Toque a rebate no PS
Muita gente ficou perplexa com o texto de Mário Soares no DN em que o ex-presidente criticava duramente José Sócrates a pretexto do apoio dado a Manuel Alegre como candidato presidencial do PS. Alegou-se, por exemplo, a falta de substância das críticas de Soares, que aludiu a um "grave erro político", de consequências porventura "fatais", sem no entanto especificar por que motivo o erro será tão irreparável e a que fatais consequências se refere numa prosa invulgarmente pessimista.
Eu li o artigo de outra maneira, muito para além do contexto presidencial. Li-o como uma espécie de senha, como um sinal às tropas de Soares dentro do PS. Com esta crítica a Sócrates, o fundador do partido incentiva e autoriza as movimentações internas que permitam o aparecimento de uma alternativa credível ao actual líder.
É, no fundo, um toque a rebate pelo futuro do PS. A intuição política de Soares diz-lhe que se essa alternativa não aparecer em breve o partido arrisca permanecer longos anos na oposição. Um pouco à semelhança do que tem acontecido com o PSD no longo período pós-Cavaco Silva. Veja-se o que sucedeu na Hungria, país governado durante oito anos pelo Partido Socialista. O balanço dessa governação foi tão desastroso que o PS húngaro vale hoje só 19% e a direita dispõe de maioria qualificada no Parlamento que lhe permite alterar a Constituição.
É este o grande receio de Soares: que o PS português, sob a condução de Sócrates, acabe na pior posição de sempre. Manuel Alegre funciona apenas como pretexto para as suas críticas.


