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Convidado: DANIEL SANTOS

por Pedro Correia, em 29.11.10

 

Como é que eu vim parar aqui? 

 

Existe para mim o antes e o depois. Antes de Março de 2007. E o depois. Poupando os leitores aos pormenores do acidente que me colocou vários meses deitado numa cama e de perna no ar, foi na blogosfera que me segurei, depois de dias e dias de televisão, semanas e semanas de livros.

Comecei por um projecto a solo. Analfabeto me confessava, como ainda hoje me sinto, mas encontrei algo que me fascinava, algo dinâmico que se tornou um desafio para mim. Quando digo desafio, não digo que o objectivo não seja vencer. Estaria a ser hipócrita. Quero dizer que o desafio era participar em algo que me transportasse para fora das paredes do quarto e ao mesmo tempo me fizesse recuperar tudo o que eu tinha perdido em anos de vida fast food.

Tinha consciência que entrava a meio do jogo, com as vedetas da bloga já devidamente instaladas, todos os lugares ocupados. Sabia que teria de aguardar em pé por um lugar. Sinceramente, acho que hoje, passados estes anos, ainda não me consegui sentar devidamente. 

Tem até agora valido a pena. Aprendi muito. Poderia ter aprendido mais, mas quero continuar a aprender. Quero continuar a dar pontapés na gramática para que, a cada canelada, eu aprenda. Quero continuar a dizer aquilo que penso e, já agora, quero continuar a ser censurado em alguns blogues. 

O Pedro Correia teve a amabilidade de me convidar a escrever umas linhas, eu agradeço sinceramente que se tenha lembrado de mim e me tenha colocado junto de tão vasta e interessante lista de bloggers que por aqui têm vindo a desfilar.

 

Daniel Santos

Parece impossível

por João Carvalho, em 29.11.10

Eleições presidenciais e legislativas no Haiti. Seguidos por milhares de manifestantes nas ruas de Port-au-Prince, 12 dos 19 candidatos à sucessão do presidente René Préval já pediram a anulação do acto eleitoral por acharem que houve fraudes a favor do candidato apoiado pelo partido que está no poder. Não dá para acreditar, pois não?

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Faringites e gargarejos

por Rui Rocha, em 29.11.10

O Ministro das Finanças de Portugal, Oli Rehn, e o seu Secretário de Estado, Didier Rynders, declararam que o país se comprometeu a adoptar medidas estruturais em matéria de saúde, transportes e mercado de trabalho. Aguarda-se que o seu porta-voz, Teixeira dos Santos, logo que estiver recuperado da faringite que certamente o apoquenta, esclareça o sentido dessas medidas. Se possível, antes de limar as unhas encravadas. A propósito, diz-se que os gargarejos com sal são muito eficazes.

 

Adenda (às 11h20): Já agora, se pudesse dizer alguma coisa sobre as previsões de Outono da Comissão Europeia, de acordo com as quais as medidas de austeridade previstas no Orçamento para 2011 não são suficientes, também era serviço.

Adenda nº 2 (às 12h30): E, se não for muita maçada, umas palavrinhas sobre os números do desemprego, do défice em 2012 e do crescimento (?) em 2011 que constam dessas mesmas previsões...

Adenda nº 3 e Conclusão (às 13h45): a) O Ministro Oli Rehn e o porta-voz Teixeira dos Santos têm que falar mais entre eles; b) ou o que o porta-voz diz no comunicado é falso, ou as medidas em causa são insuficientes; c) as medidas previstas em matéria de transportes são o início das obras do TGV em 2011? 

 

Um filme mudo

por Ana Margarida Craveiro, em 29.11.10

 

No total, este filme de Anton Corbijn não terá mais de trinta minutos de diálogo. É um filme mudo, dominado na perfeição por George Clooney. Bastam-nos as expressões deste grande actor, não precisamos de muitas palavras. Os diálogos e explicações estão todos nos gestos de Clooney, no seu movimento.

Outros motivos para amar Portugal (25)

por Ana Vidal, em 29.11.10

 

Cataplana do Algarve

Leslie Nielsen

por João Carvalho, em 29.11.10

 

1926 – 2010

A Irlanda foi arrastada para o fundo pela Banca! Em Portugal, o Banco Alimentar aumentou as receitas (felizmente) e cada vez tem mais clientes. Shame on you, irish tigers.

Os nossos convidados

por Pedro Correia, em 29.11.10

Vem hoje escrever connosco o Daniel Santos. Do blogue 2711.

O comentário da semana

por Pedro Correia, em 29.11.10
  
«Ando pasmado com liberais e demo-cristãos.
Não se vê nenhuma oposição firme aos cortes salariais.

O principal problema aqui é que a primeira propriedade de cada pessoa é o seu trabalho, e a Constituição veda que alguém seja expropriado da sua propriedade sem justa indemnização. Um corte de 3,5% ou 10% do montante remuneratório auferido é uma expropriação de 3,5% ou 10% de trabalho - passa a ser 3,5% ou 10% de trabalho não pago.

As pessoas não são despesa. Trabalham, dão de si.
Ora, o Tribunal Constitucional vai ser obrigado a decidir.
E vai decidir mesmo com os votos dos capangas de serviço porque o assunto é de simplicidade extrema.
Assim,
O princípio constitucional da igualdade (o factor tributário eleito - a natureza da entidade pagadora - para a determinação do rendimento que vai servir como matéria colectável é duplamente arbitrário [por incidir apenas nas remunerações laborais, e por, nestas, incidir apenas sobre as que são, ou foram, prestadas a certas entidades].
O princípio constitucional do tratamento fiscal mais favorável dos rendimentos do trabalho (a haver necessidade de mais receitas fiscais elas deviam incidir preferencialmente sobre outras categorias de rendimentos);

O princípio constitucional da protecção da confiança (se é certo que não pode haver expectativas quanto ao nível da carga fiscal, há-as decerto quanto à sua distribuição equitativa - tanto mais que, se a conversão dessa ablação discriminatória (c.800 milhões de euros) fosse repartida pelos titulares de rendimentos comparáveis, o montante a pagar por cada um seria consideravelmente diminuído);
O princípio constitucional da unicidade do imposto sobre o rendimento pessoal e da teleologia desse imposto (ao fazer coexistir um imposto especial sobre o rendimento com o IRS, e ao desconsiderar as necessidades do agregado familiar dos contribuintes, a projectada ‘redução’ viola flagrantemente o disposto no artigo 104º da Constituição).

Pena é que o PSD, de matriz humanista cristã, nada diga.
Ou será que agora tudo vale... mesmo princípios egrégios pelos quais o Ocidente se bateu?
»
 
Do nosso leitor Bártolo. A propósito deste texto do João Carvalho.

As canções do século (333)

por Pedro Correia, em 29.11.10

Domingo, pingo a pingo (2)

por Ana Vidal, em 28.11.10

 

Seguindo a dica de uma amiga semi-italiana - e com saudades de bom cinema latino - fui ver "Uma família moderna" (Mine Vaganti no original), um filme italiano já quase a sair de cartaz. Apresentado como uma comédia de costumes, um dos géneros mais fortes do cinema italiano, fala afinal de coisas muito sérias: num primeiro olhar, da homossexualidade e suas duras provações numa sociedade fechada, preconceituosa e aparentemente imutável. Visto mais fundo, é sobretudo um filme que fala de prisões. E de fugas. Das prisões que outros nos impõem e de outras, de todas as piores, as que impomos a nós próprios. Das fugas apenas sonhadas, às vezes uma vida inteira, e da coragem que chega finalmente um dia para dar-lhes asas. Ou que nunca chega. E fala de segredos, muitos segredos. Tudo isto nos é servido através da infalível metáfora de uma familia tradicional (ou só aparentemente tradicional), onde cada membro assume a cruz ou a glória do seu papel em função dos outros e deles esconde as suas mais profundas frustrações. Há a eterna fórmula, muito latina, de um mundo de mulheres de força indestrutível, cúmplices nos segredos e nas dores, um mundo aparentemente matriarcal que, sem que se entenda porquê, obedece sem rebeldia a um único macho dominante. No filme há momentos hilariantes (embora alguns  excessivamente caricaturais, que se dispensavam). Há segredos revelados e epifanias redentoras, mas há também a mensagem subtil de um círculo vicioso de velhas algemas que permanece, mesmo nas novas gerações. Tem um óptimo elenco de actores, e dá gosto - oh, senhores, como dá gosto! - ver tanta gente bonita por metro quadrado. É verdade que não consegue fugir à "maldição do cartão postal" de que sofrem todas histórias filmadas em Itália, mas como ignorar tanta beleza nas casas, nas ruas, nos rostos, por todo o lado? Enfim, gostei. E recomendo.

 

§

 

Ofereceram-me um livro curiosíssimo. Chama-se "Notas de cozinha de Leonardo Da Vinci" (editora Temas da Actualidade) e revela uma das menos conhecidas facetas do génio renascentista: a de Mestre de Banquetes da corte de Ludovico Sforza. Tem receitas inimagináveis nos dias de hoje, como por exemplo "Testículos de carneiro com mel e nata", "Cristas de galo panadas", "Intestinos cozidos" ou "Pudim de mosquito branco", além de uma infindável lista de truques e conselhos culinários. Revela também estranhas dúvidas existenciais do mestre, tais como "Tenho estado a pensar pegar num pedaço de pão e colocá-lo entre dois bocados de carne. Que designação devo, porém, dar a tal prato?". Mas não se fica por aí. Destaco este delicioso parágrafo do capítulo "Os venenos na cozinha": «Vou encontrar-me com o meu Amo Cesare e Mestre Macchiavelli para discutir os meus conhecimentos acerca dos venenos, que são insignificantes. (...) No entanto, há certas coisas sobre as quais não me restam dúvidas. A eescolha do veneno depende do efeito que se pretende obter sobre a vítima. Assim, este veneno particular provoca espirros, estoutro comichões, aquele saltos e convulsões, aqueloutro ainda a morte total. Quem se está a iniciar nas artes de envenenador não deve confundir os diversos venenos disponíveis. Deve aprender que a estricnina provoca torcicolos e terrores; que as bagas castanhas e pretas da letal erva-moira fazem revirar os olhos e levam ao delírio; que o acónito (tão amiúde confundido com as raízes da cocleária) dá origem a formigueiros e vómitos, que a cicuta é um veneno que conduz à morte total. Um bom veneno deve ser sempre administrado no início da refeição, porque actua mais rapidamente quando o estômago está vazio e porque, utilizado nestas condições, é vantajoso para o envenenador que não necessita senão de uma pequena medida do seu recurso, e para o hospedeiro que não gostará de ver o prosseguimento dos folguedos organizados para os comensais perturbado pela agonia da vítima.» Aqui fica a dica. Quem sabe se será útil a alguém.

 

§

 

E deixo-vos com uma das preciosas máximas do meu amigo Woody Allen (era mais meu amigo quando fazia filmes a sério, mas enfim...): "To love is to suffer. To avoid suffering one must not love. But then one suffers from not loving. Therefore to love is to suffer, not to love is to suffer. To suffer is to suffer. To be happy is to love. To be happy then is to suffer. But suffering makes one unhappy. Therefore, to be unhappy one must love, or love to suffer, or suffer from too much happiness. I hope you're getting this down." Simples, não?

 

Boa semana para todos.

O princípio do fim de Zapatero

por Pedro Correia, em 28.11.10

 

 

A esmagadora derrota do Partido Socialista nas eleições autonómicas catalãs prenuncia o fim de um ciclo mais vasto. A política dá muitas voltas. Foi na Catalunha que Zapatero começou a somar vitórias eleitorais, em 2003. E ficou hoje mais evidente que nunca, precisamente na Catalunha, que terminou o prazo de validade da governação socialista em Espanha.  

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'Artitectura': os mal-amados (19)

por João Carvalho, em 28.11.10

Jardine House, em Hong Kong

A Jardine House (ou Connaught Centre, ou Cheung Kong Center) é uma torre de escritórios na ilha de Hong Kong, no número 1 da Connaught Place, em Central, bem junto das águas do enorme porto de águas profundas. O projecto foi da Palmer & Turner, encomendado pela Hongkong Land Ltd., subsidiária do Grupo Jardines.

Trata-se da multinacional Jardine Matheson Holdings, com sede em Hong Kong, que opera nas Bermudas, está cotada em Singapura e em Londres e se movimenta em muitos pontos do mundo sob várias designações e marcas, um gigante do mercado que serviu de fundo ao filme Nobel House (realizado por Gary Nelson em 1988, baseado no romance com o mesmo título de James Clavell e com Pierce Brosnan no papel de tai pan, o grande patrão estrangeiro).

O edifício — que substituiu um prédio de 1948 com 16 andares da mesma empresa, mas situado noutra área — construído em 16 meses num aterro conquistado ao mar, com 52 andares e uma altura de 178,5 metros até ao topo, marcou o início da modernidade arquitectónica em Hong Kong: foi concluído em 1972 e inaugurado em 1973; até 1980, era o mais alto da Ásia. Foi também pioneiro de uma técnica que passou a tornar-se comum desde então na zona Central de Hong Kong, que consiste em acessos interligados entre as inúmeras torres aí erguidas. Com as vias quase exclusivamente destinadas ao trânsito frenético, poucos locais para estacionamento no espaço público e raros passeios para peões, o processo permite que as pessoas circulem de edifício em edifício (centros comerciais, hotéis, etc.) através de escadas e passadeiras rolantes, sempre no conforto do ar-condicionado.

Pelo lobby, no piso térreo, percebe-se que a frieza do ambiente corresponde à utilização de materiais de grande resistência e limpeza fácil, onde se encontram os elevadores (da Otis) e a respectiva caixa de escadas (da Schindler).

Nestas décadas recentes, os espantosos exemplos da paisagem urbana de Hong Kong, a par de Manhattan (Nova Iorque), são estudados em todos os cursos de arquitectura e têm feito muitas capas das melhores revistas da especialidade em todo o mundo.

Hoje em dia, a Jardine House está completamente diluída na mancha imensa e arrojada das enormes construções naquele território chinês "fundado" pelos britânicos e desenvolvido pelo comércio norte-americano internacionalizado. O edifício confunde-se e quase desaparece entre os monstros que o rodeiam, é certo, mas não era assim nos anos 70.

Portanto, não pode dizer-se que passava indiferente quando surgiu aos olhos admirados da população, com as suas janelas redondas (diz-se que são 1700 vigias) incapazes de disfarçar a massa cinza metálica que o sustenta. Essa admiração, na altura, oscilou entre um certo orgulho pela grandeza e alguma desconfiança pela ostentação.

Na sua primeira década, a Jardine House dos postigos redondos foi realmente um mal-amado, logo baptizado pela vox populi com um nome que me parece que só um chinês, com as suas metáforas e alegorias muito próprias, se lembraria de chamar-lhe (e que me dispenso de traduzir): The Building of 1000 Assholes...

De Bruxelas, com amor

por João Carvalho, em 28.11.10

Reunidos em Bruxelas, «os 16 ministros das Finanças da zona euro acabam de aprovar um auxílio financeiro de 85 mil milhões à Irlanda.» Parece que Teixeira dos Santos até quis doar logo uma nota de dez euros que levava na carteira para demonstrar aos mercados que a situação de Portugal nada tem que ver com a da Irlanda. Um gesto de amor que foi impedido de fazer por estar sujeito a um Orçamento de austeridade e não ser abrangido pelo regime de excepção (vulgo de adaptação) aos cortes salariais.

Uma casa com vista para o mundo

por Teresa Ribeiro, em 28.11.10

Quantos filmes românticos vi ao longo da minha vida? Perdi a conta. A maioria não ficou para a História, nem sequer para a minha história pessoal, mas cumpriu a sua função que foi a de ficcionar o amor, oferecendo-me matéria-prima para os meus sonhos de rapariguinha e mais tarde para as minhas evasões de mulher adulta.

Nesta relação que estabeleci para a vida a realidade também tem o seu papel, que é o de ficar sempre à minha espera, à saída da sala, mesmo a tempo de me levar de volta às minhas rotinas. Creio que a primeira vez que ela não ficou à porta foi há dias, quando fui ver José e Pilar. Neste caso não fazia sentido. Afinal não se tratava de ficção mas do documentário de Miguel Gonçalves Mendes sobre José Saramago e Pilar del Rio.

Não vi beijos ardentes neste filme. O galã é octogenário, tem um rosto duro e uma voz seca, tão seca que até as suas maravilhosas declarações de amor a Pilar soam desajeitadas - "Se tivesse morrido antes de a conhecer morria mais velho do que serei quando chegar a minha hora", "Eu tenho ideias para romances, ela tem ideias para a vida" - mas no final saí da sala emocionada.

Miguel Gonçalves Mendes combina gravações do casal em registo de reportagem, na intimidade e em público, a cumprir a frenética agenda do Nobel, com imagens estilizadas a servir de suporte aos pensamentos do escritor. Desta montagem arrojada resulta uma obra esteticamente irrepreensível, com o ritmo adequado ao pulsar dos seus protagonistas.

Filmado no período em que escreveu e lançou A Viagem do Elefante, seu penúltimo livro, Saramago assume desde logo como matéria de reflexão o tema da morte, incontornável na sua já avançada idade. O documentário abre com ele em grande plano a despedir-se: "encontramo-nos noutro sítio". Depressa percebemos que é para Pilar que fala, não para nós.

Foi Saramago que disse um dia que "a nossa única defesa contra a morte é o amor". Quando vemos José e Pilar expostos nas minudências do quotidiano, placidamente instalados um no outro, percebemos a dimensão desta frase. Percebemos igualmente porque sendo ele ateu, se sai com aquele repto: "Encontramo-nos noutro sítio". Finalmente, entendemos também porque escolheu o escritor para morada aquela ilha espanhola tão inóspita. Quando Miguel Gonçalves Mendes nos mostra que o casal chamou à vivenda onde morava "a casa", faz-se luz. Pessimista como era em relação à espécie humana, aquele lar com a envolvente era uma metáfora: o seu refúgio do mundo.

Que bela foi esta história de amor e que cativante era este Saramago apaixonado.

De braço dado com a realidade, desta vez ao sair da sala vi-me em grandes dificuldades para me desligar do filme.

Não percebi

por Rui Rocha, em 28.11.10

Em entrevista ao Sol, Manuel Alegre declarou: "a adopção gay ainda me causa engulhos". De acordo com o dicionário online de Língua Portuguesa da Porto Editora, é a seguinte a definição de "engulho" (nome masculino):

1. náusea.
2. ânsia que precede o vómito.
3. figurado desejo veemente.
4. figurado tentação.
5. figurado aborrecimento.

Qual o sentido a atribuir à afirmação do candidato presidencial?

Carlos do Carmo: a vida em palco

por Pedro Correia, em 28.11.10

 

Há dias, em Lisboa, Carlos do Carmo deu uma lição de palco. Pelo profissionalismo - nunca se apresenta perante nenhum auditório, seja ele qual for, sem o trabalho de casa irrepreensivelmente feito. Pelo reportório - tudo quanto cantou, como aliás é seu timbre, era de uma irrepreensível qualidade. E pelas palavras que, na dose certa, soube partilhar com quem o escutava no Pavilhão Atlântico. Um artista é também um comunicador, como bem sabe este homem que, sendo fadista há 47 anos, decidiu "cantar umas sinatradas", segundo ele próprio confessou, fazendo o gosto à voz, como se desfolhasse um álbum de memórias íntimas. A sua primeira paixão musical foi precisamente Frank Sinatra. Aconteceu em 1952: tinha 12 anos, andava no então 3º ano do liceu Passos Manuel e ficou fascinado por uma canção de Frank Sinatra, intitulada The Tender Trap, que costumava ouvir em disco. Não descansou enquanto não a soube de cor.

"O meu professor de liceu grátis [no 3º ano] era o Frank Sinatra" , disse Carlos do Carmo nessa noite de 10 de Novembro, partilhando com o público aquela evocação dos seus dias de adolescente, quando o futuro intérprete de Strangers in the Night já era ídolo de multidões.

 

 

Fê-lo com o melhor dos enquadramentos: a lendária orquestra de Count Basie, que aos 75 anos de existência continua a levar ao mundo inteiro aquela América que bailava ao som do swing. O pavilhão encheu-se dos acordes mágicos daqueles músicos que acompanharam Carlos do Carmo - como, noutras noites, vários deles haviam acompanhado o próprio Sinatra - sem jamais haver sobreposição de parte a parte: nem a voz ocultou a mítica orquestra nem esta abafou a voz. Enquanto em palco desfilavam velhos sucessos de Sinatra, quase todos da era swing. Quinze, ao todo. Incluindo, obviamente, The Tender Trap. E ainda Come Fly With Me, Pennies From Heaven, The Shadow of Your Smile, Learning the Blues, Cheek to Cheek, My Kind of Town, I've got you under my skin, Make Whoopie, Fly me to the Moon, How About You, Nice n' Easy, Something Gotta Give, You make me feel so young - tema celebrado precisamente por Sinatra com Count Basie numa inesquecível temporada do casino Sands, em Las Vegas - e The Lady is a Tramp, despedida com chave de ouro de Carlos do Carmo. Sublinhada com calorosos e bem merecidos aplausos.

"É preciso escolher bem o reportório: esta foi uma coisas que o Sinatra nos ensinou." Palavras ainda do fadista nesta noite em que concretizou um sonho antigo, aos 70 anos, idade que já lhe permitiu aprender muito e ensinar alguma coisa. Com destaque para isto: "Ligar-se ao público é ganhar uma vida."

Assim fez Sinatra. Assim faz Carlos do Carmo também.

 

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Livros

por Ana Sofia Couto, em 28.11.10

Nas primeiras páginas, o poeta, aproveitando o exemplo de Santo Agostinho, que sabia o que era o tempo até começar a pensar na pergunta "o que é o tempo?", diz que o conhecimento da poesia pode significar a impossibilidade de definir "poesia". No entanto (ou por isso mesmo), o que Borges escreve, com a ajuda de outros que também se dedicaram ao ofício, é um modo de reagir a essa impossibilidade. O resultado é um livro extraordinário.

 

Acho que Emerson escreveu algures que uma biblioteca é uma espécie de caverna mágica cheia de mortos. E esses mortos podem renascer, podem voltar à vida quando abrimos as suas páginas.

Por falar no Bispo Berkeley [...] lembro-me de que ele escreveu que o sabor da maçã não está na própria maçã - a maçã não se saboreia a si própria - nem na boca de quem a come. Requer um contacto entre as duas. O mesmo sucede a um livro ou a uma colecção de livros, a uma biblioteca. Na verdade, o que é um livro em si? Um livro é um objecto físico num mundo de objectos físicos. É um conjunto de símbolos mortos. E então chega o leitor certo e as palavras - ou melhor, a poesia por trás das palavras, pois as palavras em si são meros símbolos - saltam para a vida e temos uma ressurreição da palavra.

 

Jorge Luis Borges. Este Ofício de Poeta. Teorema, 2010.

Blogue da semana

por Ana Margarida Craveiro, em 28.11.10

É cada vez mais difícil escolher o blogue da semana. A blogosfera portuguesa está viva e recomenda-se, em cada vez mais áreas.

Esta semana, decidi fugir à política, e eleger a culinária como tema. Comecei a lembrar-me dos blogues que visito, e a coisa não ficou facilitada: são muitos, alguns muito bem escritos, outros com fotografia belíssima, mas todos com uma identidade própria, que vem de serem ricos em experiência. Na blogosfera da cozinha, encontramos gente que faz comida porque gosta. Porque chega a casa, e tem prazer a fazer uma refeição em condições, à moda antiga. Eu confesso que também sou assim: cozinhar relaxa-me, dá-me gosto, e nada sabe melhor do que ver o resultado desses minutos ou horas na satisfação dos outros. A cozinha é para os outros, e acho que somos uma sociedade tanto mais forte quanto mais valor dermos a estas pequenas coisas. Assim, de entre tantos outros possíveis, escolhi o Cinco Quartos de Laranja. E recomendo.

Passado presente (CCLXXX)

por Pedro Correia, em 28.11.10

 

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