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A república dos "doutores"

por Pedro Correia, em 10.06.10

 

Ouço nas comissões parlamentares – nomeadamente nas recentes audições realizadas na Comissão de Ética da Assembleia da República e na comissão de inquérito à suposta interferência do Governo no negócio PT/TVI – alguns cidadãos serem tratados por “doutor”. É algo que fere o direito de igualdade entre os portugueses, que mais que ninguém os deputados deviam preservar, estimular e defender.

No Parlamento – casa da democracia – todos os cidadãos deviam receber o mesmo tipo de tratamento. É isso que sucede nas restantes instituições parlamentares europeias. Em Espanha, existe señor, como forma geral de tratamento; em França, monsieur; no Reino Unido, mister. Esta anacrónica mania portuguesa de fazer substituir os duques, marqueses e viscondes de antanho pelos “doutores” e “engenheiros” de agora, muitos deles aliás sem terem qualificações académicas para merecerem ser tratados desta forma, devia terminar – com a Assembleia da República a dar o exemplo. Seria uma forma muito concreta de assinalar o centenário da proclamação do regime republicano. Espero não voltar a ouvir um presidente de uma comissão parlamentar de inquérito dividir os cidadãos que lá prestam depoimento em “senhores” e “doutores”: não concebo uma atitude menos republicana que esta.

É a reflexão que deixo para o 10 de Junho.

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142 comentários

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De João Carvalho a 10.06.2010 às 09:49

Curiosidade: é vulgar um comum mortal ser "senhor" e um licenciado passar a simples "doutor" e deixar de ser um "senhor", o que é um disparate.

Mau exemplo: no PS, onde eram todos "camaradas" no passado, passaram todos a referir-se aos seus pares como "doutores" e "engenheiros", como se tivessem agora vergonha da palavra que andaram tanto tempo a cultivar - eles lá saberão porquê.
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De Pedro Correia a 10.06.2010 às 23:45

Nem um vestígio do espírito republicano, nessa forma de tratamento. Que viola um dos mandamentos da Constituição da República: o direito à igualdade.
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De Pedro Coimbra a 10.06.2010 às 10:34

E provinciana Pedro, profundamente provinciana.
No 10 de Junho a minha reflexão é esta
http://devaneiosaoriente.blogspot.com/2010/06/10-de-junho-pragmatismo-e-diplomacia-ou.html
Ajudem a divulgar também aí, pf.
Quanto maior for a pressão, mais possibilidades haverá de se saber o que aconteceu ao Luís Amorim e de levar os assasinos à Justiça.
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De Pedro Correia a 10.06.2010 às 23:46

Muito bem, Pedro. É como diz: um profundo provincianismo. No pior sentido da expressão.
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De ariel a 10.06.2010 às 10:59

Subscrevo. infelizmente há cada vez mais "doutores" e "engenheiros" e cada vez menos "senhores". Não me parece que tenhamos ficado a ganhar com a troca...
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De Maria Eduarda Correia de Sousa Coelho a 10.06.2010 às 20:19

Realmente tem razão, em Portugal todos fazem questão de serem chamados de doutores, os doutores não são tantos, mas sim licenciados...realmente seria de bom tom, que fossem chamados de senhores e isso já tem muito que se lhe diga.
Por vezes, parece-me que as pessoas perdem a própria identidade, não chego a saber o nome deles, porque só ouço a tratá-los por doutores.... e eles respondem, o nome próprio nem o chego a ouvir....
Mas é isto que alimenta o ego da maior parte deles......
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De Pedro Correia a 10.06.2010 às 23:46

Se o ego deles se alimenta disso, só posso dizer que se alimenta de muito pouco...
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De -fm a 11.06.2010 às 11:12

sou licenciada em gestao de familias humildes, o apelido Doutor guardo para médicos, advogados e aqueles que têm o doutoramento e naturalemente para o chefe - que por acaso tem as mesmas habilitações do que eu....

o meu vencimento é de adminsitrativa, o trabalho é de técnica, apenas sou "Doutora" quando aparece o Fiscal das Finanças...

palermice de País em que vivemos... a

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De Pedro Correia a 11.06.2010 às 23:38

Excelente exemplo, o seu. Infelizmente muito pouco seguido na nossa classe política - e no meio social português em geral.
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De Amêijoa fresca a 10.06.2010 às 11:58

... e dos "engenheiros"

Sem igualdade no tratamento
numa atitude reprovável
é este o desenvolvimento
tão miseravelmente louvável.

Entre engenheiros e doutores
todos muito bem engravatados
sendo inúmeros os factores
dos salamaleques enquistados.
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De Pedro Correia a 10.06.2010 às 23:47

Na 'mouche', meu caro.
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De Daniel João Santos a 10.06.2010 às 12:09

somos um país com muitas etiquetas, mas com falta de etiqueta. O Doutor e afins, é para ser tratado com cerimonias e respectivo beija-mão. O resto, aqueles que tem as mãos estragadas do trabalho, esses nem senhor já são.
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De Pedro Correia a 10.06.2010 às 23:47

Dantes havia barões e viscondes, agora há "dótores" e "inginheiros". Nunca mais nos livramos desta ganga.
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De ARPires a 10.06.2010 às 14:24

Quantos mais doutores e engenheiros me cercam, mais SENHOR eu me sinto.
Esta é a minha frase reflectiva/introspectiva.
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De João Carvalho a 10.06.2010 às 14:35

Ok, mas saiba que um senhor não precisa de GRITAR. E aqui não usamos isso, que me dá cabo dos tímpanos dos olhos.
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De ARPires a 10.06.2010 às 17:00

É verdade que um senhor não precisa de gritar para se fazer ouvir...
Quando tal acontece fica simplesmente a falar sózinho.
Quanto ao sentir-se mal dos "tímpanos dos olhos", com a gritaria, aplique tampax no outro que a dor passa!
Um resto de bom dia, de e a Portugal.
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De Pedro Correia a 10.06.2010 às 23:49

Um dos problemas de Portugal, caro A.R. Pires, é haver cada vez menos senhores dignos desta forma de tratamento.
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De rucas a 10.06.2010 às 14:35

parabéns ao pedro correia....excelente ideia que vai ser muito difícil de implementar cá na merdaleja e no país inteiro! se em oeiras, onde o povo vota num corrupto que já foi provado em tribunal que é um ladrão de colarinho branco os munícipes com o grau de instruçãpo mais elevado do país adoram-no como um deus, agora imaginem o que é pedir aos simples licenciados que não se apresentem como doutores. reparem: eu posso dizer ao meu banco para colocar o DR antes do meu nome e ninguém me vai pedir para comprovar..... that's all folks...e é tudo aqui do país das marquises
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De Liberdade Lusitana a 10.06.2010 às 19:28

Como munícipe de Oeiras, sinto-me ofendida. Saiba Vexa, que não são os licenciados de Oeiras, que votam no Isaltino, mas sim os ex- bairro da lata, que são muitos e que são comprados, com festas e distribuição de bolo rei, etc., pelo corrupto, que dirige o burgo. O "nosso" Sr. Morgado, lá das berças de Bragança, sabe bem mexer os cordelinhos há muitos anos.
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De Pedro Correia a 10.06.2010 às 23:50

Sobre o comentário mais acima limito-me a citar o preceito constitucional relativo à presunção da inocência: todo o arguido está inocente até prova em contrário. O caso que mencionou, tanto quanto sei, ainda não transitou em julgado.
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De ARPires a 11.06.2010 às 10:05

Como transmontano sinto-me agredido por esta pseudo Liberdade Lusitana em dizer e considerar a origem de alguém de forma tão depreciativa, pois minha ilustre "Lusitana", na parte que me toca, não imagina o orgulho que tenho nas minhas raízes/origens e no meu berço, que não sendo forrado a ouro era formado de gente honrada e honesta.
É aquilo que não sinto nesta terra que Vossa Senhoria diz civilizada.
Acresce que quanto aos licenciados que votam cá no burgo, conheço muitos, talvez uma boa dúzia deles que votam e vivem na sombra dele.
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De ariel a 11.06.2010 às 10:24

Também sou munícipe de Oeiras há muitos anos, e o que lhe posso dizer é que infelizmente não são só os ex-bairro da lata que votam em Isaltino, infelizmente não é assim. Há muita, muita "beautiful peopel" que vota nele, a esmagadora maioria memo...
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De Pedro Correia a 11.06.2010 às 23:39

Sem a menor dúvida.
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De Luis Pereira a 10.06.2010 às 15:00

Eu vivo na Republica da Irlanda e so trato por Doutor o meu medico. A grande maioria das pessoas, trato-as pelo nome proprio , por "senhor" ou "senhora" na pior das hipoteses de formalidade. Ate com o pai do meu senhorio, que tem 77 anos, nao ha coisas de formalidades, e o Vinnie e acabou. Em Portugal ha demasiada gente que nao tem onde cair morta e tem a mania das grandezas. Infelizmente, a coisa dos "doutores" e "engenheiros" tornou-se algo cultural ja , para a negativa...
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De Anónimo a 10.06.2010 às 17:35

Exactamente m/caro se eles que tão mal n/tem tratado começarem a ser responsabilizados pelos seus actos, pela maneira como n/tem governadao acredito que essa moda saloioa desaparecerá "Ó m/triste Pais o que fizeram de ti e para aonde vais, já não há homens como antigamente"
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De gaivota a 10.06.2010 às 19:06

Só que esse médico é tão Dr. e, não doutor, como outro licenciado qualquer de outra área.

Para ser Doutor tem que ter o doutoramento.

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De Pode repetir? a 10.06.2010 às 23:48

Quem é que disse? Doutor, Dr., ou outra palermice qualquer antes do nome são resquícios da monarquia. Entendeu, Dom Atoleimado?
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De Dorean Paxorales a 11.06.2010 às 10:11

muito pelo contrário. representam a substituição de uma elite por outra.
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De Pedro Correia a 10.06.2010 às 23:52

Na Europa que tanto gostamos de usar como exemplo a regra é o 'senhor' ou, em circunstâncias menos formais, o tratamento pelo nome próprio. Começando já aqui por Espanha, onde o tratamento por tu é generalizado. Mesmo o 'usted', mais formal, vai rareando.
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De Chloé a 10.06.2010 às 15:04

Completamente de acordo. A diferenciação pelo título académico é uma atavismo próprio de sociedades atrasadas. Questão é que os interpelantes tb soubessem acompanhar o uso do senhor/senhora de um respeito condizente com o que costuma estar implícito na vénia doutoral. Porque normalmente a coisa não funciona assim... é mais equiparada ao «você» de raiz malcriada.
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De Carlos Pimentel a 10.06.2010 às 17:53

Mas porquê é que o "você" é mal-criado? Chiça, é a coisa mais aproximada que temos ao "you" com que me dirigia em Inglaterra quer aos meus profs universitários quer ao gajo da loja onde comprava o vinho e simplesmente não vejo onde está a má-criação do você... Pelo contrário, permite-nos não cair na intimidade do tu, nem na palermice do vossa excelência, senhor professor doutor. Chiça, que é complicado.
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De Chloé a 11.06.2010 às 01:48

Não percebeu: Eu qualifiquei o "você", especificando que era o de raiz malcriada. O tratamento por você tem cambiantes. Há o normal e civilizado, que eu tb uso quando não trato por tu. E há o você achincalhante, ferramenta de arremesso e contraponto do "doutor", usado pelos tais que lhes lambem as botas... Conseguem ser mais eficientes que as novas oportunidades, oferecem licenciaturas a esmo
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De Pedro Correia a 10.06.2010 às 23:53

Subscrevo as suas palavras, Chloé: "A diferenciação pelo título académico é um atavismo próprio de sociedades atrasadas."
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De Luís Reis Figueira a 10.06.2010 às 15:09

Nunca pude também com este velho e saloio tique dos portugueses de tratarem as pessoas pelos seus títulos académicos e não apenas por senhor/a fulano/a de tal. Isto tem vindo a atingir proporções tais que - imagine-se o ridículo - até já numa simples entrevista de televisão, é vulgar ver-se os entrevistados tratarem os jornalistas ou pivots por senhor/a Dr/a.!
É um costume antigo, provinciano, reverencial e parolo, que o 25 de Abril não conseguiu extinguir, (bem pelo contrário), mas que o espírito do 10 de Junho, em nome do mais básico dos princípios da ética republicana, deve banir.
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De Anónimo a 10.06.2010 às 17:15

após o 25 de Abril é que passou, não a ser um direito mas uma obrigação de todos serem doutores...
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De Mírtilo MR a 10.06.2010 às 17:51

Realmente, a «República dos Doutores» e «Engenheiros» (e quando muito seria mais a «República dos Licenciados») continua e discrimina os normais «cidadãos senhores», o que é próprio deste pobre país, que, não tendo uma boa moral político-social sadia para ostentar, como seria o máximo de igualdade para toda a gente, independentemente de se ser «Doutor» e «Engenheiro» ou simplesmente cidadão anónimo, se entretém, sobretudo em palcos políticos e sociais, a difundir o seu espírito discriminatório, através da ostentação, própria ou nos outros reflectida, do seu algo arrogante estatuto de «Doutor» ou «Engenheiro».
Quanto a o 25 de Abril não ter conseguido extinguir tal ostentação, ou jactância, penso que a semente para tal terá sido lançada, mas, quando os maioritariamente pequenos exageros revolucionários pararam através da estabilização constitucional, logo ao de cima regressou, donde praticamente não saíra, o algo pateticamente vaidoso escol, classe, dos «Doutores» e «Engenheiros», que desde então, e friso, sobretudo no campo político, onde seria menos esperável e de dar o exemplo, frutificou, a ponto de, como disse alguém, parecer a substituição do uso dos monárquicos e arcaicos títulos de nobreza pelos modernos de «Doutores» e «Engenheiros», isto, para pior, numa época de tão generalizada, pelo menos teoricamente, vida e cidadania democrática, intuindo aqui a igualdade em todos os aspectos, embora na prática não exista, e em amadurecida e anualmente tão festejada República.
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De Pedro Correia a 10.06.2010 às 23:56

Tanto se fala agora em medidas "emblemáticas" para assinalar o centenário da República... Nenhuma medida poderia ser mais emblemática do que esta.

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