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Encatrupigaitado

por Pedro Correia, em 30.06.10

Adoro ouvir falar futebolês na televisão. Adoro aqueles neologismos muito giros debitados pelos locutores do desporto-rei. Adoro o léxico muito típico de quem tem por missão relatar jogos de futebol no pequeno ecrã.

É um idioma tão moldável que até podemos falar futebolês sem estarmos propriamente a falar de futebol. Não acreditam? Ora vejam só como isso é possível.

 

A postura competitiva da equipa de todos nós tem vindo a esvaziar-se na segunda metade do tempo regulamentar deste jogo decisivo. Há até quem aponte a necessidade de fazer substituições de uma assentada no plantel, de modo a que este posso mostrar não só a força da técnica mas igualmente a técnica da força, atirando a bola para o melhor sítio.

Fala-se muito, por exemplo, na necessidade de refrescar o sector recuado para desfeitear as ofensivas dos times adversários. Uma defesa bem escalonada é meio caminho andado para as vitórias no relvado.

Um dos problemas desta equipa é a baliza, que tem estado mal guarnecida. Pereira, o guarda-redes, mostra-se amiúde mal colocado entre os postes e intercepta de forma deficiente muitos cruzamentos despejados na grande área, revelando uma certa tendência para deixar entrar frangos. Além disso tem sido vítima de surtos de violência dentro das quatro linhas, o que contribui para a sua desconcentração e a sua insegurança. É um dos elementos que se candidatam a ir para o duche mais cedo.

 

O defesa Jorge também revela algumas debilidades. O seu maior calcanhar de Aquiles é ser fisicamente pouco possante, o que o coloca em posição de inferioridade no embate com o plantel adversário. Apesar da sua baixa estatura tem, porém, boas ideias ao nível da exploração do espaço aéreo. Principal ponto negativo: a fraca pulmadura, que não aguenta 90 minutos em toada competitiva.

O outro defesa, Augusto, é um falso lento, o que por vezes confunde e desbarata os adversários. E joga bem de cabeça, o que noutros desafios já contribuiu para fazer a bola anichar-se nas redes contrárias. Capaz de bons gestos técnicos, tem no entanto o defeito de ser muito individualista e de se enredar nos seus próprios dribles. Por vezes parece querer a redondinha só para ele.

O médio Serrano domina bem o esférico e, devido à sua estatura meã, revela-se exímio na forma como conduz a bola à flor da relva. Mas, tal como Jorge, é desfavorecido no confronto com antagonistas dotados de melhor planta atlética. Além disso as suas características combinam mal com Vieira, o outro médio, muito económico nos lances de jogo que consegue criar no miolo do terreno. Ao contrário de alguns dos seus colegas, este elemento do plantel raramente joga para a bancada, nunca fazendo levantar o terceiro anel. A seu favor pode dizer-se que sabe aproveitar bem os espaços vazios.

 

À frente as coisas complicam-se um pouco mais. Porque os dois jogadores mais adiantados no rectângulo articulam mal as jogadas, ao que parece por incompatibilidades de ordem tecnico-táctica, apesar de serem dotados de boa destreza individual. Teixeira corre bem pela direita, às vezes como se fosse um extremo, e é conhecido pelas suas fintas primorosas. O seu maior defeito é ter um pé cego, que é o esquerdo. Mendonça, por sua vez, joga bem com os dois pés e assume-se também como especialista nos lances de arremesso manual. O seu ponto fraco são as jogadas de cabeça. Quando tenta dizer que sim à bola jogando-a com a testa, o esférico acaba sempre por sair junto ao poste mais distante, não chegando a criar real perigo para as malhas adversárias.

É de louvar, de qualquer modo, a postura atacante que Teixeira e Mendonça revelam no último terço do terreno. O pior é que os dois estão a desentender-se cada vez mais na hora da verdade, afectando o rendimento do conjunto.

 

Entretanto há quem diga que a raiz do problema não está nos jogadores mas no treinador que orienta a equipa há seis temporadas. Fala-se na necessidade de uma chicotada psicológica, admitindo-se a possibilidade de o técnico José - por alcunha "o Engenheiro" - deixar o time no final da presente época. Alguns adeptos garantem que ele é o grande responsável pelo plantel se ter mostrado tão encatrupigaitado nos últimos desafios que disputou.

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13 comentários

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De Pedro Coimbra a 30.06.2010 às 15:15

E será que o outro técnico, Coelho, é melhor que o actual?
É que o futebol é uma caixinha de surpresas.
E os treinadores, e os jogadores, são como os melões - só depois de abertos é que se sabe se são bons.
Enfim, aquilo que todos sabemos - o futebol é mesmo assim.
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De Ana Cláudia Vicente a 30.06.2010 às 16:11

Acredito que todos nós temos um momento em que a coisa está de tal maneira que só carregando no mute ; o meu momento, ontem, foi aquele em que (lá pelos 70 minutos) o Humberto Coelho se lembrou de afirmar:

"futebol é um jogo que se joga com os pés"


*suspiro*
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De Ana Cláudia Vicente a 30.06.2010 às 16:15

moral da história: antes um comentador truísta que uma equipa inteira que não sabe bascular...
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De mdsol a 30.06.2010 às 22:26

Ana Cláudia

Tenho muito má impressão da maioria dos "comentadeiros" de serviço. Não ouvi a frase que refere e, portanto, não sei o contexto em que foi proferida. É-me muito fácil perceber o seu reparo.
Porém, pode haver situações em que se justifique dizer essa coisa tão óbvia. Acentuar a dificuldade do domínio da bola para, por exemplo, compreender melhor a falta de precisão num passe longo, ou acentuar exactamente essa precisão. Digo eu...
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De Ana Cláudia Vicente a 01.07.2010 às 00:38

Mdsol,
é verdade que se pode dizer isto de forma meta-literal e bem certeira em várias situações, como acontece com o dito 'a bola é redonda'.
No caso pareceu-me que se tratava apenas de já terem passado vários minutos sobre o golo do Villa, as coisas não estarem a melhorar para o nosso lado e ambos os comentadores da SporTV, embaçados como os demais, quererem esconjurar a tensão e o indesejado silêncio em antena com umas quantas frases-bordão, sem grande sequência. Mas enfim, fazer um directo longo nãoserá fácil.
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De M.Deus a 30.06.2010 às 15:16

Gostei, mas faltou-lhe aqui uma peça importante do plantel: presidente Gilberto. Os dribles não têm sido os mais oportunos e o esférico perde-se pela linha de fundo e sujeita-se, quiçá bem, a perder o próximo desafio.
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De Pedro Correia a 01.07.2010 às 01:07

Faltou trazer aqui também aquela frase imortal do Artur Jorge: "Fizemos coisas bonitas."
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De João Carvalho a 30.06.2010 às 16:33

Encatrupigaitei-me imenso com a descrição.
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De Pedro Correia a 01.07.2010 às 01:08

Neste Mundial tem havido cada encatrupigaitada de vuvuzelas...
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De Pedro Rosa de Oliveira a 30.06.2010 às 16:39

Ganda encatrupigaitada ;)
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De João Carvalho a 30.06.2010 às 17:26

Gaitada não sei, mas vuvuzelada...
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De Luísa Correia a 30.06.2010 às 17:42

Deliro, Pedro. Melhor, só com touros ou vinhos. ;-D
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De Pedro Correia a 01.07.2010 às 01:08

Touros e vinhos também virão aqui. Talvez primeiro o vinho, que escorrega mais depressa.

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