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1914: tão longe e tão perto

por Pedro Correia, em 25.01.14

       

 

Entre os nomes mais obscuros que marcaram o século XX inclui-se o de Gavrilo Princip. Poucos se lembrarão hoje de quem se trata. Era um jovem sérvio residente em Sarajevo, capital da Bósnia ocupada pelo Império Austro-Húngaro. De saúde frágil e pequena estatura, pertencia a uma sociedade secreta eslava denominada Mão Negra. A 28 de Junho de 1914, durante uma visita a Sarajevo do herdeiro da coroa austro-húngara, Francisco Fernando, um capricho do destino colocou o jovem no trajecto do príncipe: Princip disparou vários tiros do seu revólver Browning, matando-o.

Eram os primeiros disparos da I Guerra Mundial -- o mais sangrento conflito de que houve registo até então. Prolongou-se até 1918 -- ano em que Gavrilo Princip morreu de tuberculose numa prisão da Boémia. Para trás ficava um macabro cortejo de 20 milhões de mortos.

Vai fazer cem anos: tão longe e tão perto. Quase nada, numa perspectiva histórica.


10 comentários

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De Luís Lavoura a 25.01.2014 às 16:19

Eram os primeiros disparos da I Guerra Mundial

Eu diria que entre esse assassinato e o começo da Guerra Mundial foi uma cadeia de acontecimentos nada trivial e dificilmente previsível.
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De xico a 25.01.2014 às 23:41

Dificilmente previsível???!!!
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De da Maia a 25.01.2014 às 20:07

Nestes tempos de novo império, já não se fala em assassinato político.
Meros actos terroristas que dificilmente chegam a prisão, tal como aconteceu com Buiça e Costa...
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De Pedro Correia a 26.01.2014 às 23:34

É arrepiante verificarmos que aquela que foi até então a guerra mais mortífera da história, com o seu macabro cortejo de mais de vinte milhões de cadáveres, podia nem sequer ter acontecido. Bastava que o carro em que seguia o príncipe não tivesse passado por ali, naquele instante exacto. Bastava que aquele dedo não tivesse premido aquele gatilho.
E a I Guerra esteve igualmente na origem directa II. Há até historiadores que falam em Guerra dos 30 Anos (entre 1914 e 1945). Porque entre uma e outra não cessaram os conflitos bélicos de grande intensidade nas mais diversas partes do mundo.
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De da Maia a 27.01.2014 às 03:27

Tenho muitas dúvidas, caro Pedro.
Não sei se aquele foi o primeiro pretexto, mas não seria o último...

A Alemanha-Prússia estava a tornar-se incontrolada, o que levou à
http://en.wikipedia.org/wiki/Entente_cordiale
Apesar do espartilho posterior à 1ª Guerra:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Ocupa%C3%A7%C3%A3o_do_Ruhr
esse mesmo descontrolo dos carris alemães prosseguiu com a reorganização nazi.

Entre isto:
www.ebay.com/itm/MAGAZINE-TIME-ADOLF-HITLER-APRIL-13-1936-/231127019654
e isto
http://www.ebay.com/itm/Time-Magazine-May-7-1945-Pacific-Pony-Edition-Adolf-Hitler-X-cover-/121139866432

convém lembrar que Hitler e Stalin foram eleitos "Pessoas do Ano", pela Time, antes da 2ª Guerra Mundial... e não era distinção habitual dada a "inimigos".
Aliás, ninguém boicotou as Olimpíadas de 1936, e as simpatias nazis eram múltiplas, desde a Inglaterra dos "Simpsons abdicados" aos EUA dos "Lindbergh e Bush avós".
Na Europa, entre 1ª e 2ª guerras, só houve um país que praticamente viu a coisa de longe... pois! E como Salazar pensava já na 3ª, pagámos essa factura em África.


Para além de Gravilo, há ainda David Frankfurter:
http://en.wikipedia.org/wiki/David_Frankfurter
que foi preso na Suiça por assassinar um líder nazi.

Ora, os nazis construíram um enorme navio em sua homenagem:
http://en.wikipedia.org/wiki/MV_Wilhelm_Gustloff
... e se David Frankfurter sobreviveu à 2ª Guerra, o mesmo não podem dizer as quase 10 000 vítimas civis alemãs, resultantes desse afundamento, a que acrescem outras dezenas de milhar em similares afundamentos de navios hospital, civis, etc... levados a cabo pelos aliados, ingleses e soviéticos, quando a guerra já tinha o seu curso praticamente definido.

Complicado, meu caro, complicado...
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De Pedro Correia a 27.01.2014 às 14:50

Julgo que a I Guerra Mundial teria sido facilmente evitável, meu caro. Todas as guerras são estúpidas, mas nenhuma foi tão estúpida como esta, numa demonstração evidente de que a natureza humana não acompanha o ciclo das grandes evoluções científicas e tecnológicas. E - como diria La Palice - a segunda decorreu da primeira. Mas no entretanto o mundo nunca deixou de estar em guerra - numa espécie de múltiplos ensaios rumo à carnificina geral: a guerra greco-turca, a guerra civil russa, a guerra polaco-soviética, as "campanhas" marroquinas, a invasão da Abíssinia pela Itália, a guerra sino-nipónica, a guerra civil espanhola...
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De João André a 28.01.2014 às 08:49

Pedro, julgo que todos os historiadores concordam que a guerra teria sido facilmente evitável. O problema é que as decisões foram feitas pelas pessoas que estavam então no poder e esses sofriam de miopia e queriam cavalgar certas ondas populares. Perante esses dados, tenho as minhas dúvidas que a guerra fosse evitável. Foi o assassinato que deu origem à guerra (já agora, tudo porque o condutor do carro se enganou no caminho), mas não tivesse acontecido esse azar teria sucedido outro. O continente estava à beira de explodir, era só uma questão de alguém se escquecer do cigarro aceso.

Já antes da I Guerra Mundial tinha havido uma sucessão de conflitos regionais mal resolvidos. Como sabes, muitos dos políticos de então entendiam que era necessário ter de facto uma guerra global para resolver todas essas questões. Até tinham (alguma) razão: a II Guerra Mundial de facto resolveu a maior parte dos conflitos na Europa, pelo menos por uns tempos, embora desastrosamente (Cortina de Ferro). Eu até tenho dificuldades em lhes chamar I e II Guerra Mundiais. Para mim trata-se essencialmente de uma única guerra, com um período de 21 anos de pausa.
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De Pedro Correia a 28.01.2014 às 09:47

Sím, João. No futuro os historiadores ligarão uma guerra à outra: esse intervalo de 21 anos foi uma espécie de episódio de tréguas ilusórias e fugidias. Uma irrelevância quando for olhado à distância de séculos.
O que pretendo dizer, no fundo, relaciona-se com isto. Tudo sucedeu há pouquíssimo tempo em termos históricos. Nunca devemos ter como garantida a 'paz perpétua', como os nossos bisavós ilusoriamente pensaram. Por vezes basta um rastilho. O mais imprevisto dos rastilhos. Nem que seja devido a um simples engano de um motorista num breve percurso de automóvel.
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De Eduardo Freitas a 25.01.2014 às 22:23

A guerra que, supostamente, iria acabar com todas as guerras. A guerra que, afinal, foi ela própria parte do início de uma galeria de horrores inomináveis.

Se a historiografia nos dias de hoje já não aceita imputar à Alemanha a responsabilidade primeira pelo seu início, perfilando antes uma partilha de responsabilidades cruzadas pelos diferentes contendores, poucos questionam a bondade da "guerra justa" que Woodrow Wilson, por motivos "humanitários", entendeu ser parte integrante (e longamente planeou, Lusitânia incluído) e que viria a decidir o desfecho. Aquele que pôs Lenine no poder e preparou o terreno para um Hitler "redentor". Roosevelt, mais tarde, haveria de prosseguir o que Wilson iniciou. Com resultados duplamente destruidores e já não apenas no teatro europeu. Nomeadamente, porque a Stalin iria agora juntar-se Mao.
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De Pedro Correia a 26.01.2014 às 23:39

Sim, Eduardo. Sabe-se hoje como eram ilusórias e enganadoras as proclamações do início do século sobre uma nova aurora redentora da Humanidade em que o progresso fluiria numa irreversível linha recta, deixando para trás as trevas do passado.
Mal sabiam essas almas ingénuas que o século XX seria, como nenhum outro foi, marcado pelo fogo e pelo ferro e pelo sangue. Com uma ferocidade atávica e homicida, suplantando em primitivismo os nossos mais remotos antepassados que habitavam as cavernas.

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