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Belles toujours

por Pedro Correia, em 30.10.09

 

Emanuelle Béart

Ligação directa

por Pedro Correia, em 30.10.09

Ao Womenage à Trois.

Passado presente (CLXXIV)

por João Carvalho, em 29.10.09

 

Carta de Gelados Olá (1980) – tentem ver alguns preços em escudos

(com a colaboração da nossa comentadora MACarvalho)

De Portugal inteiro (49)

por Pedro Correia, em 29.10.09

Louletania (de Loulé)

A onda gigante

por Paulo Gorjão, em 29.10.09

A propósito da onda que se espera esta semana, lembrei-me de uma outra onda que gerou o pânico no Algarve no Verão de 1999. Curiosamente, Marcelo Rebelo de Sousa demitira-se da liderança do PSD nesse ano em Março. A onda de 1999 tem um traço em comum com a de 2009: a sua natureza. Ambas não passam de miragens...

Um pouco mais a sério. Alexandre Relvas, José Luís Arnaut, Nuno Morais Sarmento e Paulo Rangel são grandes amigos de Pedro Passos Coelho. Disfarçam bem, mas são de certeza absoluta. Só assim se explica que todos eles -- todos -- participem activamente neste número. Quando Marcelo Rebelo de Sousa os deixar de mão a abanar, todos eles serão responsáveis por, objectivamente, ter tornado o candidato que emergir no seu campo numa segunda escolha.

 

P.S. -- Duas notas finais. Primeiro: vejo que, aparemente, José Pedro Aguiar-Branco se colocou à margem deste filme. Segundo: Rangel deixa o caminho aberto a Marcelo. Adoro este título. Como se Marcelo necessitasse que lhe abrissem o caminho...

 

Adenda

Curioso que Sarmento apareça também ele neste número. Ele que queria tanto discutir ideias e não pessoas. Enfim, também sabe contar espingardas...

Passado presente (CLXXIII)

por Pedro Correia, em 29.10.09

  

 

Laranjada Schweppes

Breve evocação

por Sérgio de Almeida Correia, em 29.10.09

"Whatever you do will be insignificant, but it is very important that you do it" - M. Gandhi

 

Ontem, no mesmo dia em que era divulgado um relatório sobre a banalização da violência entre os jovens, do qual a edição de hoje do Público faz eco, vi a minha tarde abruptamente cortada pela notícia, esmagadora, avassaladora, da morte às mãos de um pretenso esquizofrénico de uma pessoa amiga e do seu irmão. Mais do que a morte em si, que a todos um dia nos alcança sem aviso prévio, foi a brutalidade do acto, a sua frieza, que me deixou desconcertado. Que pode levar um homem a degolar um seu semelhante, a desferir repetidos golpes de arma branca contra quem não tinha outro meio de defesa do que as próprias mãos, e depois seguir calmamente o seu caminho deixando as vítimas a esvaírem-se em sangue? Conheci o Pedro há quase três décadas, namorava ele com a mulher com quem veio a casar e que lhe deu dois filhos. Depois, com o correr dos anos, fomos perdendo contacto e, ultimamente, tirando uma das últimas vezes em que ele estivera pelo Algarve, raramente nos encontrávamos. Ia sabendo dele por amigos comuns e alguns familiares que amiúde com ele se cruzavam. Quando ontem soube o que tinha acontecido, senti desabar sobre os mais indefesos toda a injustiça do mundo. Dir-me-ão que se tratou de um acto isolado, de um gesto tresloucado. Mas eu não acredito que haja loucura que justifique a violência. As mãos que lhe permitiam cuidar das flores com o mesmo desvelo e a prazenteira amabilidade com que falava a todos os que encontrava nada puderam fazer perante tamanha violência. Sei que de nada servirá, que não haverá conforto que possa valer a quem perdeu os seus em circunstâncias tão inauditas, mas lá, onde estiverem, o Pedro e o irmão podem ter a certeza de que por aqui continuará a haver quem faça da luta contra a violência uma bandeira. Para que ainda que por breves instantes continue a valer a pena tomar um café com um amigo ou fazer uma onda no Guincho. Para que as estrelícias, as margaridas, as gerbérias, as rosas, em suma, para que todas as flores de que eles tanto cuidaram nos últimos anos possam continuar a nascer, a florir e a morrer. Em Cascais ou em qualquer outro lugar. Livres e ternas.

PSD: como perder ganhando

por Pedro Correia, em 29.10.09

Muitas vezes o caminho mais rápido para a derrota é a vitória. Tenho pensado nisto a propósito da vitória eleitoral do PSD em Junho, nas europeias. Foi uma vitória que fez mal ao partido. Apesar de ter sido pouco expressiva, criou um ambiente de euforia na direcção social-democrata e entre os seus apoiantes mais acérrimos que lhes fez perder todo o discernimento. Pensaram que a partir daí eram favas contadas: bastava o inegável descontentamento existente no País contra o Governo socialista para que isso se traduzisse automaticamente em votos no PSD em Setembro. Os blogues que apoiavam Manuela Ferreira Leite foram a melhor confirmação deste prematuro estado de euforia, nada condizente com a realidade: já se profetizava, com inabalável convicção, o novo poder laranja. Alguns lançaram até anátemas internos contra aqueles que, nas hostes sociais-democratas, não seguiam a ‘linha justa' e teimavam em criticar a líder pela desastrada escolha dos temas prioritários da campanha e pelos erros cometidos na formação das listas eleitorais.

Quem tinha razão eram os críticos, sabe-se agora. Aqueles que não se iludiram com o bom resultado do PSD em Junho e alertaram em devido tempo contra os excessos de euforia e a necessidade de unir primeiro o partido para depois conquistar o País. A ‘linha dura’ de Ferreira Leite fez orelhas moucas a tais conselhos, escutando apenas as vozes acríticas dos incondicionais. Os resultados estão hoje à vista. 

Crianças quê?

por João Carvalho, em 29.10.09

Espero não estragar a bem apanhada série do Pedro Correia sobre expressões intragáveis, mas não resisto a dar conta de uma que mexe comigo e que se ouve cada vez mais: «crianças institucionalizadas». Deve ser outro tique que entrou no 'linguajar da moda' – e, como se sabe, há palavras e expressões que, ditas hoje em dia por meia dúzia de cabecinhas com direito a tempo de antena, passam a ser ditas pela carneirada toda.

Chamar «crianças institucionalizadas» às crianças que a vida largou ao abrigo do Estado e de instituições de protecção de menores é mais do que consagrar uma chancela estúpida: é recorrer a uma definição execrável e espalhar um estigma de muito mau gosto. Ainda pior quando é usada tantas vezes por mulheres, até por mulheres que são mães e que também são responsáveis por instituições dessas. Será que estas também são "mulheres institucionalizadas"? E os velhos que acabam colocados em lares e instituições do género também são "idosos institucionalizados"? E os pobres que se lavam, se vestem, comem e dormem em instituições de apoio à pobreza chamam-se "carentes institucionalizados"?

Passo-me com esta gente, que devia ser afastada e reenviada para o anonimato. Não o dizem por mal? Então parem um momento e habituem-se a pensar, antes de abrir a boca para debitar o mesmo que ouviram aos outros geniozinhos bacocos.

Novas Oportunidades

por Pedro Correia, em 29.10.09

 

Há seis meses, já em campanha contra Isaltino Morais em Oeiras, Marcos Perestrello acusava-o de saltar de poleiro político com excessiva facilidade. "Foi presidente de câmara, depois decidiu-se pelo Governo e voltou à câmara", sublinhava com razão o jovem socialista, revelando a ambição de vir a liderar o concelho. Azar: Isaltino derrotou-o a 11 de Outubro. Os eleitores socialistas de Oeiras esperariam que o cabeça de lista do partido, apesar de derrotado, assumisse o mandato autárquico para que foi eleito, tornando-se vereador. Era natural que esperassem isso dele: a 12 de Outubro - há 17 dias apenas - o próprio Perestrello garantia "assumir-se" desde logo como vereador da oposição, prometendo que não iria "perder de vista os interesses de Oeiras". A promessa, apesar de tão categórica, durou menos de três semanas: ei-lo com o pomposo título de secretário de Estado da Defesa Nacional e dos Assuntos do Mar, como braço direito de Augusto Santos Silva, pronto a fazer agora aquilo que há seis meses criticava em Isaltino. Adeus câmara, olá Governo. Este é o lado doce das derrotas eleitorais nas hostes socialistas: há sempre uma gamela de reserva para atenuar as mágoas políticas, seja na longínqua Bruxelas seja na Avenida Ilha da Madeira, em Lisboa, com uma bonita vista para o Tejo. Talvez seja a isto que chamam Novas Oportunidades. Contra os canhões, marchar marchar. E Oeiras que fique entregue a Isaltino.

Ligação directa

por Pedro Correia, em 29.10.09

Às Boas Intenções (da Alemanha)

Contemporaneidades

por Leonor Barros, em 28.10.09
A velha. A velha deu mais um solavanco. Nem por isso se importou, a vida tinha sido cheia de solavancos, mais um, menos um, que lhe importava agora. Façam o favor de agora me carregarem, que também os carreguei muitas vezes e por isso fiquei alfabeta que nem sei ler uma letra do tamanho dum camião e com um filho suficiente, dizem, que eu cá para mim o que ele é, é burro, burro que nem uma porta, o sacana. Descansaram por um momento, esbaforidos e sem fôlego, para mais uma tentativa Quando eu disser três, levantam. Um, dois, TRÊS. Soltaram-se gemidos, urros e rugidos e mais uma tentativa Um, dois, TRÊS. A velha balançou, resignada, com um sorriso apatetado Andem, vá, seus camelos. Lixaram-me o dinheiro todo, pensavam que era só o bem bom. Vá, seus burros de carga, aguentem-se, que cá a velha tá velha e é alfabeta, mas não é suficiente, como o Manelinho. Aguentem-se.
A cadeira. A culpa é da cadeira. Onde é que já se viu fazerem cadeiras deste tamanho? E pesadas como tudo… A velha pensou Onde é que já se viu é vocês serem uns frouxos de merda, que nem força têm para levantar a cadeira. Sorriu apalermada, porém, pondo a sua melhor cara de velhinha entrevada, que ela era alfabeta, mas não era suficiente. Ó Maria, tens aí o número de telefone do gajo das cadeiras? Vamos reclamar. Se fosse na América até nos davam era uma indemnização… Os olhos da Maria filha da velha reluziram. Como? O quê? Uma indemnização? Uma I-N-D-E-M-N-I-Z-A-Ç-Ã-O? Se nos vão dar dinheiro, guito, pilim, cacau, bago, massa, o melhor é mandarmos apertar mais a escada. Chama mas é o pedrêro. Amontoados nas escadas novas da casa nova decidiram exaustos Eh pá, tentamos mais uma vez e pronto e a Maria filha da velha retorquiu Cuidado. Muito cuidadinho com as minhas escadas. Ainda me dão cabo do mármore. E o marido da Maria filha da velha Mas afinal, queres tentar ou não? A Maria filha da velha retorquiu Ó pá, eu quero tentar, mas as escadas custaram-me um dinheirão e se os gajos não sabem fazer cadeiras de rodas de jeito, a gente pede-lhes a tal indemnização. Não me lixem é as escadas. E mais uma vez Puxa aí. Empurra agora. Vá, só mais um bocadinho. Ai que tá quase. Um, dois, TRÊS. A velha continuava impávida e serena, com o ar estonteado de velhinha paralítica e entrevada enquanto gargalhando para dentro Andem, seus animais. Façam força que eu gemo, seus cabrões, que me gamaram tudo. Era só mordomias, marcas e manias. E eu que me esfalfei a trabalhar e agora deixavam-me no vão das escadas? Entre suores e esgares do esforço, alvitrou-se As escadas são é apertadas. O gajo que fez isto não mediu bem. A Maria filha da velha tomou-se de razões Ai isso é que mediu, sim senhora, que foi o melhor arquitecto. O marido da Maria filha da velha inquietou-se perante a evidência Mas se cadeira não passa... A Maria filha da velha ripostou Mas isso não me interessa nada, porque o arquitecto é que sabe e se ele fez isso assim é porque assim é que é e mai nada. E o amigo do marido da Maria filha da velha Atão tu não lhe dissestes que a tu mãe tava numa cadeira de rodas? A Maria filha da velha não se deu por achada Tinha que ser assim, porque se não a casa ficava mal. O arquitecto até falou duma coisa da arquitectura, ai, como é que é? Com… com… que a casa tinha que ter umas linhas com… conterrâneas, ai… A velha, que era velha e entrevada mas não era suficiente, retorquiu do alto da cadeira de rodas, recolhendo o ar de velhinha patética Contemporâneas, linhas contemporâneas, sua burra Pasmaram. A filha da velha até pensou que lhe ia dar uma coisa má Ó mãe, ó minha rica mãezinha, você não se me enerve que ainda lhe pode dar uma anorexia… E a velha respondeu APOPLEXIA, sua burra. Já não me chegava o suficiente. E agora, tirem-me daqui.
A velha foi para um lar, ausente de escadas com linhas contemporâneas, e foi feliz o resto dos seus dias. Longe dos filhos, aproveitava os dias falando com os seus congéneres, trocando experiências, aproveitando as tardes soalheiras de Outono, confortável na cadeira de rodas e um dia, quando a filha a foi visitar, questionou Quem és tu? Não que a velha não a reconhecesse, mas a candura dos dias no lar apagara as memórias desagradáveis e, com essas memórias, as pessoas que as tinham tornado desagradáveis.

Só que lá não há sondagens...

por João Carvalho, em 28.10.09

«O actual presidente deverá ser reeleito, de acordo com as sondagens.»

(Rodrigo Guedes de Carvalho sobre as eleições em Moçambique, no Jornal da Noite, SIC)

De Portugal inteiro (48)

por Pedro Correia, em 28.10.09

Expresso da Linha (de Oeiras)

Nada como um espirro dos antigos

por João Carvalho, em 28.10.09

As autoridades de Saúde norte-americanas – ao que dizem – rejeitaram a vacina anti-gripe A que Portugal encomendou e está a aplicar. A Alemanha parece que está a fazer o mesmo que os EUA.

No hemisfério Sul, onde já é Primavera, a gripe A não teve maiores efeitos do que as gripes sazonais comuns. A OMS, porém, insiste na ideia de pandemia e corre por aí o aviso de que a gripe A pode afectar um-terço da população europeia. Talvez algo como a ainda recente "gripe das aves", que ia varrer um-quarto da população mundial?

Em Portugal, as nossas autoridades de Saúde andam a esclarecer que quaisquer eventuais efeitos provocados pela vacina são sempre preferíveis à gripe A, sem que esclareçam de facto que efeitos podem ser esses.

♦ ♦ ♦

Tal como há uns meses se adivinhava, a pior epidemia é a da informação e contra-informação em torno de tudo isto, é a da "guerra" entre os laboratórios multinacionais, é a da primazia das grandes distribuidoras farmacêuticas, é a dos interesses obscuros envolvidos. Isto, sim: é epidemia e gera alarme.

Há necessariamente muita coisa escondida por baixo do que vem à superfície. Nada melhor do que darmos um belo espirro dos antigos, colectivo e com a boca destapada, para ver sair da toca quem se esconde.

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Velhas descartáveis

por Leonor Barros, em 28.10.09
Esta é a história da Maria Odete. Maria Odete não foi sempre assim. Muito antes deste mal que lhe afligia os humores e a fazia espojar-se no chão como uma égua relinchante, tempos houve em que Maria Odete era mulher pujante, equilibrada em saltos vertiginosos, prazeirosa em ostentar roupas, ouros refulgentes e carros vistosos na proporção dos restantes acessórios. Maria Odete casara-se num ímpeto desconhecido, atribuído aos repentes que dão às mulheres fêmeas obedientes e submissas, as peças imprescindíveis aos machos dependentes e incapazes, acessórios tão preciosos na cozinha como a máquina de lavar roupa, um gadget mais valioso que qualquer robot de cozinha. E assim foi. Ao macho fazia jeito uma fêmea que lhe ajeitasse o lar, à fêmea fazia falta um macho, a idade talvez assim ditasse, ou um macho apenas que a fizesse resfolegar de prazer e lhe oferecesse roupas e carros para alardear na cara da vizinhança e demais conhecidos. E depois vieram filhos, feitos como os filhos são mas sem a própria Maria Odete saber como foi. Dizia-se àquele tempo que Maria Odete tinha as miudezas encarquilhadas e, por conseguinte, Maria Odete admirou-se quando se viu inchar como se tivesse deglutido uma melancia, a pança que nem um balão, as mamas hirsutas e superlativas. Teria sido num desses dias em que o marido veio da obra, a fornicação aliviava-lhe os nervos fracos e era cumprida num ritual terapêutico. Resfolegaram em uníssono, livres, e, sabendo-se incapaz de gerar fruto, resfolegaram ainda mais sofregamente, libertando odores e secreções, entregues ao prazer supremo da carne que não geraria fruto. Mas o Senhor foi amigo e para salvar Maria Odete deste pecado original, a pobre acorria com frequência às confissões do prior da freguesia, plantou-lhe no ventre o que seria a sua primeira filha. E agora ali estava Maria Odete, divorciada do marido das fornicadelas terapêuticas, com dois filhos adultos. A filha tinha ido buscar as crianças à escola quando o telefone tocou. Uma maçada, logo naquele momento em que o Bernardo lhe pedia colo e a Margarida a desafiar decibéis numa birra descomunal. Era a mãe. Mal falava. Acorreu a casa da progenitora. Encontrou-a estiraçada no chão da sala, em cima da carpete de Arraiolos, a revirar os olhos num leve estertor e a espumar pela boca que mais parecia ter engolido o frasco do detergente da louça. Chamou-a três vezes Mãe, ó mãe p’amor de deus, não se ponha assim. A mãe nada, nadinha, népia, nicles. Ó mãe continuou Ó mãe. Maria Odete ficou dois dias no hospital. Enquanto isso, os filhos decidiam das suas vidas e da vida da mãe. A filha tinha as crianças para cuidar, o filho vivia numa casa pequena, logo o que fazer com a espumacenta mãe sobre os Arraiolos da sala da casa numa zona nobre da capital lusitana? Mesmo antes de saber o veredicto final e do parecer clínico, - não seria por acaso algo passageiro? - decidiram metê-la num lar mediante o seu julgamento de filhos dedicados. Que era o melhor. Que não podiam. Maria Odete saiu do hospital pelo seu pé, - velha não era e estava recuperada de algo que não se soube o que foi - e voltou à sua casa. Logo agora que já estava tudo tratado com o lar lamentaram os filhos Ó mãe, sente-se mesmo bem? Ó mãe, veja lá, parece que a vi cambalear… Maria Odete perguntou-se para que serviam os filhos afinal mais céleres a descartar-se dela do que em ir vê-la ao hospital, mais rápidos a arranjarem-lhe um lar do que a saber o que tinha. E a história da Maria Odete é esta. Apenas um dos rostos visíveis e apenas uma das Maria Odetes que outrora foram mulheres e mães e agora são apenas velhas descartáveis à mercê do egoísmo dos filhos.
 

No Dia do Idoso

Escrever direito por linhas tortas

por Pedro Correia, em 28.10.09

  

 

“Os últimos serão os primeiros.” Quem não usou já esta expressão? O que poucos sabem é que se trata de uma frase bíblica – vem no Evangelho Segundo São Mateus (19-30) e no Evangelho Segundo São Lucas (10-31). Inúmeras expressões que utilizamos neste quotidiano laico e secular, tal como a maioria dos nossos nomes próprios, têm a sua origem no livro sagrado do cristianismo. Expressões tão vulgares e tão diversas como “a carne é fraca” (São Mateus, 26-41, e São Lucas, 14-38), “ninguém é profeta na sua terra” (Evangelho Segundo São João, 4-44), “lançar pérolas a porcos” (São Mateus, 7-6), “nem só de pão vive o homem” (Deuteronómio, 8-3, e São Mateus, 4-4), “quem semeia ventos colhe tempestades” (Oseias, 8-7), “meter foice em seara alheia” (Deuteronómio, 23-26), “dois pesos e duas medidas” (Provérbios, 20-10), “separar o trigo do joio” (São Mateus, 13-30) e “olho por olho, dente por dente” (Êxodo, 21-24, Deuteronómio, 19-21).

 

De facto, a nossa linguagem comum está cheia de expressões colhidas na Bíblia, tanto no Antigo como no Novo Testamento, o que se confirma também nestes exemplos, que estão muito longe de serem exaustivos: “bode expiatório” (Levítico, 9-15), “dia da ira” (Sofonias, 1-13), “choro e ranger de dentes” (São Mateus, 8-12, 13-42, 22-13, 24-51), “pedra sobre pedra” (São Lucas, 13-2), “voz no deserto” (São João, 1-23). Ou ainda as designações “sal da terra” e “luz do mundo”, popularizadas no Sermão da Montanha e que originaram, respectivamente, o título de um célebre filme de Herbert Biberman e um dos melhores contos de Ernest Hemingway.

E quem não conhece expressões como “crescei e multiplicai-vos” (Génesis, 1-22 e 1-28), “nada há de novo debaixo do sol” (Livro do Eclesiastes, 1-9), “lobos disfarçados de cordeiros” (São Mateus, 7-15) ou “lavar as mãos como Pilatos” (São Mateus, 27-24)? Ou adágios tão conhecidos como “ninguém pode servir a dois senhores” (São Mateus, 6-24), “pelos frutos se conhece a árvore” (São Mateus, 7-20 e 12-33), “a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (São Mateus, 22-21, Evangelho Segundo São Marcos, 12-17 e São Lucas, 22-21) e “quem estiver sem pecado que atire a primeira pedra” (São João, 8-7)?

 

A Bíblia é ainda um riquíssimo viveiro de aforismos que nada têm a ver com o “manual de maus costumes” de que há dias falava José Saramago para promover o seu romance Caim. Aqui ficam alguns: “A maldade é a mãe da fome” (Tobias, 4-13), “a sabedoria vale mais que as pérolas” (Livro de Job, 28-18), “quem ama a violência odeia-se a si mesmo” (Os Salmos, 11-5) ou “o que perturba a sua casa herdará ventos” (Provérbios, 11-29). Este deu origem ao título de uma excelente longa-metragem de Stanley Kramer, protagonizada por Spencer Tracy.

Na verdade, não é possível compreendermos grande parte do último milénio da arte ocidental, nas suas mais diversas expressões, sem conhecermos a Bíblia. Isto inclui os próprios livros de Saramago, como O Evangelho Segundo Jesus Cristo ou o seu mais recente romance. Afinal “Deus escreve direito por linhas tortas” (Génesis, 50-14).

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Três notas

por Sérgio de Almeida Correia, em 28.10.09

1 - Certamente que alguém já o disse ou escreveu. Muitos terão visto. Mas creio que nunca será demais sublinhar a presença e a postura assumida por Manuela Ferreira Leite na tomada de posse do XVIII Governo Constitucional (que tomou posse num dia cuja soma dá 8 e onde 8 ministros experientes se juntaram a outros 8 mais novatos, sublinhando os muitos e auspiciosos oitos que rodearam o seu aparecimento num ano 9, como diriam os meus amigos chineses). Ao contrário de outros dirigentes, cuja ausência não passou despercebida, a actual líder do PSD fez questão de estar presente e de deixar comentários adequados à ocasião. A democracia é um exercício constante, a procura de um equilíbrio muitas vezes difícil de manter no vaivém dos debates e da guerrilha política, mas há alturas em que é fundamental que venham à superfície os valores que distinguem um exercício puramente formal de uma verdadeira democracia. O sucesso de um governo saído de eleições livres e democráticas virado para a resolução dos problemas do país será também o sucesso do país. Ferreira Leite percebeu-o e fez questão de assinalá-lo. Outros, mesmo do seu próprio partido, têm mais dificuldade em assimilá-lo.

 

2 - A primeira e mais comum reacção da maior parte dos comentadores políticos à composição do novo Governo foi a de realçar a experiência e o bom desempenho dos que transitaram, questionando as novas escolhas. Antes de os verem fazer qualquer coisa, inclementes, apontaram aos novos ministros a pecha da falta de experiência política, a falta de "peso político", os perfis "demasiado técnicos", a inexperiência governativa. Se fossem todos velhos e experientes correligionários do partido, certamente que esses mesmos críticos não se cansariam de destacar a falta de renovação. Como entrou gente nova, as cassandras vieram logo falar na falta de experiência. Como se o exercício da política não fosse ele próprio um exercício permanente de intervenção cívica e de aprendizagem, de gestão e execução de um programa, e um governo não fosse um conjunto de pessoas com diferentes origens, formações e apetências, trabalhando para um objectivo comum, partilhando saberes e cultivando a entreajuda entre os seus membros.

 

3 - A escolha de Pierluigi Bersani para a liderança do Partido Democrático italiano, em especial depois de um inédito processo de escolha que mobilizou mais de 2 milhões de italianos, entre militantes, simples simpatizantes e estrangeiros residentes em Itália, dando-lhe uma confortável vitória, pode representar o vento de mudança e de esperança de que a Europa necessita. A forma como a sua eleição ocorreu é uma achega importante para a renovação da participação política e uma efectiva escolha dos melhores fora dos estreitos e usurpadores canais do caciquismo partidário.

Leituras

por Pedro Correia, em 28.10.09

  

 

"A Humanidade divide-se entre aqueles que sabem amar e aqueles que não sabem."

Rosa Montero, Instruções para Salvar o Mundo

(Porto Editora, 2008)

Passado presente (CLXXII)

por Pedro Correia, em 28.10.09

 

Sonap (Sociedade Nacional de Petróleos)

1933-1975



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