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por Luís Naves, em 15.03.20

Estas coisas acontecem de cem em cem anos. Ainda estávamos em Janeiro e discutia-se o processo de destituição do inquilino da Casa Branca. Nessa altura, muita gente escreveu que a morte de um general iraniano ia custar caro aos americanos, que no mínimo seriam expulsos do Médio Oriente. Tudo isto agora nos parece anterior à guerra anterior. No Irão, país comandado por gente do século XIV, morre-se à porta do hospital; já ninguém quer saber da campanha eleitoral na América, muito menos da independência da Catalunha; e já ninguém se lembra dos temas fracturantes que entre nós se discutiam com emoção (que temas eram esses, exactamente?). O mundo mudou e vai mudar ainda mais: muitos vão defender os muros que ontem criticavam, seja para migrantes sírios ou turistas espanhóis; muitos vão condenar os políticos que ontem consideravam geniais ou indispensáveis; muitos vão pedir mais segurança, mais distância em relação aos outros, mais repressão de comportamentos irreflectidos, menos tolerância para açambarcadores e outros parasitas. Depois, a grande vassoura da opinião pública vai remover os governantes que falharam e será reconstruida uma economia menos dependente da globalização, das fábricas chinesas e das decisões dos burocratas de Bruxelas.


25 comentários

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De Anónimo a 15.03.2020 às 14:41

Em 1920 começou a crise do após grande guerra, com milhões de mortos da gripe espanhola uns anos antes e, depois, o desastre financeiro das bolsas com falência e desemprego generalizado. A Alemanha foi brutalmente penalizada e o
movimento contestatário foi confrontado com ao surgimento dos bandos nazis.
É bem provável que apareçam, agora, uns bons milhares de mortos por aí, e uma crise financeira por causa deste novo coronavirus. Mas 'falta' uma guerra em grande escala para se repetir os cem em cem anos.
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De Luís Naves a 15.03.2020 às 16:35

Não escrevi sobre repetições de história, aliás, esta pandemia dificilmente terá os efeitos da de 1918-19, pois a população de então tinha baixa imunidade e a medicina era muito menos avançada.
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De Anónimo a 15.03.2020 às 18:17

Então quais são os cem em cem anos da comparação.
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De Luís Naves a 15.03.2020 às 18:23

Não há comparação, o que está escrito não é literal. Algo que acontece de cem em cem anos é algo de raro, que nem todas as gerações vivem.
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De V. a 15.03.2020 às 14:45

Acho que os jornalistas sofrem demasiado com a centralidade do facto jornalístico. A toda a hora (outra constante) afirmam que o mundo mudou por causa disto ou daquilo, mas as verdadeiras mudanças são lentas e quase imperceptíveis.

O mundo quase nunca muda. Caso contrário já não havia gente do século XIV e até demasiada gente que os defende. E, pfooa, há mesmo muita.
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De V. a 15.03.2020 às 17:14

Dito isto, concordo com a ideia geral que atravessa o post — de que isto vai ter bastantes consequências políticas — mas interrogo-me se uma sociedade civil tão colonizada pelo Estado terá força para iniciar uma re-industrialização, quebrar dependências do exterior e re-centrar o País nos portugueses. Não é nada que eu não queira, mas no dia a dia não vejo as pessoas muito preocupadas com isto, sobretudo as gerações depois da minha que estão completamente formatadas pelo discurso snowflake das escolas públicas e do regime.
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De Anónimo a 16.03.2020 às 02:25

Só para se ter uma ideia, como é era o ensino e o regime na sua geração.
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De V. a 19.03.2020 às 20:27

Era decente, e ainda havia matéria. Agora tirando as ciências é só ideologia, que destrói o espírito crítico que a Escola era suposto ensinar a ter.
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De Anónimo a 16.03.2020 às 08:58

Como diz o outro é preciso mudar o chip !
Só não concordo com o que diz das gerações mais velhas, existe muita gente mais velha do que eu, que está encostada, que sempre se encostou e prova disso é maioria dos que governam ou governaram Portugal nos últimos anos, todos sem excepção cederam a interesses pessoais ou corporativos...
Pelo menos com e infelizmente devido a esta crise já não se deve fazer mais uma cagada como seria o novo aeroporto. Por falar em aeroporto sugiro que todas as ligações aéreas que não sejam do estrito interesse publico sejam desviadas para Beja e se dê espaço em Lisboa e Porto aos voos realmente urgentes como os de importação de bens de 1º necessidade e ajuda humanitária pois vamos precisar, já para não falar da chegada da troika 2.0.

WW
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De J. Cunha a 15.03.2020 às 14:51

Posso estar enganado mas parece-me que:
Há muito cagarola a escrever nos blogues. Para quem (como eu) andou 2 anos e pico na guerra colonial (nada que se pareça com a da Síria) sempre na expectativa de pisar uma mina .... tudo isto é ridículo (ou parece). Terem medo de um viruseco .... francamente. Dois anos e pico sempre com o credo na boca e a ver amigos a ficarem sem perna ou sem vida. As consequências esperadas deste viruseco até me fazem sorrir (se calhar erradamente). Fosse esse o problema da tal guerra e ter-nos-íamos divertido à brava.
Se houvesse agora uma guerra colonial com a rapaziada toda, todinha a ser mobilizada .... como aguentariam as gerações de agora tão aflitas com uma gripe de baixa taxa de mortalidade?
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De Luís Naves a 15.03.2020 às 16:39

Pode estar enganado, de facto: se combateu na guerra colonial, terá uma idade em que não se recomenda levar esta situação pouco a sério. A mortalidade nos escalões etários mais altos é alta. Esta não é uma gripe, mas uma doença nova, sobre a qual se sabe pouco e que está a matar muitos infectados com mais de 60 anos. Tenha o máximo cuidado, peço-lhe, limitando o contacto social.
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De Anónimo a 15.03.2020 às 18:28

Pois o J. Cunha tem que ter muito cuidado. As cruzes de guerra não dão imunidade a ninguém.
E, também, tem que ter cuidado com as comparações.
Não há comparação com os bombardeamentos que arrasaram cidades inteiras na Síria e o que se passou, por exemplo na Guiné. Na Guiné, Angola ou Moçambique nunca houve nenhuma aldeia, vila ou cidade que tivessem sido arrasadas por bombardeamentos. Mesmo o caso de Madina do Boé, na Guiné, que era atacada quase todos os dias, a retirada foi estratégica por dificuldade de logística.
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De J. Cunha a 15.03.2020 às 20:00

"Não há comparação com os bombardeamentos que arrasaram cidades inteiras na Síria e o que se passou, por exemplo na Guiné. " Nem comparei. O problema era a tensão com que se seguia pelas picadas à espera de pisar uma mina (em vez de encontrar o tal vírus). Isto não durante oito dias, mas durante 2 anos e pico!!!! Comparado com a tensão provocada pelo tal de corona que pode provocar febre....até me rio. E por acaso até contraí a febre asiática de 1957. Foi tão bom: uns dias na caminha e a minha mamã a trazer-me sopinhas à cama! E fui ingrato, logo que a febre lhe calhou a ela eu fui jogar a bola e o meu pai é que tratou dela até ... lhe chegar a tal de asiática a ele. Bons tempos. Em que eu andava cheio de t*sa. Agora é p*la murcha. Um desastre!
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De J. Cunha a 15.03.2020 às 18:29

"terá uma idade em que não se recomenda levar esta situação pouco a sério."
Ora, ora, se ele aparecer, e apesar da minha idade, corto-lhe aquelas patitas e ele passa a coxear sem conseguir mover-se de pessoa a pessoa. E assim se quebra o enguiço do contágio
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De Luís Naves a 15.03.2020 às 19:08

Vai correr tudo bem, tenho a certeza, e o senhor vai ter cuidado.
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De J. Cunha a 15.03.2020 às 20:07

"e o senhor vai ter cuidado." Claro, sou destemido mas não suicida. E viver vale a pena: então o Estado não me está a compensar pelos meus sacrifícios (à força) pela Pátria com uma pensão de ex combatente de cerca de 40 Euros por ano. Não me enganei, é por ano e ainda tenho de a declarar no IRS (para mim esta declaração é que sinto como sacrifício). Mas pensando bem, só para receber esta homenagem anual vale a pena continuar neste mundo. E o corona que se f*da (como dizíamos na tropa). Na tropa o vocabulário era um bocado para o ordinário, desculpem, estou a reviver velhos tempos.
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De Vorph Valknut a 15.03.2020 às 15:01

Nunca contamos com os Cisnes Negros. Mas eles existem, fazendo - nos recalibrar balanças, reequacionar esperanças.
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De Anónimo a 15.03.2020 às 15:41

Justíssimo reconhecimento universal "ao" Taleb, Nassim para os amigos e conhecidos , Tony Gordo incluído - se bem que os Galegos , de uma forma enviesada , quer dizer, galega, já o tenham formulado desde há muito : "Yo no creo en brujas,pero etc.etc."


JSP
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De Anónimo a 16.03.2020 às 09:59

Eu também não acreditava...mas elas existem.

WW
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De Bea a 15.03.2020 às 17:18

está a ler-nos a sina? Não é um oráculo animador. Não tem outra por aí, é que, dessas, cada português já tem uma, não se esqueça que pendemos um bocado para o fatalismo.
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De Vento a 15.03.2020 às 17:58

Na minha perspectiva sua reflexão tem relevância por aquilo que aborda, mas que deixa à imaginação do autor interpretar. Aliás, para mim, a ciência do jornalismo e da escrita não é explicar ao leitor o que se pensa quando se escreve, mas deixar que ele, leitor, pense sobre o que se escreve.

É pertinente na medida em que subentende-se o que se experienciou. As sociedades andavam a ser adormecidas e domesticadas com teorias e artificialismos bacocos para mobilizar a incapacidade de pensar, estimulando rupturas, e desviar o olhar daquilo que se encontrava diante de nós mas pretendia-se negar ou falsear.

E o que estava diante de nossos olhos era que tínhamos falido enquanto sociedade em todas as áreas que a compõem. Pretendia-se estimular um processo catártico e colhia-se somente um fenómeno de sublimação. Buscávamos externamente o que só o interior é capaz de produzir; e na onda de nos mostrarmos cidadãos do mundo, desconstruiu-se o mundo que podia criar um novo mundo.
Procurava-se valorizar-mo-nos com palavras convencidos que com estas tinhamos feito a nossa parte. Criámos o ruído e esquecemos que é no sussurro que se escuta a voz transformadora e tantas vezes demolidora de tantas teorias e artificialismos.

Em suma, o bichito, que por vezes nos é apresentado de tal maneira que até apetece brincar com ele, vem revelar-nos o mais básico do que fazíamos, isto é: eramos uns açambarcadores e convencíamo-nos que estávamos a mudar o mundo puxando ele para o nosso "estômago".

Buscava-se a vida eterna no que a traça come.
De certa forma a situação faz lembrar-me a máxima bíblica: «Eu mandei-vos ceifar o que não trabalhastes. Outros trabalharam e vós aproveitais-vos do seu trabalho».

A vida eterna não é o ponto de chegada, mas um modo de viver cada instante de modo novo.
Nada como um bichito para nos lembrar isto. Recordo-me do sermão de Santo António aos peixes: porquê aos peixes? Porque o homem também nesse tempo vivia no ruído que abafou o sussurro. Os peixitos estavam mais receptivos à escuta por viverem mergulhados em um oceano de silêncio. E foi preciso um bichito para nos fazer calar e escutar o que o silêncio nos diz.

Hoje como há cem anos só parecemos ser diferentes por aí não termos vivido.

Concluído mais um sermão, aceitam-se contribuições generosas para mais um açambarcamento.

Para os católicos e todos e todas de boa vontade e para os que já vão perdendo a vontade, deixo aqui uma ligação como contributo para o encontro eucarístico, pois as igrejas começaram a encerrar e o encontro que se faz no silêncio também existe online (aceitem isto como serviço ao público):

https://www.youtube.com/watch?v=BKoweAT723g
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De Anónimo a 16.03.2020 às 10:03



WW
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De Anónimo a 15.03.2020 às 19:16

"Depois, a grande vassoura da opinião pública vai remover os governantes que falharam e será reconstruida uma economia menos dependente da globalização, das fábricas chinesas e das decisões dos burocratas de Bruxelas."

Não. Para isso precisava de mudar a cultura e as pessoas.
Não há pessoas e cultura para produzir aquilo que as fábricas chinesas produzem.

O que vai acontecer é que os burocratas de Bruxelas ainda vão querer mais poder.
Cada crise é sempre mais um justificação do complexo jornalista-político para terem mais mais poder.

E se perceber os movimentos culturais no capitalismo ocidental as grandes empresas querem cada vez mais regulação - para alijar responsabilidades e impedir rivais de aparecer- e fogem como diabo da cruz dos clientes individuais- pessoas-.
Preferem vender produtos a outras empresas e ao Estado.

lucklucky
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De J. Cunha a 16.03.2020 às 17:24

"O que vai acontecer é que os burocratas de Bruxelas ainda vão querer mais poder." Claro, são todos uns comunistas. Parece que você ainda não se apercebeu do verdadeiro perigo do marxismo. É por isso que só faz comentários a gozar com a malta.
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De Anónimo a 16.03.2020 às 02:05

"... e será reconstruida uma economia menos dependente da globalização, das fábricas chinesas e das decisões dos burocratas de Bruxelas."
Chinesa?, sim. Bruxelas?, sim.
Há uma dose de boa observação e de "Wishful thinking" neste post.
A presente classe política que de "nacional" já tem pouco e de europeia tem demais, terá os dias contados apenas porque, para as novas gerações, isso de o "Portugal" já pouco lhes diz. É apenas o bairro europeu aonde por acaso nasceream.
O mote foi dado, há muito, pelos jogadores de futebol. Há muito que correm a defender os interesses do clube que melhor condições lhes oferecer. Apátridas "avant la lettre".
Os novos eleitores votarão e revotarão em qualquer coisa que lhes prometa a Lua, qualquer que seja a "nacionalidade" do candidato.

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