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O melhor texto dos últimos tempos

por Rui Rocha, em 30.12.11
Arrependo-me de quase todas as decisões que tomei na vida. Durante muito tempo acreditei ser a escolha da profissão aquela de que me não iria arrepender. Os últimos tempos vieram provar o contrário: ser professor é um destino que não se deseja ao nosso pior inimigo.
O que era escola tornou-se comunidade educativa, designação execrável que engloba sensibilidades que não se encontram nem nunca se irão encontrar.
O zénite do desencanto aconteceu hoje: ao abrir o mail, recebo os votos de Boas Festas da direcção da escola. As Boas Festas dirigidas a todos os colaboradores. Colaboradores. Colaboradores, assim mesmo como se de uma empresa se tratasse. A escola não é uma empresa, não pode ser uma empresa, não deve ser uma empresa.  Eu sei que esta linguagem está na moda e que é muito fácil agarrar estas expressões e usá-las sem reflectir sobre a elas. Ligam-me às pessoas que integram a direcção da minha escola laços de amizade de muitos e muitos anos. Sei que não usaram este termo para magoar, usaram-no porque se usa.
A mim, que sou rija e pouca dada a lamechices, vieram-me as lágrimas aos olhos. Resumir o trabalho de um professor a uma colaboração é uma ofensa, é uma mágoa que custa a sacudir.
Só me apetece emigrar. Para um sítio onde me chamem professora.
 
A nossa Ivone Costa, na sua A Ronda dos Dias

Da responsabilidade do Estado.

por Luís M. Jorge, em 30.12.11

Ana, as declarações desse homem são uma vergonha, não por efeito de qualquer menosprezo colectivo pela responsabilidade individual mas porque implicam a desresponsabilização do Estado e das polícias, que têm o dever de manter as estradas seguras quer os mortos "cooperem" ou "não cooperem". Ao sugerires que a culpa é dos condutores esqueces que para além dos que provocam acidentes também existem os outros, que não bebem, não aceleram e ainda assim morrem na estrada.

 

Aliás, pelo teu raciocínio esquecíamos a avaliação quantitativa do número de acidentes e das vítimas: dizia-se que a responsabilidade era nossa e acabava-se a conversa. Ou seja, tínhamos o Governo e as instituições postas em sossego, sem necessidade de responderem pelos resultados das suas decisões. Eu até compreendo que lhes dê jeito: quando no próximo ano avaliarmos a evolução da pobreza e das desigualdades é bem provável que a conversa regresse.

 

Era só o que faltava.

Tiques de ditadores

por João Carvalho, em 30.12.11

 

Mais um "milagre" do Photoshop ao serviço dos ditadores: à esquerda, a foto do funeral de Kim que um free-lancer registou; à direita, a foto do mesmo momento e que as autoridades norte-coreanas distribuíram às agências noticiosas internacionais, depois de "restabelecida a ordem" por via do computador.

O processo é velho e conhecido, desde a era pré-Photoshop na União Soviética ao regime egípcio recentemente deposto. Estes retoques têm todos uma coisa em comum: são tiques que só lembram aos ditadores, que gostam sempre de experimentar se o poder os deixa apagar ou modificar a História.

Bom ano para todos...

por João Carvalho, em 30.12.11

 

... se puderem. E não vale a pena fingir que nada se passa: o ano vai passar e o assustador 2012 vem mesmo aí.

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Da responsabilidade individual

por Ana Margarida Craveiro, em 30.12.11
      

 

Tenho visto por aí algum brado a propósito das declarações deste senhor GNR. Que é insensível, que não respeita os mortos e suas famílias, etc., etc., e dá-me vontade de perguntar: mas a sério que vivemos no mesmo país? A sério que vivemos todos num mesmo país onde gente com bem mais de um copito em excesso pega no volante, onde o limite de velocidade é uma coisa para totós, onde os piscas a assinalar ultrapassagem são uma coisa que se usava no dia do exame de condução?

Em Portugal, andar na estrada é um desafio constante à vontade de querer ver nascer o dia seguinte. Mas ninguém o diria, a avaliar pela certeza de que há um Senna em cada um de nós. Os sacanas dos polícias é que andam à caça da multa, uns palhaços. Depois a curva estava no sítio errado, começou a chover, os pneus ou os travões falharam. Inevitavelmente, depois de fins-de-semana de festa, temos as listas de mortos e feridos graves, a mostrar que entrar num carro é causa de morte. Mas a fantástica lógica destes Schumachers de trazer por casa consegue sempre distorcer qualquer noção de responsabilidade individual. E os trágicos números não são mudados por esta distorção.

MMXII

por José António Abreu, em 30.12.11

Que 2012 vai ser um ano difícil é uma evidência. Mas, mais importante, vai ser um ano crucial. Vai ser o ano em que o euro pode acabar, pelo menos em alguns países. Vai ser o ano em que a economia europeia pode entrar em colapso. Vai ser o ano em que o «projecto europeu» pode sofrer um abrupto desvio de percurso. O ano em que ódios e nacionalismos podem regressar em força. O ano em que a contestação social se pode transformar em revolta. O ano em que, já abertamente, se vão culpar outros por falhas próprias.

 

Em Portugal, temos muitas decisões a tomar. A mais importante é decidir se queremos continuar a prosseguir o esforço de consolidação dentro do euro, se o preferimos fazer fora dele (e, eventualmente, da União Europeia). É uma questão que se colocará insistentemente. Seja qual for a nossa decisão, sejam quais forem as consequências, não vale a pena culpar outros pelos nossos actos. Ninguém nos obrigou a aderir à União Europeia. Ninguém nos obrigou a aderir ao euro. Ninguém nos obrigou a aderir ao euro à taxa cambial a que aderimos (o orgulho que foi, lembram-se?). Ninguém nos obrigou a gastar os fundos comunitários (2% do PIB por ano) em projectos sem retorno. Ninguém nos obrigou a escolher a via da irresponsabilidade orçamental (sim, outros o fizeram: problema deles). Ninguém nos obrigou a ignorar os múltiplos avisos (passaram há dias dez anos sobre o dia em que um Primeiro-Ministro socialista falou no «pântano»; não apenas o ignorámos como crucificámos o Primeiro-Ministro seguinte por utilizar a expressão «tanga»). Ninguém nos obrigou a, em 2008/2009, injectar fundos públicos na economia como se tivéssemos uma dívida pública de 20% e viéssemos de anos de excedentes orçamentais (antes que alguém fale no BPN, foi um erro mas também uma gota de água). Ninguém nos obrigou a tentar criar regimes de protecção social tão fortes como os dos mais ricos países europeus, em metade do tempo que eles demoraram a fazê-lo e perante uma demografia totalmente diferente (mais: perante sinais de que eles também já não os conseguiam suportar). Ninguém nos obrigou a nada. Chegámos a esta situação por opções nossas. E vamos sair dela, melhor ou pior, com opções nossas. Com ou sem troika. Dentro ou fora do euro. Numa Europa politicamente mais unida ou mais separada. Os outros (a Grécia, a Espanha, a Itália, a França, a Alemanha, o Reino Unido, a Holanda, os países nórdicos) farão o que entenderem – não podemos controlar isso. Nem deveríamos poder, ainda que tal nos permitisse escolher a via menos dolorosa para nós – eles, que também cometeram erros e também correm riscos, têm direito às suas opções. Resta-nos alertá-los para as consequências e defender os nossos interesses. Escolher, a cada momento, o que entendermos ser melhor para nós. Ou, infelizmente, menos mau. Sem ilusões (ainda não estamos fartos delas?) mas também sem decisões precipitadas.

 

Que 2012 vai ser um ano difícil é uma evidência e, por muito que o tenhamos tentado no passado, não vale a pena negar evidências. Mas, mais importante, vai ser um ano crucial. Saibamos – nós e os restantes europeus – usá-lo bem.

"Gorduras do Estado" (27)

por Pedro Correia, em 30.12.11

Jardim não corta pensões vitalícias

2012.

por Luís M. Jorge, em 30.12.11

Os pobrezinhos
tão engraçados
pedem esmolinha
com mil cuidados.

Todos sujinhos
e tão magrinhos
a linda graça
dos pobrezinhos.

De porta em porta
sempre rotinhos
tão delicados
os pobrezinhos.

Não façam mal
aos pobrezinhos
Dêem-lhes pão
e tostõezinhos.

Os pobrezinhos
tão engraçados
pedem esmolinha
com mil cuidados.

 

(Armindo Mendes de Carvalho, várias vezes declamado por Mário Viegas — e a falta que ele cá faz).

Passado presente (CCCLVIII)

por João Carvalho, em 30.12.11

 

Pinheiro de Natal vintage

2011.

por Luís M. Jorge, em 30.12.11

Na sala as mulheres chegam e partem, falando sobre Salazar.

Uma bela carnificina

por João Campos, em 30.12.11

Carnage - em português, O Deus da Carnificina -, de Roman Polanski, é em certa medida o oposto de muitos dos filmes que podemos ver hoje em dia: actores de qualidade misturados com actores com menos qualidade em produções feitas para mostrarem grandes cenários (normalmente feitos em computador) pirotecnia, efeitos especiais e cenas de acção e suspense que querem ser muito originais mas que acabam por ser invariavelmente iguais. E é justamente por ser o oposto dessa tendência que Carnage é um filme excelente e refrescante - Polanski juntou quatro actores de provas dadas, colocou-os numa sala - numa única sala, em todo o filme - e deu-lhes um argumento bem escrito e inteligente para trabalharem. O resto é talento puro - e que talento. Jodie Foster, John C. Reilly, Kate Winslet e Christoph Waltz representam dois casais a tentar resolver amigavelmente um confronto violento entre os seus filhos, ainda crianças - mas da tentativa de amenização até ao mais puro ressentimento vai uma distância mesmo muito curta. 

 

A força de Carnage, como já disse, reside nos actores, que têm desempenhos formidáveis. Destaco, no entanto, Christoph Waltz, uma vez mais absolutamente brilhante. Vê-lo representar é uma maravilha. Polanski merece todos os elogios por este filme, mas há que colocar também uma velinha a Tarantino - que o mostrou ao mundo em Inglourious Basterds, e lhe deu o lugar que merece com toda a justiça: entre as estrelas do cinema mundial. Como aquelas com quem contracena neste filme.

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O som dos nomes antes de os saber escrever

por Rui Rocha, em 30.12.11

Não sei se também vos aconteceu... No meu caso, antes de aprender a ler, os nomes de algumas pessoas soavam de maneira bem diferente daquela que vim a descobrir ser a forma correcta de os escrever. Por exemplo, para mim, Zeca Afonso era Zé Cafonso. Lembro-me também do Omar Xerife (na minha imaginação de menino, naturalmente, um herói do velho oeste) ou do Igreja Isqueiro (Igrejas Caeiro). A maior desilusão foi todavia o Sam Peque em Paz. O nome real de Sam Peckinpah não lhe servia nem para moço de recados.

Belles toujours

por Pedro Correia, em 30.12.11

 

Amália Rodrigues

Retro Actividades, #1

por Ana Cláudia Vicente, em 30.12.11

As canções do século (729)

por Pedro Correia, em 30.12.11

Poetas esquecidos (6)

por Ivone Mendes da Silva, em 29.12.11

Isto de associar ideias é rodopiar que bem se conhece mas que nem sempre bem se explica. Estive, durante a tarde, a conversar sobre o romance Adoecer da Hélia Correia. Um beleza de livro, fica já aqui dito. A personagem central é Elizabeth Siddal, a conhecida pré-rafaelita que posou, entre outras coisas, para o quadro de John Everett Millais, feita Ofélia e deitada numa banheira mal aquecida com um vestido antigo recamado a fio de prata cujo peso a puxava para a pouca água e lhe provocou uma pneumonia de tão demorado ter sido o tempo de pose. Ora bem: como é sabido que há mais coisas no céu e na terra do que sonha a nossa vã imaginação, um anjo de passagem, dos que fizeram formação em blogues, segredou-me à consciência: “Olha lá, não devias voltar a falar de um poeta esquecido?” Pois é, pensei: os poetas. Depois: Ofélia. A Ofélia de Fernando Pessoa, irmã de Carlos Queirós. Será o meu poeta de hoje.

José Carlos Queirós Nunes Ribeiro nasceu em Lisboa em 1907 e morreu em Paris em 1949. Já conferi as datas, não me enganei. Felizmente, há sempre um ou outro comentador de bom coração que me vem assinalar o lapsus calami (ou de tecla, no caso vertente). Amigo de Fernando Pessoa e de Luís de Montalvor, a estética do Orfeu não deixou marcas muito visíveis na sua produção poética. Se alguma influência se quiser encontrar, será a da Presença, talvez mais de Régio, embora a poesia de Carlos Queirós assuma características muito próprias, diversas dos dois modernismos. Em vida, a sua publicação foi escassa: Desaparecido e alguns poemas em várias revistas. A publicação póstuma de Poesia Completa permitiu uma visão de conjunto sobre uma escrita de grande apuro sintáctico e formal. Eu di-lo-ia um clássico moderno e citadino, com dores de alma refreadas numa expressão contida. É um nostálgico comedido, desencantado do mundo e dos seus enganos. Uma nostalgia muito portuguesa, com metáforas de veleiros e de arrais.

 

Sempre que leio nos jornais:

«De casa de seus pais desapar’ceu...»

Embora sejam outros os sinais,

Suponho sempre que sou eu.

 

Eu, verdadeiramente jovem,

Que por caminhos meus e naturais,

Do meu veleiro, que ora os outros movem,

Pudesse ser o próprio arrais.

 

Eu, que tentasse errado norte;

Vencido, embora, por contrário vento,

Mas desprezasse, consciente e forte,

O porto do arrependimento.

 

Eu, que pudesse, enfim, ser eu!

- Livre o instinto, em vez de coagido.

«De casa de seus pais desapar’ceu...»

Eu, o feliz desaparecido!

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Frases de 2011 (73)

por Pedro Correia, em 29.12.11

«Para 2012 só peço que as lesões me respeitem.»

Jeffren Suárez, jogador do Sporting

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Bonnie and Clyde

por Laura Ramos, em 29.12.11

João Carvalho:
- Não achas que o TGV protegeria os portugueses do risco de assaltos como este?
Não tarda nada e a vida estará para os novos Bonnies&Clydes, que farão parar qualquer inocente comboio alfa...
É  que é pendular! Quero dizer: patibular.

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Reflexão do dia

por Pedro Correia, em 29.12.11

«Não festejar o 1 de Dezembro representa a morte de um dos três dias mais importantes da nossa história: os outros dois já foram chacinados e servem agora de exemplo: 5 de Outubro de 1143? Lembra-se de um tal Tratado de Zamora? E lembra-se de Aljubarrota e de 14 de Agosto de 1385? (...) Os EUA ou França alguma vez acabarão com o 4 de Julho ou o 14 de Julho? Never. Jamais

Filipe Paiva Cardoso, no i

Houellebecq por Houellebecq (com carneiros e porcos)

por José António Abreu, em 29.12.11

– Vai reconhecer a casa com facilidade, é o relvado mais mal conservado das redondezas – dissera-lhe Houellebecq. – E talvez de toda a Irlanda – acrescentara.

Na ocasião julgara tratar-se de um exagero, mas a vegetação atingia efectivamente alturas fenomenais. Jed seguiu por um caminho empedrado que serpenteava por uma dezena de metros entre os maciços de cardos e de silvas, até à plataforma alcatroada onde estava estacionado um SUV Lexus RX350. Como era de esperar, Houellebecq escolhera a opção bungalow: era um grande edifício branco e novo, com telhados de ardósia – realmente uma casa perfeitamente banal, exceptuando o estado repugnante do relvado.

Tocou, esperou uns trinta segundos e o autor de As Partículas Elementares veio abrir, de pantufas, vestindo umas calças de bombazina e um confortável casaco de trazer por casa, de lã crua. Fitou Jed longamente, pensativamente, e depois dirigiu o olhar para o relvada numa meditação melancólica que parecia ser-lhe habitual.

– Não sei usar uma máquina de cortar relva – concluiu. – Tenho medo de cortar os dedos nas lâminas, parece que é frequente isso acontecer. Podia comprar um carneiro, mas não gosto deles. Não há nada mais foleiro que um carneiro.

Jed seguiu por umas salas de chão de pedra, vazia de móveis, aqui e além com algumas caixas de cartão das mudanças. As paredes eram forradas de papel pintado, liso, branco sujo; o chão estava coberto por uma ligeira película de poeira. A casa era muito ampla, devia ter pelo menos uns cinco quartos; não estava muito quente, não mais que dezasseis graus; Jed teve a intuição de que todos os quartos, com excepção daquele onde Houellebecq dormia, deviam estar vazios.

– Acabou de se instalar aqui?

– Pois foi. Enfim, há três anos.

(...)

– Gosta de enchidos? – perguntou o escritor.

– Sim… Digamos que não tenho nada contra.

– Vou fazer café.

Levantou-se com vivacidade e regressou uns dez minutos depois com duas chávenas e e uma cafeteira italiana.

– Não tenho leite nem açúcar – anunciou.

– Não faz mal. Eu não tomo.

O café era bom. O silêncio prolongou-se, absoluto, durante dois ou três minutos.

– Eu gostava muito de enchidos – disse por fim Houellebecq –, mas decidi passar sem eles. É que, sabe, eu acho que devia ser proibido ao homem matar porcos. Disse-lhe todo o mal que pensava dos carneiros; e persisto na minha opinião. Até os méritos da vaca, e neste ponto estou em desacordo com o meu amigo Benoît Duteurtre, me parecem ser exageradamente exaltados. Mas o porco é um animal admirável, inteligente, sensível, capaz de dedicar um afecto sincero e exclusivo ao dono. E realmente a sua inteligência é surpreendente, nem sequer se lhes conhecem os exactos limites. Sabe que já foi possível ensiná-los a dominar as operações simples? Enfim, pelo menos a adição, e acho que a subtracção em certos indivíduos muito dotados. Estará o homem no direito de sacrificar um animal capaz de atingir as bases da aritmética? Francamente, acho que não.

Michel Houellebecq, O Mapa e o Território.

Edição Objectiva (chancela Alfaguara), tradução de Pedro Tamen.

 

Já não me lembro em que publicação li, há cerca de dez anos, uma entrevista a Michel Houellebecq. Na altura ele vivia realmente na Irlanda (depois mudou-se para Espanha, onde não sei se permanece) e as fotos que ilustravam o artigo eram tal qual como se apresenta a Jed Martin, a personagem principal do seu novo livro. Há muitos anos que Houellebecq, o escritor, se transformou numa personagem e ele sabe-o. Raramente os seus livros foram lidos pelo que pretendiam dizer e ele sabe-o. Chegou a referi-lo em entrevistas, explicando que as críticas negativas o chateavam acima de tudo por, centrando-se nele próprio – e, no fundo, muito mais na personagem Houellebecq do que nele próprio – e nas componentes de choque que os livros incluíam – misantropia, sexo, niilismo –, passarem ao lado daquilo que os livros efectivamente procuravam transmitir. Claro que boa parte da responsabilidade por as coisas se passarem assim era dele, nunca avesso a desencadear uma polémica. Mas é verdade que, se os livros continham sexo, uma razoável dose de niilismo e muito mais do que simples vestígios de misantropia, continham também um desamparo raivoso, implacável, pouco dado a contemporizações, e uma aparente falta de afecto que era muito mais um queixume (reaccionário, no limite) sobre a evolução das relações humanas, sobre a incapacidade destas se manterem significativas (L'amour non partagé est une hémorragie, queixava-se a personagem principal de La Possibilité d'une Île) do que verdadeiro ódio à humanidade ou vontade de chocar os leitores e conseguir publicidade (embora esta estivesse presente, que Houellebecq é demasiado cerebral para não levar todas as vertentes em consideração). A premissa do seu primeiro romance, Extensão do Domínio da Luta (1994; edição portuguesa pela Quasi em 2006) diz tudo sobre a posição dele e explica perfeitamente o que se seguiu: os afectos e a sexualidade, condicionados de tantas maneiras no passado, jogam-se hoje num mercado aberto, capitalista, no qual há vencedores e perdedores, a frieza dos factores de competitividade (dinheiro, beleza, poder) se sobrepõe a tudo o resto, o tédio e a decadência do corpo constituem os principais inimigos e os bens materiais se revelam tão importantes (e tão pouco importantes) como os relacionamentos (a referência à Lexus, no excerto que transcrevi acima, como dezenas de outras às mais variadas marcas espalhadas pelos seus livros, é tudo menos acidental). Concorde-se ou não, ache-se que sempre foi assim ou não (mas não foi; pense-se, por exemplo, em como as crenças religiosas, os casamentos arranjados, os estreitos limites geográficos em que as pessoas se moviam, a falta de tempo livre e a inexistência de alternativas lúdicas às proporcionadas pelo casamento tornavam as relações – e as expectativas em torno das relações – bastante diferentes) a visão de Houellebecq é de que o ser humano, uma construção biológica que começa a morrer logo após atingir a idade adulta, encontrando-se cada vez menos capaz de verdadeiro afecto (deseja-o mas tem dificuldades em consegui-lo e não sabe como mantê-lo), o substitui por consumo (de sexo, de gadgets, de aparências, de ideias sem significado real). Em Plataforma (2001 em França; 2002, pela Bertrand, em Portugal), as ideias de consumo e de mercado eram tão evidentes (as personagens principais dedicavam-se a explorar uma empresa de turismo sexual) que talvez fossem demasiado óbvias para bem do livro. E em A Possibilidade de Uma Ilha (2005; 2006 em Portugal, pela D. Quixote), Houellebecq criou mesmo, num par de clones vivendo no quarto milénio, versões «melhoradas» do ser humano, menos expostas ao declínio físico e aos problemas dos afectos. Note-se que ele já abordara os temas da clonagem e da manipulação genética, enquanto hipóteses de solução para os defeitos humanos, em As Partículas Elementares (1998; Temas e Debates, 1999) e que terão existido declarações suas segundo as quais essas tecnologias lhe são simpáticas. Isto seria tudo menos estranho, considerando que é o ser humano tout court que parece deprimi-lo para além de qualquer hipótese de redenção, se não existissem nos seus livros sinais em contrário. Por exemplo, Daniel25, vigésimo quarto descendente de Daniel1, o humano original de A Possibilidade de Uma Ilha, confessa: Ma propre vie pourtant, j'y pense souvent, est bien loin d'être celle qu'il aurait aimé vivre. «Il» é Daniel1, o humano do presente. Ou seja, mesmo com manipulação genética, o humano do futuro não será o que gostaríamos que fosse; a ciência não é a panaceia e Houellebecq sabe-o. Pelo que as declarações a favor da clonagem talvez não passassem de pose, de uma mistura de sinceridade (última esperança, malgré tout?) com estratégia de marketing (o maior problema com Houellebecq é mesmo conseguir separá-lo da personagem Houellebecq). Seja como for, independentemente do que ele vai dizendo (ou do que se vai dizendo que ele disse), parece inegável que, por muito desencanto e raiva que o ser humano actual lhe suscite, Houellebecq não consegue inventar-lhe uma alternativa válida. E, no fundo, resigna-se a admiti-lo em cada livro.

 

Assim sendo, a pequena surpresa que constituiu O Mapa e o Território, editado no ano passado em França e há umas semanas por cá, advém de verificar quão perto da superfície se encontra enterrada essa incapacidade. Mas isso fica para amanhã. A menos que a preguiça, o tédio ou o desânimo me vençam – sou apenas humano.

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