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Perspicácia

por Sérgio de Almeida Correia, em 31.05.11

 (foto DN)

 

Se eles forem tão perspicazes a cumprir o acordo como são a contar vocábulos (podiam ser vírgulas na perspectiva do Prof. Catroga) e a descobrir "alterações de substância" onde a Comissão Europeia viu um mero acerto, "uma prática corrente que não introduziu qualquer alteração significativa ao conteúdo do acordo alcançado em Lisboa e na versão apresentada aos partidos da oposição", ainda acabam a receber reservas das "bases" para a caldeirada depois de terem o restaurante fechado.  

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Aquilo por lá não anda fácil

por Pedro Correia, em 31.05.11

Aqui e noutro blogue, ando há vários dias a fazer súmulas dos programas eleitorais dos partidos políticos concorrentes às legislativas de domingo, como qualquer leitor um pouco mais atento terá reparado. Já tinha feito o mesmo na campanha de 2009: é uma tentativa de prestar serviço público aos leitores, que são também eleitores. O João Galamba, que por estas tardes tem sido acometido por frequentes sintomas de excesso de zelo, deparou com isto, em que me limitei - sem comentários - a enumerar 50 promessas eleitorais sociais-democratas e logo me imaginou "muito entusiasmado" com os objectivos deste partido.

Isto foi ontem: se tivesse esperado pela manhã de hoje, em que enumerei 50 promessas eleitorais do PS, lá me veria ele "muito entusiasmado" com os socialistas. Mas, neste seu trepidante afã de tresler o que os outros escrevem, é sempre possível esperar um cenário diferente: amanhã será capaz de supor que me converti ao MRPP, que sou compagnon de route do Partido Humanista ou que tenciono votar na Carmelinda Pereira. A tão poucos dias da eleição, enfim, consigo compreendê-lo: aquilo por lá não anda fácil.

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Questões de consciência

por Ana Margarida Craveiro, em 31.05.11

Roubado descaradamente ao Henrique Raposo

 

Sócrates classificou de "selvajaria" a actuação de jornalistas brasileiros . Porquê? Porque os jornalistas brasileiros, desconhecendo os costumes brandos da nossa imprensa, rasgaram o código deontológico do jornalismo e ousaram fazer perguntas ao nosso primeiro-ministro , perguntas que não estavam nos cartõezinhos do Luís.

Em Bruxelas, Sócrates insinua que jornalistas europeus estão ao serviço dos maléficos mercados . Porquê? Tal como os jornalistas brasileiros, os jornalistas europeus são péssimos profissionais e fazem perguntas difíceis.

Foi preciso um motim de Teixeira dos Santos para forçar José Sócrates a pedir ajuda . Reparem bem: foi preciso um motim do ministro das finanças para que o primeiro-ministro acabasse com o seu teatrinho. Ainda estou para saber como é que isto não dominou as últimas semanas em Portugal. São os mistérios da República do "ó Luís".

- O primeiro-ministro abandonou o parlamento no início da mais importante sessão parlamentar em décadas. Este desrespeito pelo parlamento não gerou polémica nos jornalistas e nos comentadores. E depois é o povo que não tem cultura cívica.

O governo quis silenciar a UTAO, essa instituição que já veio desmentir as contas do governo em relação à execução orçamental deste ano.

- O primeiro-ministro mentiu aos portugueses sobre o documento da troika, nomeadamente na questão da TSU.

- O governo não disse a verdade sobre o uso de fundos da Segurança Social para a compra de dívida.

O primeiro-ministro disse que algumas pessoas que se manifestavam contra o PS eram "pessoas que não sabem o que é a democracia". Ou seja, uma manif anti-PS só pode ser composta por bandidolas. Aliás, protestar contra o PS devia ser proibido.

 - No debate com Passos, José Sócrates disse que o líder da oposição não devia criticar o governo daquela maneira, porque isso punha em causa o país. Notável teoria política: criticar o governo é o mesmo que criticar a nação. O dr. Salazar ia gostar muito.

- No debate com Passos, Sócrates subia às paredes sempre que Passos dizia "bancarrota". Sócrates chegou a dizer qualquer coisa como isto: "mas v. está sempre a falar de bancarrota, que mania". Os contactos com a realidade são, de facto, raros na mente no nosso primeiro. A bancarrota já é um facto (é por isso que pedimos ajuda), mas Sócrates continua a negá-la.

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Há menos de um ano ele considerava, e bem, que o líder do PSD dava "uma demonstração de ignorância face aos ideais democráticos e assemelhou-a à dos tempos do Movimento das Forças Armadas (MFA)", chegando a referir que "as pessoas que estão a fazer este projecto com certeza não sabem o suficiente sobre Direito Constitucional, sobre a história do partido e sobre a história constitucional portuguesa. O doutor Pedro Passos Coelho até tinha dito no congresso que não ia propor nada para alteração do sistema do Governo, agora vem mexer e mexer no pior em que podia mexer, isso não pode ser”.

 

Na altura, quando questionado sobre a crítica de que fora alvo o líder do PSD respondeu que "esse é o tipo de comentário que classifica quem o utiliza".

 

Hoje, ante a perspectiva de isso lhe poder render mais uns votos, esquece o comentário e quem o proferiu e ameaça com o regresso dele

 

Haverá quem chame a isto coerência.  Um "menor mal" dizia o outro. Para mim é pura e simples falta de vergonha e mais uma demonstração de oportunismo de um "jotinha" que tudo faz para ser exactamente igual àqueles que critica.

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Sem muito mais

por Ana Margarida Craveiro, em 31.05.11

 

Do filme The Network, de 1976. 

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Um funeral e dois casamentos

por Rui Rocha, em 31.05.11

José Sócrates está a afundar-se. Será, provavelmente, um momento doloroso. Para ele e para um ou outro apoiante incondicional. Temos pena. Pensando bem, nem por isso. Este é um processo que Sócrates deve enfrentar sozinho. Com toda a indignidade que corresponde ao caminho do desastre que ele próprio quis trilhar. Sabe-se que os náufragos, em desespero, podem arrastar para o fundo aqueles que se aproximarem. Sócrates antecipou-se. Submergiu o país antes de se afogar. Agora, enquanto segue o seu destino solitário, o pouco Portugal que resta não pode perder tempo a dar-lhe atenção. O tempo é dinheiro e há muito que Sócrates esgotou as reservas que permitiriam comprar uma bóia para lhe atirar. A emergência impõe agora duas prioridades para o país. Antes de mais, a constituição de um governo de mudança, com uma base tão abrangente quanto possível, integrado pelos melhores de entre nós ao nível técnico e político. Indispensável um casamento por interesse. Sendo que o interesse só pode ser o do país. A segunda é a renovação do PS, como força política fundamental na democracia portuguesa. Através de uma nova liderança que encerre, definitivamente, a página socrática. Inadiável um casamento por amor entre o aparelho socialista e uma proposta séria (por uma vez) que agite algumas bandeiras legítimas da esquerda. Visto pelo ângulo do PS, o Estado Social não pode continuar a ser o rebuçado que adoça a boca dos incautos como contrapartida pelo regabofe de boysgirls socialistas.  É nestes  tabuleiros que o futuro imediato, e não só, começa a jogar-se na noite eleitoral de 5 de Junho. Até lá, mais uns dias de foguetório nas ruas da campanha eleitoral. Aproveitemos então a fanfarra para, em festa, acompanharmos a caravana que faz as vezes de cortejo fúnebre de José Sócrates. Depois de 5 de Junho não vai sobrar tempo nem disposição para celebrar.

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A nossa obsessão por discutir os pequenos casos da campanha é já mais cansativa do que exasperante. Com o país à beira do colapso financeiro, com a soberania significativamente limitada, com medidas muito duras e ainda mal compreendidas no horizonte, entretemo-nos com uma pletora de «factos» acessórios. Não deixa de ser curioso reparar como quase todos os que adquirem relevância noticiosa, dos «pintelhos» ao «querem proibir o aborto», são negativos para o PSD. Os socialistas parecem nada dizer de inconveniente. Por não dizerem mesmo? Não, apenas por ninguém estar a usar com o PS a táctica que o PS está a usar com o PSD (de vez em quando há quem tente mas falta a convicção que só experiência e dissociação da realidade permitem) e por, como já foi dito e redito, o PS ser insuperável no uso dos meios de comunicação social. Sócrates, esse, transmutado em menos de dois anos de vendedor de ilusões em instigador de medos, livre de ter de defender ideias concretas por obra e graça de um programa eleitoral em que elas não existem, mostra-se chocado três dúzias de vezes por dia, acusando de cada uma delas o PSD de pretender acabar com tudo o que de bom tem o Estado Social (numa versão anterior àquela que ele mesmo amputou). É compreensível. Ao fazer propostas ou ao rebatê-las, Sócrates sempre operou com base em chavões e ideias simples. De resto, sempre foi elogiado por isso – não é uma das críticas que fazem a Passos Coelho, ser demasiado palavroso, não apresentar apenas uma ou duas ideias fortes? Claro que o facto desta táctica ter resultado antes diz muito acerca dos portugueses e claro que dirá ainda bastante mais se resultar novamente. E diz também imenso acerca do papel que a comunicação social, com a inestimável ajuda de dezenas de comentadores, aceita desempenhar, ao dedicar horas à discussão destas minudências (para fugir ao termo de Eduardo Catroga) em vez de focar as atenções nos pontos realmente importantes: as medidas constantes do memorando de entendimento com FMI, UE e BCE e a forma como cada partido se propõe (ou não) implementá-las. Mas, como Philip Roth escreveu em O Animal Moribundo a propósito de algo totalmente diferente, a TV está a fazer o que faz melhor: o triunfo da banalização sobre a tragédia. Com o PS a orquestrar e muita gente a dar uma mãozinha.

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Crítica de Mário Rufino no Pnetliteratura

por Patrícia Reis, em 31.05.11

Sim, coisas que fazem bem ao ego:) para variar.

 

 

“Por Este Mundo Acima”

Patrícia Reis

I

“A amizade é um amor transfigurador e potente. É uma arma.”

Pag. 127

Patrícia Reis oferece-nos um livro optimista, onde a amizade é a verdadeira reconstrução num mundo destruído. No seu 6º romance, transporta-nos para um mundo pós apocalipse e arruinado em estruturas e emoções. A sobrevivência é imperiosa e o Homem regride à sua condição de animal.

Nas primeiras páginas, a autora demonstra que existem relações produtivas e explícitas (intertexto) com outros textos. Neste caso, existem relações identificadas com textos de Fausto, «Por este rio acima», e com Brecht, «Do pobre B.B.». Por ser um livro que aborda directamente o papel da literatura na sociedade, existem outras aproximações a outros autores com a subtileza exigida, ou não, pela própria autora. “Por este mundo acima” é um livro que dialoga com a literatura; não é fechado em si mesmo, mas antes abre possibilidades de leituras a outros livros. De outra forma, pode-se afirmar que existe abertura do texto ao pensamento sobre a historicidade e sociedade onde o Homem se insere e influencia.

A narração é sobretudo psicológica e não pude deixar de me lembrar de “Fome” de Knut Hamsun e de “Ensaio sobre a cegueira” de José Saramago (Saramago começa, no entanto, com uma impossibilidade, ao contrário de Patrícia Reis). Assim sendo, a narração ocorre na 1ª pessoa do singular. Esta perspectiva confere uma maior proximidade do leitor ao pensamento do personagem Eduardo (principal narrador). A sua visão sobre as outras personagens será a nossa, também, uma vez que não existe uma entidade omnisciente e concretizada numa 3ª pessoa. No entanto, através da estratégia narrativa de uso de cartas/apontamentos (aqui temos o diferimento da mensagem que abordaremos mais à frente) a autora dá-nos a oportunidade de estarmos mais próximos das emoções e ideias de uma entidade essencial no livro: Sofia. É sobre ela, não exclusivamente mas principalmente, que incide o espírito de tolerância das outras personagens, individualmente e como grupo. É por este meio que descobrimos os acontecimentos da sua vida que influenciaram a sua formação emocional. A aceitação das suas características e o amor que todos sentem por ela é a chave de leitura deste texto. É este tipo de amor que pode levar o Homem à sua salvação. A relação entre eles é de longa data: “ Há mais de trinta e tal anos que falamos das listas do Eduardo” pag.79. E a interdependência emocional é partilhada por todos.

Mais do que um texto musical, construído com frases mais longas interrompidas por frases mais curtas originando mudanças de ritmos, diria que o texto é, sobretudo, fílmico devido à construção de imagens fortes e sugestivas.

A nível temático, o texto relaciona-se com os factores externos (contexto) a si próprio, fundamentando a sua produção, recepção e interpretação em acontecimentos possíveis. Nunca ficamos a saber o que realmente aconteceu. Nem é importante. O que o texto nos transmite é a ruptura com um passado (contexto situacional), um apocalipse que reduz o ser humano à sua essência, ao seu instinto de sobrevivência (universo simbólico).

“O meu corpo estremece. Não o controlo. Vejo as mãos suadas e tento continuar. Sou um animal. Regresso a isso” pag. 126

“É fundamental deixar de pensar” pag.124

Posteriormente, é sobre este movimento niilista que se constrói a salvação, a aceitação e, essencialmente, a elevação do melhor do Homem: A amizade como amor, como dedicação ao próximo em detrimento das próprias necessidades (visão do mundo). Segundo Levinas, o altruísmo, a decisão de colocar o Outro em primeiro lugar pode atenuar o terror da existência. Essa é a nossa transcendência. É esse terror que existe ao longo do livro de Patrícia Reis e é o amor, composto por altruísmo e inclinação para o Outro, que o pode atenuar, sem o derrotar.

 

II

O homem constrói, permanentemente, narrativas. o Homem constrói um texto narrativo quando fala do seu percurso de vida, da história clínica, ou quando conta algo a alguém. Assim sendo, não pode viver sem a produção e recepção desses mesmos textos. Eduardo tem essa percepção e insiste, permanentemente, em recordar/narrar os acontecimentos passados e, principalmente, dar a conhecer a sua memória, os acontecimentos que o marcaram, a Pedro.

“ Ele fazia lista de livros que era importante circular. Livros luminosos que, não sendo lamechas, nos revelavam a vasta matéria dos sentimentos que definem a condição humana” pag.164

Segundo Aguiar e Silva (1990), « a narratividade encontra-se intimamente correlacionada com o conhecimento que o homem possui e elabora sobre a realidade- o Génesis pode-se considerar, sob esta perspectiva, como a narrativa paradigmática e primordial -, devendo ser sublinhado que lexemas como “narrar”, “narrativa” e “narrador” derivam do vocábulo narro, verbo que significa “ dar a conhecer”, “tornar conhecido”, o quel provém do adjectivo gnarus, que significa “sabedor”, “que conhece”, por sua vez relacionado com o verbo gnosco(<noscp), lexemas estes derivados da raiz sânscrita gnâ, que significa “conhecer”» pp. 201

A narração é indissociável do tempo. Uma característica interessante de “Por este mundo acima” é o facto de a narração ocorrer no futuro, no espaço de um mundo possível, viajando entre o passado (tempo presente do leitor) e o presente do narrador (tempo futuro do leitor). Entre os vários marcadores temporais que nos fornecem essa informação, além do sistema verbal, há um que pretendo sublinhar: A referência ao próprio livro de Patrícia Reis remete-nos à actualidade e indica que ele narra no futuro. E este aspecto é intrigante porque um texto escrito é uma forma de diferimento da mensagem. Através da escrita pode-se perpetuar, ou pelo menos assegurar a permanência no tempo, da mensagem. O personagem adjectiva o livro de “datado”, isto num diálogo sobre o Facebook , o MSN e o Youtube. Ou seja, podemos utilizar esta referência como “ a leitura do texto”, necessariamente mais próxima desse futuro possível; ou como a “edição do texto”, mais afastado desse futuro apocalíptico.

A narração situada no futuro levanta uma outra característica importante e coerente com a temática de “Por este mundo acima”: A presença do verbo “Ser” no futuro é uma vitória, ainda que escassa e ténue, sobre a morte. E o texto é isso mesmo: uma narração no futuro que encontra os seus alicerces no passado para, com esperança e renovação, continuar a adiar a morte definitiva dos valores culturais do Homem e, por fim, dele próprio.

A morte da memória ou a ignorância invalida a continuação da história. Analise-se a conjugação verbal da seguinte frase: “O homem da gabardina bege terá uma história e eu gostaria que alguém me contasse tudo em pormenor” pág. 93

A probabilidade desce do futuro imperfeito até ao imperfeito do conjuntivo… porque não há ninguém para contar.

 

III

“Voltámos ao princípio e até temos um livro para nos guiar” pág. 157

A reorganização social começa quando Eduardo encontra uma criança: Pedro. E devido ao poder transformador deste personagem, a autora divide o tempo em antes e depois do apocalipse:

“O caos aconteceu quando ele andava pelos quatro anos de idade, quase cinco. Fizera os 8 há dois meses”. Pag.114

Pedro é um recomeço, é um exemplo de generosidade num mundo destruído pela falta de comida, de água, de higiene e falido de cooperação e altruísmo: “Ele parte outra bolacha em quatro, desajeitado, e oferece-me dois pedaços” Pag. 119

Pedro incentiva Eduardo a quebrar o seu medo de convivência, de partilha de um espaço e diálogo com outros sobreviventes. E assim conhecem Miguel, jornalista, que vagueia pela Península Ibérica transportando notícias. Este personagem, aparentemente secundário, tem um papel importantíssimo na história: Ele é o responsável pela interacção entre os povos, pois é ele que transporta as notícias sobre os outros, os sobreviventes. Miguel é o mensageiro (apóstolo?).

“ A sua vida resume-se a ter estado sozinho, a recolher histórias para depois partilhar. Não criou raízes, não se deixou ficar num qualquer outro lugar. Partiu à procura de algo de melhor que possa, um dia, trazer de volta uma certa ideia de humanidade” pág. 161,162

A reorganização vai-se consolidando. Os anos passaram e com eles veio a capacidade da sociedade se organizar. São mencionados progressos em países distantes.

Pedro descobre as caixas com as recordações escritas de Eduardo. A memória de Eduardo sobrevive, através de várias caixas com textos que foi armazenando desde a infância, na interpretação e na memória de uma criança. A memória individual é transmitida, desta forma, para as mãos e memória individual de Pedro. Mas não chega. Era imperativo a sociedade, que tem a força de uma personagem, manter a sua memória colectiva de forma a não repetir os erros do passado:

“ Decidiram passar a biblioteca da avó de Eduardo para um centro cultural, para estar sempre disponível, para ser a memória de todos” pag.180.

Pedro começa a recriar o alfabeto, primeiro passo para a impressão em papel, e, além do livro de Sebastião, outros livros foram escritos e difundidos pela nova sociedade que emergia dos escombros. Miguel, o jornalista, fala com Eduardo sobre a escrita de um novo manuscrito, uma história sobre o presente, a nobreza, onde a linha do Bem e do Mal se distingue (O Novo Livro/Testamento). A revisão do livro foi a última tarefa de Eduardo.

- O livro como salvação

 Na cultura judaico-cristã, como afirma Victor Aguiar e Silva (1990), texto significa obra escrita, o livro, obras religiosas detentoras de autoridade. Na idade média, texto significa a obra do autor, ou seja, obra da pessoa que exerce autoridade. Até ao século XXI, o termo texto não apresenta uma mudança de significado, embora tenha ganhado alguma ambiguidade semântica.

A autoridade emana do livro de Sebastião. É uma obra-prima, segundo Eduardo, e, mais do que isso, é o livro que transporta o passado recente para o futuro. É a continuação temporal, a passagem cultural do que aconteceu antes do acidente. Pedro, já mais velho, é muito céptico em relação a esta hipótese: “Não é um livro orientador, é uma ficção e isso é claro, é uma parábola do tempo em que foi escrito e um achado futurista adequado às circunstâncias» pág. 157

E numa frase simples e ingénua interroga o leitor e o próprio texto: “Voltar ao princípio? Será possível? O que é o princípio?” pag.157

Estamos perante a dúvida a que Steiner, em “Gramáticas da criação”, responde: “Já não temos começos”. Mais: Nas palavras de Pedro, há um reflexo das dúvidas do Homem em relação aos Evangelhos, ao livro orientador e fundador da moral cristã. É no livro de Sebastião, hipotético pilar da refundação social, que incide o debate entre Pedro e Eduardo.

Este livro representa um caminho, individual e/ou colectivo, para o sentimento mais nobre do Ser Humano: Bondade.

“É urgente ensinar a partilhar, Pedro. Para não voltarmos ao mesmo. A Sofia, o Jaime e o Lourenço sabiam o que era bondade. Não por serem bondosos, repara, mas por o saberem distinguir e praticar no dia-a-dia sem se fazerem notar”

Pág. 170

 

Bibliografia:

REIS, Carlos; LOPES, Ana Cristina M. Lopes (2000) “Dicionário de Narratologia”, Coimbra, Almedina

AGUIAR E SILVA, Vítor Manuel de (1990) “Teoria e Metodologias Literárias”, Lisboa, Universidade Aberta.

 

Mário Rufino

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Convidado: JOSÉ CARLOS PEREIRA

por Pedro Correia, em 31.05.11

 

As eleições pré-'troika'

 

Decidi corresponder ao honroso convite para escrever um texto para o Delito de Opinião, neste período pré-eleitoral, com uma breve reflexão sobre o momento político que vivemos e as eleições que estão à porta.

Não estou vinculado a partidos políticos e não tenho por hábito frequentar liturgias partidárias. Decidi voltar a envolver-me na actividade política nos dois anteriores mandatos autárquicos na terra que me viu nascer, o Marco de Canaveses do sui generis Avelino Ferreira Torres, e foi nessas circunstâncias que em 2005 sucedi a Francisco Assis na liderança da candidatura socialista à Assembleia Municipal local.

Não sendo militante partidário, tenho-me identificado com as propostas do PS. Votei em José Sócrates anteriormente e tenciono voltar a fazê-lo no próximo Domingo. E assim fica feita a minha declaração de interesse.

Nos últimos seis anos a governação socialista permitiu melhorias e avanços significativos em diversas áreas, nomeadamente na educação, no investimento em I&D, na política energética, na reforma da segurança social, na defesa do consumidor, na eliminação de determinados monopólios injustificados, no apoio à economia e às exportações, na reforma administrativa, na consolidação das contas públicas até 2008, nos cuidados de saúde primários e no apoio aos idosos e carenciados. Naturalmente houve domínios em que as coisas correram menos bem e alguns protagonistas deixaram a desejar, como sempre acontecerá.

Hoje, podemos discutir a forma como o Governo de Sócrates reagiu à crise económica e financeira internacional que eclodiu em 2008 e à crise da dívida soberana que se lhe seguiu. Não estou certo que outro partido e outra liderança tivessem feito melhor. Pedro Santana Lopes era o que se sabia. Manuela Ferreira Leite esteve longe de ser um exemplo nas suas funções governativas.

José Sócrates apostou as fichas todas na aprovação dos Programas de Estabilidade e Crescimento, acreditando que os estados europeus haveriam de chegar a acordo sobre o novo mecanismo europeu de estabilização e apoio financeiro, permitindo o financiamento do país em condições mais vantajosas. Isso acabou por não suceder e, com o chumbo do PEC 4, os partidos da oposição escolheram o caminho das eleições antecipadas. Creio que foi um erro, que nada se ganhou, mas isso competirá aos portugueses julgar com o seu voto.

As sucessivas trapalhadas de Passos Coelho e da sua equipa têm revelado um PSD diletante e impreparado para governar. O insólito da situação é ver o CDS a trazer o equilíbrio, a sensatez e a ponderação ao espaço do centro-direita, ao arrepio do frenesim social-democrata.

Sócrates tem-se deparado com uma barreira (quase) unânime de analistas e comentadores que parece não lhe reconhecerem o direito a ganhar as eleições, quiçá mesmo a concorrer ao acto eleitoral. Algo nunca visto e que é agravado pelas afirmações de líderes partidários que se arrogam no direito de escolher as lideranças dos seus concorrentes. Isto apesar de José Sócrates ter patenteado um exemplo de união – não de unicidade – no recente congresso socialista. As principais figuras do partido têm dado o seu testemunho de apoio nesta campanha eleitoral. Por convicção e não por exclusão de partes, como parece suceder no PSD.

Veremos como decorrem as eleições e o que decidem os portugueses. De uma coisa estou certo: seja qual for o partido vencedor, vai necessitar de envolver num consenso alargado os partidos que subscreveram o memorando de entendimento com a troika. As ameaças e recusas de PSD e CDS, em caso de vitória do PS, têm de ser levadas à conta do entusiasmo da campanha. Aliás, os senhores da troika não lhes permitirão tamanhas veleidades…

 

José Carlos Pereira

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Não há quem não tenha percebido que o rapaz é um impreparado, mas ele agora veio confirmá-lo. "Eu não quero jogar à bulha com ninguém", diz ele. É natural que quem andou a "jogar à bulha" nas campanhas da JSD quando devia estar a estudar para não dizer "se houverem" e se tenha licenciado aos 37 anos fale assim. Quanto a essa parte ficamos perfeitamente esclarecidos. Quanto ao mais, espero que o Prof. Marcelo venha esclarecer se o imberbe que não quer "jogar à bulha" ainda usa ... bibe.

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Legislativas (18)

por Pedro Correia, em 31.05.11

 

PARTIDO SOCIALISTA: MEDIDAS EMBLEMÁTICAS

(para ler e comentar)

 

Programa eleitoral do PS

Título genérico: Defender Portugal

Número de páginas: 64

Frase-chave: «O tempo não está para aventuras políticas.» (José Sócrates)

Data de apresentação: 27 de Abril de 2011

 

1. Eliminação de cerca de mil cargos de chefia na Administração Pública.

2. Fusão ou extinção de 60 organismos e serviços da administração central do Estado.

3. Alargamento do programa Simplex ao sector autárquico - para escolas, hospitais, ambiente e reabilitação urbana, entre outras áreas.

4. Lançamento do programa Zero Stop Shop para "eliminar formulários desnecessários".

5. Diminuição do número de freguesias.

6. Adopção de medidas que aumentem a celeridade dos processos judiciais e  reforcem as garantias da execução de créditos e de cobrança de dívidas.

7. Crescimento das exportações de forma sustentada.

8. Concentração dos apoios públicos ao investimento nos sectores de bens e serviços transaccionáveis.

9. Reforçar a parceria com o sector da economia social - cooperativas, misericórdias, instituições particulares de solidariedade.

10. Assegurar uma estratégia de ajustamento orçamental, "prosseguindo a consolidação das contas públicas".

11. Privilegiar a redução do défice pelo lado da redução da despesa pública.

12. Racionalização da estrutura de taxas do IVA.

13. Aumento dos impostos sobre o álcool e o tabaco.

14. Conclusão do processo de convergência entre pensões e rendimentos do trabalho.

15. "Rever estruturalmente o sistema de deduções e benefícios fiscais".

16. Reforçar os instrumentos de luta contra a fraude e a evasão fiscal.

17. Aumentar a produção agrícola nacional reduzindo a dependência do exterior.

18. Aprovação de uma Lei de Reestruturação Fundiária que institua um "banco de terras" para combater a desertificação dos solos.

19. Programa para a requalificação dos rios portugueses.

20. Redução da dependência energética e aposta nas energias renováveis.

21. Rejeição da opção pelo nuclear.

22. Desenvolvimento de um programa específico de formação dos jovens portugueses para os sectores económicos emergentes, nomeadamente das energias alternativas e dos empregos verdes.

23. Continuação do Plano Tecnológico.

24. Substituir o trabalho subordinado de jovens sob a forma abusiva de recibos verdes por formas contratuais que garantam uma relação de trabalho, quer em termos laborais, quer em termos de protecção social.

25. Criar condições que favoreçam o empreendedorismo dos jovens.

26. Defesa da sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde.

27. Aposta em novos serviços nos centros de saúde, como a saúde oral, psicologia, nutrição, fisioterapia e terapia da fala.

28. "Será criado o Registo de Saúde Electrónico de cada cidadão."

29. Prioridade à luta contra a obesidade e o estímulo pela actividade física.

30. Consolidação e qualificação das redes de cuidados de saúde e de equipamento sociais.

31. Reforço das instituições de apoio social, com destaque para creches.

32. Reforço dos abonos de família destinados às famílias monoparentais.

33. Aposta na manutenção do Complemento Solidário para Idosos, que beneficia actualmente 266 mil pensionistas.

34. Aumento da taxa de escolarização dos jovens para os 12 anos de ensino obrigatório e generalização do acesso ao ensino superior.

35. Continuação da aposta no programa Novas Oportunidades.

36. Reforço da acção social escolar.

37. Combate à criminalidade violenta e grave através de novos contratos locais de segurança e da dinamização do policiamento de proximidade.

38. Combate à imigração ilegal.

39. Alargamento do Plano Nacional de Videovigilância às zonas históricas e nevrálgicas das principais cidades.

40. Instalação de uma rede nacional de controlo de velocidade.

41. Atenção redobrada aos antigos combatentes e aos deficientes das Forças Armadas.

42. Aprovação de uma Lei da Paridade que combata as desigualdades sociais entre homens e mulheres.

43. Combate à violência doméstica e de género, com a formação de magistrados para estas áreas específicas.

44. Criação da Rede Portuguesa de Teatros Municipais.

45. Criação da Rede de Cinema Digital.

46. Reforço das medidas de preservação patrimonial.

47. Criação de um museu dedicado às Descobertas Marítimas e à Expansão da Cultura Portuguesa no Mundo.

48. Criação do Arquivo Sonoro Nacional.

49. Criação do Estatuto do Bailarino e do Fundo de Reconversão Profissional dos bailarinos.

50. Consolidação da aplicação do acordo ortográfico em Portugal.

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A (re)ler

por Pedro Correia, em 31.05.11

Parabéns à Amnistia. De Irene Pimentel, na Jugular.

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Os nossos convidados

por Pedro Correia, em 31.05.11

Vem hoje escrever connosco o José Carlos Pereira, do blogue Incursões, a quem dou desde já as boas-vindas.

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As canções do século (516)

por Pedro Correia, em 31.05.11

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Quem com Ferro mata

por Rui Rocha, em 30.05.11

"O voto no centro é um voto no insulto, na agressão"

 

De acordo com a particular visão de Eduardo Ferro Rodrigues, "um voto ao centro, que não seja no PS, é um voto no insulto e na agressão". É uma afirmação que fala por si e não merece outros comentários.

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Diário irregular

por Sérgio de Almeida Correia, em 30.05.11

30 de Maio

 

“- Portanto, Gláucon, precisaremos também na nossa cidade de um chefe capaz de regular esta associação, se quisermos salvar a nossa constituição.

- Por certo que precisaremos, e muito.”

Platão, A República (Diálogos - I)

  

O país começou a semana de trabalho, para os que trabalham, com os comboios parados. O transtorno que tudo isto causa é coisa de loucos. Centenas de comboios suprimidos, milhares que não conseguem chegar a horas aos locais de trabalho. Quem tem mota ou carro e dinheiro para o combustível nunca fica apeado. Só o pobre que mora nos subúrbios é que está dependurado da CP. Uns são irresponsáveis, outros primam pelo disparate. Numa altura em que as únicas profissões com saída são as de comentador televisivo e de sindicalista, falar de produtividade e defesa dos postos de trabalho numa altura de crise como esta deve ser uma coisa esotérica para os sindicalistas da CP. O meu avô Miguel, que fez pelos ferroviários portugueses o que muitos deles nem imaginam, lá no sítio onde está deve olhar para os tipos e perguntar para si se eles não percebem que o sindicalismo está a regredir. Não por falta de causas mas em razão do atavismo e surda ignorância dos seus dirigentes.

 

Tudo o que passa pelas Finanças parece mesmo que deixou de funcionar. Dos faxes aos computadores está tudo a precisar de uma vassourada. Das grandes. Uma jovem que quer ser empresária queixa-se de que anda há vários dias a tentar aceder ao site do Ministério para declarar o início de actividade e que enquanto não puder fazê-lo não poderá trabalhar. Estava desempregada e como não é de ficar à espera do subsídio pôs mãos-à-obra. Como não obtinha resposta da máquina, nem mesmo às horas em que os serviços estão encerrados, foi a uma repartição entregar o formulário, pensando que um humano lhe resolveria o problema. Qual quê. Não lhe aceitaram o formulário. Ficaram todos a olhar para os monitores dos computadores. E conversando horas a fio. A cena repetiu-se durante vários dias. Mandaram-na embora e disseram para ir tentando. O sistema estava em baixo.. Está o sistema, estão eles e estamos todos nós.

 

A chegada de Manuela Ferreira Leite e Mário Soares à campanha eleitoral começa a mostrar que o mar está encapelado. É difícil navegar nas águas do eleitorado do centro. Mas enquanto um apela ao voto para que não caia o resto que dificilmente se vai aguentando em pé, há quem expluda em ressaibo. Já nem se trata de apelar ao voto no candidato menos mau. É, isso sim, apelar à rejeição de quem não se gosta. Também nos dois os traços do carácter são indisfarçáveis por mais anos que passem.      

 

Marcelo Rebelo de Sousa devia saber que o tipo de intervenção que ontem fez na TVI é uma coisa muito feia para uma pessoa do seu nível académico e intelectual. Em plena campanha eleitoral,  falando na maior parte dos casos para gente pouco informada e facilmente manipulável, é triste, muito triste, que use um espaço que se quer sério para um apelo consciente – e ele que me perdoe, eu diria mesmo a raiar o desonesto - ao voto num dos partidos concorrentes.

 

O Bastonário da minha corporação ficou enxofrado com a prisão preventiva dos petizes que conduziram aquela selvajaria que as televisões ainda mais irresponsavelmente não se furtaram a repetir durante dias e dias seguidos para que todos se pudessem deliciar com os bárbaros de cada vez que pegavam no tema. Não compreendo a sua reacção embora compreenda a sua posição de princípio quanto à prisão preventiva. Lamento desiludir os que pensam como ele, a começar por ele próprio, mas o estado a que essa gente se habituou a descer não conhece, nem merece, outra linguagem, sob pena de um destes dias acordarmos todos na selva governados pelos petizes. Se o caminho a seguir com os grafittis, com a corrupção, com tudo o que desfeia a nossa sociedade fosse o mesmo, certamente que não estaríamos como estamos, acampados e à espera que nos fiscalizem.

 

Agora a discussão é em torno das alterações ao memorando assinado em Lisboa com os senhores do FMI, do BCE e da UE. Estes cretinos não têm mais nada que fazer senão criar casos. Casos e mais casos. José Sócrates não tinha necessidade de ter feito o que fez. Passos Coelho não consegue disfarçar o seu lado calimero de cada vez que abre a boca. A esperteza do primeiro-ministro era dispensável. Se é verdade que os dois documentos que estavam em causa teriam de ser compatibilizados, era escusado fazê-lo dessa forma. Perderam os dois. Um porque voltou a fazer como não devia – não custava nada ter reafirmado aos demais partidos que os documentos teriam de ser articulados em Bruxelas e tê-lo dito de maneira a que todos os portugueses percebessem, sem subterfúgios. O outro porque se fez de tonto – ou será mesmo? – e levou como resposta que os documentos estavam há vários dias na Internet acessíveis a quem quisesse lê-los. No final foi Paulo Portas, o tal que lidera um partido de direita que já está à esquerda do PSD, quem mais uma vez, como sempre, saiu a ganhar. A esperteza ignorante de uns são os votos certos dos outros. E o seu Euromilhões.

 

A hipocrisia tomou conta da campanha. A coisa assume uma dimensão medonha.  

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Conversa da treta

por Leonor Barros, em 30.05.11

A direita acusa a esquerda, a esquerda acusa a direita, Passos Coelho acusa Sócrates, Sócrates acusa Passos Coelho, Paulo Portas acusa Passos Coelho de ter sido "muleta" do PS, diz que não é muleta de ninguém, o Assis diz que vai ser uma desgraça se o Sócrates sair, Sócrates também acha que vai ser uma desgraça se sair, uma parte do país concorda com Sócrates e com Assis outra está empenhada em pôr o Sócrates a banhos lá para onde foi o Catroga. Enquanto tudo isto, neste país pequeno de acusações e discussões estéreis e inúteis, este desfile inane da gente que nos (des)governa há quase quatro décadas, duas em cada cinco crianças vivem em situação de pobreza. E ‘isto’ devia ser o essencial. Quase quatro décadas depois, alguém, à esquerda ou à direita, já devia ter conseguido resolver este país. Deixem-se de tretas.

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Jargão eleitoral (2)

por Rui Rocha, em 30.05.11

Voto do Centrão Coentrão: escolha eleitoral que, normalmente, decide o vencedor das eleições.

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Convidado: LUÍS DE AGUIAR FERNANDES

por Pedro Correia, em 30.05.11

 

O homem que queria dormir

 

Era uma pessoa normal, nem alta nem baixa, nem gorda nem magra, com dois olhos, uma boca e tudo no sítio. Tinha o seu emprego, normalíssimo arquitecto numa empresa igual às outras, a sua casinha arrendada e os seus amigos. Só tinha uma particularidade: não dormia. Não era porque não soubesse, ele sabia muito bem dormir. Nem era porque não gostasse, ele adorava dormir. Simplesmente não conseguia.

Descobriu estes problemas de sono no liceu. Quando todos os colegas se deitavam antes da meia-noite para ter aulas de manhã cedo, ele ficava sempre a ler ou escrever até às quatro ou cinco da matina. Isto desde que os pais descobriram e lhe tiraram a televisão e o computador à noite, culpando os aparelhos pela falta de sono constante do rapaz. Não ajudou. Nessa altura dormia uma média de três, quatro horas por dia, fins-de-semana incluídos.

Ele via esta particularidade como uma praga. Ficar acordado quando toda a gente dorme é aborrecido, não há nada para fazer nem ninguém para conversar, e isso tornava-o solitário. Também o tornava resmungão e maldisposto. O que acontecia era que ele tinha imensas dificuldades a adormecer e, quando finalmente estava a dormir bem, eram horas de acordar. Daí que ele visse com inveja todos os que dormiam horas e horas por noite.

Ao chegar à universidade, e sem o pai para o acordar à força, decidiu tratar desta questão. Tentou aprender a adormecer. Parece incrível que o que uma criança faz com tanta facilidade, ele não fosse capaz de o fazer. Deitava-se e ficava a pensar sobre o que tinha feito, o que ia fazer, o que tinha lido, o que tinha ouvido, o que tinha pensado. A chave, parecia-lhe, era libertar a mente desses pensamentos. Procurou na internet e tentou fazer meditação. Começou com truques para se concentrar no vazio, mas não conseguia libertar-se de pensamentos durante mais do que um minuto. O que não era manifestamente suficiente.

Começou a trabalhar e o cansaço a aumentar. Chegou ao ponto de não dormir um único minuto durante a semana, por não conseguir tirar assuntos de trabalho da cabeça. Mas vingava-se nos dias de descanso. Deitava-se sábado de manhã e acordava domingo à noite, e essas longas horas de sono sabiam-lhe à vida. Os amigos é que não achavam piada, mas eram danos colaterais.

Sem nunca deixar de tentar inverter o seu problema, passou aos truques da ervanária, aconselhado por uma tia preocupada. Eram uma espécie de comprimidos à base de ervas que enganavam provavelmente quem não tivesse nenhum problema, mas que não tinham qualquer efeito nele. Nem um efeitozinho placebo, nada.

Estes hábitos também não eram muito agradáveis para arranjar namoradas. Isto porque quando tinha mais tempo para estar com elas, ao sábado e domingo, tinha imperiosamente de dormir para começar mais uma semana do mesmo. Até quarta tinha energia, a partir daí contava as horas no relógio para chegar sábado, porque a sexta à noite era dos amigos. E elas não eram as pessoas mais compreensivas do mundo. Ou lhe chamavam estranho, ou abusavam de uma retórica infalível que acabava sempre com a mesma pergunta: “Preferes dormir a estar comigo?”, sem nunca quererem ouvir ou compreender a resposta completa.

Tentou terapia do sono, mas levava meses e meses que ele não tinha. Já vivia naquele limbo tempo demais, só queria um tratamento rápido e eficaz para aquilo que, se antes pensava ser uma singularidade, agora via como uma doença. E como doente que era, foi ao médico que acedeu a tentar tratá-lo. Passou assim aos comprimidos a sério, como se de um velho de setenta anos se tratasse. A adormecer não o ajudavam, mas quando estava a dormir, tornava-se ainda mais difícil acordá-lo. Não os podia tomar durante a semana senão não acordava para o emprego, mas passou a dormir de sexta à noite até segunda de manhã. Adeus fim-de-semana.

*

Sexta à noite chegou a casa triste e revoltado. Tinha sido deixado por uma colega de trabalho com quem tinha começado a namorar há umas semanas. O motivo era o do costume, a falta de tempo para ela. Como se isso fosse mais importante que as necessidades fisiológicas de uma pessoa. Deitou-se e tomou um comprimido. A obstrução de pensamentos foi nula, não deixava de pensar nela. Revoltado e farto dos pensamentos, tomou outro. Nunca o tinha feito, mas não queria rever na sua cabeça o momento em que ela tinha partido o seu coração. E continuou, como uma cassete em loop. Tomou mais dois ou três ou quatro, para adormecer o mais depressa possível e bloquear a sua mente. E deu resultado. Adormeceu, para não mais acordar.

 

Luís de Aguiar Fernandes

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Música inspirada por ataques de pânico

por José António Abreu, em 30.05.11
Oh, estas manic mondays. Depois dos The National, Sufjan Stevens, um rapaz que me dizem ser bem parecido (pronto, ok, não está mal). Hoje no Coliseu do Porto, amanhã no de Lisboa.

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