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O estacionamento

por João Campos, em 20.07.10

Ontem, quando saí do trabalho e me dirigia ao supermercado, vi acontecer à minha frente uma cena infelizmente muito comum: uma senhora estaciona o carro em cima do passeio, bloqueando completamente a passagem a qualquer pessoa, deixa os quatro piscas ligados, e vai calmamente fazer as suas compras. Quando me desviei para a estrada - que remédio -, pensei em lhe dizer qualquer coisa: estava indeciso entre o sarcasmo e o insulto. Acabei por não lhe dizer nada, e fui fazer as minhas compras sem pensar mais no assunto.


Quando saí do supermercado, dez minutos mais tarde, vejo dois funcionários da EMEL a bloquearem o carro da tal senhora. Não sei se foi o universo a acertar as suas contas ou se foi simplesmente um acaso os senhores de verde terem aparecido ali, naquele bocado caótico da Duque D'Ávila com a Defensores de Chaves (reportagem fotográfica um dia destes), para fazerem um bom trabalho - a verdade é que a senhora apareceu, reclamou, mas pagou 90 euros de multa. Acho que é pouco. Sei que Lisboa é uma cidade difícil no que ao estacionamento diz respeito, mas estacionar em cima dos passeios não significa apenas que um tipo como eu, relativamente saudável, tenha de sair do passeio e caminhar no asfalto, junto aos carros que passam; significa, sim, que uma pessoa com um carrinho de bebé (por exemplo), um cego, alguém com muletas ou de cadeira de rodas está metida num sarilho. Normalmente, eu consigo desviar-me sem problemas. Mas há muita gente que não consegue. Para essas pessoas, os passeios, ricamente decorados com postes, sinais de trânsito, caixas de electricidade, caixotes do lixo e detritos variados, já são uma verdadeira prova de obstáculos. Um carro lá enfiado, enquanto o condutor foi calmamente fazer as suas compras ou beber o seu café, é mesmo a última coisa de que precisam.

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25 comentários

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De João Carvalho a 20.07.2010 às 12:14

É curioso, John: parece que há imensa gente a achar que os quatro piscas ligados servem para não estorvar.

O que muitos continuam a ignorar é que os casos como o que descreves incorrem em dupla transgressão: a transgressão óbvia pelo estacionamento abusivo e o uso indevido dos quatro piscas, que são para assinalar a presença de um veículo parado em plena faixa de trânsito. Continuam a entender que os quatro piscas são para dizer ao polícia fui-ali-e-já-venho...
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De João Campos a 20.07.2010 às 12:26

Era mais simples se colassem um post-it no vidro, não era? :)
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De Sérgio de Almeida Correia a 20.07.2010 às 12:41

Deixo aqui o meu aplauso, João.

A forma como se lida com o carro, com o estacionamento e com os outros, é ainda um dos sinais mais notórios do atraso e do subdesenvolvimento cívico deste país.
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De João Campos a 20.07.2010 às 12:51

É mesmo. Obrigado.
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De João André a 20.07.2010 às 13:50

Não é só uma questão de civismo, é uma questão de controlo. Como li em tempos (não sei onde), na Alemanha as pessoas não estacionam os carros dessa forma e não é por uma questão de civismo, antes é porque se o fizerem lá chegará um polícia que os multará e para isso de nada servirá o velhinho "ó sôr polícia, eu só fui comprar o jornal"...
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De Rxc a 20.07.2010 às 18:04

Lembro-me de há pouco tempo ter visto uma senhora da "elite", aqui na praia da Foz do Arelho, a discutir com muita veemência contra a senhora polícia que a estava a multar por ter o jipe positivamente em cima da passadeira. Fiquei bastante "sensibilizado" com a lata da distinta senhora condutora e o à-vontade com que discutia em plena via pública, qual peixeira, com um agente da autoridade. Suponho que o dinheiro não compra, de todo, boa educação e respeito pelos restantes cidadãos.
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De João Campos a 20.07.2010 às 20:36

João André, tem razão, claro. Muitos disparates que se cometem nas estradas acontecem por haver um certo sentimento de impunidade. No entanto, o civismo começa por algum lado.

Rxc, essa é a parte que mais me diverte: ver pessoas que fizeram asneira a reclamar como se tivessem razão. Haja paciência.
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De l.rodrigues a 20.07.2010 às 14:21

Um ano de muletas ensinou-me em primeira mão os problemas colocados pelos nossos passeios.
Já não basta serem frequentemente estreitos, irregulares e escorregadios, ainda estão cheios de obstáculos permanentes e, como no caso reportado, ocasionais, que mais frequentemente se escapam com impunidade do que conhecem a legitima sanção.
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De João Carvalho a 20.07.2010 às 15:46

Por essas e por outras é que o Pedro Correia anda a apresentar as sanções do século...
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De João Campos a 20.07.2010 às 20:35

Felizmente nunca andei de muletas, mas recentemente uma pessoa que me é próxima foi obrigada a isso, e pude ver muito bem o problema que é sempre que a acompanhava. Quase dá vontade de usar as muletas para fins menos civilizados.
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De Carlos S. Campos a 20.07.2010 às 15:03

Aqui na minha rua há um sujeito que vem almoçar todos os dias a casa e deixa o carro com os quatro piscas ligados a ocupar uma das duas faixas de rodagem, obrigando todo o trânsito local, neste incluídos os transportes públicos, a manobras e esperas. Faz isto há meses e, embora se trate do centro de Lisboa, até agora, que eu saiba, não lhe aconteceu nada. Ah, já me esquecia: existe uma esquadra da PSP, ou lá o que é, a menos de cem metros...
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De João Campos a 20.07.2010 às 20:33

Deve ser mais ou menos como descer (ou subir) a Rua Luís de Camões de manhã. O 742 anda literalmente a contornar obstáculos.
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De Luís Lavoura a 20.07.2010 às 15:04

Bendita EMEL.

Antes dela existir havia ruas que eram um caos. Podia-se andar por cima das capotas dos carros estacionados sobre os passeios.

Viva a EMEL!
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De FD a 20.07.2010 às 20:11

Penso que existem utilizações para os 4 piscas justificáveis, agora fazer compras não...
Moro perto desse Pingo Doce, quando passo lá de carro sou incapaz de fazer o mesmo que essas pessoas, primeiro porque na maioria das vezes a pé sou confrontado com os carros em cima do MEU passeio (como peão), segundo porque existe imenso espaço em volta para estacionar, alguns inclusive nem se paga. Obrigar as pessoas a sair do passeio para estrada, numa zona de autocarros e pouca luz (como é no inverno) é criminoso e cria em mim as mesmas raivas que li neste post .
Cheira muito a chico-espertismo e isso tira-me do sério.
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De João Campos a 20.07.2010 às 22:26

Exactamente. Já vi várias pessoas estacionarem correctamente na zona, irem fazer as suas compras, saírem do supermercado com os carrinhos de compras, descarregarem, e devolverem os carrinhos. Demora mais, sim, mas não impedem ninguém de circular normalmente.

E sim, a zona é muito mal iluminada, sobretudo no inverno. Mas não é esse o único problema: mantém-se uma situação incompreensível naquela parte da Duque D'Ávila e da Defensores de Chaves. Voltarei a isso um dia destes, quando arranjar uma máquina fotográfica.
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De João Campos a 20.07.2010 às 20:32

Ó Luís, V. não me dê ideias..!
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De Teresa Ribeiro a 20.07.2010 às 15:29

Pesadelo mesmo é tentar circular com um carrinho de bebé para gémeos. Não dá! Uma amiga minha já desistiu de o usar em Lisboa.
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De João Campos a 20.07.2010 às 20:31

Não me surpreende. Se um carrinho normal já é um sarilho, um carrinho "duplo" é um inferno.
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De FD a 21.07.2010 às 03:18

A meu ver a EMEL é horrível. Detestável até.
Se controlou algo, é possível.
Contudo milhares de pessoas são injustamente punidas severamente por uma forma típica Portuguesa, a repressão.
O povo é burro, regozija-se, bate palmas.

Não tendo sido educados e ensinados, sem alternativas, pouco instruído e egoísta. Esta gente fruto de uma estratégia de educação e cidadania errada, é multada e bloqueada como forma de educação alternativa.

Curiosamente esse tipo de método não é usado naqueles que de facto prevaricam e tornam esta sociedade insegura e cheia de medos, ladrões, patifes, marginais etc. A esses dão-se mil e uma hipóteses e perdões.

Enfim, eu como residente não tenho muito a apontar, contudo já assisti e tive algumas experiências caricatas.

Lembro-me de uma situação que me aconteceu, no qual um daqueles pilares que bloqueia alfama estava fechado, pedi ao operador que me facilitasse a entrada pois ia descarregar malas com uma moradora do bairro.

Ela inclusive deu os seus dados, no entanto nada feito. O operador que munido de recursos poderia resolver a situação fez o que um pilar fechado o teria feito sem ser necessário um ordenado e um suposto cérebro.
Era uma rua de difícil acesso, em curva, a descer, íngreme, o carro carregado e tinha-se acumulado uma fila enorme de outros carros que queriam entrar.

O sr ao invés de facilitar, resolveu embirrar e obrigar todos os contribuintes que lhe pagam cegamente o ordenado a fazer uma marcha-a-trás ridícula e desgastante para o material. Eu ia levar a amiga, outros tantos iam carregar e descarregar material para os restaurantes e bares. Uma tristeza.

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De João Carvalho a 21.07.2010 às 07:56

O que aqui nos conta nada tira nem põe ao que diz o João Campos. No entanto, é de reconhecer que casos como o que lhe aconteceu são igualmente comuns, infelizmente. Se um funcionário destacado para olhar por uma situação não serve para avaliar e decidir face a cada caso, então o funcionário não está lá a fazer nada mais do que figura de corpo presente, armado com o seu pequeno poder.

O problema focado no post descreve a falta de civismo de muita gente, implícita ao egoísmo anti-social de cada um. O problema focado por si, que é vulgarmente tolerado em silêncio pela sociedade, cruza também a falta de civismo, a qual resulta da impreparação de tantas pessoas para as funções que lhes são dadas e que incham com o poder sobre os outros.
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De João Campos a 21.07.2010 às 09:39

Se controlou algo, é possível.
Contudo milhares de pessoas são injustamente punidas severamente por uma forma típica Portuguesa, a repressão.
O povo é burro, regozija-se, bate palmas.


Acredito que tenham muitas falhas, e que muitos funcionários sofram de excesso de imbecilidade - mas isso acontece na EMEL, na Polícia, na Loja do Cidadão, num Hospital ou mesmo até no Parlamento. Isto que diz, porém, parece-me exagerado. Não é necessário um mestrado em Engenharia Aeroespacial para perceber o motivo pelo qual é errado estacionar em cima de um passeio; mas,vá lá, suponho - suponho apenas, pois nunca tirei carta - que nas aulas de código devem explicar que, entre outras coisas, é proibido estacionar em cima de passeios. Já não se trata de controlar através da repressão, mas de punir um acto que todos sabem muito bem estar errado. Bom, se não o soubessem não ligavam os piscas.
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De Virgínia a 21.07.2010 às 09:25

Uma coisa que me irrita valentemente é haver gente que leva o carro para ir ao café, levar e ir buscar os filhos à escola ou ir ao supermercado e o deixa estacionado de qualquer maneira, logo que seja o mais perto possível para não ter de caminhar muito.
Eu às vezes digo que só não levam o carro para dentro do café porque ele não entra na porta.
Depois destas balburdias e atropelos, aí que vão os dito cujos caminhar e correr nos belos passadiços do litoral de Gaia.
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De João Campos a 21.07.2010 às 12:04

É como a malta que se preocupa em deixar o carro tão próximo quanto possível do ginásio... :)
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De Ana Cláudia Vicente a 21.07.2010 às 16:33

João, o karma é lixado, como diz o outro :)
Pois eu já desisti de fazer de conta que não me importo com a forma como os portugueses lidam com os seus carros (ter sido atropelada num passeio lisboeta e ter desviado o septo por causa de uma ambulância acabou-me com os pudores), agora reajo sempre; como mantenho um sorriso antes de iniciar a descasca ao contraventor em geral este fica desconcertado, não parte para a brutidade.
Ainda neste sábado, numa das bombas de gasolina de Alfragide, um chico-esperto furou meia-fila fazendo de conta que ia só ver a pressão dos pneus, depois fez marcha atrás para entrar na minha fila (teve azar); eu abri o vidro e perguntei-lhe se sabia que agora havia isto das filas, para vivermos de uma forma mais ou menos civilizada; ele disse-me para chamar a polícia; eu respondi que a polícia ainda não tinha contingente para tratar de casos de má-criação.
E por azar calhou-lhe a fila mais lenta de toda a bomba, eh eh.

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