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Delito de Opinião

Convidada: MARGARIDA

Pedro Correia, 30.07.10

 

O Bryan Adams nunca soube, mas eu namorei com ele

 

Metade do meu ipod tem músicas dos anos 80/90. Nunca mais senti o que sentia quando Morrissey cantava "last night I dreamed that somebody loves me" e me dava ao luxo de deprimir, nas noites quentes de Agosto, férias entediantes e a pensar que o Carlos do quinto E, afinal, só me queria por causa do cubo mágico. Não há como a música do Prince para que as nossas hormonas (já por elas aos saltos) nos obrigassem a "Get off" abanando a anca pequena (bons tempos) na idade da inocência em que o microfone que as bailarinas lambiam era um microfone e nada mais... Ou o desespero do cadeado no telefone que não nos permitia telefonar à Susy e pedir-lhe para gravar o top mais (em VHS, claro) porque iria dar os "Europe", oh the final countdown, aquele cabelo, aqueles movimentos, senhores, que lindos que eles são (que feios que eles eram). 


E depois a Samantha Fox! Íamos ser assim, alma enorme e cabelo espetado, era só a nossa mãe não o cortar à tigela, íamos ser assim, giras, com a boca semi-aberta, a sussurrar "touch me" seja lá o que isso queria dizer. Namorei durante anos com o Bryan Adams, ele nunca soube de nada mas namorei. Tonight havia de ser a noite e nunca iria deixar que algum sentimento "cuts like a knife", ia tratar bem dele, era só o tipo apanhar a carreira e sair na minha zona, margem sul, autocarro 54, simples.

E depois, de chumaços enormes que não nos permitiam olhar para os lados, take on me dos Ah ah, sabiamos de cor, inovação total em termos de telediscos (sim telediscos) e - segurem-se, vou descer baixo - Tarzan boy, era terrível e andava na boca de toda a gente alternando com as aberrações "modern talking" que faziam uma dupla três D; ora de vez em quando pareciam um casal, ora agora são dois homens.

A Madonna era virgem, o festival da canção era um feito sem igual, o tabaco custava dezaseste escudos, a feira popular era o feito do ano e o cheiro preferido era do plástico dos cadernos no início do ano lectivo, início esse a que chegávamos emburrecidos de três meses de férias. Coma mental. Totalmente. Eu era a morena e tu podes ser a loura, amigas para sempre, vamos casar com dois irmãos para que não nos tenhamos de separar nunca, vou ser veterinária e modelo ao mesmo tempo. O meu melhor vai chegar, tenho o mundo todo para morder. Eram assim os anos oitenta. Bem giro.

Os anos oitenta passaram (a sério, eu sei), os anos noventa também, chegamos a 2010 e o Morrissey faz concertos no Poceirão, o cubo mágico é electrónico, o top mais foi substituido pela MTV, Prince cantou numa praia, os Europe venderam o cabelo para extensões e foram trabalhar para o talho do sogro, Samantha Fox anda com afrontamentos, o nosso cabelo não é à tigela mas o espetado já não se usa, Bryan Adams? quem é esse tipo?, não quero falar no preço do tabaco nem sequer no emburrecimento das férias que alastrou ao ano inteiro provocando nos adolescentes de hoje um vazio de ambições. Ninguém quer ir para nada, não há ambições, os veterinários estão no desemprego e já nem sequer se pode ir para dentista; ninguém hoje tem dentes para morder o mundo...

 

Margarida

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