Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]
Em sucessivos canais televisivos de notícias, os participantes de programas consagrados ao "debate político" têm anunciado aos portugueses que irão de férias durante todo o mês de Agosto, regressando apenas em Setembro. Num país em crise, com um governo recém-empossado, numa altura em que a política necessita mais que nunca do escrutínio público e quando o próprio Parlamento resume a duas semanas o seu período de férias, os referidos programas não abdicam de um longo descanso estival e os seus comentadores encartados já se encontram a banhos, como se este fosse um Verão igual a qualquer outro. Já imagino até alguns deles a resmungar, em artigos de jornal, como é saturante passar um mês inteiro nas longas filas de trânsito e de veraneantes nas rotas algarvias.
É bom anotar este facto para responder aos próximos moralistas de serviço asssim que vier a propósito. Sobretudo aos que se preparam para regressar às pantalhas só em Setembro, devidamente bronzeados, como se tivessem descoberto a pólvora nas falésias de Albufeira e na marina de Vilamoura. Só me interrogo como conseguiremos viver cinco intermináveis semanas sem o juízo implacável destas fulgurantes luminárias.
“Não é que uma nomeação faça a primavera, mas todo o processo se assemelha demasiado com o passado – facto que nos retira confiança para o futuro. Vai ser assim?
(…)
Sim, é cedo para avaliar, nem tudo o que parece é, mas aquilo que vemos está mal. É um mal que, seguramente, ainda tem conserto… mas isso significa que está estragado”
Henrique Monteiro, Expresso, 30 de Julho de 2011
Hoje, no limite do prazo, ficou decidido que o BPN será adquirido pelo BIC. Não é a primeira vez que uma operação de suma importância se concretiza num domingo: ficou conhecido, há uns anos, o caso de um curso de Engenharia, cadeira de inglês técnico incluída.
“Que tenham sido precisas apenas semanas para o Governo deitar fora as suas promessas mais emblemáticas é sinal de que Passos Coelho não estava preparado para governar e que o que era prometido não era para ser levado a sério. Só assim se explica que, após a subida de impostos, o Governo se tenha entretido na criação de novas estruturas orgânicas e a repartir o conselho de administração da Caixa por uma coligação de sensibilidades políticas da coligação PSD/CDS/Belém que nos governa.”
Pedro Adão e Silva, Expresso, 30 de Julho de 2011
Das quatro principais agências de rating chinesas, a Dagong é a única que não tem qualquer parceria com as agências Moody’s, Fitch e Standard & Poor’s. Pois é precisamente a Dagong que acaba de anunciar — mesmo havendo um acordo entre Democratas e Republicanos para subir o limite da dívida externa norte-americana — «que vai baixar a nota dos EUA», que não está no topo, mas sim em A+.
É muito bem feito! A decisão surge do mercado que é só o maior credor de Washington. Quanto mais baixar o rating dos EUA, mais desce o crédito das agências Moody’s, Fitch e Standard & Poor’s.
“(…) o que se passou com as escolhas para a Caixa Geral de Depósitos mostra que o discurso e a prática continuam distantes. Será que não haveria no mercado outros nomes igualmente competentes, mas mais consensuais e com imagens de maior independência face aos partidos e a interesses financeiros?”
João Garcia, Expresso, 30 de Julho de 2011
Lucius Malfoy Lili Caneças
Sherlock Holmes, a criatura, foi sempre mais popular do que o criador, Conan Doyle. O mesmo se passou com Perry Mason, que ultrapassou largamente o seu criador, Erle Stanley Gardner, em reconhecimento público. Ou Nero Wolfe (criado por Rex Stout) e O Santo (por Leslie Charteris). Até Poirot e Maigret gozam hoje de maior notoriedade do que os seus autores, Agatha Christie e Georges Simenon. Com Mickey Spillane (1918-2006) era ao contrário: sempre foi mais popular do que Mike Hammer, o detective que criou. Ao ponto de não faltar quem pensasse que o detective era o próprio Spillane. Um detective muito diferente dos demais: forjado nos abismos da guerra, formado no auge do terror atómico, surgido depois de Auschwitz e Hiroxima, quando já nenhuma utopia era credível. Violento, amoral, Hammer odiava o compromisso com o mundo do crime. Ao ponto de, em obras como O Juiz Sou Eu e A Minha Arma não Perdoa, se confundir ele próprio com um criminoso pelos métodos que empregava. Foi esta a originalidade de Spillane, que não tardou a ter imitadores de quinta ordem, iniciando um repugnante subgénero no policial - o do detective-vingador a qualquer preço.“Encarar as empresas do Estado e, desde logo, o banco público como propriedade partidária a distribuir pela clientela não é novidade. Mas Passos Coelho e Paulo Portas, tão exigentes e moralistas quando estavam na oposição, prometeram agir de modo diferente. Tiveram uma oportunidade de ouro para o demonstrar e falharam redondamente.
(…)
O Governo não hesitou aumentar o número de gestores, pagos a peso de ouro – talvez de modo a ajustar a oferta à procura de lugares – num momento em que pede sacrifícios; ignorou ou desvalorizou potenciais conflitos de interesses, tendo em conta o percurso profissional de alguns dos nomeados; e até no processo de recrutamento cometeu erros graves, visto um dos contemplados ter vindo dizer que foi convidado para “vice”, quando compete à própria administração da Caixa atribuir esse cargo.
Tudo isto num único ato de gestão é revelador de quão distantes estão as belas palavras dos líderes do PSD e do CDS contra o clientelismo do Estado.”
Fernando Madrinha, "O Pote e a Rua", Expresso, 30 de Julho de 2011
Fica-lhe bem. Podia ter silenciado. Ou falado omitindo. Como o Presidente da República noutras ocasiões. Mas eu registo aqui o gesto.
Neste País, estas coisas também não podem passar despercebidas, mesmo que em Massamá não reparem.
“E, já agora, (que) dispensem um minuto a olhar para a Caixa, que tem, desde esta semana, uma administração do tamanho do Governo. Temos 11 ministros e 11 administradores da Caixa.”
Ricardo Costa, Expresso, 30 de Julho de 2011
É impressão minha ou o discurso de Paulo Portas no Funchal foi um plágio descarado daquele célebre sketch da Ivone Silva "Olívia patroa, Olívia costureira"?
«Às vezes pergunto-me se a esquerda nasceu para governar.»
Lídia Jorge, esta noite, em entrevista à SIC N
Há em Portugal uma espécie de pudor atávico em praticar a arte do conto - característica que felizmente tem vindo a dissipar-se nas duas últimas décadas, com nomes que vão de Mário de Carvalho a Rui Zink. Entendido como género "menor" pela generalidade dos exegetas lusos de matriz universitária, o conto foi sendo considerado uma espécie de parente pobre da nossa literatura. Quem o cultivava quase tinha de pedir licença prévia para o efeito.«O número de vítimas da tragédia na Noruega foi revisto em alta: dos 76 mortos há agora 77 mortos.»
Jornalista em voz off na SIC-Notícias
Vi a minha mãe chorar três vezes. Uma num funeral. Uma em Ouro Preto, durante o Festival Literário, quando José Luís Peixoto disse o poema "Cinco à Mesa" e, por fim, ontem quando Jamie Cullum tocava com a felicidade estampada no rosto. Numa vida qualquer podia ser ela. Qualquer coisa a arrebatou a música, essa possibilidade maior, e o pensamento: podia ser eu. Não digo que a minha mãe, a mesma que amanhã faz 59 anos, fosse dar pontapés no piano ou algo assim, mas sei que "I got you under my skin" são acordes e acordes, todos juntos que, em vez de fazerem uma sinfonia, são a banda sonora de uma vida que ela acatou e não cumpriu. Não creio que tenha tido hipótese de escolha. Como ela, tantos de nós.
... foram inventados óculos cuja adaptação à distância é feita por zoom manualmente ajustável? Pois é: a patente está registada nos EUA e é suposto dirigir-se àqueles que ainda usam lentes bifocais ou que usam lentes progressivas.
O funcionamento é muito simples: os óculos integram duas lentes sobrepostas para cada olho e a haste central por cima do nariz, que faz a ligação entre as duas molduras duplas, possui um mecanismo básico com um "pinchavelho" que serve para aproximar ou afastar, progressivamente e em movimento contínuo, as lentes exteriores das lentes fixas interiores. No fundo, o resultado prático é semelhante ao do zoom dos binóculos, que permite o ajustamento à distância que se quer focar, aliado à variação das diopterias pelo efeito da sobreposição de duas lentes.
Não parece que o sucesso da invenção em Portugal esteja garantido. Por um lado, seria problemático agravar as campanhas rodoviárias: se conduzir não beba e não use óculos de adaptação manual permanente — eis o que se afigura impraticável. Por outro lado, só usa óculos quem vê mal, mas a verdade é que os portugueses são ceguinhos, uns, e invisuais, outros. Óculos para quê, se andamos sempre ó-tio-ó-tio?