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Convidado: JOÃO SOUSA ANDRÉ

por Pedro Correia, em 19.07.10

 

O poder de uma conversa (ou Σωκράτης revisited)

 

Em 2001 saí de Portugal em direcção à Alemanha. Desde então, fora um pequeno interregno de dez meses em Portugal, não mais voltei. Hoje, num verdadeiro espírito internacionalista, vivo na Holanda, trabalho na Alemanha e tenho uma sérvia por mulher. No dia a dia viajam pela minha cabeça o inglês, alemão, holandês, português, espanhol e sérvio a velocidades que fariam o TGV parecer a linha do Tua (mas não tão bonito). Das línguas que falo fica o francês, a que seria a minha segunda língua estrangeira (coisas dos tempos da escola) em descanso e em corrosão permanente.

Serve esta introdução para quê? Para dizer a verdade não sabia bem quando comecei a escrevê-la. O convite do Delito de Opinião apanhou-me de tal forma de surpresa que fiquei em branco, como a página do word que tenho em frente dos olhos. Seguindo um conselho visto no filme de Gus van Sant Finding Forrester (uma pequena pérola sem o valor de um Elephant mas sem pretensões e muito agradável), acabei por começar por onde estou e deixar-me levar. A parte final do parágrafo acima decidiu-me: a minha relação com as línguas e as culturas.

Num momento em que se fala da falta de mundo de Sócrates e/ou de Passos Coelho, seria interessante ver o que é isso de ter mundo. Não é só uma questão de viagens, como se pode notar ao fim de dois dedos de conversa por quem tenha passado a vida em viagens turísticas. Não é apenas o cheirar da cidade, tal como se consegue ao por ela passear sem destino (ignorando as armadilhas de turistas) observando as pessoas. Tampouco será a conversa com os habitantes desse mundo (que se supõe sempre exterior às nossas fronteiras) que comunicam connosco noutra língua que não a deles - se estamos em igualdade linguística não ganharemos muita perspectiva do seu mundo.

O mundo, tal como o vejo, ganha-se ao perceber a conversa entre duas outras pessoas nas suas línguas maternas. Perceber a gíria, os palavrões, as expressões, as inflexões (o alemão doch vale mais que bibliotecas inteiras sobre a mentalidade teutónica) e o tom das vozes ao dizerem certas palavras. Aprendi mais sobre holandeses a ver o jogo do mundial de 2006 entre Portugal e a Holanda na companhia de amigos do que a ler o famoso livro The Undutchables (http://www.undutchables.com/). Passei a notar mais a proximidade cultural dos sérvios com Portugal após com eles partilhar a comida e ouvir as conversas, mesmo que a custo. Uma cerveja num Biergarten na companhia de alemães não obrigados a mudar de língua abre portas nunca antes imaginadas no país.

E que aprendi com essas línguas? Bom, que muito há a aprender, mas que muito do que deve ser aprendido sobre outro povo já conhecemos. As diferenças são muitas vezes enormes, mas ainda maiores são as distâncias entre a percepção que existe desse povo e a realidade (quem diria que os alemães, após passar a frieza inicial, podem ser das pessoas mais afáveis do mundo?).

Antes de sair do país eu confessava-me, antes de mais, europeu e só depois português. Pensava-o por julgar os europeus muito semelhantes, por os ver apenas como pequenas variações sobre o mesmo tema. Hoje, após ver o erro inerente a esse pensamento, ainda mais me afirmo português. Em parte porque perdi alguma identidade portuguesa, mas em muito maior parte por ter percebido aquilo que une os europeus e, acima de tudo, os seres humanos: os simples afectos desbloqueados por uma conversa.

Sócrates, o original, é que a sabia toda.

 

João Sousa André

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6 comentários

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De João André a 19.07.2010 às 12:46

Caro Pedro e restantes "delinquentes", muito obrigado pelo convite. É um prazer ter sido por vós convidado.
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De João Carvalho a 19.07.2010 às 13:05

Prazer senti-o eu ao ler o que aqui nos oferece, João. Parabéns.
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De Pedro Rosa de Oliveira a 19.07.2010 às 14:36

Parabéns aos editores do DO pelo convite que fizeram ao JSA, um excelente texto do que é isso de ser Português, ou será Europeu?...
abraço
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De a. pinho cardão a 19.07.2010 às 16:45

Excelente iniciativa a do Pedro Correia, que se materializa em textos com a qualidade do presente.
O post traduz de forma precisa o que também sinto, mas nunca consegui rexprimir de forma tão certa.
Parabéns ao autor.
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De Teresa Ribeiro a 20.07.2010 às 15:42

Gostei tanto! Parabéns, caro João.
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De Pedro Correia a 21.07.2010 às 00:16

Caro João: em férias (também de blogosfera), passei por aqui de fugida só para deixar uma palavra pública de agradecimento por esta excelente resposta ao nosso convite. Nem o presidente da Comissão Europeia conseguiria definir uma ideia de Europa de forma tão original, tão estimulante - e tão certeira.
Um abraço. E até breve.

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