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Os filmes da minha vida (4)

por Pedro Correia, em 28.06.10

A DESAPARECIDA:

JURAR PARA SEMPRE, NA GUERRA E NO AMOR

 
Não existe melhor interpretação em cinema do que a de John Wayne como protagonista deste filme. É verdadeiramente insuperável o que o actor favorito de John Ford faz aqui com um olhar fixo, um gesto tenso, um simples esgar ou um silêncio que parece eternizar-se. A Desaparecida é um filme cheio de silêncios prolongados e magoados: Ethan Edwards (Wayne) arrasta consigo um segredo por desvendar. "A guerra já acabou há três anos. Porque não voltaste antes?", pergunta-lhe o irmão, Aaron, ao vê-lo chegar com tanto atraso. A pergunta fica sem resposta. Há imensas perguntas sem resposta neste filme.
Estamos no Texas, em 1868. Wayne combatera na guerra civil (1861-65), pelos confederados. A derrota marcou-o: jamais voltará a ser o mesmo. "Um homem só pode ser fiel a um juramento", diz ele, num discurso feito de entrelinhas. A Desaparecida é não só um filme de admiráveis silêncios, mas também de meias-palavras e de eloquentes subentendidos. É neste plano, apenas pressentido, que se desenrola a paixão de Ethan pela cunhada, Martha (Dorothy Jordan). Terá sido este sentimento proibido que o manteve à distância? Nunca saberemos. Mas quando a casa do irmão é destruída pelos comanches, Ethan chama desvairadamente por Martha: adquirimos então a certeza de que este western encerra também uma profunda e trágica história de amor.

 

São ainda os ecos secretos da paixão por Martha que levam Wayne a deambular durante cinco anos um pouco por toda a parte, procurando obsessivamente resgatar a sobrinha Debbie, raptada pelos índios. É o único laço de família que lhe resta - a última amarra que o prende ao mundo e à memória da mulher que amou. Com ele, seguindo-o como uma sombra, galopa Martin Pawley (o malogrado Jeffrey Hunter), órfão de pai e mãe, filho adoptivo de Martha e Aaron. Este mestiço de índio, espécie de consciência moral de Ethan, é uma das grandes personagens de toda a obra de Ford: o seu humanismo congénito contrasta com a figura desencantada do confederado. Numa das mais belas cenas deste filme semeado de elipses, Wayne sugere-lhe o motivo por que jamais desistirá da busca por Debbie, a mais nova das suas sobrinhas: "Eles [os comanches] vão criá-la durante tempo suficiente para..." Não diz mais, mas a neve que cai, incessante, completa-lhe o discurso.

É assim o grande cinema.
E quando enfim encontram Debbie as piores expectativas do homem que só fez um juramento haviam-se concretizado. Cruzam-se aqui diversas noções de honra que Ford sabiamente põe em confronto sem nunca assumir a pose de vendedor ambulante de "mensagens". As imagens dizem tudo - da arrepiante sequência em que Ethan descobre o escalpe de Martha à cena culminante, em que o duro confederado resolve enfim o dilema moral que há muito o perseguia no momento em que pega na sobrinha ao colo - a filha do amor da sua vida, sangue do seu sangue - e lhe diz, com toda a ternura que nele sobrevive: "Let's go home, Debbie." Momento mágico numa longa-metragem que está repleta deles.


A Desaparecida é o melhor western de todos os tempos - obra-prima absoluta. Um filme sobre um amor impossível, um filme sobre o inapelável peso da solidão. Começa com uma porta aberta, rasgada para a beleza em estado bruto de Monument Valley, quando Martha vê Ethan a cavalgar no horizonte, e termina com o mesmo enquadramento. Só que Martha já não existe. Wayne, que chegara com atraso, parte agora, rumo ao desconhecido. Missão cumprida, é tempo de levantar âncora. Nunca saberemos de onde veio, nunca saberemos para onde vai. Sabemos apenas que, na guerra como no amor, ele se manteve fiel ao que jurou. Quantos poderão dizer o mesmo nas várias vidas que uma vida tem?

..............................................

A Desaparecida (The Searchers, 1956). Realizador: John Ford. Principais intérpretes: John Wayne, Jeffrey Hunter, Vera Miles, Ward Bond, Natalie Wood, John Qualen, Harry Carey Jr.


15 comentários

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De Daniel João Santos a 28.06.2010 às 22:15

tanto a RTP memoria como no Sabado a RTP2 tem feito as delicias de quem gosta do género, como é o meu caso.
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De Pedro Correia a 29.06.2010 às 01:02

Na RTP Memória revi recentemente duas obras-primas do cinema - também filmes da minha vida - que também passsarão por aqui. 'Laura' e 'As Vinhas da Ira'.
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De Teresa Ribeiro a 29.06.2010 às 01:10

Excelente texto, como sempre.
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De Pedro Correia a 29.06.2010 às 01:32

Obrigado, Teresa. Penso que mesmo quem não aprecia o 'western' como género cinematográfico não pode deixar de ficar deslumbrado com este filme.
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De João André a 29.06.2010 às 09:08

Um grande filme Pedro, subscrevo quase tudo. A única coisa que não subscrevo é a afirmação: «o melhor western de todos os tempos», embora seja uma questão subjectiva. Dentro do género acabo por preferir "Quem matou Liberty Valance", "O Bom, o Mau e o Vilão" e "Rio Bravo" (todos bem distintos). Se me cingir a qual o melhor western por cumprir "as regras" (sejam elas quais forem), talvez opte mesmo por "Rio Bravo". "A Desaparecida" será algo mais, é algo que sendo um western, transcende o género. Será talvez "menos western", mas é mais filme. Porventura o mais abrangente da carreira de Ford.
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De João Carvalho a 29.06.2010 às 10:55

O mais abrangente da Ford não foi o Ford T?...
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De João André a 29.06.2010 às 11:37

Só para quem quisesse a cor preta...
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De João Carvalho a 29.06.2010 às 12:59

... ou qualquer outra, desde que também fosse preta!
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De Jorge "Cantoneiro" a 17.03.2013 às 15:44

Caro Alexandre Carvalho da Silveira:
O Actor que procura é Harry Carey !

"Harry Carey - As an homage to him, John Wayne held his right elbow with his left hand in the closing shot of The Searchers, imitating a stance Carey himself often used in his films. According to Wayne, both he and Carey's widow Olive (who costarred in the film) wept when the scene was finished."
Atenciosamente: Jorge "Cantoneiro" - ODIVELAS

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De Pedro Coimbra a 29.06.2010 às 10:29

Por estes dias é Elia Kazan que ando a destacar.
Elia Kazan dá-me o pretexto para destacar, em seguida, Brando.
John Ford também chegará brevemente.
E este é um dos filmes obrigatórios.
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De Pedro Correia a 29.06.2010 às 14:54

O Kazan também passará por cá.
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De alexandre carvalho da silveira a 29.06.2010 às 13:31

Tambem para mim os dois melhores westerns são " O Homem que Matou Liberty Valence" e "Rio Bravo" que revi deliciado há 3 ou 4 dias. "A Desaparecida" é um dos melhores, mas às tantas falta-lhe qualquer coisa. Mas é apenas a minha opinião.
Aquele gesto de por a mão esquerda sobre o braço direito, que Wayne faz na ultima cena que é de antologia com a camara a recuar para dentro de casa, foi uma homenagem que ele quiz fazer a um actor já desaparecido quando o filme foi feito, e marido de uma actriz que participou no filme; alguem me sabe dizer o nome do referido actor? fico desde já agradecido.
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De Pedro Correia a 29.06.2010 às 14:54

Gosto muito desses dois 'westerns' que mencionou. E também do 'Shane'. E do 'Johnny Guitar'.
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De Pedro Coimbra a 29.06.2010 às 17:12

Exactamente Pedro.
Falar de westerns "obriga" a falar de Shane.
"Passou" no final da semana no meu blogue.
Pessoalmente, sou um fã incondicional dos spaghetti westerns.
E do fabuloso Once Upon a Time in The West.
Sergio Leone e Ennio Morricone são irresistíveis.
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De Pedro Correia a 29.06.2010 às 17:39

Eu também gosto de 'westerns'. Até gosto de 'westerns' de série B.

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