sua graça. Sobretudo se o rumor chegasse aos ouvidos de Eduardo. Ele, um homossexual disfarçado. Lamentável, diria Vivelinda. O raio da mulher sempre presente, até nos pensamentos eróticos de João Cosme.

 

(Este é o sexto capítulo do nosso 'cadáver esquisito', explicado aqui. A próxima mão a embalar o cadáver é do Fernando Sousa.)