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30 de Junho
O calor não desmotiva. A crise, sim.
A leitura de um livro pode aproximar-nos do seu autor, embora haja autores em relação aos quais, por mais que tentemos, nunca nos conseguimos aproximar. São aqueles autores cujos livros é que lhes moldam o carácter. Aqueles cuja personalidade nunca adquiriria dimensão fora da sua própria obra porque eles são a obra, o tempo, o físico e o virtual que passa pelas suas palavras. As páginas que escreveram, os versos que deixaram, não são extensões da sua personalidade. Esta é que é uma ampliação daquelas e que nos ajuda a melhor compreendê-las, às palavras que teceram, aos pensamentos que por um milagre de apropriação colectiva se tornam de todos e de cada um de nós. Borges é um desses casos. As entrevistas que deixou são tão importantes para percebermos a alma que vive nas suas páginas como a tinta que nelas repousa.
Gonçalo M. Tavares venceu mais um prémio. Os prémios, um prémio, têm o valor que lhes queiramos atribuir. Significam a projecção sem a qual muitos não chegarão à obra. Mas é a entrevista, em especial aquela em que o autor partilha com o leitor a voz, o tom, os tiques, as pausas, as inflexões do discurso, por vezes o ritmo da respiração, que torna a obra mais próxima.
Num programa que merecia honras de televisão, a TSF, graças a Carlos Vaz Marques, tem levado até muita gente a extensão de muitas páginas, dando-lhes voz e profundidade. A excepcional entrevista que Gonçalo M. Tavares lhe deu permitiu-me perceber um pouco melhor gente que passou a fazer parte da minha vida como Lenz Buchmann ou o senhor Bloom. É possível reconhecer um autor pela forma como escreve, pelos temas que aborda, pela utilização que faz, ou não faz, do leitor. Um grande autor é aquele que só se revela na clareza do que escreve e que faz de uma escrita simples na aparência um mundo que todos podemos percorrer e com o qual é possível identificarmo-nos sem que para isso tenhamos de ser seduzidos.
Há intervenções parlamentares que deviam ser interrompidas pelo expedito corte do pio. Bastava desligar o sistema de som. Essa deveria ser uma prerrogativa da senhora presidente. Sem aviso prévio. Depois, é claro que não podiam deixá-los retomar a lengalenga. E se tal acontecesse os discursantes seriam multados. Quase todos estiveram bem. Quase, digo eu, porque aquilo que saiu da bancada do PSD, logo para primeiro dia, foi inacreditável. Ninguém espera que dos partidos que suportam o Governo venham as críticas ao programa apresentado ou as perguntas incómodas. Mas começar uma legislatura elogiando o chefe, antes mesmo deste ter realizado alguma coisa, gabando-lhe “a coragem” e “a rapidez”, num tom que de tão encomiástico começa logo a parecer suspeito, não deve ter sido agradável de ouvir para o primeiro-ministro. Ser o líder parlamentar a cair em tal ridículo infunde receio quanto ao que se seguirá. Na anterior legislatura viu-se no que deu a unanimidade e o elogio fácil. A intervenção desta tarde do líder parlamentar do PSD merecia ter sido feita no parlamento madeirense. Passos Coelho não a merecia. Há rasgos que tresandam a subserviência e soam a insulto. Para quem os recebe; mais para quem os ouve. E não é uma questão de “sensibilidade social”.
Quem disse que não devemos voltar a locais onde já fomos felizes? Uma década depois, regresso a Cabanas e sinto-me como se nunca tivesse trocado este magnífico cenário de férias por nenhum outro. Do apartamento onde estou, vislumbro três níveis diferentes de água: num primeiro plano a piscina, sobrevoada por andorinhas ao amanhecer e cegonhas ao fim da tarde; num plano intermédio, a Ria Formosa, que cada vez faz mais jus ao seu nome; além de tudo, o oceano. À varanda, chega-me o ruído compassado das ondas do mar enquanto os barcos de pesca circulam em várias direcções, preparando-se para abastecer os restaurantes. Amanhã, uma vez mais, o maior dilema será a escolha do local onde jantar. No Pedro, ensopado de enguias ou arroz de lingueirão. No Ideal, a insuperável sopa do mar em pão de trigo alentejano. N' A Fonte, o inevitável peito de pato com mel. E no restaurante Noélia e Jerónimo, no extremo oriental da freguesia, há raia de alhada, açorda de conquilhas e pataniscas de polvo com arroz de coentros. A saborear tranquilamente na esplanada enquanto o sol declina no horizonte.
Quem disse que não devemos voltar a locais onde já fomos felizes?
«O Estado só deve estar onde a sociedade não consegue», diz o nosso Adolfo em entrevista à edição de hoje do i. E diz muito bem.
Os troikos apresentaram o velho programa do seu novo governo. Os baldroikos oscilaram entre a sensatez de Maria de Belém Roseira e a desfaçatez dos aspirantes a substituir o Coiso. O tiroliroliro Asiss fala de injustiça. O tiroliroló Seguro está chocado. Já deviam saber que o destino dos indignados é acampar. Se possível, para os lados da Subornne (o meu francês não está grande coisa). Em Paris. Diz-se que o Coiso vai para lá estudar com uma bolsa. A nossa. Enquanto os cães ladram, a caravana atasca-se. Voltando ao balde de água fria, o debate do velho programa do novo governo trouxe coisas realmente extraordinárias. O imposto arremessado sobre o subsídio de natal constitui um momento importante que importa sublinhar. Desde logo, diz que é único. Justiça lhe seja feita, que não engana ninguém. Em 2012 já não haverá subsídio de natal sobre o qual lançar imposto. Graças ao imposto e a outros carnavais, hoje é o dia em que a classe média portuguesa acaba e entra definitivamente nas trevas da idade média. Nestas coisas há sempre aspectos positivos. Na classe média, acabaram os casamentos por interesse. Estes recém-empobrecidos farão o que sempre fizeram os velhos pobres. Na falta de dinheiro, resta-lhes unirem-se por amor. Outro aspecto de relevo é consagração do princípio do pagador pagador. Pagaremos impostos como se não houvesse amanhã. E amanhã pagaremos taxas demolidoras por todos os serviços que o Estado nos for obrigado a emprestar. O debate revelou ainda que fizemos uma boa opção nas eleições de 5 de Junho. Esta gente é mais séria. Falo sem ponta de ironia. Estes serão capazes de dizer as mentiras necessárias olhos nos olhos. Já não é pouca coisa. E o ministro das finanças, com a sua voz compassada, é o homem ideal para fazer o elogio fúnebre do país. Sim, porque importa dizê-lo. O desfecho final de tudo isto será um de vários. É, temos alternativas. É escolher entre defaults, reestruturações de dívida, saída do Euro e desvalorização da moeda, corte drástico nos salários ou sermos adoptados e subsidiados eternamente pela mãe Europa (em alemão adopção diz-se eurobonds). Uma palavra ainda para a versão portuguesa do e-coli. É um Bacílio. Horta. E uma alusão incontornável ao par de botas. São de defunto. Mas, morremos sem as ditas calçadas. Já as tínhamos hipotecado ao BES.
Estais aflitos? Sem saber o que fazer? Onde cortar? Como poupar? Descansai que o irmão José António Saraiva tem a solução para tão grandes males. Por exemplo, eu que sou rapariga de grandes luxos vou imediatamente adaptar tão sábias considerações à minha vidinha de cortes e recortes e pôr em prática esta pérola: “A propósito de carro, por que não escolher sempre um modelo abaixo daquele que ‘normalmente’ iríamos comprar. Em vez de um Mercedes E, um Mercedes C; em vez de um Audi 6, um Audi 4”. Ora aí está, logo agora que com o meu chorudo subsídio de Natal tencionava adquirir esse tal de Mercedes E, irei humilhar-me a um modestíssimo Mercedes C. Uma maçada. Já em relação aos hotéis em viagem deixar-me-ei de "escolher às cegas um de cinco" estrelas. Sim, a felicidade é possível num de três ou quatro estrelas. Imagine-se. Soubesse eu de tão preciosos conselhos e teria prescindido do Moët & Chandon no dia do meu aniversário há cerca de duas semanas, já para não falar da água Vittel, Vichy ou Voss com que costumo mandar a empregada dar banho às quatro gatas cá de casa. O meu problema está mesmo na depilação, já que a proposta é que em cada cinco visitas à esteticista ou lá como lhe chamam nesses sítios da moda se reduza uma. Contudo, obstarei a este busílis recorrendo a uma técnica que foi sugerida no Facebook a propósito destas pérolas: chamuscar-me-ei nessa vez, mas com o maçarico de queimar o leite-creme para não perder o estilo. Barato e eficaz. De chamuscada não passo.
pretendo pagar o meu imposto extraordinário sobre o subsídio de natal em dou aos décimos.
... pagar mais impostos sem esperar nada em troika.
Se já soube do imposto extraordinário sobre o subsídio de natal e a sua esmerada educação, tal como a minha, não lhe permite berrar palavrões e contar até dez também não ajuda, faça como eu. Experimente dizer o nome do novo reforço do Sporting várias vezes seguidas: Oguchialu Chijioke Goma Lambu Onyewu. Depois de algumas repetições, vai ver que não cura, mas alivia. Convenhamos que é uma merda de um nome difícil de pronunciar pra cara..cóis, não é?
O «abraço à beira-praia» que o Joshua já muito bem registou aqui no seu estimável Palavrossavrvs Rex é um abraço de suma importância, pelo cenário e pelo encontro. O cenário é a Madalena, região demarcada de Gaia, e o encontro é o de dois bloggers, que só se falavam de post em post.
Não há dúvida de que a blogosfera aperta. Foi um gosto, Joaquim.
Com o imposto extraordinário de 50% hoje anunciado por Passos Coelho, poderíamos ser levados a dizer que o copo do subsídio de natal fica meio-cheio ou meio-vazio. O problema é que já não temos copo.
Quando se passa meia vida no PSD e um dia se quer bater o pé, o melhor é pedir primeiro explicações ao Pacheco Pereira, que tem grande estaleca a trabalhar com os pés.
Sim, que andar a oferecer bombons ao adversário é uma ideia de que o Pacheco Pereira nunca se lembraria. Bate-se o pé, rompe-se uma sola, mas mais nada além disso. Menos ainda ensaiar aproximações ao adversário, que é atitude própria de um valentíssimo saloio.
Qualquer mimo oferecido ao adversário há-de sair caro e acabar mal. Tão caro e tão mal que depois é melhor nem ver o resultado.
Eis-nos de regresso a uma economia de troika.
A perda de expressão eleitoral do Bloco de Esquerda (BE) é, sem dúvida, um fenómeno intrigante. Os motivos invocados são variados, porém, creio, provêm de uma matriz única. Julgo que o principal problema do BE não deriva da natureza das posições tomadas, mas sim do simples facto de as ter tomado. O BE é, desde o início, um partido de protesto, mais do que o PCP e, contrariamente a este, com um eleitorado muito volátil. Os seus eleitores foram mal habituados desde o início – numa estratégia numa primeira fase muito proveitosa – a ouvir apenas críticas ao sistema, as quais, como se sabe, juntam. Das propostas e tomadas de posições, que, como se sabe, cindem, pouco se ouviu ao longo da primeira longa frase da vida do BE.
Nos últimos dois anos, Louçã – numa atitude inicial que elogio – tentou dar início a uma segunda fase no partido, sob uma legitima ambição de tornar o BE num partido normal. Louçã percebeu que um partido de protesto tinha um potencial de crescimento limitado. Porém, não compreendeu que a conduta passada do partido impossibilitava esse caminho. O apoio à candidatura de Manuel Alegre era – concorde-se ou não – perfeitamente racional dentro da lógica de um partido da “esquerda grande”, que almeja disputar a ala esquerda do PS. Todavia, sendo uma tomada de posição, divide o eleitorado. Foi o que sucedeu. Tivesse o percurso do BE sido distinto e o afastamento do eleitorado de protesto seria compensado pela atracção do eleitorado dito normal. Todavia, como se sabe, tal não se verificou. Posto isto, Louçã assustou-se, e aqui é caso para dizer que foi bem pior a emenda que o soneto. Numa tentativa de recuperar o eleitorado de protesto, o BE lançou uma patética moção de censura ao Governo e, não contente, juntou-se (num acto de ingenuidade espantosa) ao PCP recusando-se a reunir com a Troika (uma posição que nem a CGTP tomou). Este golpe de teatro, não só não logrou reconquistar o eleitorado perdido como afastou o eleitorado mais moderado, da ala esquerda socialista, que votava BE a pensar que poderia residir ali a verdadeira social-democracia. Esta triste história mostra que o BE se condenou conscientemente a nunca passar de um partido de protesto. De resto, este não é o primeiro episódio: veja-se o episódio Sá Fernandes na Câmara de Lisboa.
No entanto, creio ter havido dois factores suplementares responsáveis pela perda de expressão eleitoral do BE.
O voto no BE, talvez mais do que um protesto contra as condições económicas, representou sempre um protesto social, muito ligado às questões de costumes. Ora, neste aspecto, Sócrates conseguiu inutilizar duas das principais bandeiras do BE: o aborto e o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Essa manobra, associada à crise económica, fez os dirigentes do BE, provavelmente sem consciência de que o faziam, centrar o seu discurso nas questões económicas, tornando-se num partido bastante menos cool e, sobretudo, muito parecido com o PCP. Este factor, juntamente com o radicalismo pós presidenciais, terá ditado a fuga de muitos eleitores para o PS.
O segundo factor a considerar é bastante menos óbvio: o BE deverá ter perdido algum (se bem que pouco) eleitorado para o PSD. Esta interessante entrevista do Pedro Magalhães (PM) tem uma frase inesperada que o justifica: “(…) quando perguntamos às pessoas sobre o peso específico do Estado na economia. Qual é o eleitorado mais liberal? Espantosamente, é o do Bloco de Esquerda (…). É uma coisa muito curiosa porque mostra que, quando Louçã fala de economia, pura e simplesmente nem estão a ouvir o que ele diz.”. As posições economicamente liberais tomadas pelo PSD, associadas à substituição de uma Manuela Ferreira Leite conservadora por um Pedro Passos Coelho progressista (embora essa faceta possa ter sido posta em causa pelo episódio do aborto durante a campanha) terão, assim, atraído algum eleitorado do BE para o PSD.
Os dirigentes das duas televisões privadas (quem diria) queixam-se da entrada da RTP 1 no mercado, sob o argumento de que “não há espaço” para um terceiro canal privado, o qual fará repartir o bolo das receitas publicitárias, já de si diminuto, por mais um conviva. Isto porque a RTP 1 não compete livremente com os outros canais, uma vez que está limitada pelas regras a intervalos de 7 minutos.
Não o manifestando abertamente, estes dirigentes estão, se bem percebo, a defender que a RTP 1 permaneça na esfera estatal não porque o considerem do interesse público, mas sim por interesse próprio, porque não querem perder espaço no mercado. Trocado por miúdos, o argumento é o seguinte: os senhores não querem ter de repartir o mercado com a RTP 1 e, por conseguinte, defendem que o contribuinte deverá continuar a financiar os prejuízos da televisão pública. Mas, claro, dito assim não soava tão bem nas televisões.
O facto de ser necessário recorrer a este argumento falacioso demonstra, já de si, um reconhecimento implícito da bondade da medida. Com efeito, nada na programação da RTP 1 justifica que o canal continue a ser financiado pelos contribuintes (ao contrário do que sucede com a RTP 2).
Convencionou-se de tal maneira a "ponte" que liga os feriados mais convenientes ao fim-de-semana que, pelos vistos, ideias destas não fazem confusão a ninguém. Enfim, é uma medida para inglês ver - ou melhor, para alemão ver (alguém actualize o ditado, se faz favor). De uma penada, faz-se de conta que quando os feriados calham à terça ou à quinta o Governo é "obrigado" a dar a ponte de segunda ou de sexta, e coloca-se de lado a lógica subjacente ao próprio conceito de feriado. O que não deixa de ser interessante: por um lado, e com esta medida em prática, o Natal passa de facto a ser quando o Homem quiser (desde que queira entre 23 e 27 de Dezembro); por outro, vai ser divertido ver o velho slogan "25 de Abril, sempre!" quando o feriado for encostado a 24 ou a 26.
«Os Estados Unidos deviam declarar falência»
Ron Paul, congressista pelo Texas e candidato à presidência dos EUA