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Delito de Opinião

Comissão de Serviço XVI

Fernando Sousa, 27.10.11

A ALTA

 

Contra o stress de guerra tínhamos as nossas receitas.

Uma madrugada desviámos um jipe do parque auto militar, passámos pela manutenção, pedimos ao sentinela para assobiar para o lado, levámos a comida que pudemos e rumámos para a Ilha de Moçambique. A ideia inicial era irmos caçar felinos, mas alguém com mais bom senso aconselhou esta.

Já no destino, depois de uns banhos de mar, uma visita à mesquita e outra ao forte, pôs-se a questão onde dormir. Um dos nossos sugeriu o hospital militar.

[Não tínhamos dinheiro ou tínhamos 20 anos, qualquer das desculpas serve.]

Entrámos, de noite e num respeitoso silêncio, escolhemos a enfermaria com mais camas disponíveis e dispersámo-nos por elas, entre camaradas operados e outros à espera. Mas o calor e a fome traíram-nos.

Estávamos nós, na cozinha, às três da manhã, a assar um belo chouriço e a abrir umas cervejas, quando um major médico entrou inesperadamente, e, depois de uma curta entrevista a cada um, deu-nos alta:

- “Todos fora do hospital, JÁ!”

 

(Notinhas de uma guerra engolida)

Um país só comparável à Grécia

João Carvalho, 27.10.11

Lisboa antiga (45)

Pedro Correia, 27.10.11

 

RUA DO FERREGIAL DE CIMA

(actual Rua Vítor Cordon)

«E o Alencar, perante esta intimação do Cohen, o respeitado director do Banco Nacional, o marido da divina Raquel, o dono dessa hospitaleira casa da Rua do Ferregial onde se jantava tão bem, recalcou o despeito – admitiu que não deixava de haver talento e saber.»

Eça de Queiros, Os Maias

Foto: Blog em português de homenagem a J. Verne

Austeridade (1).

Luís M. Jorge, 27.10.11

Foi o pior dos tempos, foram tempos do pior. Numa rua calma, o engenheiro Armando erguia uma beata da borda de um canteiro quando se deixou sobressaltar pela voz do Albertino, velho camarada do Técnico.

 

- Ainda fumas, pá?
- Não, Albertinho — é esta canalha que enche as ruas de lixo…

 

Com certo pesar deitou fora o cigarro e anuiu ao convite do amigo para tomar uma bica. Na esplanada da Mexicana maldisseram o Governo, o estado social, as elites muito reles e o populacho acabrunhado.

 

- E o que podíamos ser com este sol e este mar, Armando: Londres, Berlim, Nova Iorque!

 

Ficaram em silêncio, a pensar em Nova Iorque.

 

- Nunca vi gajas tão boas, Albertinho…

 

Quando chegou a conta — dois euros e quarenta—  puseram as mãos nos bolsos com gestos imperiosos.

 

- Deixa estar.
- Não, eu é que convidei.

 

Mas um conjunto de circunstâncias explicava que, tendo um deles saído à pressa, sem carteira, e o outro posto roupa de Outono por causa da manhã enevoada, não reunissem entre ambos mais de setenta e cinco cêntimos.

 

Armando foi ao multibanco. Pouco depois, Albertino desertou.

O povo é quem mais espeta

João Carvalho, 27.10.11

 

O «Theatro Circo assinala hoje cinco anos da reabertura e um balanço de 300 mil espetadores». A notícia é da Lusa, que escreve o seguinte em lead: «O diretor do Theatro Circo [em Braga] considera "positivo" o balanço dos cinco anos após a reabertura, hoje assinalados, e revela que a "sala" que se tornou "espaço da memória coletiva da cidade" recebeu mais de 300 mil espetadores neste período.»

Portanto, a Lusa não só dá voz ao diretor do teatro que é memória coletiva, como garante que ele recebeu centenas de espetadores. É por estas e por outras que o povo quer espetar uma lança na comunicação social do Estado que anda a pagar a peso de ouro.

 

Cidade judiciária terá tribunais!

João Carvalho, 27.10.11

É a insuspeita agência Lusa que divulga que «Moita Flores afirma que futura "Cidade Judiciária" vai receber "forte concentração de tribunais"». Eis a confirmação mais detalhada: «O presidente da câmara de Santarém disse à agência Lusa que a "cidade judiciária" que está a ser criada na antiga Escola Prática de Cavalaria (EPC) deverá receber uma "forte concentração de tribunais"».

Traduzindo a ideia, pode dizer-se que o presidente da câmara de Santarém, Monsieur de La Palisse, e que o responsável pela agência nacional de notícias, Conselheiro Acácio, estão ambos de acordo: a futura cidade judiciária vai ter instituições judiciárias.

Num país em que há novos estádios de futebol abandonados, autoestradas às moscas, pavilhões multiusos sem uso, piscinas que só são depósitos de água, centros culturais para receber as rutes-marlenes no Verão, etc., é um alívio saber que a cidade judiciária há-de ter tribunais. Quero lembrar-vos que La Palisse e o Conselheiro Acácio nunca se enganaram.

Madeira: privilégios que persistem

João Carvalho, 27.10.11

Ainda há quatro políticos portugueses no activo que acumulam pensões de reforma com o vencimento dos cargos que ocupam. São todos da Madeira e a exercer na Madeira. Trata-se do presidente da Assembleia Regional, do chefe do Executivo Alberto João Jardim e de mais dois membros do Governo. Por sinal, já aqui me referi à continuidade dessas acumulações.

A Assembleia Regional da Madeira afectou este ano 1,6 milhões de euros, um-décimo do seu orçamento, para o pagamento de subvenções vitalícias a 52 ex-deputados, um privilégio que os políticos do continente e dos Açores perderam em 2005, na sequência da alteração do regime relativo a pensões e subvenções dos titulares de cargos políticos, os quais perderam as acumulações por inteiro e passaram a ter de fazer opções.

Agora, com a previsão de que tais privilégios, regalias e mordomias vão levar uma machadada radical, os políticos madeirenses vão entrar nos eixos e ficar finalmente equiparados a todos os outros políticos portugueses. É um efeito que tarda, mas que já se desenha no horizonte.

Até lá — e retendo a situação de privilégio da Madeira desde 2005, quando recusou a afinação pelo diapasão nacional — bem podem os políticos madeirenses favorecidos dar corda às lamúrias sobre moral, solidariedade, partilha de dívida, etc., e aproveitar para limpar as mãos à parede. Especialmente esses madeirenses exemplares que são o presidente do Parlamento e o presidente do Governo (e subordinados mais próximos), homens seguramente vacinados contra o rubor nas faces.

Inevitável

Luís Menezes Leitão, 27.10.11

O Chanceler alemão Otto von Bismarck dizia que a política é a arte do possível (Politik ist die Kunst des Möglichen). Os nossos governantes resolveram, porém, adoptar uma nova  versão: a de que a política é a arte do inevitável. Efectivamente, a única coisa que o Primeiro-Ministro diz é que as medidas são inevitáveis e que não se pode tomar outras. Isto independentemente da injustiça brutal que as caracteriza e que toda a gente reconhece e até mesmo da sua total inconstitucionalidade. Por outro lado os outros órgãos de soberania aceitam a inevitabilidade e deixam o Governo prosseguir alegremente neste caminho, parecendo às vezes que vive noutro mundo, como sucedeu quando Vítor Gaspar afirmou que os sacrifícios do orçamento vão atingir toda a sociedade portuguesa por forma igual. O triste espectáculo que tem sido dado pelos nossos políticos aos cidadãos atingiu o absurdo na reunião do Conselho de Estado, que conseguiu estar reunido seis horas para emitir um comunicado que não diz absolutamente nada.

 

Portugal vai continuar assim tristemente por este caminho, que o Primeiro-Ministro já assumiu que visava o empobrecimento colectivo, e que o mesmo era necessário. Enquanto Deng Xiao-Ping sustentava que enriquecer é glorioso, Passos Coelho entende que a verdadeira glória está no empobrecimento. Assim sendo, já vejo que o resultado inevitável destas medidas não é que Portugal se transforme na Grécia. É que se transforme na Coreia do Norte.