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O Mário

por Bandeira, em 03.08.10


Cravo & Ferradura, DN, 3.8.2010

Navigare necesse est (2)

por Ana Vidal, em 03.08.10

«Não escolhemos os lugares predilectos, somos solicitados por eles. No registo elementar dos filósofos pré-socráticos, cada qual pode descobrir em si uma paixão pela água, pela terra ou pelo ar - o fogo circulando no próprio corpo do viajante. (...) Na viagem, apenas se descobre aquilo que trazemos connosco.»

 

Receita para umas curtas (mas bem aproveitadas) férias em Itália

 

(o itinerário desta viagem: de Nápoles a Paestum, debruando a costa. E depois Pertosa, para uma incursão ao interior de que não irá arrepender-se)

 

1. Ingredientes:

 

- 8 dias (bem contados) de bom tempo

- 1 boa companhia (essencial que esteja "na mesma onda"; pode acrescentar mais pessoas, evidentemente, mas esta receita é para dois)

- 1 avião

- 1,5 comboios

- 1 moto

- barcos a gosto

- 250 km (mal medidos) de uma deslumbrante linha de costa para explorar

- 1 ou 2 extras (não programados) para avivar o sabor e dar um toque de novidade à receita

 

2. Execução:

 

Antes de mais, uma recomendação essencial: leve pouca bagagem (uma regra básica que a experiência de viajante acaba por ensinar-nos, para nosso próprio bem) e sobretudo roupas leves, de algodão ou de linho. Jeans, calções, t-shirts, fato-de-banho, sapatos confortáveis e um chapéu, será tudo aquilo de que vai precisar para estes dias. Enfim, abre-se sempre uma excepção para um modelito mais sofisticado para um jantar especial, já que cenários e oportunidades não faltarão. Ah, um blusão quente é obrigatório se optar pela minha sugestão de transporte, como verá mais à frente. Acrescente à mala um protector solar de grau elevado e - imprescindível! - um bom guia de viagem. O meu preferido é sempre o Lonely Planet, mas o American Express também é muito bom. Delicie-se, com um deles, a preparar a viagem. Uma boa parte do prazer de viajar está na antecipação.

 

Apanhe um avião que o(a) ponha em Roma bem cedinho. Resista, com todas as forças, à tentação de correr para a Piazza Navona, só para matar saudades. Não é Roma o seu destino, desta vez. Se não conseguir, paciência: renda-se e tome lá um Chianti bem gelado ou a primeira das muitas granite de limone (perfeita evocação das "carapinhadas" da saudosa Ferrari, que o fogo do Chiado varreu para sempre) que irão refrescar-lhe os dias de calor, brindando à memória de David Mourão-Ferreira (ritual meu, desculpem a confidência: nunca vou à Piazza Navona sem erguer um copo ao homem que um dia, tinha eu 17 anos, me elogiou um poema. Muitos anos mais tarde, foi também lá que tive uma óptima surpresa do mesmo género). Segue-se o primeiro comboio: o rápido Roma-Nápoles, que demora cerca de 1 hora. Claro que há voos directos Lisboa-Nápoles para quem quer chegar depressa ao destino, mas eu tenho um fraquinho por comboios e nunca tenho pressa em viagem. Deixe Nápoles para depois, terá tempo mais tarde para dedicar-lhe uma visita. Na própria estação Garibaldi poderá apanhar a Circumvesuviana (uma espécie de metro de superfície que percorre toda a linha de mar entre Nápoles e Sorrento) e comece logo a deslumbrar-se com a paisagem. O fim da linha - Sorrento - é a cidade onde sugiro que faça quartel-general. É uma cidade linda, central (fica sensivelmente a meio do percurso que lhe proponho para estas férias, pelo que dá um óptimo ponto de partida para todas as suas visitas) e cheia de animação. Há hoteis para todos os gostos e bolsas: meia-dúzia de cinco estrelas sumptuosos, adaptados de palazzos e villas nobres; alguns de conceito "boutique" com a marca inconfundível do design italiano; muitos outros mais rústicos, mais simples e sobretudo mais baratos; e ainda mil apartamentos e quartos de aluguer, numa cadência de porta-sim-porta-não. A probabilidade de ter uma boa vista, qualquer que seja a sua escolha, é bastante alta. Se for um milionário dado a luxos asiáticos, sugiro-lhe o Grand Albergo Excelsior Victoria, um pequeno império imobiliário composto de seis villas (foi agregando todas as casas em redor da primitiva, em cima da falésia) e rodeado de jardins belíssimos que vão da Piazza Tasso, no centro da cidade, até ao mar. Se não for este o seu caso mas puder dar-se o luxo de uma extravagância de vez em quando, escolha sem hesitações o delicioso La Minervetta, nem que seja por uma só noite: o prazer de adormecer e acordar com a vista de qualquer um dos seus doze quartos - todos diferentes na decoração - não tem preço. Mas atenção, só uma reserva com grande antecedência ou uma sorte inesperada lhe garantem a chave para este paraíso.

 

Enfim, seja lá onde for, instale-se e livre-se das malas.

 

 

Corra a alugar uma Vespa por 8 dias e dilua-se sem medos no alegre e turbulento enxame que invade todas as cidades, estradas e praias. Não há melhor transporte para se passear em Itália, acredite: é barato, prático e divertido, além de dar-lhe uma mobilidade e uma liberdade ímpares. Se acha a experiência radical de mais, alugue um carro (não maior do que um Smart, de preferência, por questões de estacionamento) ou use os transportes públicos. Ficará limitado aos horários, obviamente, mas a oferta é grande e funcionam bem. Depois... bem, depois entregue-se ao prazer de explorar cada centímetro de uma costa de beleza indescritível, cada cidade ou aldeia, cada esquina, cada recanto menos conhecido. Mesmo nas terrinhas que não constam dos roteiros turísticos há sempre uma casa bonita, um ângulo diferente da costa, uma esplanada ou um restaurantezinho onde vale a pena parar.  Tenho por princípio meter o nariz em todos os recantos e já tive excelentes surpresas por causa disso. Tenha sempre vestido um fato-de-banho, para o que der e vier. O Mediterrâneo convidá-lo-á constantemente a um mergulho, usando descaradamente os dois únicos trunfos que tem sobre o Atlântico: a cor e a temperatura. Compre uns sapatos de plástico para entrar no mar - esqueça as nossas belas praias de areia fina e branca - ou terá a sensação de que os seus pés, enterrados em seixos impiedosos, foram metidos numa trituradora. Mais um aviso: praticamente todas as praias são concessionadas (pertencem a hotéis ou restaurantes, numa espécie de tetris que até o mar divide, com bóias coloridas) e por isso são pagas. Raramente encontrará uma língua livre de "portagem", mas mesmo assim vale a pena procurá-las ou ceder à imposição de uma espreguiçadeira e um chapéu de sol.

 

Mas nem pense em entregar-se todo o dia ao famoso dolce fare niente: duas horas por dia, no máximo, que há muitos quilómetros para fazer.

 

(cont.)

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Foi um privilégio trabalhar com ele

por Pedro Correia, em 03.08.10

 

Lembrei aqui há dias, a propósito da morte de José Saramago, um gesto de Mário Bettencourt Resendes enquanto foi director do Diário de Notícias: convidou o Nobel português a regressar à redacção do jornal onde trabalhara em 1975, pondo fim simbólico a um longo desencontro entre o escritor e o jornal por motivos que são do conhecimento público. Fez isto à esquerda, com Saramago. Fez o mesmo à direita, com João Coito. Os grandes jornais devem funcionar como instituições, assumindo o seu passado - feito de luzes e sombras - e cada momento da sua história. O Mário estava certo ao pensar assim. Mas os gestos a que me refiro são também particularmente significativos por revelarem uma faceta essencial deste homem bom que na madrugada de ontem morreu após um tenaz combate contra a doença que o atingiu demasiado cedo: ele sabia ser um traço de união entre pessoas das mais diversas tendências e sensibilidades. E fazia isso com gosto, calor humano e uma certa grandeza natural que se coadunava em absoluto com a sua personalidade.

Trabalhei diariamente com ele no DN durante sete anos, entre 1997 e 2004, e guardo do Mário a melhor das recordações como director. Mantinha a porta do gabinete aberta, em comunicação permanente com a redacção, e nunca regateava uma palavra de incentivo e estímulo a todos no jornal, particularmente aos jornalistas mais jovens. Gabava-se - e com razão - de ter um raro instinto para descobrir talentos e percebia como poucos a importância da motivação nas empresas jornalísticas modernas embora jamais se esquecesse de recomendar aos recém-chegados que não basta a competência técnica: é igualmente necessária a qualidade humana.

Sentia natural orgulho por ter conduzido o DN a líder do mercado, no seu segmento de audiência, depois de anos de duro despique com o Público, o concorrente mais directo. Isso, porém, nunca o fez perder de vista o essencial: no cerne da actividade jornalística existe uma insubstituível missão social que não deve ser confundida com guerras de audiências destinadas a angariar uns quantos anúncios a qualquer preço ou a atrair uns tantos leitores através da manchete que berra em vez da manchete que informa e esclarece.

Há pouco, ao regressar do velório na igreja de São João de Deus, enquanto percorria a pé a avenida de Roma, ia pensando como o Mário sabia coleccionar amizades enquanto outros, nesta profissão por vezes tão ingrata, vão coleccionando inúteis rancores e incompreensíveis agravos. Pela vida fora encontramos dois géneros muito diferentes de pessoas: aquelas que gostam de se rodear de muros e as que preferem construir pontes em direcção aos outros. A natureza vital do Mário levava-o a construir essas pontes - nas mais diversas direcções e nas mais diversas circunstâncias. Casos como o dele vão sendo cada vez mais raros neste pequeno mundo cheio de desencontros que é o da "comunicação". Onde hoje afinal se comunica tão pouco e de forma tão deficiente. Onde a tendência imediata é ver adversários onde apenas deveria haver interlocutores.

Trabalhar com o Mário Bettencourt Resendes foi um privilégio. Não só pelas lições profissionais que dele recebemos mas também pelas lições de vida que soube transmitir-nos naqueles anos tão estimulantes para o jornalismo português. Há poucos meses, com a convicção que sempre punha nas grandes causas relacionadas com a profissão, deixou bem claro em entrevista ao i: "Quando um jornalista é confrontado com uma situação em que seja óbvio que o interesse público manda violar a lei, o jornalista deve fazê-lo."

Vai fazer-nos falta. Mas o exemplo dele fica.

 

LER:

Sobre o Mário. Do Pedro Rolo Duarte.

Uma pessoa de categoria. Do Duarte Calvão.

Mário. Do Luís Naves.

O Mário deixou-nos. Do João Severino.

Mário Bettencourt. Do Francisco José Viegas.

Mário Bettencourt Resendes. De José Pimentel Teixeira.

Mário Bettencourt Resendes - um longo abraço. De José Medeiros Ferreira.

 

Foto: Alexandre Almeida (jornal i)

As canções do século (215)

por Pedro Correia, em 03.08.10

Ligação directa

por Pedro Correia, em 03.08.10

Ao Entre Textos (do Brasil).

Os filmes da minha vida (9)

por Pedro Correia, em 02.08.10

 

AS VINHAS DA IRA:

SOMOS PARCELAS DE UMA ALMA MAIS VASTA

 

O realismo social costuma funcionar com personagens-tipo - figuras modelares num determinado contexto histórico e político mas em regra destituídas de espessura psicológica. O que John Ford consegue nesta sua mangífica adaptação a cinema do romance mais célebre de John Steinbeck é inverter esse estereótipo: As Vinhas da Ira oferece-nos uma galeria riquíssima de personagens, bem demonstrativas de um período dramático da história dos Estados Unidos, sem deixar de ser, simultaneamente, um poderoso libelo contra a injustiça social.

É um filme povoado de grandes planos de rostos quase espectrais, enquadrados na fabulosa fotografia de Gregg Toland. "Não passo de um fantasma", diz-nos logo no início Murley Graves, um desses pequenos agricultores rendeiros do Oklahoma forçados a abandonar as terras devido à inclemência da natureza e sobretudo à impiedosa ganância dos grandes empresários agrícolas e das poderosas instituições bancárias que ditavam as regras nessa América mergulhada nos anos da Depressão.

As Vinhas da Ira começa com a emblemática imagem de um homem solitário a caminhar ao longo de uma recta interminável. É Tom Joad, a figura central do filme - o papel da vida de Henry Fonda. Sem terra nem lar, a família Joad, arrancada às raízes, busca uma nova vida na Califórnia, atravessando os estados do Oklahoma, Novo México e Arizona. O avô morre pelo caminho, a avó também. O cunhado de Tom abandona a mulher grávida. E o sonho de uma vida próspera na Califórnia revela-se afinal um pesadelo: ali acorrem todos os deserdados do país. 

 

Ford povoa o filme de momentos memoráveis. A mãe de Tom, sozinha no quarto antes da viagem, a desfazer-se de algumas recordações de toda a vida. O pai a implorar um pão num ocioso café à beira da estrada. A chegada ao acampamento californiano, cheio de crianças com fome. O ex-pregador Casy a explicar a Tom por que motivo mudou de vida: "Um pregador precisa de ter certezas. Eu não as tenho. Interrogo-me."

Mas a mais inesquecível das cenas é a da despedida de Tom, procurado pela polícia, prestes a ter sair de casa para sempre, regressando à vida errante que verdadeiramente nunca abandonou. Prepara a mochila no silêncio da noite, beija o pai adormecido. Ouve-se ao longe o silvo de um comboio - símbolo da partida iminente. Mas afinal a mãe está acordada: "Não te despedes?" Segue-se um breve diálogo, a meia-voz, feito tanto de palavras como de olhares. Sem artifícios, sem melodrama.

"Não temos um alma só nossa. Cada um de nós é apenas uma parcela de uma alma mais vasta, que é de todos", diz Tom. Anunciando à mãe o seu projecto de vida: "Onde houver uma luta para os famintos poderem comer, estarei lá. Onde houver um polícia a agredir alguém, estarei lá." Olha de baixo para cima enquanto fala. Como se estivesse, inconscientemente, a pedir protecção divina para ajudar os seus semelhantes a escapar ao inferno na terra.

I'll be there. Filmada por John Ford, a saga de Tom Joad ganha asas, transcende o contexto histórico em que se situa, adquire um simbolismo universal que supera qualquer rótulo. Somos parcelas de uma alma mais vasta.

...............................................................

As Vinhas da Ira (The Grapes of Wrath, 1940). Realizador: John Ford. Principais intérpretes: Henry Fonda, Jane Darwell, John Carradine, Russell Simpson, Charley Grapewin, John Qualen

O governo dos Mendonças

por João Carvalho, em 02.08.10

Estou absolutamente certo de que a ministra da Educação teve reacções variadas de cada vez que o ministro Mendonça (o Jamé II, sabem?) aparecia a fazer novo anúncio sobre o TGV, novo anúncio sobre a nova ponte, novo anúncio sobre as autoestradas, novo anúncio sobre o aeroporto, etc., etc., certeza a minha que se baseia no comportamento das pessoas que reagem dentro dos padrões da normalidade. Quem diz o ministro Mendonça, diz outros ministros seguidores do ministro Mendonça com outros tantos anúncios: fim das SCUT sem ser bem o fim das SCUT, portagens descontroladas, chips que não são bem chips, cobranças sem cobradores, pagamentos sem recebedores, datas de entrada em vigor à toa, medidas de austeridade que aumentam a despesa, genéricos obrigatórios sem obrigações, receitas médicas alteradas que ficam na mesma, impostos que sobem sem subir e por aí fora.

A ministra da Educação, como todos nós, deve ter sucessivamente sorrido com condescendência, rido até às lágrimas, corado de vergonha e chorado de desespero — e eu alimentei a secreta esperança de que, perante o continuado espectáculo da política em zigue-zague, a ministra nunca se prestaria a passar pelo mesmo que o ministro Mendonça e seus seguidores. Por exemplo: as escolas que são para fechar, são para fechar e pronto. Contra tudo e contra todos, mas fecham-se e não se fala mais nisso. Decidido um zigue, a ministra não viria com um zague — era assim que eu pensava.

Enganei-me: anunciado o fim dos chumbos dos alunos, afinal vai-se ver e não é bem dos alunos, também não é bem dos chumbos e nem sequer é bem o fim. Até porque ainda é só o princípio. Portanto — reconheço agora — enganei-me. Não por ter avaliado mal a ministra. Não. Apenas me faltava um dado importante: estamos perante o governo dos Mendonças. Está explicado.

S. Vicente (1)

por Sérgio de Almeida Correia, em 02.08.10

Há coisas que não deviam acontecer. Uma delas é ter um voo marcado para as 10:00, vê-lo reagendado para as 06:45, e no fim sair às 10:10 sem que um tipo chegue a perceber por que razão o fizeram saltar da cama às 03:30. Tirando esse pormenor, enquanto se espera vai-se imaginando como será o mar na baía de S. Pedro. Apreciam-se os rostos que nos começam a cercar e as expressões e os sorrisos a que não estamos habituados. Logo na Portela percebi que esta deslocação seria bem mais do que um breve período de descanso. O enorme pássaro elevou-se, rumou a sul e a leitura do Público também ficou para trás. Não é preciso sair de Portugal para se viajar na língua, mas sem se sair do rectângulo nunca se perceberá a dimensão da lusofonia.

Convidado: FERNANDO MOREIRA DE SÁ

por Pedro Correia, em 02.08.10

  

Um Porto, o meu

 

Fui jantar a um conhecido restaurante do Porto. Ao estacionar no respectivo parque de estacionamento deparo com um casal de velhotes. Estavam a um canto, um lugar estranho onde a pobreza grita. No meio deles alguns cobertores, várias tábuas e inúmeros pedaços de cartão castanho. Estavam a acender uma fogueira.

A imagem que me ficou na retina é cruel. Um parque de estacionamento de um restaurante e com acesso às garagens de um prédio da Santa Casa da Misericórdia do Porto, entre lojas que já tiveram melhores dias e em frente um conhecido concessionário da Audi. Numa zona onde coabitam, lado a lado, uma certa classe média/alta da cidade com as prostitutas da rua da Alegria. Todo um tratado deste meu actual Porto.

No mesmo dia em que tirei o final de tarde para rumar a uma esplanada na Ribeira e olhar para esse naco de imensa beleza onde o Douro se comprime entre Gaia e Porto e os bisnetos dos putos do Aniki-Bobó continuam a desafiar a morte entre as correntes do rio e o tabuleiro inferior da ponte D. Luís para gáudio dos turistas e aperto no coração deste pai de uma criança da idade deles.

Uma Ribeira que deixou de ser negra com o colorido dos holandeses, franceses, espanhóis e ingleses que tudo fotografam e se deixam enganar pelas velhas manhosas que lhes vendem colchas, tapetes e lenços comprados nos chineses ou no Continente. As mesmas que estão com um olho no produto e outro nos netos que descalços serpenteiam entre turistas seminus e molhados nesta improvisada praia fluvial sem guarda nem rei nem roque.

No outro lado vejo os pilares do futuro teleférico e um novo hotel que nasce num espantoso lugar. Do lado de cá reparo nas casas que, lentamente, começam a renascer das cinzas e penso como o Porto turístico, graças a uma conhecida low cost, está a ficar vibrante e cosmopolita. Quem diria. 

 

 

Mas que Porto é este onde até na milionária Foz se acotovelam as placas de imobiliárias a anunciar a venda de tudo: apartamentos, moradias, lojas e escritórios? Um ar de debandada geral. Para onde fogem os portuenses? Não sei. De que fogem? Isso sei ou adivinho.

Fogem do risco de um destino igual ao daquele casal de velhos no “Lima 5” a quem tudo falta: um tecto, um fogão, um aconchego, uma vida. Sim, meus caros, este país não é para velhos e esta afirmação não é mera citação cinematográfica, é o constatar de uma realidade sentida e vivida neste meu Porto, a cidade das grandes famílias fechadas e unidas onde qualquer forasteiro, fosse membro da realeza ou pobre pedinte, tinha de pedir permissão para entrar.

Hoje é o portuense que foge, sem pedir permissão, para rumar a outras paragens pois já poucas famílias restam. Apenas as velhas da Ribeira com a resma de netos no regaço resistem como se fossem o último dos Moicanos.

 

Nota: É uma honra receber tão ilustre convite. O Delito de Opinião é leitura diária obrigatória e é um privilégio ter um post meu neste vosso blogue. Hesitei no tema a partilhar convosco mas o meu amor pela minha cidade, pelo meu Porto que vai de Gaia a Leixões e daqui até às actuais terras do Lidador, era obrigatório. Um grande amor partilha-se com aqueles de quem mais se gosta. É o caso. Obrigado.

 

Fernando Moreira de Sá

Mário Bettencourt Resendes

por João Carvalho, em 02.08.10

(Foto: Açoriano Oriental

1952–2010

Navigare necesse est (1)

por Ana Vidal, em 02.08.10

 

«No começo, muito antes de qualquer gesto, qualquer iniciativa ou vontade deliberada de viajar, o corpo trabalha, à semelhança dos metais sob a canícula do Sol. (...) Toda a genealogia se perde nas águas mornas de um líquido amniótico, esse banho estelar primitivo em que cintilam as estrelas com as quais, mais tarde, se fazem os mapas do céu. O desejo de viagem tem a sua fonte nessa água lustral e morna, alimenta-se estranhamente desse manto metafísico e dessa ontologia germinativa.


Mais tarde, muito mais tarde, cada qual se descobre nómada ou sedentário, amador de fluxo, de transportes, de deslocações, ou apaixonado pelo estatismo, imobilidade e raízes. (...) Os primeiros gostam da estrada, longa e interminável, sinuosa e ziguezagueante, os segundos adoram o solo, sombrio e profundo, húmido e misterioso. Estes dois princípios existem não tanto em estado puro, sob a forma de arquétipos, mas em componentes indiscerníveis no pormenor de cada individualidade.»

 

É assim que começa o belíssimo livro de Michel Onfray, a minha leitura de viagem nestas curtas férias em Itália. Chama-se "Teoria da Viagem - Uma poética da geografia" (Quetzal, textos breves) esta pequena pérola que descobri na Feira do Livro de Lisboa, a melhor compra que lá fiz este ano e que recomendo a todos os viajantes inveterados. Cada linha de cada parágrafo de cada página me diz, de uma forma claríssima, o como e o porquê daquilo que eu sempre soube no meu íntimo: pertenço, sem qualquer dúvida, à tribo dos nómadas. Não saberia explicar-vos porque me sossega tanto a confirmação de um desassossego assumido e irremediável. Mas é exactamente isso que acontece, ao reconhecer-me neste livro como se ele fosse um espelho. Não resisto a incluir pequenas citações dele nas crónicas que se seguirem. Se é verdade que o mundo vai resistindo sempre às nossas tentativas de traduzi-lo em palavras, não o é menos que toda a viagem é uma possível aproximação da compreensão desse mundo. Tentar, tentar sempre, é o que nos cabe.

 

(Imagem: Chema Madoz)

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Os nossos convidados

por Pedro Correia, em 02.08.10

A passadeira vermelha estende-se hoje para receber o Fernando Moreira de Sá. Dos blogues Albergue Espanhol e Aventar.

O comentário da semana

por João Carvalho, em 02.08.10

 

«Justa lembrança deste mendigo da vida, para quem todos os segundos, minutos, horas, dias, meses eram ouro, até tudo findar.

Como ele próprio dizia, devemos aproveitar todos os tempos da vida, como se fosse o fim.

Que ele possa continuar por onde vai passar, na mesma alegria e com o mesmo riso...

Sorte daqueles que a partir de agora vão partilhar essa vida num outro estado de "existência".»

 

Do nossa leitora CR. A propósito deste texto da Leonor Barros.

As canções do século (214)

por Pedro Correia, em 02.08.10

Tiro-e-queda

por João Carvalho, em 01.08.10

Depois do que escrevi aqui (às primeiras horas do dia) sobre as permanentes mudanças de posição do Governo e sobre a expectativa de ver hoje a ministra da Educação desdizer-se em relação ao fim dos chumbos que ontem anunciou, confesso que fiquei com dúvidas. Estamos em férias, é fim-de-semana, o Verão está quente, as pessoas estão cansadas, portanto... pareceu-me que teria de esperar por amanhã para assistir ao desmentido. Afinal, tive razão no que escrevi e não tive razão na dúvida que me assaltou mais tarde: a ministra já correu a corrigir imediatamente o que ainda ontem quis que o País soubesse.

Com este Executivo é tiro-e-queda: disse ontem, desmente hoje. Não há que termos dúvidas. Só me parece enfadonho que o Governo seja tão repetitivo, tão previsível. Não nos oferece uma pontinha de surpresa, um restinho de emoção. É maçador, mas voltou a cumprir-se.

Domingo na cidade

por Pedro Correia, em 01.08.10

Lisboa despovoada de gente. Quero dizer: daqueles que contam para as estatísticas oficiais, que são contribuintes líquidos dos cofres do Estado, que assumem a sua quota-parte no produto interno bruto, que são cidadãos eleitores devidamente recenseados. Estes desaparecem aos domingos, afogados na imensidão dos subúrbios. Sobram, despejadas ao acaso pelas artérias da capital, as figuras espectrais da cidade. Os marginais, os velhos, os solitários sem remissão. E os brasileiros, muitos brasileiros. Passo por eles, costumam andar em bandos, lá vêm na sua algaraviada. Quase sempre de ar mais alegre do que os portugueses. Mas são gente humilde: não ganham mais do que o salário mínimo. Servem à mesa em cafés ou restaurantes, fazem limpezas domésticas, transportam pizzas aos domicílios da classe média.
De manhã muito cedo já despontam em ruas e avenidas. Se não fossem eles, e uns quantos turistas que por aí andam, a cidade parecia ainda mais inóspita em cada domingo que passa.

Heróis da BD (66)

por Pedro Correia, em 01.08.10

 

 

 

 

Rato Mickey, de Walt Disney

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Já toda a gente sabe

por João Carvalho, em 01.08.10

«Não passa um dia sem que o Governo mude de posição sobre qualquer coisa.» Não é uma conclusão brilhante do Daniel Oliveira, porque já toda a gente sabe isso, mas veio dar novo alento a este país que ainda ontem apanhou mais um murro no estômago. É que a única posição relevante do Governo anunciada ontem foi a da ministra da Educação sobre o fim das reprovações. Portanto, aguarda-se com grande expectativa a mudança de posição que há-de surgir hoje.

Aproveito para deixar uma sugestão ao Governo. Como se sabe, a mudança de posição diária tem tendência para desacreditar quem governa. De cada vez que um ministro anuncia qualquer coisa, no dia seguinte é invariavelmente dado o dito por não-dito. Ora, isso é escusado. Basta que os ministros deixem de falar e que seja sempre e só o primeiro-ministro a anunciar tudo. Se for apenas ele, não será preciso voltar atrás, pois já toda a gente sabe que não é para levar a sério.

As canções do século (213)

por Pedro Correia, em 01.08.10

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