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Rasgos (28)

por Ana Vidal, em 31.01.11

 

AULA DE DESENHO

 

Estou lá onde me invento e me faço:

De giz é meu traço. De aço, o papel.

Esboço uma face a régua e compasso:

É falsa. Desfaço o que fiz.

Retraço o retrato. Evoco o abstrato

Faço da sombra minha raiz.

Farta de mim, afasto-me

E constato: na arte ou na vida,

Em carne, osso, lápis ou giz

Onde estou não é sempre

E o que sou é por um triz.

 

(Maria Esther Maciel)

Imagem: Escher

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O ministro que ainda não se demitiu

por Pedro Correia, em 31.01.11

 

Por uma absurda – e imperdoável – falha do sistema informático, muitos portugueses não puderam votar na eleição presidencial. O ministro da Administração Interna, Rui Pereira, veio pedir desculpa. Mas se houvesse um verdadeiro escrutínio público dos governantes em Portugal, o ministro não pedia desculpa: pedia a demissão. Já decorreu uma semana e as explicações que deviam ter sido dadas com urgência vão tardando. Vai-se acentuando a convicção de que nunca se saberá ao certo quantos milhares de portugueses se viram impedidos de exercer o direito de voto, que é sagrado em democracia. Nem jamais se saberá, por maioria de razão, até que ponto este facto gravíssimo poderá ter desvirtuado os resultados eleitorais.

Longe vão os tempos em que, num Governo socialista, a culpa não morria solteira. Basta lembrar o gesto digno de Jorge Coelho, então ministro das Obras Públicas, na trágica noite em que caiu a ponte de Entre-os-Rios. Aconteceu só há uma década mas parece ter ocorrido há uma eternidade.

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Um Sporting mais levezinho

por Rui Rocha, em 31.01.11

A notícia já é oficial. O Sporting vendeu os direitos desportivos de Liedson ao Corinthians. Do ponto de vista financeiro, é uma boa notícia para o clube leonino. Os cofres de Alvalade ficam aliviados de um ordenado que já não tinha justificação no rendimento desportivo. Por isso, mesmo que o encaixe financeiro não seja entusiasmante, deste ponto de vista o Sporting ficará sempre a ganhar. Assim, o amargo de boca que a notícia provoca não tem explicação matemática. Para os sportinguistas, a notícia é dolorosa devido às circunstâncias actuais do clube. O retrovisor passa a devolver a imagem da última grande contratação do Sporting. De um jogador que, apesar de alguns sobressaltos disciplinares, teve um desempenho claramente acima da média. É certo que essa imagem está colada a épocas sem conquistas relevantes.  Com Liedson alimentámos a esperança numa glória que nunca chegou a ser. Todavia, se nada ganhámos de relevante, sentimos em algumas ocasiões que estivemos lá muito perto. E que Liedson podia fazer acontecer. É o fim dessa proximidade que esta transferência certifica. A saída de Liedson retira-nos de campo a evidência do êxito que podia ter sido. Sendo pouca coisa, o sucesso que quase aconteceu no passado dá-nos bem mais conforto que um futuro que pode não chegar a ser.

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A degradação do debate político

por Pedro Correia, em 31.01.11

 

 

Na primeira sessão parlamentar que registou a presença do chefe do Governo desde a eleição presidencial, na passada sexta-feira, José Sócrates confirmou a falta de nível de que já deu mostras noutras ocasiões. Depois do 'porreiro, pá', com que brindou Durão Barroso na cimeira de Lisboa e do 'manso é a tua tia' dirigido a Francisco Louçã em São Bento, saiu-lhe agora de forma bem audível um 'Eh pá' em pleno hemiciclo.

Ouço os relatos desta sessão nos telediários e interrogo-me: como querem estes políticos ser respeitados se não se dão minimamente ao respeito?

A tentativa permanente de amesquinhar os adversários, a necessidade imperiosa que sente de mostrar que ainda é um 'animal feroz' (expressão que se lhe colou à pele e diz muito dele), a tentação contínua que revela de confundir as funções institucionais com as de comentador político, regressando aos tempos em que fez tirocínio para secretário-geral do PS num estúdio televisivo ao lado de Santana Lopes - eis características de Sócrates na Assembleia da República, sessão após sessão. Características que contribuem para degradar a qualidade do debate político em Portugal. E depois alguns destes políticos (a começar por ele) ainda se queixam de que os cidadãos andam indiferentes à política...

Andam indiferentes? Ainda bem. É um acto de cidadania mostrar indiferença e até desprezo por esta política e estes políticos.

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O primeiro TGV no percurso...

por João Carvalho, em 31.01.11

... Caia-Poceirão, que transporta milhares e milhares de pessoas de Madrid cheias de pressa para chegar às praias de Lisboa...

... e Poceirão-Caia, que transporta milhares e milhares de pessoas de Lisboa cheias de pressa para chegar a horas de jantar em Madrid.

 

Imagens

— Um simpático casal de veraneantes (no topo) acena

aos que chegam de Madrid

— No interior do TGV ninguém quer saber da paisagem

nem dos casais que acenam: lêem-se revistas e bebem-se

uns aperitivos, que Madrid é já ali

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Leitura recomendada

por José Gomes André, em 31.01.11

 

À "constitucionalista" Isabel Moreira, para quem "não há direitos absolutos, nem um". Pobre país, com uma elite intelectual tão desinformada...

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Convidado: ANTÓNIO EÇA DE QUEIROZ

por Pedro Correia, em 31.01.11

 

Infortúnios da linguagem

 

Há palavras portuguesas (ou aportuguesadas) que me irritam de duplicidade, outras que me ofendem pela sua sonoridade, outras que me assinalam o seu utilizador como um perfeito cretino – e por aí fora. Não é certamente uma fatalidade nacional, mas é aqui que vivo e é aqui que as sinto activas, saltitantes, a rabear de boca em boca, de jornal em noticiário, de político em intelectual – seja lá o que esses alargadíssimos conceitos queiram abraçar.

Existem duas que se diz possuírem um significado específico mas que têm outro muito mais adequado e compreensível. Fazem parte do léxico político, mas sujeitam-se a transvases popularicados pelo jornalismo enfatuado e desnutrido e pelos seus principais attachés de presse – os analistas profissionais.

O primeiro é um vocábulo de sonoridade ofensiva e, tanto quanto julgo saber, um anglicismo recente.

Procrastinação – que, no fim de contas, é uma actividade muito próxima da auto-castração (por requisito próprio ou a mando de outrem).

Esta coisa horrorosa podia perfeitamente ser substituída de forma muito mais eficaz em termos de comunicação directa com o povo que se quer conhecedor dos seus líderes – e não exactamente escondido da realidade dos factos, esse semáforo das ditaduras – por termos que todos entendemos à primeira. Tais como o absolutamente nacional empata fodas ou mesmo pelo mais nortenho, regional e humilhante, caga na saquinha – adjectivos todos eles consequentes com o espírito da coisa.

Resolvido o problema da política empata fodas (ou caga na saquinha) e respectivas caixas de ressonância, marra-se logo na primeira esquina com a advocacial inverdade – que realmente não quer dizer aquilo que supostamente quer dizer.

Inverdade utiliza-se habitualmente como forma vagamente polida de chamar ao outro barreteiro – gajo que mete garrunços, trapaceiro, que falseia dados ou os manipula com fins ínvios ou inexplicáveis. Um mentiroso puro e simples, portanto.

Mas o que de facto acontece quando alguém recorre à macia inverdade é que no íntimo, acossado pelas acusações, apenas consegue esbracejar mentalmente um alto lá que isso não foi bem assim!... E lá sai a inverdade!...

Poupo-me a mim e aos que ainda não se fartaram de me ler de citar exemplos da flagrância oculta de tão estúpido vocábulo.

Para acabar (que já chateia), lembro um acontecimento que é feliz no seu sentido específico mas que sai cá para fora deturpado de forma exemplarmente nacional. E parva.

O episódio que me tornou a sua visibilidade insuportável gira à volta da magnífica Livraria Lello, no Porto.

Nada que já não tivesse sido constatado pelas mais variadas publicações: a Lello foi considerada pela editora australiana Lonely Planet como a terceira mais bela do mundo.

No entanto muitos jornais, noticiários e edições on-line fizeram as suas chamadas à primeira página, em alegre e levíssimo disparate, afirmando que a livraria portuense tinha sido considerada como a terceira melhor do mundo. Depois, no miolo, a verdade vinha ao de cima como o velhíssimo azeite. Logicamente.

A única coisa que então me apeteceu fazer quando vi isto – na SIC-Notícias, por exemplo, mas também em jornais ditos de referência – foi escrever aos editores todos de Portugal a dizer-lhes que este país nunca em dias da vida poderá ter a terceira melhor livraria do mundo porque as cem primeiras estão e vão continuar a estar em cidades muito concretas que toda a gente sabe, incluindo eles, quais são.

Não lhes escrevi porque para eles não lhes basta a Lello ser belíssima.

Porque são burros e pretensiosos.

 

António Eça de Queiroz

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Barry, John Barry

por Pedro Correia, em 31.01.11

 

"The thing about John that I will always remember was he never changed."

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Para variar

por Pedro Correia, em 31.01.11

 

De vez em quando, uma boa notícia

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O estado de desenvolvimento de uma democracia deve ser aferido a propósito de situações concretas. As anomalias no processo eleitoral são uma boa oportunidade para testar a nossa realidade democrática através  de indicadores como:

utilidade dos inquéritos - numa democracia madura os inquéritos fazem-se para determinar aspectos a corrigir e a melhorar. Numa democracia incipiente, os inquéritos permitem diferir as decisões no tempo e diluir os factos em insondáveis meandros técnicos, com o evidente propósito de branquear as situações.

entendimento sobre o conteúdo da responsabilidade política - numa democracia meramente formal, os decisores políticos utilizam os inquéritos e as questões técnicas para se eximirem das suas responsabilidades políticas. Numa democracia avançada, os decisores políticos lançam inquéritos e, ao mesmo tempo, avaliam as consequências e a gravidade dos factos ocorridos, não fazendo depender a responsabilidade política das conclusões dos inquéritos.

valor do discurso desculpabilizante -  em qualquer democracia, a liberdade de expressão reconhecida aos cidadãos permite-lhes proferir as maiores barbaridades. Num regime democrático, pode dizer-se que os eleitores não votaram em 23 de Janeiro por falta de pachorra. E pode referir-se ainda que na década de 70 do século passado as filas para votar eram de horas. Ou ainda que as pessoas não reclamam quando esperam para comprar bilhete para um concerto dos U2 ou para ir de férias ao Brasil. O que distingue uma democracia avançada é o valor reconhecido a este discurso. Que é, em rigor, nenhum. Pois a sua consequência é a completa falta de exigência da sociedade face a quem gere a coisa pública. Colocar o discurso na comparação com o que acontecia há trinta e tal anos ou com decisões individuais mais ou menos sensatas partilha com a batata da mesma lógica. A coisa e os processos públicos são nossos. Devemos exigir que corram bem. Sob pena de termos que admitir calados que a má gestão pública imponha, a cada ano, um aumento de impostos ou um corte de salários. A diferença está em que, numa democracia avançada, o discurso desculpabilizante pode ser proferido. Mas, a falta de pachorra para o aturar é tal que, apesar de não existir censura, só os tontos encontram topete para o fazer. O que, em rigor, os define.

A forma como o processo começou não permite já obter uma aprovação com distinção. O inquérito da Universidade do Minho é útil para prevenir acontecimentos idênticos no futuro. Infelizmente, chego à conclusão que deveriam ter sido solicitados mais dois estudos. Um sobre o sentido da responsabilidade política e outro sobre a exigência de rigor na coisa pública. Espero que, à falta destes dois instrumentos, não cheguemos a resultados completamente medíocres.

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Os nossos convidados

por Pedro Correia, em 31.01.11

A passadeira vai desenrolar-se para recebermos hoje, com todo o gosto, o António Eça de Queiroz. Do blogue É Tudo Gente Morta.

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O comentário da semana

por Pedro Correia, em 31.01.11
  
  
«Sou sócia há 25 anos, era criança quando o Sporting começou o jejum de 17 anos e há de facto algumas semelhanças entre esse período e a actualidade. Desde logo, a falta de competitividade do futebol. Este está no ponto mais baixo dos últimos 25 anos, sem dúvida. O mais aflitivo é a diferença de potencial financeiro do plantel. Os rivais vendem jogadores por 20 ou 25 milhões de euros e nós neste momento não conseguimos vender um único jogador nem por 5 milhões de euros! Assim é impossível ser competitivo. Se este ciclo não for invertido, vamos estar muito mais anos sem ganhar o campeonato. Depois, há também um vazio de liderança. O Sporting há muito que não tem um presidente à altura da sua grandeza e prestígio.

Mas o problema não é só os dirigentes. Acrescento:

- Falta de cultura desportiva. Não se apoia os atletas do clube, nem se respeitam os mesmos e a equipa técnica. Os sportinguistas em geral não proporcionam um ambiente fervoroso em favor do clube, nem intimidativo para o adversário, a não ser em jogos grandes, especialmente contra o Benfica, em que até ao maior "queque" salta a tampa.


- Falta de cultura competitiva. Há adeptos para quem está sempre tudo bem. Tanto faz ganhar 2-0 como perder 5-0, aplaude-se na mesma. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra.
- Uma "nova" geração de adeptos que está "viciada" na internet, e que é imediatista, intolerante e não sabe dar o valor a nada. É tudo "fácil" e a estrutura do Sporting tem sempre todos os defeitos. Quem escreve num blogue (sem desrespeito para o Delito de Opinião), no facebook, ou noutra coisa qualquer, é que "sabe".
- A oposição profissional. Gente oportunista e irresponsável, que nunca aceita o resultado das eleições, e que se serve da desestabilização que os nossos adversários criam contra o Sporting para os seus propósitos de atingir o poder no clube a todo o custo. São também responsáveis pelos inêxitos no futebol, porque contribuem para criar um ambiente difícil que inferioriza o Sporting na sua casa.
- A Juventude Leonina. Aqueles "rapazinhos", alguns já quase com idade para ser avós, precisam de ser postos na ordem. Claque apoia, não interfere na gestão.

Temos de mudar, de alto a baixo, porque assim não somos um clube talhado para ganhar com regularidade.»
 
Da nossa leitora Vera. A propósito deste texto do Filipe Moura.

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As canções do século (396)

por Pedro Correia, em 31.01.11

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Ligação directa

por Pedro Correia, em 31.01.11

A Ronda dos Dias.

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[Só para gente sem sono às 05h00]

por Fernando Sousa, em 30.01.11

 

Alguns reféns mais poderão ser libertados nas próximas horas na Colômbia mas isso não vem em lado nenhum. Depois de Ingrid e Clara a coisa já não dá pica. E de repente lembro-me da mais memorável das madrugadas que passei lá fora, na Rádio Caracol, no programa Las voces del secuestro. Uma noite impressionante. Miúdos e mulheres a mandarem de um estúdio de Bogotá horas de beijos sabiam lá para onde! A ideia partiu de Herbín Hoyos, jornalista, antigo refém e um audaz encantador de serpientes. É feito por profissionais voluntários, depois das suas horas de trabalho e sem remuneração, todos os domingos, da meia-noite (05h00 em Lisboa) às 06h00. Isto desde 1994. Tudo o que querem é levar as vozes de miúdos e mulheres a pais, irmãos ou maridos nas mãos dos grupos armados. Mas tudo isto, claro, para quem não tiver sono daqui a pouco...

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Psst, com licença...

por Ana Vidal, em 30.01.11

Ao jornalista da SIC N que pergunta ao mui douto Rui Santos se "acha normal uma atitude tão irritada de Jesus", em vez do interminável arrazoado do filósofo do esférico - que o deixou exausto e baralhado - respondo eu, de uma maneira muito mais simples: Claro que sim, homem! Já não se lembra do que aconteceu com os vendilhões do Templo?

 

Ó p'ra mim a falar de futebol!

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Temos os melhores professores

por João Carvalho, em 30.01.11

Acabámos de ouvir Marcelo Rebelo de Sousa prestar uma homenagem aos professores que o primeiro-ministro e a ministra da Educação não tiveram o cuidado — e até a lisura — de fazer em devido tempo. Embandeiraram em arco sobre a qualidade do ensino e a melhoria de qualidade dos alunos portugueses na avaliação apresentada pelo badalado Relatório PISA (Programme for International Student Assessment), mas esqueceram-se (?) de dar conta de outro dado focado no documento: os professores portugueses são os docentes mais cotados pelos alunos nos vários parâmetros considerados, entre os 33 países avaliados para aquele relatório.

É com gosto que aqui contribuímos para este este gesto de justiça a que assistimos agora. O primeiro-ministro e a ministra da tutela podem limpar as mãos à parede com o mau papel que quiseram assumir, mas é possível que, mesmo tarde, o DELITO ajude a ampliar aquilo que é devido.

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Até tu, Isabel?!

por Laura Ramos, em 30.01.11

Leiam e pasmem, como eu pasmei.

(Sra. Ministra: - Eu também quero! Também eu tenho um curso destes, conferido pela vetusta Universidade da Pensilvânia. Também eu fui 'raised in' Philadelphia. É que ou há moralidade... ups, pois... já me esquecia: disso é que já não há!)

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Allende suicidou-se, e pronto!

por Fernando Sousa, em 30.01.11

 

Allende suicidou-se, e pronto. Qualquer que seja o resultado das investigações do juiz Mario Corrazo, nada alterará isso. Primeiro pelo peso das declarações da única testemunha da morte, um dos seus médicos pessoais, segundo porque as verdades que acompanham os mitos são, por natureza, indestrutíveis, terceiro porque, mesmo que se provasse que fora morto pelos prussianos que assaltaram La Moneda, a justiça chilena, demasiado pútrida, jamais encontraria os culpados, se os encontrasse nunca os processaria, se os processasse nunca os julgaria, se os julgasse nunca condenaria, e se os condenasse eles jamais cumpririam qualquer pena. Estamos portanto perante um caso encerrado antes de aberto – aliás aberto só por o nome do antigo Presidente constar na lista dos mais de 700 casos nunca investigados. O que está a acontecer é apenas uma performance político-jurídica. Allende suicidou-se porque tinha jurado que nunca aceitaria o exílio e que só abandonaria o cargo, para que fora livremente eleito pelos chilenos, com os pés para a frente – que foi o que aconteceu, no dia 11 de Setembro de 1973, pelo 80 da Morandé, a modesta porta de serviço do palácio por onde entrava e saía sempre. De qualquer modo se não se tivesse suicidado teria sido morto, leia-se neste sentido a Interferencia Secreta, de Patricia Verdugo, ou ouça-se o registo rádio da conspiração. Mas admitindo, por absurdo, que se descobriria que fora morto, à performance seguir-se-ia o teatro. O que é a justiça chilena, está bem ilustrado no Livro Negro da Justiça Chilena, de Alejandra Matus – que aliás teve de se exilar para não sofrer algum inesperado acidente. Ela não é toda igual, evidentemente, tem pessoas como Hugo Gutiérrez, o juiz Tapia, o próprio Corrazo, um juiz com provas dadas, e outros. Mas é só um pequeno grupo de gente asseada contra um esquema sujo, para mais agora com o poder ocupado pela mesma direita que há anos tenta branquear as atrocidades do regime militar e fazer dos tribunais, magistrados e leis uma paródia. Allende suicidou-se, e pronto. Viu-o Patricio Guijón; assegura-o outro dos seus médicos, Óscar Soto Guzmán, no livro El Último dia de Salvador Allende e nas declarações que voltou a fazer; garante-o Isabel Allende, numa entrevista que me deu, em 1998, em Santiago, e noutras; afirmou-o a antiga secretária, Miria Payitas; declarou-o Carlos Altamirano; reconheceu-o até Patrício Aylwin, mesmo da forma no mínimo despudorada que usou: “El suicidio de Allende podría explicarse por el curso frívolo y de autoengrandecimiento en el que se había embarcado el Presidente”. Esperemos então pela confirmação do suicídio. A justiça de que a justiça chilena é capaz, para não falar de como deixou escapar Pinochet, está aí, na maneira como está a tratar os assassinos de Victor Jara, um dos primeiros a cair nos primeiros dias do golpe, a mesma que afagou, como afagou, os que mataram Jécar Neghme, o último a ser abatido, por militares que agora andam tão libres como a pomba Libre da canção de Nino Bravo, nos últimos da ditadura. Salvador Allende suicidou-se, e pronto.

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Grandes momentos de reportagem

por João Carvalho, em 30.01.11

1. As reportagens (da SIC e não só) no aeroporto da nossa capital a quem regressa apressada e assustadamente do Egipto incluem uma pergunta que parece ter-se tornado obrigatória: "O que é que sente agora em Lisboa?" A pergunta, insistente à exaustão, é tão inteligente que me cai o queixo de espanto.

 

2. Sobre reportagens, é caso para não deixar passar em branco a presença do Enterprise ancorado no Tejo. Vi na SIC-N a reportagem do Mário Crespo feita no interior do monstro de guerra norte-americano, um trabalho que achei à altura do que seria de esperar. Já com o que vi na RTP passei-me todo.

 

2.a) O melhor que um repórter e uma câmara da estação pública fizeram foi ir à margem do rio mostrar o porta-aviões lá ao fundo (que o esforço do zoom deixou a ideia de que tanto podia ser uma traineira como um cacilheiro) e — surpresa das surpresas — pôr-nos a ouvir a populaça que encontraram no local, desde o miúdo com binóculos a dizer que o navio é "um bocado grande" à mulher de meia-idade a explicar que "é grande mas não fico admirada, já vi tanto na vida", passando pelo pescador que lançava a cana à água e respondia que "não, ele não me estraga a pesca que isto também já não dá nada". Como devem ter reparado, o repórter da RTP só abordou o pescador para tentar encontrar um culpado, que a vida é mesmo assim: com peixe ou sem peixe, o jornalismo precisa desesperadamente de um Bibi responsável pela fuga do chicharro. Pois se o homem, coitado, estava ali a esforçar-se tanto e nem conseguira apanhar uma lata de atum, não é verdade?

 

2.b) Curiosamente (ou não), entre tantos detalhes debitados e papagueados repetidamente como se fosse um guião, não ouvi falar no incêndio a bordo ocorrido no Havai, há 42 anos, nem que este é o oitavo Enterprise dos EUA, etc., etc. pardais-ao-ninho.

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