Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Delito de Opinião

Convidado: FERNANDO MOREIRA DE SÁ

Pedro Correia, 02.08.10

  

Um Porto, o meu

 

Fui jantar a um conhecido restaurante do Porto. Ao estacionar no respectivo parque de estacionamento deparo com um casal de velhotes. Estavam a um canto, um lugar estranho onde a pobreza grita. No meio deles alguns cobertores, várias tábuas e inúmeros pedaços de cartão castanho. Estavam a acender uma fogueira.

A imagem que me ficou na retina é cruel. Um parque de estacionamento de um restaurante e com acesso às garagens de um prédio da Santa Casa da Misericórdia do Porto, entre lojas que já tiveram melhores dias e em frente um conhecido concessionário da Audi. Numa zona onde coabitam, lado a lado, uma certa classe média/alta da cidade com as prostitutas da rua da Alegria. Todo um tratado deste meu actual Porto.

No mesmo dia em que tirei o final de tarde para rumar a uma esplanada na Ribeira e olhar para esse naco de imensa beleza onde o Douro se comprime entre Gaia e Porto e os bisnetos dos putos do Aniki-Bobó continuam a desafiar a morte entre as correntes do rio e o tabuleiro inferior da ponte D. Luís para gáudio dos turistas e aperto no coração deste pai de uma criança da idade deles.

Uma Ribeira que deixou de ser negra com o colorido dos holandeses, franceses, espanhóis e ingleses que tudo fotografam e se deixam enganar pelas velhas manhosas que lhes vendem colchas, tapetes e lenços comprados nos chineses ou no Continente. As mesmas que estão com um olho no produto e outro nos netos que descalços serpenteiam entre turistas seminus e molhados nesta improvisada praia fluvial sem guarda nem rei nem roque.

No outro lado vejo os pilares do futuro teleférico e um novo hotel que nasce num espantoso lugar. Do lado de cá reparo nas casas que, lentamente, começam a renascer das cinzas e penso como o Porto turístico, graças a uma conhecida low cost, está a ficar vibrante e cosmopolita. Quem diria. 

 

 

Mas que Porto é este onde até na milionária Foz se acotovelam as placas de imobiliárias a anunciar a venda de tudo: apartamentos, moradias, lojas e escritórios? Um ar de debandada geral. Para onde fogem os portuenses? Não sei. De que fogem? Isso sei ou adivinho.

Fogem do risco de um destino igual ao daquele casal de velhos no “Lima 5” a quem tudo falta: um tecto, um fogão, um aconchego, uma vida. Sim, meus caros, este país não é para velhos e esta afirmação não é mera citação cinematográfica, é o constatar de uma realidade sentida e vivida neste meu Porto, a cidade das grandes famílias fechadas e unidas onde qualquer forasteiro, fosse membro da realeza ou pobre pedinte, tinha de pedir permissão para entrar.

Hoje é o portuense que foge, sem pedir permissão, para rumar a outras paragens pois já poucas famílias restam. Apenas as velhas da Ribeira com a resma de netos no regaço resistem como se fossem o último dos Moicanos.

 

Nota: É uma honra receber tão ilustre convite. O Delito de Opinião é leitura diária obrigatória e é um privilégio ter um post meu neste vosso blogue. Hesitei no tema a partilhar convosco mas o meu amor pela minha cidade, pelo meu Porto que vai de Gaia a Leixões e daqui até às actuais terras do Lidador, era obrigatório. Um grande amor partilha-se com aqueles de quem mais se gosta. É o caso. Obrigado.

 

Fernando Moreira de Sá

8 comentários

Comentar post