É um direito que lhe assiste. Conheço mais assim, conheço até quem nunca tenha lido e opine sobre a obra. Pobres de espírito e nada mais.
Depende, Leonor. Eu também nunca li Saramago, para além de meia dúzia de linhas. Por nenhum motivo em especial: simplesmente porque nunca tive qualquer interesse. Nos meus tempos de secundário, as escolas ainda podiam escolher, no décimo-segundo ano, entre o "Memorial do Convento" e "Aparição"; estudei o segundo, e é um dos livros da minha vida (se tal ideia faz sentido). A obra de Saramago, como a de muitos outros, nunca me interessou. É possível que esteja enganado. Não sei.
No entanto, lamento a sua morte, como em Janeiro lamentei a de Salinger, um dos meus escritores preferidos. E continuo a não compreender o motivo pelo qual Vergílio Ferreira foi excluído dos programas curriculares do secundário.
Não ler é um direito, João, mas tecer comentários à obra que não se leu é absolutamente idiota. Para opinar é preciso ler, naturalmente. Eu não li Vergílio Ferreira (ainda), logo não tenho qualquer conhecimento sobre a obra. Saber o que um escritor escreveu não é de todo conhecer a sua obra. Sou uma leitora tardia de Saramago, li o Memorial porque tinha organizado um encontro de 'Bookcrossing' cá em Mafra e senti que tinha mesmo de o fazer, também porque sou de Mafra e Saramago continua a ser mal-amado porque é comunista. De forma alguma acho que todos devem ler Saramago e muito menos que têm de gostar mas opinar sem conhecer é inane, igual se Saramago ou outro qualquer. Já o Salinger não me diz nada, embora só tenha lido The Catcher in the Rye no Secundário.
"The Catcher in the Rye" no secundário? Cá em Portugal?
(quanto ao resto, concordo em absoluto. E gosto muito do pão de Mafra :) )
Sim, João, foi no 12º ano mas já há uns 28 anos.
Quanto ao pão, posso levar uns casqueiros e um pãozito com chouriço para o nosso próximo jantar :)))
Vou-me lembrar disso, Leonor :)
E nunca me passou pela cabeça que Salinger tivesse algum dia feito parte dos programas do secundário. Bom. Era certamente melhor que alguns xaropes que tive de tomar durante aqueles três anos...
Eu é que tenho de me lembrar também :)
Sabes, João, eu na altura achei o Salinger uma xaropada e ainda não recuperei mas acho que quando não conseguimos entrar num livro a 'culpa' não é do dito mas nossa.
Depende do livro, mas no geral diria que a teoria está correcta. No décimo-primeiro ano, uma das obras de leitura obrigatória era "Viagens na Minha Terra", de Garrett. Levei semanas a pegar no livro, e nunca conseguia ir além do terceiro capítulo. Isto até uma noite em que cheguei ao sexto e já não consegui parar de ler. E poderia dar outros exemplos de livros que não me impressionaram à primeira leitura, e que viriam a tornar-se favoritos com a segunda (e o mesmo aplica-se à música e ao cinema).
Leonor,
Li o Memorial há muitos anos, comecei um outro sobre Lisboa de que não me recordo o nome e que desisti de ler no inicio (só leio por prazer e não estava a gostar) e também li o Ensaio sobre a Cegueira. Ao dizer isto pode depreender que gostei destas duas obras o suficiente para as ter terminado.
O meu comentário é curto e, claro, permite muitas interpretações. Não me incomodo ser classificado como pobre de espírito, mas respondo apenas porque gostaria de que no final do meu comentário houvesse mais quem pensasse como eu...
Saramago é o iberista português da nossa geração e muita da admiração que goza em Espanha prende-se com isso mesmo.
Portugal tem tantos problemas (sendo que nenhum é irresolúvel) que dispensa trazer o iberismo ao debate.
Olhando para isto não deixam de ser curiosas declarações de Mario Soares (curiosas... hoje estou simpático) que sugere que Saramago, alguém que defendeu o absorção de Portugal por Espanha, seja sepultado no Panteão Nacional.
Para além disto sempre entendi as inúmeras declarações (sempre marcadas pela polémica) que fez após ter recebido o Nobel não foram mais que manobras de marketing, essa vil face do capitalismo burguês, manobras essas destinadas a promoverem a sua notoriedade. Pessoalmente acho o método legítimo, mas não cola com um comunista tão crítico para com o modus operandi da civilização ocidental.
Por tudo isto, e talvez ainda mais, quando li o seu post apeteceu-me dizer: Ok. Não irei ler, como quem diz, não o quero homenagear.
"Os pobres de espírito" não era obviamente para si mas para os que citei e que já referi num comentário anterior: os que não lendo Saramago continuam a alegar que não lerão e que opinam sobre a sua obra. Também como já disse, não ler é um direito.
Vamos lá ver se é agora que consigo passar da terceira página de um livro do dito...
Não sei se a morte dos escritores os torna mais legíveis mas pode sempre tentar.
Bela pergunta filosófica, mas uma coisa lhe garanto: não preciso de me esconder atrás de um pseudónimo para exprimir as minhas opiniões.
Esse é o argumento que sempre se usa quando não há mais.
Mas o anonimato é, às vezes, uma arma - e, no caso, traduz uma realidade com muito por contar. Talvez um dia, se houver tempo...
Obviamente. A pergunta que me fez usa-se quando se quer diminuir o outro, não a tenho como um argumento particularmente simpático. Quanto ao anonimato, pode ter as razões que quiser mas não gosto de quem não usa o seu nome, se esconde e ainda é deselegante com os outros, comigo neste caso.
Uma arma disparada por quem não tem convicção, coragem ou segurança suficientes para empunhá-la sem equívocos, mas serve para matar a eito? Fraca arma.
Ó ex-não-sei-quê, que vem a ser isso? «Quem é você?» Isso são modos de se dirigir a uma senhora? Outro ensaio do género e veja se adivinha onde vai parar.
Mais um corajoso anónimo entrou aqui de lança-chamas em riste. Não me merece qualquer consideração, pelo tom, pelo estilo - e pelo anonimato. Até o Rambo cumpria o preceito ético mínimo de não disparar contra mortos.
Fiquei a tremer de medo de vocês todos, calculem! E logo eu que, na altura própria, até nem tive medo do dito cujo, ora defunto. Coisas da idade, claro. Lá chegarão, com toda essa sabedoria e, sobretudo, arte de me ensinar.
Quanto ao Pedro, gostei do post que escreveu mais acima, excepto na parte em que se "esqueceu" dos saneamentos no jornal a que ora pertence e muito bem.
Eu não esqueci isso. Tal como não esqueço que Saramago ficou desempregado durante quatro anos, até obter um contrato do Círculo de Leitores, e na altura nem o Partido Comunista lhe deu emprego no jornal que então tinha, 'o diário'.
Quando Saramago era vivo, e lia blogues, referi mais de uma vez esse lamentável episódio da carreira jornalística dele, de que certamente não se orgulhava. Mas não é agora, na hora em que morre, o momento de regressar a esse facto que constitui uma mancha no percurso jornalístico dele. Os profissionais que foram afastados do DN em 1975 (mas também os de 1974, e os de 1976) mereceram-me e mecerem-me toda a solidariedade, como é óbvio. É uma posição de princípio de que não abdico, seja qual for a força política que "inspira" os "saneamentos".
Dito isto, continuo sem entender o seu anonimato.