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Os fins não justificam os meios

por Pedro Correia, em 02.06.10

 

"Lamento as mortes, mas..." Bem gostaria eu de ver banidas estas adversativas do debate político, seja a propósito de que tema for. Acaba de acontecer como tentativa de atenuar as circunstâncias do desproporcionado ataque israelita a uma embarcação sob bandeira turca ao largo de Gaza que provocou dez mortos. Ainda há pouco assistimos à mesma proliferação de mas a propósito da violência urbana em Atenas que causou três vítimas mortais. Como se o combate à pobreza ou à exclusão desse uma espécie de caução ao homicídio, ainde que involuntário.

A morte de um único ser humano em caso algum pode constituir um pormenor de somenos, inteiramente descartável à medida de conveniências ideológicas ou considerações de facto. “Neste momento, lançam-se bombas sobre os eléctricos em Argel. A minha mãe poderá ir num desses eléctricos. Se isso é a justiça, prefiro a minha mãe.” Palavras de Albert Camus, proferidas em 1957, quando as bombas da Frente de Libertação Nacional, que se opunha ao domínio colonial francês, semeavam o terror na Argélia. A luta anticolonial era justa? Só até ao ponto em que não fazia derramar o sangue de inocentes.

As palavras de Camus valeram-lhe inúmeras críticas. Mas o autor d' A Peste tinha razão: os fins não justificam os meios, a violência não é revolucionária, o assassínio é intolerável seja sob que pretexto for e revista as formas que revestir, a "sociedade nova" com que muitos sonham não pode ser erguida sob um amontoado de cadáveres. Para ser ainda mais directo: nenhum desígnio político justifica a perda de uma vida humana. Na Grécia ou em Gaza.

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19 comentários

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De ana cristina leonardo a 02.06.2010 às 13:03

camus há poucos, guerras há muitas
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De lili a 02.06.2010 às 14:05

Infelizmente, Cristina, infelizmente.

Ontem, no twiter alguém se referia à legitimidade moral da guerra, quando se chega a este ponto só podemos indignar-mo-nos.
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De Pedro Correia a 02.06.2010 às 20:30

Camus, infelizmente, só houve um. E quase não deixou discípulos. Nas "redes sociais", de facto, não faltam imbecis a proclamar a "superioridade moral" da guerra. Já havia os treinadores de bancada, agora há também os guerreiros de sofá.
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De lili a 02.06.2010 às 20:36

lol
Parece que anda tudo a andar para trás.
É em climas como este que se propicia a guerra na Europa. E eu não quero acreditar que a crise matou o sonho europeu.
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De Teresa Ribeiro a 02.06.2010 às 21:06

Guerreiros de sofá parece-me muito bem:) A fotografia é fabulosa.
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De Pedro Correia a 06.06.2010 às 01:05

Esta foto é arrepiante. Diz-nos muito sobre a fragilidade da condição humana.
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De Bernardo Hourmat a 02.06.2010 às 13:09

Tem sido interessante ver muitos dos que criticavam (e bem) o odioso "mas" usado por alturas do 11/9, agora a recorrerem à mesma argumentação para discutir os acontecimentos ao largo de Gaza...
Continuo sem entender como é que simpatias por este ou aquele Estado podem enviesar completamente qualquer tipo de debate racional sobre este assunto.
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De Pedro Correia a 02.06.2010 às 20:32

Digo o mesmo. Considero inaceitável o "mas", qualquer "mas", sempre que estejam em jogo vidas humanas.
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De zeparafuso a 02.06.2010 às 13:40

Concordo com o texto. Abomino guerras. Participei numa, felizmente não de arma na mão. Participei na guerra colonial, como disse sem armas, ainda bem que não tinha perfil de atirador, tinha perfil para amanuense. Isto a propósito do post : É inútil uma morte, seja porque motivo for. Da mesma forma que a provocação é condenável Isto porque o relato das noticias que todo o mundo está contra Israel, só serve para ficar bem na fotografia. Na guerra colonial, os libertadores punham crianças armadas à frente dos guerrilheiros. A Noticia só poderia ser, vitimas do ataque a....um sitio qualquer....não sei quantas crianças. Isto só para dizer que depende do ponto de vista do contador da noticia ( jornalista ). Sou contra qualquer tipo de violência, mas também sou contra qualquer tipo de provocação, muitas vezes, senão a maior parte da violência, parte como resposta a uma provocação. Lirismo ? Talvez ! Mas não será mais lírico resolvermos os assuntos através do diálogo? Há um amigo meu que costuma dizer " Guerra é Guerra, mas quem manda é o pirata". Entendam como quiserem e chamem-me o que entenderem.
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De Pedro Correia a 06.06.2010 às 01:06

Também penso que não há mortos bons e mortos maus.
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De João Carvalho a 02.06.2010 às 14:41

Como Camus, disseste tudo, compadre.
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De Pedro Correia a 02.06.2010 às 20:33

Camus é um dos meus mestres: faço o possível por ser discípulo das suas ideias. Na literatura e na política.
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De Bruno Vieira Amaral a 02.06.2010 às 16:07

"Só até ao ponto em que não fazia derramar o sangue de inocentes."


Não concordo. Basta pensar no bombardeamento de cidades alemãs durante a 2ª guerra mundial. Um dos acontecimentos que nos permite discutir, hoje, a justiça e injustiça das guerras.
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De Pedro Correia a 02.06.2010 às 20:39

Caro Bruno: na guerra - situação excepcional - prevalece o conceito da legítima defesa. Mata para evitares ser morto. Mas mesmo assim existe sempre a questão da proporcionalidade de meios e de reacção. Isso diferencia o homem da besta. Nada justifica Dresden. Nada justifica Hiroxima.
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De Pedro Oliveira a 02.06.2010 às 17:01

Bem resumido pela citação de Camus.
abraço
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De Pedro Correia a 02.06.2010 às 20:33

Abraço, Pedro.
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De Ana Vidal a 03.06.2010 às 02:30

Lamento quem "lamenta, mas", quando se trata de vidas perdidas ou de ideiais violentados. O facilitismo conveniente é o pior mal das sociedades actuais, na minha opinião. Falta espinha, falta espinha cada vez mais...
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De Ana Vidal a 03.06.2010 às 02:31

A fotografia é fabulosa, realmente.
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De Pedro Correia a 06.06.2010 às 01:07

Não suporto esta argumentação do "mas", Ana. Desde o 11 de Setembro que vamos escutando disto um pouco por toda a parte, à esquerda e à direita.

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