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Delito de Opinião

Ano novo, jornalismo velho

Rui Rocha, 02.01.12

 

O Público dá hoje um enorme destaque, em primeira página, a um número não menos enorme: 53% de aumento, seja lá do que for, é uma variação que impressiona. Se estivermos a falar de despedimentos colectivos, o impacto da notícia será certamente muito maior. Todavia, se analisarmos o seu conteúdo, verifica-se que, apesar de o número de empresas que desencadeou despedimentos colectivos ter crescido os referidos 53%, o número absoluto de trabalhadores despedidos através deste processo aumentou 6,6%. Isto é, relativamente a 2011, terão sido despedidos em igual período mais 420 trabalhadores. Se tivermos em conta que o desemprego em Portugal atinge actualmente cerca de 700.000 pessoas, com tendência para subir, concluiremos que quer o número absoluto de trabalhadores abrangidos por despedimentos colectivos (6.917), quer o crescimento de 6,6% de 2010 para 2011, não são propriamente as razões fundamentais da preocupação colectiva que o desemprego deve provocar na nossa sociedade. O ano de 2012 trará muitos motivos para alarme. Não faltarão manchetes deprimentes para fazer ao longo dos próximos 364 dias. Por isso, não é aceitável que se embarque no alarmismo sem fundamento, reproduzindo para os leitores ondas de angústia que a situação concreta noticiada não justifica.

O que ando a ler (19)

Ana Vidal, 02.01.12

Essa pergunta não é de resposta fácil, Ana Sofia. Acho que já disse por aqui que nunca leio só um livro de cada vez. Mas, como a maioria dos livros que empilho na mesa de cabeceira é de poesia - neste momento há uma invasão da maravilhosa poesia brasileira, vários livros oferecidos e com dedicatórias que me comovem - falarei aqui do último que li em prosa, acabado ontem mesmo (atravessou comigo o ano, por sinal). É O Túnel, o primeiro romance do argentino Ernesto Sabato. Dele, já tinha lido em tempos "Heróis e túmulos", um livro empolgante que me deixou água na boca e foi considerado, penso que muito justamente, o melhor romance argentino do século XX. O Túnel é um texto muito diferente, embora nos agarre igualmente pelos colarinhos e não nos deixe respirar até à última página. A estrutura é quase policial: um mergulho lento e a cada capítulo mais profundo numa trama obsessiva e tão bem urdida que, mesmo revelado o desfecho logo na primeira frase do livro, a história não perde o suspense, pelo contrário.

 

 

Juan Pablo Castel, um pintor de talento reconhecido - embora despreze totalmente as opiniões dos críticos sobre a sua obra - repara, numa exposição sua, numa mulher que, por sua vez, observa um dos seus quadros atentamente. Maravilha-o que ela se fixe num pormenor do quadro que ninguém mais parece valorizar: uma pequena janela, a um canto, através da qual se vê uma mulher olhando o mar. Está dado o mote: esta sequência, aparentemente inocente, de observadores e objectos de interesse - pintor>mulher>quadro>janela>mulher>mar - dá início a um caleidoscópio alucinante, um jogo de espelhos em permanente mutação que nos desvenda a labiríntica e tortuosa mente do narrador, o próprio pintor. Sob a batuta  de uma paixão súbita e avassaladora (não mais do que um pretexto, já que o amor por Maria não passa da busca de um nome para um papel pré-definido), começa o opressivo bailado nupcial de predador e presa, dois seres desesperados e cada um deles perdido na sua própria e inescapável solidão: Maria, a vítima, que permanece triste e misteriosa até ao fim, e Castel, o implacável algoz, que nos vai conduzindo até à exaustão pelos abismos do seu pensamento, meticulosamente organizado mas circular: "Em geral, esta sensação de estar só no mundo aparece misturada com um orgulhoso sentimento de superioridade. Desprezo os homens, vejo-os feios, sujos, incapazes, ávidos, grosseiros e mesquinhos. E então a minha solidão não me assusta, é quase olímpica. Mas naquele momento, como noutros semelhantes, encontrava-me só como consequência dos meus piores atributos, das minhas baixas acções. Em tais casos sinto que o mundo é desprezível, mas também que faço parte dele, e sou invadido por uma fúria de aniquilação." É este homem que, mesmo nos momentos de felicidade com a mulher que considera a sua alma gémea e a única pessoa no mundo capaz de compreendê-lo, é incapaz de aceitar essa felicidade e semeia nela uma dúvida envenenada até deitar tudo a perder. Um espírito destrutivo que tão bem cabe naquela frase de Schopenhauer: "Quando não tenho nenhuma angústia, é isso mesmo que me angustia".

 

A narrativa, primorosamente escrita e rica de inquietantes metáforas (não falta até uma referência a Kafka e às suas metamorfoses, com a descrição de uma transformação do narrador em pássaro, num sonho), vai num crescendo de angústia e loucura que só pode levar a um final trágico. Já o sabíamos desde a primeira página, mas chegamos lá sem fôlego e ainda expectantes de alguma coisa que possa ter-nos escapado.

 

Ernesto Sabato é um desses escritores mágicos em que a América Latina tem sido pródiga. Tem uma escrita vibrante e lúcida, que prende irremediavelmente o leitor desde as primeiras linhas. Morreu neste ano que agora acabou, a dois meses de completar cem anos. Vale a pena lê-lo.

 

Título: "O Túnel"

Autor: Ernesto Sabato

Editora portuguesa: Relógio d'Água

135 páginas (de puro prazer)

 

E tu, António, o que andas a ler por estes dias?

O comentário da semana

Pedro Correia, 02.01.12

 

«É no que dão estes 'natais' consumistas e egoístas. Nos tempos dos nossos avós, em que quase tudo faltava, é certo, o Natal era, sobretudo, a "festa da família": pai, mãe e filhos, todos reunidos à lareira, comendo o bacalhau com as couves penca, as filhós e as papas de carolo de milho. A Família irmanava-se na confecção da ceia e, no dia seguinte, todos ajudavam a mãe a arrumar a cozinha. Enfim, outros tempos. Pobretes mas alegres. Agora, de facto, parece andarem todos de trombas...

O Beirão não era rico, não senhor. [Sou] de uma pequena aldeia beirã, onde, naqueles tempos, o importante era a Família. Ali, à Ceia de Natal, não havia uma só família, por mais pobre que fosse, que não tivesse à mesa, no dia da Consoada, uma posta de bacalhau, as couves, as filhós e as papas de milho. Ali, nesses tempos, toda a gente, sem excepção, trabalhava, tinha a sua courela de terra donde tirava os produtos que punha na mesa (hoje, os campos agrícolas estão abandonados, cobertos de silvas), engordava o porco para a matança, etc.
Naqueles tempos, o País não dispunha da 'mama' dos subsídios de Bruxelas. Que raio esta gente fez dos rios de tantos milhares de milhões de euros que nos chegaram/chegam, à borla, da rica UE? Que raio aconteceu, aqui, nestes últimos perto de 40 anos, para que Portugal esteja sem cheta, na bancarrota, à mercê dos empréstimos da troika, que é quem, de facto, manda no País, pois que, se nos portarmos mal, não haverá mais dinheirinho para os salários, as reformas e as pensões do mês seguinte?
Porca miséria esta, como diz o outro!»

 
Do nosso leitor Beirão. A propósito deste texto da Ivone Costa.

Figura nacional de 2011

Pedro Correia, 01.01.12

 

VÍTOR GASPAR

Ilustre desconhecido da generalidade dos portugueses até há seis meses, o ministro das Finanças tornou-se uma figura dominante da cena política nacional no último semestre de 2011, suplantando todos os outros protagonistas, na opinião da maioria dos membros do DELITO DE OPINIÃO, na já tradicional votação em jeito de balanço do ano que terminou. Pelas severas medidas de austeridade que determinou em resposta à situação de emergência que levou o anterior Executivo a solicitar auxílio internacional. E também pelo seu original estilo de comunicar com os portugueses. Inconfundível, embora não inimitável.

Vítor Gaspar, com dez votos, destacou-se largamente, passando a ocupar o posto que em 2010 os autores do DELITO reservaram a José Mourinho. Em segundo lugar, com três votos, ficou a nova presidente da Assembleia da República, Assunção Esteves, a primeira mulher a ocupar o segundo posto mais relevante do Estado português. Dois votos recaíram no primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, vencedor das legislativas de 5 de Junho, e outros dois no ensaísta Eduardo Lourenço, galardoado em 2011 com o prestigiado Prémio Pessoa. Os restantes cinco votos foram distribuídos pelas seguintes personalidades: Eduardo Souto Moura, Henrique Medina Carreira, Isabel Jonet, José Manuel Coelho e José Sócrates.

À nossa saúde

Laura Ramos, 01.01.12


Num recente relatório (Health at a Glance, 2011) a OCDE divulgou importantes indicadores sobre os sistemas de saúde dos seus 34 países membros.
Portugal surge em 1.º lugar no declínio da mortalidade infantil. É o 4.º melhor nos dados sobre mortalidade por enfarte e está ligeiramente abaixo da média nas ocorrências de mortalidade por cancro. É ainda o 5.º país com melhor evolução na esperança de vida e (até que enfim!) aproxima-se da média global na mortalidade por acidente.
Globalmente, estes resultados em saúde dão a Portugal uma posição acima da média geral da OCDE, surgindo como o 2.º país com melhor evolução entre 1970 e 2009 (grosso modo, os anos da construção do Serviço Nacional de Saúde).
Por outro lado, confirma-se também que Portugal está entre os países com mais médicos por cada 1 000 habitantes (apesar da sua distribuição desigual), situando-se num padrão claramente  superior à média. E entre os que, no global das despesas contraídas em cuidados de saúde, menos participação directa ("out-of-pocket") exigem ao cidadão.

Este foi um dos domínios em que melhor trabalhámos sempre. E onde gastámos como se não houvesse amanhã, insistindo num regime de isenções impraticável e temerário, numa utopia já há muito tempo insustentável aos olhos de qualquer pessoa sensata.

Tarde e a más horas, como sempre, 2012 vai ser um balde de água fria e trazer-nos sacrifícios agravados neste capítulo.
Acredito que a saúde em Portugal tem um lastro de qualidade suficiente para aguentar o embate, se houver coragem para distinguir o essencial do acessório.

Resolução de ano novo ou o filme que mais vezes não vi

José António Abreu, 01.01.12
Em Julho de 2007, Rogério Casanova escrevia no mais-morto-que-comatoso Pastoral Portuguesa: Ainda não li Falling Man, e posso assegurar que se trata de uma não-leitura compulsiva. Aliás, é um dos livros que mais vezes não li nos últimos tempos. Desde que a encomenda da Amazon chegou já o devo não ter lido umas seis ou sete vezes, sempre com um enorme prazer. Casanova, sportinguista frágil como qualquer outro de nós (qualquer outro de nós, sportinguistas, entenda-se), tentava proteger-se da desilusão que seria comprovar a existência de mais um DeLillo abaixo das suas – dele, Casanova, que as suas, leitor, nem consigo imaginar – expectativas. Eu, que li Falling Man e, apesar de não o classificar entre os melhores DeLillo (experimentem Ruído Branco), fiquei convencido de que não teria usado melhor o meu tempo lendo qualquer coisa alinhavada pelo José Rodrigues dos Santos, experimento reacção similar com A Estrada. Não o livro de Cormac McCarthy mas o filme baseado no livro de Cormac McCarthy. Permitam-me que explique.

 

Li o livro, na versão original, ainda antes de McCarthy se tornar conhecido por, afinal, não só aceitar dar entrevistas como dar entrevistas à Oprah. Num understatement incontornável (o inglês é para que possam comprovar que eu seria mesmo capaz de ler o livro no original), posso dizer-vos que ADOREI o livro. Adorei-o a ponto de não me envergonhar de usar maiúsculas ao escrever que o adorei. Li-o, reli-o, fiz-lhe festinhas. E depois soube que, lá pela Hollywood do Michael Bay, tinham decidido fazer um filme baseado nele. Ora eu também gosto de filmes. Gosto tanto, aliás, que gosto até mesmo dos que foram rodados antes de Deus inventar as cores ou a fala humana (num àparte, deixem-me confessar sempre ter achado estranho que Deus tivesse inventado a música de piano antes de dar voz às pessoas mas suponho que isso só demonstra que os Seus desígnios – de Deus, não seus, leitor, nem do Casanova, por muito divino que tanto você como ele se possam considerar – são mesmo insondáveis, conforme alguém, num filme sonoro qualquer – A Vida de Brian? –, terá exclamado um dia). Mas a notícia apavorou-me tanto como qualquer aparição do Ministro das Finanças na televisão. Filmar A Estrada? Como? Onde? Por quem? Mais importante: porquê? A minha reacção imediata foi prometer a mim mesmo que não o veria antes do momento em que obtivesse a certeza absoluta de não sair desiludido ou a Alzheimer me tivesse atacado o suficiente para eu não me recordar do livro. Fui apanhando notícias sobre o filme aqui e ali (Viggo Mortensen, até que não era mal pensado; John Hillcoat, melhor ainda) e, quando o trailer saiu, espreitei. Recuei, horrorizado. E depois não só não vi o filme como dei cabo dos dentes ao rangê-los de cada vez que passava junto a um cinema exibindo o cartaz. Sobrevivi a essas semanas difíceis (mesmo você, caro leitor, que não me conhece, terá de admitir que sou mais resistente do que pareço), A Estrada, o filme, lá acabou por sair de exibição e eu passei uns meses de paz e alegria.

 

E depois saiu o DVD. E depois o DVD entrou em promoção. E depois eu não resisti e comprei o DVD (por acaso foi o Blu-ray, que não quero não apreciar A Estrada só por faltar definição ao apocalipse). E isso foi há cerca de um ano e eu ainda não vi A Estrada. Não o vi em Janeiro e em Fevereiro e em Março de 2011. Tornei a não vê-lo em Abril e em Maio e em Junho. No Verão não o vi várias vezes. E fiz questão de voltar a não vê-lo no Outono e no início do Inverno. Tenho-o aqui ao meu lado enquanto escrevo isto. A capa mostra o Viggo a proteger o miúdo com o braço direito, o revólver na mão esquerda; na parte inferior, o selo de qualidade Selecção Oficial do Festival de Veneza 2009 – a melhor recomendação possível, se considerarmos apenas festivais de cinema ocorridos em cidades banhadas pelas águas do Adriático. Atrás, na ficha técnica, a indicação realizado por John Hillcoat – e eu adorei (em minúsculas) A Proposta (cujo argumento, já agora, foi escrito por um senhor chamado Nick Cave). Mas nem assim. Quase um ano e eu ainda estou para enfiar o disco no leitor (que também está aqui, a meros três metros, por baixo do televisor). Chateia-me, esta incapacidade. Consolo-me um pouco pensando que mais vale tê-lo comprado demasiado cedo do que ser obrigado a fazê-lo depois do fim do euro. Foi um investimento, digo-me. Tal como no caso de outros filmes e séries que, por falta de tempo, ainda não vi. Ou no dos livros. Em vez de mandar os poucos euros que tenho para uma conta na Suíça, converto-os em entretenimento para usufruto futuro. Tem lógica, não? Infelizmente, quando o assunto é A Estrada, nem assim me consigo convencer.

 

E é por isso que decidi fazer do visionamento de A Estrada, o filme, a minha resolução de ano novo. Antes de 2012 acabar, eu hei-de ver este filme.

 

Não me parece que seja hoje. Mas tenho tempo. O ano até é bissexto.

Em vez do concerto de Ano Novo

Ivone Mendes da Silva, 01.01.12

Que silêncio. Devo ser a única pessoa acordada nesta casa. Ficava-me bem fazer umas profundas considerações sobre o ano que começa. Ficava, mas não vou fazê-las. Não quero considerar.

Vou, antes, deixar aqui um vídeo. Este tenor napolitano, Marco Beasley, tem a voz mais mediterrânica que já ouvi. Quando ele canta, é toda a Europa do sul que acorda e dança nos claustros da nossa memória comum.

 

 

E, se gostaram,  ouçam-no com Pino de Vittorio, com quem forma o ensemble Accordone, na belíssima canção Stu pettu è fattu cimbalu d' amori.

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