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Delito de Opinião

O comentário da semana

Pedro Correia, 30.08.10

 

«Recordo a história que um antigo soldado português em Angola contava acerca de uma operação desenvolvida para atacar a base dos guerrilheiros do MPLA. Não me lembro do nome da operação, mas chamemos-lhe "Operação Trovão".
Ora a Operação Trovão andava há meses a ser delineada em segredo e, depois, começou a sua organização. Iam os soldados todos, com as linhas de logística, a força aérea e se calhar até os submarinos de Portas todos direitinhos àquele quartel-general dos angolanos, um espaço poeirento com umas cabanitas a fazer de casernas.
As forças foram todas reunidas e treinadas até à exaustão de forma a garantir que o plano avançava sem falhas. Os líderes da operação reuniram-se vezes sem conta em Luanda para garantir que nada ficaria ao acaso. O dia foi escolhido para que o tempo (sol, chuva, trovoada ou outra coisa qualquer) fosse perfeito para o ataque. As tropas foram colocadas em posição e a ordem foi dada para o ataque.
No campo estavam apenas os restos das cabanitas, uns papéis pelo chão e só faltava um papel a dizer "Para a próxima façam menos barulho"".
Aparentemente a coisa tinha sido tão mal compartimentalizada [palavra a odiar, Pedro?] que o MPLA foi tendo uma ideia do que se passava através da movimentação das companhias e pelotões pelos bordeis de Luanda. O plano terá ficado completamente claro, juntamente com as datas, quando os líderes da operação, durante a suas visitas a Luanda para coordenação de objectivos, contavam os pormenores todos, tintim por tintim, às senhoras que lhes iam levando as frustrações a golpes de ancas.
Como se vê, a coisa tem tradição nas forças armadas...»

 

Do nosso leitor João André. A propósito deste texto da Ana Margarida Craveiro.

Blogue da semana

Leonor Barros, 29.08.10

O blogue desta semana dispensa grandes apresentações, aliás, dado o sucesso dispensa qualquer apresentação. É irreverente, sarcástico, incisivo e não há meias palavras. Aconselho a todos aqueles que são sensíveis a linguagem mais forte que se mantenham arredados, contudo, aviso desde já, não sabem o que perdem. Além de belissimamente ilustrado, fala-se de tudo um pouco, de livros e das aventuras de um livreiro a contas com leitores curiosos. É por estas e por outras, também pelo manifesto anti-pontos de exclamação, que o meu blogue da semana é o Irmão Lúcia. Os meus parabéns ao Pedro Vieira.

Publicidade a quanto obrigas (5)

Ana Vidal, 29.08.10

 

- Bom dia. Quero aqueles jeans da Diesel que estão no cartaz. Número 38, faxavor.

- Lamento, da Diesel já só temos do 46 para cima... mas não se preocupe, tenho outros iguaizinhos de outra marca. E por acaso até são de melhor qualidade, fica a ganhar. Vou buscar.

- Não quero. Têm de ser da Diesel. Pode ser o 46, não faz mal.

- Mas... vão-lhe ficar enooooormes! Olhe que não lhe vão ficar bem...

- Não interessa. E pare de  criticar, sua... sua... esperta! Você não percebe nada disto. Não vê que quero ter ideias, ser criativa, enfim, ser ESTÚPIDA????

 

(Nota: Mais brilhantes elogios à estupidez aqui)

Saber dizer "não" em vez de um vulgar "talvez"

Pedro Correia, 29.08.10

 

Num mundo dominado por incertezas, onde tantas vezes escutamos a palavra "talvez", há que saber também dizer não. Com toda a clareza. Há quem se preocupe em cultivar adversativas à la carte, acrescentando um “mas” justificativo das mais brutais agressões dos direitos humanos. Em nome do respeito pelas diferenças culturais, relativizam-se atropelos de toda a espécie. Em nome de afinidades políticas ou cartilhas ideológicas, absolve-se num quadrante o crime que se denuncia noutro.
As indignações selectivas retiram autoridade moral a quem se dedica a esta prática nada recomendável. Como criticar retrospectivamente a ditadura salazarista, que organizava eleições fraudulentas e perseguia opositores políticos, enquanto se aplaudem práticas do mesmo género no mundo contemporâneo em países como o Irão, onde as presidenciais de 2009 decorreram num inaceitável contexto de coacção, violência e medo? De que vale enaltecer uma figura como a do general Humberto Delgado, com a sua impetuosidade heróica, enquanto se reservam palavras de compreensão ou mesmo de elogio aos salazares de barba e turbante que transformaram o Irão num cenário de pesadelo? De que serve hoje denunciar os desmandos da ditadura do xá derrubado em 1979 enquanto se evita qualquer crítica ao actual regime teocrático de Teerão que destina a tantos dos seus cidadãos, como opções exclusivas, o exílio ou a "justiça islâmica", com o seu brutal cortejo de condenações à morte?
Há realidades inaceitáveis, que não podem ser justificadas por quadrantes geográficos, crenças religiosas ou matizes culturais. A prática da escravatura é inaceitável. A mutilação genital feminina é inaceitável. As lapidações são inaceitáveis. E os regimes que praticam ou toleram atrocidades deste tipo são igualmente condenáveis. Sem ambiguidades, sem adversativas. Sem a palavra "talvez".

 

Publicado hoje no DN

Agosto casamenteiro (13)

João Carvalho, 29.08.10

O bolo de casamento aqui proposto sugere a situação muito específica em que o noivo tem a sorte de casar com a mais desejada das mulheres, a avaliar pelo número de pretendentes que chegam em cima da hora (coitado do que chega de avioneta) para tentar que o enlace não se realize. A situação pode ser ligeiramente mais complicada se o noivo não souber a história completa dela com os ex-namorados.

Almas gémeas

Pedro Correia, 28.08.10

De súbito, à esquerda e à direita, certos artilheiros nada melhor têm a dizer do que procurar ridicularizar uma manifestação hoje realizada em Lisboa (e em mais outras cem cidades do mundo) a favor da iraniana Sakineh Ashtiani, condenada por suposto "adultério" a ser apedrejada até à morte - a forma mais bárbara de execução. É bem verdade que os extremos se tocam. Insuspeitáveis almas gémeas aliviam-se em sintonia nestas ocasiões, não para intervir a favor das vítimas mas em generosa condescendência com os carrascos.

Lembremo-nos disto da próxima vez que alguma destas luminárias decidir impingir-nos virtuosas pregações. Em nome dos bons costumes, do "liberalismo", do "socialismo", da revolução permanente, sei lá que mais. Ou até em nome dos direitos humanos, que por vezes costumam dar jeito para alinhavar uma crónica quando falta inspiração para outro assunto.

Sabia que... (46)

João Carvalho, 28.08.10

... recentemente e com um intervalo de poucas semanas, apareceu um jacaré a nadar nas imediações de Chicago e outro nas margens de Nova Iorque? Pois pode acreditar: dois-jacarés-dois encontrados bem longe do seu habitat natural.

Claro que não tardaram a aparecer também ambientalistas a dissertar sobre o aquecimento global, as graves consequências para a fauna do planeta e todas essas coisas. Porém, desta vez, gente mais atenta e menos apressada chegou-se à frente com uma outra verdade mais objectiva e fundamentada: eram jacarés de estimação abandonados por proprietários idiotas, que devem ter-lhes achado muita gracinha enquanto os bichos eram pequenos e serviam de corta-unhas, mas descobriram depois que se tornam uma maçada quando esticam e deixam de caber no bolso e quando é preciso dar-lhes comida e a banheira já não chega para o banho. Ainda por cima, parecem surdos e pouco inteligentes, porque nem aprendem a responder quando os chamam pelo nome e estragam tudo quando se põem a abanar o rabo. Sobretudo, são chatos. Mas mesmo chatos.

O caso ilustra bem a pressa habitual dos ambientalistas, portugueses incluídos. No nosso país, por exemplo, quando os ambientalistas se apressam a considerar que uma área do território nacional tem de ser preservada por lei como reserva natural devemos ficar logo de pé atrás: é sinal de que essa área é excelente para alterar a legislação e construir um outlet em grande.

Agosto casamenteiro (12)

João Carvalho, 28.08.10

             

As propostas de hoje para bolos de noivos são dedicadas aos enlaces que não deviam existir, mas existem. Desde o casamento em que ele ainda está na fase das serenatas ao casamento em que ela já canta vitória antes da chegada dele, não faltam situações que nada auguram de bom. Excepto comer o bolo, claro.

E o Porto ali tão perto

Leonor Barros, 27.08.10

Pode ser preconceito, se for assumo-o sem problemas mas isto das mulheres a falar de futebol pode parecer algo estranho. Não é a primeira vez que o faço mas sempre que o faço é pelo factor surpresa. E foi isto lá pela tarde por causa do sorteio de grupos, seja lá o que isso for. Pelo que lhe calhou em sorte, o Futebol Clube do Porto terá de se defrontar com o Beşiktas de Istambul, o CSKA de Sofia, e o Rapid de Viena. A propósito desta má sorte, Carlos Manuel afirmou que o problema para os jogadores eram as viagens. Ora como se sabe nenhuma das três dista a mais de umas quatro ou cinco horas de voo. Ou o Carlos Manuel tem com as coordenadas trocadas ou não recuperou às Provas de Recuperação à disciplina de Geografia, repetitiva, eu sei, mas nada a fazer. Andam estes viris rapazes a ser pagos a peso de ouro para se queixarem de uma viagenzita de avião ali mesmo na esquina da Europa. Meninas, é o que é.

 

Heróis com nome

Sérgio de Almeida Correia, 27.08.10

Não sei qual vai ser o desfecho da história. Quero que seja feliz. Vou fazer por isso.

É uma história que podia dar um romance. Um romance longo, recheado de muitas histórias. De histórias de vida. De histórias de luta e de conquista. Uma por cada um dos trinta e três.

Também não sei, e tenho dificuldade em imaginar, eu que nem gosto de andar de metro e fujo de me meter em grutas, o que será estar enfiado num cubículo a 700 metros de profundidade, tendo por luz a escuridão, por espaço a voz e o cheiro dos companheiros de infortúnio, o seu suor, a sua dor, e amiúde um pequeno tubo por onde sobe e desce a esperança entre minúsculas embalagens de medicamentos, de vitaminas, e  bocados de papel amarfanhado. Bocados de papel onde se vertem pequenas frases, pequenas palavras. Letras que trazem em si a magia, o sonho do reencontro.

Cada segundo que passa é uma conquista. Cada minuto vivido é um tiro no infortúnio. Cada hora respirada é uma morteirada na desgraça. E ao fim do dia que é sempre noite ainda se arranjam forças para sorrir para uma câmara, dizer uma larachas e cantar o hino. Eles, os desgraçados, o sal da terra, são a final os primeiros porta-vozes da esperança para quem à superfície, na dor da sua ausência, tem a sorte de ver todos os dias o raiar da aurora e se pode aquecer com os primeiros raios de sol.

Para quem, como eu, passa o dia sentado a uma secretária, sentindo o conforto do couro da cadeira em que se senta, e ainda se dá ao luxo de praguejar contra o ruído do ar condicionado, ou para aqueles que vão para a televisão e os jornais exigir que os milhões que saíram de um banco na Suíça voltem para uma conta onde estão mais uns quantos milhões, que servirão para lhe pagar as gravatas da Hermès, não devia ser fácil sair à rua enquanto aqueles homens ali estiverem.

Os dramas que acontecem longe são como um mau romance que termina quando se arruma o livro numa estante sem conhecer o final do primeiro capítulo. Para sempre. Até que as traças o devorem.      

Mineiro não é apenas sinónimo de nome "di jogador di futibol". Ou de natural de Minas Gerais. Também é profissão de alguns homens. Campo de batalha. E, às vezes, uma palavra de estímulo. De conforto. Um grito contra a amargura. Amanhã uma promessa de casamento cumprido. Uma aposta na vida.

Estes homens são a exaltação da condição humana. A prova de que vale a pena.

Não sei qual vai ser o desfecho da história. Quero que seja feliz.  E que Deus, ou lá quem for, qualquer que seja o nome, os proteja. Eles merecem.

Os meus heróis têm sempre nome. E um rosto. Quero que sejam felizes.