Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Coelho de Pandora

por Sérgio de Almeida Correia, em 20.07.10

Se a memória não me atraiçoa, Passos Coelho está à beira de fazer quatro meses como líder nacional do PSD. O seu partido voltou à ribalta e é hoje notícia em todos os jornais e canais televisivos. Pelo menos por aí, Passos Coelho conseguiu o milagre da ressurreição de um partido moribundo.

Porém, as coisas não se cingem a jogos florentinos e o governo da nação não é uma signoria composta por priori agrupados numa coisa chamada Gonfaloniere di Giustizia que muda todos os dois meses e em que a única coisa que une os seus membros é o facto de não serem parentes dos que lá estiveram antes, não terem ocupado cargos recentemente e não serem corruptos. Mas isto seria sempre muito pouco para reconstruir um partido, dar-lhe um rumo e abalançá-lo a governar um país.

Pedro Passos Coelho, no curto espaço de quatro meses, já conseguiu pôr o outro Pedro (Santana Lopes) a falar com oportunidade e razão e já levou meia-dúzia de recriminações do regedor-mor e guru do partido nas suas homilias televisivas de domingo à noite. Mas não descansa.

A ideia da revisão constitucional, que pelos contornos já conhecidos deve ter nascido algures em Georgetown entre duas chávenas de café da Starbucks, foi esgrimida desde o início por Passos Coelho quase como condição sine qua non para se poderem fazer reformas no país.

Passos Coelho formatou-se nos longos anos que passou nas fileiras do partido. Ganhou uma imagem, tentou cultivar o carisma,  e, depois, já com os quarenta anos a aproximarem-se a passos largos,  concluiu a licenciatura. Tal como José Sócrates, numa universidade privada e numa altura da vida em que a maior parte das pessoas já tem uma carreira profissional.  A imagem que hoje dá é, pois, a de alguém que enquanto treinava na adolescência os discursos que iria fazer aos "jotinhas",  prometera a si mesmo ser primeiro-ministro e que agora, finalmente, tinha uma oportunidade para cumprir esse desejo.

Admiro homens de convicções. Admiro gente que pugna por ideias, valores e princípios, quaisquer que sejam as circunstâncias, gente que é capaz de correr riscos e de pôr em causa o seu próprio futuro em prol das gerações vindouras. Mas considero desprezíveis os homens cuja força das ideias depende de reformas profundas nas instituições para poder ganhar substância, consistência e ser capaz de se impor. Uma ideia deve ser suficientemente forte para se impor por si. Quem diz uma ideia diz um homem, uma personalidade, um carácter.

A revisão constitucional que Passos Coelho apresenta ao país poderia ser uma ideia feliz se fosse cristalina e oportuna e se dela não se quisesse fazer depender o futuro de Portugal.

Em rigor,  Passos Coelho sabe que a maior ou menor dificuldade em governar depende do talento, da competência, do empenho e do  sentido  de responsabilidade de quem tem de o fazer.  Se para outra coisa não servissem,  trinta e seis anos de democracia e mais de duas dezenas de governos, entre provisórios e constitucionais, já o teriam demonstrado.

Ao propor agora, numa altura de crise grave e a menos de um ano de eleições presidenciais, uma revisão constitucional que bule com a superstrutura constitucional, com a matriz do Estado e a repartição de poderes entre órgãos de soberania, colocando em causa princípios  essenciais do regime, Passos Coelho está a encetar um golpe de estado palaciano e a afirmar a sua incompetência para governar no actual quadro constitucional.

Não há nada de grave nisso, mas seria bom que se deixasse de sofismas. As propostas que o líder do PSD avança para a constituição económica ou a proposta de mudança do conceito de "justa causa" para o de "razão atendível", não resolvem nenhum dos problemas graves do regime; ou seja, aqueles por onde passa a sua sobrevivência e a qualidade da nossa democracia. Apresentar e subscrever uma proposta de revisão que coloca a tónica na supressão de uma terminologia arcaica, aposta numa maior liberalização e abertura da economia, não contribui em nada para a melhoria da qualidade da democracia, para o aperfeiçoamento das suas instituições ou para a produção de elites políticas, culturais, científicas e empresariais que sejam capazes de fazer a diferença. Difícil, hoje, não é despedir um trabalhador. É fácil “inventar” um processo disciplinar e meter um trabalhador na rua. Difícil é ser capaz de gerir uma empresa no actual quadro político e legislativo, de motivar os trabalhadores e de apresentar resultados sem meter os pés pelas mãos. Mas se há quem seja capaz de o fazer, e com apreciável sucesso, mesmo numa situação de crise, sem que para isso tenha de se passar a chamar Rendeiro, Jardim ou Oliveira e Costa,  então é porque as coisas não são como Passos Coelho as quer fazer crer aos portugueses.

Depois, o líder do PSD erra quando mistura questões de regime com questões de pura cosmética destinadas a alimentar as clientelas do seu partido. Meter no mesmo saco a discussão sobre os poderes do Presidente da República e as questões da justiça com a regionalização e a criação de uma região-piloto no Algarve do tipo "Mendes Bota", ou com as mudanças no estatuto do Ministro da República, não tem outro sentido que não seja o de baralhar, agitar, confundir, distrair.

Se Passos Coelho pretendia mudar a face do PSD, torná-lo numa partido de matriz liberal, mais chegado à direita do espectro político, como Paulo Portas imediatamente notou, melhor seria que o tivesse dito logo aos militantes do seu partido, pois tenho sérias dúvidas de que muitos dos que o apoiaram, a começar por sindicalistas sociais-democratas, tivessem aplaudido as mudanças que agora quer concretizar.

Mais do que uma tentativa de melhoria do regime e das suas instituições, a proposta do líder do PSD é uma tentativa de golpe constitucional do qual ninguém sairá vencedor e que se destina a encobrir as suas próprias fraquezas. É um verdadeiro atestado de incompetência que ele passa a si próprio e que não o distingue de anteriores "sumidades" que dirigiram o seu partido. Cada dia que passa, Passos Coelho revela-se como um sniper do regime. Só que em vez de vir de camuflado e de estar escondido algures no topo de um prédio, ele caminha por aí, galã e bem apresentado, fazendo o pleno nas televisões, nas rádios e nos jornais e dando entrevistas à imprensa internacional.

Passos Coelho poderá chegar a primeiro-ministro com o voto dos portugueses, o que nas actuais circunstâncias económicas e financeiras, com mais ou menos Scut, com o PS de novo à procura de alguém competente e fiável que substitua José Sócrates e com Cavaco Silva em Belém, até será relativamente fácil.

Não sei é se a tradição democrática, reformista e social-democrata do PSD, que constitui hoje um empecilho aos planos de Passos Coelho, algum dia lhe perdoará. Ou se a proposta de revisão que hoje apresenta não representará já a implosão do seu partido.

Pandora não resistiu à curiosidade de abrir a caixa que Epimeteu possuía. Passos Coelho não resistiu ao chamamento da revisão constitucional. 

Há curiosidades que se pagam caro. Muito caro. Neste caso golpes. Mas ainda assim há valores que não têm preço.

Vamos aguardar para ver se no final, isto é, se a Constituição não se tiver entretanto tornado num mero regulamento de empresa preparado por um gestor protegido, ainda sobrará alguma esperança no regime e no país.

Autoria e outros dados (tags, etc)


10 comentários

Sem imagem de perfil

De teresinha a 20.07.2010 às 12:52

5*, Sérgio.
Subscrevo, na íntegra, a sua análise.
Sem imagem de perfil

De Sílvia a 20.07.2010 às 14:14

Apreciei a sua análise, a meu ver, realista, descomprometida e que coloca a nu as debilidades de um líder partidário que se afirma capaz de fazer a mudança.
Sem imagem de perfil

De l.rodrigues a 20.07.2010 às 14:16

Mudar a Constituição ainda exige uma maioria de dois terços, não?
Imagem de perfil

De Paulo Sousa a 20.07.2010 às 14:18

Post pertinente, com o qual discordo na sua maior parte.
Será que a 'meia-dúzia de recriminações do regedor-mor' não serão um dos indicadores de que de facto PPC 'conseguiu o milagre da ressurreição de um partido moribundo'? Antes de PPC não haviam recriminações, mas apenas um partido moribundo.
Se me perguntar se PPC poderá ser o PM com que sempre sonhei, dir-lhe-ei que não, mas como diz o ditado 'quem não tem cão caça com gato', e identificando-me eu com uma matriz mais liberal que o 'status quo', ele é o senhor que que segue.
Discordo no entanto com a ideia geral da regionalização e em absoluto com a ideia do Região piloto do Algarve.
Sem imagem de perfil

De A. Peres Pimenta a 20.07.2010 às 14:53

V. está a ver o filme ao contrário.
Então, agora, o Santana tem "oportunidade e razão", coisas que nunca teve nem alguma vez terá na vida?
Deixe-me rir!
Imagem de perfil

De camaradita a 20.07.2010 às 14:54

Foi um prazer ler o seu texto. Excelente análise.
Imagem de perfil

De absorcoes a 20.07.2010 às 18:00

Lider da oposição também está sujeito ao chamado «estado de graça» ? Se sim, já passou.

A partir de agora Passos Coelho será sujeito a pelo menos um ano de desgaste, e, então se verá, o custo para o PSD do abandono da matriz social-democrata e se este «líder» não é a mais perigosa aposta para o partido e para o país.

Bettencourt de lima
Sem imagem de perfil

De Alzira Maria a 20.07.2010 às 18:52

"A melhor aposta" para o país é, portanto, continuar a ser governado pelo dr. (ou eng., já nem sei bem) Sócrates, não?
Sem imagem de perfil

De teresinha a 20.07.2010 às 20:06

Este post pretende ser uma análise sobre as posições do líder do PSD, não é?
Sem imagem de perfil

De A.Nogueira a 20.07.2010 às 21:36

Muito bem!

Comentar post



O nosso livro





Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2018
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2017
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2016
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2015
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2014
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2013
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2012
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2011
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2010
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2009
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D