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Delito de Opinião

Um miúdo, um cavalo, um cão

Pedro Correia, 31.07.10

 

 

Da minha infância guardo calorosas recordações de uns livrinhos escritos por uma autora com um belo nome que jamais esqueci: Cécile Aubry. Esses livros narravam as aventuras de Poly, um pónei, e do seu dono, um miúdo que teria a minha idade à época. As aventuras de Poly, a par dos álbuns de banda desenhada, ajudaram-me ainda em criança a ler e amar a língua francesa - o que viria a ser reforçado com a adaptação dessas histórias a uma série televisiva que me prendia a atenção dado o meu gosto de sempre por animais. O próprio filho da autora interpretava esta e uma outra série - Belle e Sébastien, em que o pequeno cavalo dava lugar a um grande cão.

Nunca mais ouvi falar em Cécile Aubry. Até esta semana, quando soube da notícia da sua morte. Antes de se dedicar à literatura infantil, como autora de grande sucesso, tinha-se destacado como actriz em filmes como Manon, de Henri-Georges Clouzot, hoje um clássico do cinema francês, e A Rosa Negra, ao lado de Tyrone Power e Orson Welles. O rosto correspondia ao nome: era uma mulher muito atraente - como se comprova pelas capas da Life e da Paris Match aqui reproduzidas - que, no entanto, não se deixou enredar nas malhas do show business.

Escrevo estas linhas e sinto que estou a discorrer sobre tempos pré-históricos: Cécile Aubry é um nome oriundo de um mundo que deixou de ser o nosso. Um mundo muito mais simples, em que uma tarde de Verão podia ser preenchida a ler exemplares da revista Tintim, romances como O Príncipe e o Pobre, de Mark Twain, ou as narrativas desta mulher que abandonou o cinema para encantar a minha geração com histórias de miúdos e dos respectivos animais de companhia.

Histórias de um mundo ainda sem computadores que deixaram um rasto de ternura imune à erosão do tempo e à voracidade de todas as modas.

 

 

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