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Delito de Opinião

Classe média

Helena Sacadura Cabral, 30.01.12

"A classe media está em risco de empobrecimento rápido e pode desaparecer como a conhecemos em Portugal, em consequência da crise económica que o país atravessa, disse ontem o sociólogo Elísio Estanque que lança esta semana um livro sobre o tema".

 

E quem se importa com a questão? Os governantes, decerto não. E a oposição, por norma, não gosta de classe média...  

 

PS. O nome erradamente referido na notícia era Elísio Estampa, que agora foi corrigido. O que explica o delicioso comentário de um leitor atento e cheio de humor!

Rêves Ardents

Laura Ramos, 30.01.12

Raras vezes uma mulher assim, neste meio, detém esta força. Contra a sua obra (e a obra por fazer) contaram séculos de predomínio masculino, oportunamente somados aos mais recentes anos de desconceito dos valores humanísticos, na crista de um poder que devia ser esclarecido porque é o poder de todos os futuros: o universitário.

Não a quiseram por cá? Outros a quiseram. Habituem-se.

Conheço-a há quase tantos anos quanto a mim própria e sei que ela é a força de teimar na acção. A obra lúcida, em movimento, contra o mecanicismo económico, os oráculos da estatística, os que olham fixamente - e sem - um amanhã enganado.

La science sans conscience n'est que ruine de l'âme: foi este o seu estandarte, que diz tudo sobre quanto se perdeu.

Agora, a caminho de Rabat para dirigir o novo polo da maior associação universitária do mundo, deixa na última página do 'Jornal de Letras' o seu Diário de partida de um tempo velho; e de chegada a um tempo  com futuro.

 

Cristina Robalo Cordeiro


(...) Trago comigo um mundo imenso de rostos e de afectos. Deixo uma casa, uma cidade, uma universidade. Ou, pelo menos, uma certa ideia da minha universidade, no sentido que De Gaulle dava à celebérrima afirmação «Je me suis toujours fait une certaine idée de la France».

Detenho-me na resposta de Bellabes à última pergunta que lhe é colocada: «Não gosto de competições! Apenas uma forma de competição me interessa, a que me põe face a mim, em face de mim». E vêm-me à memória os meus recentes combates, tão semelhantes em natureza, tão desiguais nos seus efeitos.

Sei então porque parto. Não para reconhecer objectos e gestos, perfumes e sabores, no mistério das silhuetas desaparecidas na esquina de um souk ou das sombras projectadas sobre as paredes atravessadas pelo tempo. Mas porque é grande o apelo da vida, do pensamento e da acção. Porque há lugares onde ainda é possível construir, onde é inútil e ultrajante dizer não, não há condições… nem meios nem esperança! Parto porque há condições, meios e esperança! E vontade firme!
Boa sorte, Cristina.

Melancolia

Teresa Ribeiro, 30.01.12

Será que tudo o que o génio artístico produz é arte? A pergunta é retórica. Por maior que seja o seu talento também os génios que nos alimentam a alma têm dias maus. Se além de génios forem mentes perturbadas, uma situação que, como se sabe, anda muitas vezes a par, o risco de sermos contemplados com excrescências artísticas aumenta. Sempre que sou confrontada com obras assinadas por loucos consagrados que me são apresentadas como sendo de génio, mas que por um motivo ou outro me inspiraram uma profunda rejeição, fico a meditar nestas coisas. Aconteceu-me há dias, quando vi Melancolia, o último filme de Lars Von Trier.

Aquela angústia sufocante, que evolui em crescendo até ao final do filme, incomodou-me tanto que cheguei a ponderar abandonar a sala. Se o fizesse não seria a única naquela sessão. Convenhamos que a câmara permanentemente móvel contribuiu em partes iguais para o meu mal-estar. É uma moda, que começou por ter piada, mas que se está a tornar enjoativa. Quando vejo um filme, a menos que se justifique pela temática estar sempre consciente do meu papel de espectadora, gosto de entrar nele e de me esquecer de tudo à volta. Uma câmara aos saltos perturba-me esse entrosamento e cansa extraordinariamente o olhar.

Mas voltando a Melancolia: senti ao ver o filme que estava a participar de um delírio doentio. A linguagem que ali se falava não era a minha. Busquei nas minhas cavernas mais obscuras razões para me identificar com aquele terror primal mas não encontrei correspondência para aquilo. Porque "aquilo" deixou de ser partilhável a partir do momento em que se tornou demasiado pessoal. Dei comigo, incomodada, a espreitar para dentro da cabeça do Lars Von Trier, quando o que eu gosto, ah se gosto, é de espreitar para dentro da minha. Arte é apresentar ao mundo, com apurado sentido estético, um monólogo apavorado? Talvez, mas nesse caso pintem um quadro (adoro Van Gogh), componham (gosto de Schumann), escrevam (sou fã da Virginia Woolf), mas não façam nada que me retenha duas horas dentro de uma sala escura. É que fico mal disposta.

O comentário da semana

Pedro Correia, 30.01.12
 
«Era e será a minha Livraria, ainda que, conforme muitos, não entrasse lá desde há algum tempo (ainda que, por questões particulares que não se prendem com a troca à modernidade). A Portugal, por questões familiares, está-me nos genes... e foi de lá que vieram toda a Enid Blyton; Astérix o Gaulês e todos os que se seguiram; os posters; os discos em vinil da área do jazz. Havia de ser em seguida o meu primeiro emprego, no grande e único (à época) Boletim Bibliográfico, que me permitiu manusear e sentir os milhares de livros que davam entrada. Atrás deles tive o previlégio de conhecer dois humildes mas Grandes homens; Jorge Pimenta e o Prof. José Pedro Machado. Foi a época do boom da "Rua do Carmo" nos inícios dos anos 80. Saudades sim dessa Lisboa onde ao meio-dia e meia de cada sábado saía para a rua e adquiria um LP na discoteca quase em frente. O cheiro a café que subia do Rossio; o som do violino com pai e filho junto ao elevador de St. Justa... o Arnaldo que deambulava rua acima e rua abaixo a dizer de sua justiça.
É autênticamente mais um pouco de mim que morre... da mesma forma que morreram as árvores da minha infância ou os meus primos queridos.
O Chiado de hoje continua a ter para mim o sabor bom de há 30 anos, através da Portugal. Daqui a meses já não terá... da mesma forma que para muitos de nós ele tenha sido alterado com a falta dos Grandes Armazéns.
Somos nós a passar pelo tempo e a deixarmos nele aquilo que vamos sendo. Garantidamente que não te direi para já adeus, Livraria Portugal.»
 
Do nosso leitor José Manuel. A propósito deste texto da Teresa Ribeiro.

Blogue da Semana

Adolfo Mesquita Nunes, 29.01.12

Não sei quem é, acho!, o Mr. Brown que escreve n'Os Comediantes, o blogue que escolhi para ser blogue da semana. Sei apenas que gosto das análises políticas que faz (nem sempre - e bem! - favoráveis ao governo que apoio): quer na forma, muito clara e precisa, quer no conteúdo, desconfiado do bem intencionado estatismo que nos tem governado. É, por isso, um blogue que leio com regularidade e que é surpreendentemente pouco citado ou linkado pela blogosfera que se dedica à política. Para além disso, e já basta, desconfio que partilho com ele (e, ao que parece, com a Clara Ferreira Alves) um gosto especial por Graham Greene.

  

The promise of calm

Helena Sacadura Cabral, 29.01.12

 

Não resisti ao roubo. Roubei à minha querida amiga Maggie Pereira, este belo texto que ela postou no seu blogue O Destino Marca a Hora.

 

"People don't know how to love. They bite rather than kiss. They slap rather than stroke.
Maybe it's because they recognize how easy it is for love to go bad, to become suddenly impossible... unworkable, an exercise of futility.
So they avoid it and seek solace in angst, and fear, and aggression, which are always there and readily available.
Or maybe sometimes... they just don't have all the facts.
Anger and resentment can stop you in your tracks. That's what I know now. It needs nothing to burn but the air and the life that it swallows and smothers. It's real, though - the fury, even when it isn't. It can change you... turn you... mold you and shape you into something you're not.
The only upside to anger, then... is the person you become. Hopefully someone that wakes up one day and realizes they're not afraid to take the journey, someone that knows that the truth is, at best, a partially told story. That anger, like growth, comes in spurts and fits, and in its wake, leaves a new chance at acceptance, and the promise of calm.
Then again, what do I know? I'm only a child."
 
Lavender "Popeye" Wolfmeyer
The Upside of Anger
 
Sem comentários. Para quê?!

Abençoados sejam!

Helena Sacadura Cabral, 29.01.12

 

Ainda há quem se preocupe com os outros e passe a noite a resgatar, em restaurantes, refeições que sem este movimento solidário seriam deitadas para o lixo.

Esta iniciativa foi lançada há menos de um ano, em Lisboa, e tem mais de cem voluntários a recuperar comida que cafés e conexos acabariam por deitar fora. O objectivo é acabar com desperdício e mitigar a fome.

Abençoada gente!

Macchiato, quando muito

Ivone Mendes da Silva, 29.01.12

Acabo de ver Os Descendentes.  Acho que não gostei. Digo acho porque não percebi muito bem. É certo que pequenos ou grandes dramas não escolhem o lugar onde ocorrem, mas contá-los exige mais do que do que uma boa articulação narrativa, pede uma rede de símbolos que suportem o plot e o façam encorpar. Eu não sou pessoa de paisagens exótico-balneares e, talvez por isso, aquele mobiliário de praia, o guarda-roupa estival e as impossíveis camisas havaianas tenham constituído um ruído que me impediu de apreciar o filme e, a meu ver, lhe retirou a credibilidade trágica.

Defeito meu, claro, que vi muito Visconti em pequenina e fiquei assim, desde então, sempre à espera de ver o pathos a escorrer do set decoration como água nos filmes de Tarkovski.

Justiça: pelo prestígio e celeridade

João Carvalho, 29.01.12

O projecto da actual ministra da Justiça é encerrar uma série de tribunais que tenham supostamente um reduzido número de processos, processos esses que passariam para outros tribunais. A ideia parece-me que vai para lá do mero factor económico, uma vez que tende a sobrecarregar tribunais maiores e até, provavelmente, com problemas de pendências. Vejamos.

A Saúde e a Educação, como se sabe, são sectores públicos que não é suposto darem lucro, certo? O mesmo acontece com a Justiça: como aqueles, este quer-se um sector que deve apostar, tanto quanto possível, na proximidade. Assim, como poderá encarar-se pacificamente que se fechem tribunais onde se faz justiça com maior rapidez e se agravem as situações mais complexas e demoradas?

Se houver boa-fé, a ideia da ministra deve ser repensada e revista. Não é difícil encontrar soluções alternativas para melhorar o deplorável estado em que a Justiça se encontra.

Uma das soluções é terminar com a chamada "competência territorial". Ou seja: permitir que as partes em litígio não tenham de sujeitar-se à comarca a que pertencem, mas antes poderem escolher a comarca que melhor as sirva. Dir-me-ão: uma das partes (a arguida) é capaz de não estar muito interessada na celeridade dos tribunais. Pois bem: a escolha que referi pode ficar ao critério dos autores dos processos, que constituem seguramente a parte interessada na sua mais rápida conclusão.

Não me parece ser necessário lembrar que a degradação crescente do prestígio que devia enformar a Justiça está directamente relacionada com a falta de celeridade. E a celeridade constitui um dos aspectos mais sensíveis e decisivos do Estado, nas suas competências específicas a favor do desenvolvimento e do crescimento que procuramos com o dramatismo que se sabe.

Centremo-nos, pois, no prestígio exigível e em soluções exequíveis, visto que a Justiça já está de rastos o bastante para que ainda andemos a inventar.

Não se brinca com o fogo.

Luís Menezes Leitão, 29.01.12

Há dias escrevi aqui sobre o disparate que representa a União Europeia lançar um embargo petrolífero ao Irão quando os seus membros em situação mais complicada, como a Grécia, França e Itália, estão absolutamente dependentes do petróleo iraniano. Parece, no entanto, que a Baronesa Catherine Ashton que, por escolha não se sabe de quem, dirige brilhantemente a política externa europeia, achava que depois de anunciar o embargo o conseguia realizar a prazo ou às pinguinhas, sem que o Irão reagisse. Mas o Irão acaba de demonstrar que está disposto a subir a parada neste jogo de poker que lhe propõem e ameaça cortar o petróleo à Europa já na próxima semana. A União Europeia vai por isso confrontar-se de imediato com um choque petrolífero a somar aos inúmeros sarilhos em que está envolvida. Eu só me pergunto como é que é possível termos tanta

 incompetência e falta de sentido da realidade à frente dos destinos da União Europeia. Porque o que os líderes europeus andam presentemente a fazer chama-se brincar com o fogo.

Os livros que fomos lendo

Pedro Correia, 29.01.12

 

Durante quase três meses, fomos aqui revelando as leituras que íamos fazendo, partilhando-as com os leitores. Chegou o momento do balanço desta série, desenrolada em 24 etapas.

 

A Ivone Costa, a 3 de Novembro, relia A Mecânica da Ficção, de James Wood.

 

O JAA, a 7 de Novembro, falou-nos de um dos três livros que então lia: Uma Mentira Mil Vezes Repetida, de Manuel Jorge Marmelo.

 

O José Maria Pimentel, a 14 de Novembro, deixou-nos nota da obra que ia lendo: China: its History and Culture, de W. Scott Morton e Charlton Lewis.

 

O João Campos, a 15 de Novembro, fazia uma incursão pela banda desenhada: As Extraordinárias Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy II - Apocalipse. De Filipe Melo (argumento) e Juan Cavia (ilustrações).

 

O João Carvalho, a 18 de Novembro, optava por "alcoviteirices": Amantes dos Reis de Portugal, de Paula Lourenço, Ana Cristina Pereira e Joana Troni.

 

A Laura Ramos, a 22 de Novembro, citava Leo Ferré à laia de introdução do seu texto sobre o livro A Confraria do Vinho, de John Fante.

 

A Leonor Barros, a 28 de Novembro, trouxe-nos literatura em alemão: Meine Russischen Nachbarn, de Wladimir Kaminer.

 

Luís M. Jorge, a 30 de Novembro, lamentava a perda do livro que estava a ler: The Sense of an Ending, de Julian Barnes.

 

O Luís Menezes Leitão, a 2 de Dezembro, assumia-se como apreciador de biografias ao escrever sobre Estaline, de Jean-Jacques Marie.

 

A Patrícia Reis, a 2 de Dezembro, escreveu sobre Dois Rios, de Salem Tatiana Levy, e a biografia de Lúcio Feteira, de Miguel Carvalho.

 

A 6 de Dezembro, foi a minha vez: deixei a minha opinião sobre uma obra muito interessante: A Liderança Segundo John Kennedy, de John Barnes.

 

O Rui Rocha, a 7 de Dezembro, desvendava-nos o livro que andava a reler: A Criação do Mundo, de Miguel Torga.

 

A Teresa Ribeiro, a 12 de Dezembro, trazia-nos aqui a sua perspectiva sobre Os Nus e os Mortos, de Norman Mailer.

 

O Adolfo Mesquita Nunes, a 19 de Dezembro, confessou-nos a sua nada surpreendente predilecção por The Iron Lady, biografia de Margaret Thatcher escrita por John Campbell.

 

A Ana Cláudia Vicente, a 23 de Dezembro, interrompia Vitorino Nemésio para ler Luiz Pacheco.

 

A Ana Lima, a 26 de Dezembro, narrava-nos a sua opinião sobre O Retorno, de Dulce Maria Cardoso.

 

A Ana Margarida Craveiro, a 27 de Dezembro, andava a braços com "um tijolo de 800 páginas": The Better Angels of our Nature, de Steven Pinker.

 

A Ana Sofia Couto, a 30 de Dezembro, falou-nos de Mais Platão, Menos Prozac!, de Lou Marinoff.

 

A Ana Vidal, a 2 de Janeiro, trouxe-nos notícias d' O Túnel, de Ernesto Sabato.

 

O António Manuel Venda, a 3 de Janeiro, relia o Breviário das Más Inclinações, de José Riço Direitinho.

 

A Cláudia Köver, a 13 de Janeiro, transmitiu-nos as suas impressões sobre Comboio Nocturno para Lisboa, de Pascal Mercier.

 

O Fernando Sousa, a 20 de Janeiro, apresentou-nos os Contos Reunidos, de Felisberto Hernández.

 

A Helena Sacadura Cabral, a 21 de Janeiro, lia Longe é um Bom Lugar, de Mário Zambujal.

 

E a série terminou a 26 de Janeiro com o José Navarro de Andrade. Leitor d' Os Espiões, de Luís Fernando Veríssimo.