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Deep shit - 11

por Teresa Ribeiro, em 29.05.10
O seu miúdo está desempregado, mas um seu amigo é director de uma empresa. Porque não fala com ele? E a dor nas costas que não passa? Melhor será telefonar àquela enfermeira, amiga da sua irmã, para lhe marcar uma consulta no hospital. O antigo presidente da câmara, com "obra feita", recandidatou-se ao cargo, apesar de ter um processo por causa de uns negócios "esquisitos". Será que não lhe merece o voto? Mais vale ele que o outro, que fala bem mas não provou nada 

- foi assim que Luísa Meirelles começou o artigo que assinou a 11 de Outubro de 2008 no Expresso. Depois desta introdução, perguntava ao leitor se se identificava com as sugestões apresentadas para, em seguida, o tranquilizar em caso de concordância. Assegurava ela que estes são os juízos e procedimentos do português típico.

As afirmações da jornalista baseavam-se nas conclusões do recém-lançado  livro A Corrupção e os Portugueses (RCP Edições), de Luís de Sousa (politólogo) e João Triães (sociólogo). Apoiados em dados estatísticos, os autores sustentavam, nesta obra prefaciada por Maria José Morgado, que a maioria dos portugueses embora critique o fenómeno, pratica-o, embora em pequena escala. Hipocrisia? Nem tanto. O whisky no Natal para alguém que meteu uma cunha, as notinhas entaladas à pressa nas mãos de burocratas e os jantares-convívio oferecidos a candidatos autarcas são caracterizados nesta obra como "singularidades portuguesas" consideradas legítimas pela maioria da população. Nada que não se soubesse, mas a novidade é que o fenómeno foi, desta vez, objecto de estudo: segundo os investigadores 53% dos portugueses concordam totalmente que os cidadãos usem as suas ligações ou influências para ajudar parentes e amigos a conseguir emprego. Só 5,7% acham que esta atitude é condenável.

A organização da Administração do Estado, a lentidão deste e o facto de não proporcionar as mesmas oportunidades a todos revela a incapacidade que houve de construir em Portugal um Estado-Providência moderno e sustentável, sublinham os dois autores. Foi esta situação que  levou à criação de uma sociedade-providência, ou seja, à rede informal de contactos que pode garantir a sobrevivência dos cidadãos e que em jargão sociológico se chama "capital social negativo", algo que de acordo com Luis de Sousa e João Triães temos com fartura.

Este fenómeno está na raiz de um outro, identificado pelos investigadores como síndroma de Robin Hood: a tolerância relativa à corrupção, desde que justificada pela nobreza do acto. É isto que, segundo a dupla que assinou A Corrupção e os Portugueses, explica o apoio dado a autarcas como Fátima Felgueiras, Valentim Loureiro ou Isaltino Morais.

É também o clientelismo e a cultura secular do desenrasca que  condiciona a investigação e julgamento dos casos de corrupção em Portugal. Luís de Sousa afirma que os portugueses não os denunciam. De acordo com os dados publicados na obra, até Maio de 2008 apenas 7,3% dos casos de corrupção foram julgados e 55,5% foram arquivados por falta de provas.

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15 comentários

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De Ana Cláudia Vicente a 29.05.2010 às 17:13

Assim se explica o intraduzível dito nacional "a quem é que tenho de dar o presunto para resolver isto?", Teresa.
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De Teresa Ribeiro a 29.05.2010 às 23:16

Quem não tem cão, caça com presunto :)
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De João Campos a 29.05.2010 às 17:18

Não deixa de ser curioso como a maioria dos portugueses nem percebe os pequenos gestos que são, na verdade, formas de corrupção - esses pequennos favores, os nossos tão famosos "jeitinhos".

Não conhecia era a expressão do "presunto". Lá na minha terra fazemos isso mas é com garrafas de aguardente de medronho, o que tem uma vantagem óbvia: a partir do segundo copo, qualquer pessoa está mais disposta a fazer o tal "jeitinho"... :)
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De Ana Cláudia Vicente a 29.05.2010 às 17:27

Estas variantes regionais são bem curiosas, João; mas que o medronho deve ter um efeito mais...catalisador, lá isso deve, eh,eh.
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De João Campos a 29.05.2010 às 17:38

Sem dúvida!

Mas gostei mesmo muito da expressão do presunto! A registar :)
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De Teresa Ribeiro a 29.05.2010 às 23:22

Eh!eh! É a famosa sabedoria popular no seu melhor.
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De Pedro Correia a 29.05.2010 às 21:54

Olhemos a questão por outro ângulo, Teresa. Na perspectiva do cidadão. Denunciar para quê se tudo morre na primeira sentença judicial e é enterrado de vez numa instância de recurso? O recente caso Névoa 'versus' Sá Fernandes demonstra bem qual é a principal raiz do problema: um sistema judicial inoperante e temeroso, que castiga os justos e premeia os prevaricadores.
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De Teresa Ribeiro a 29.05.2010 às 23:38

Pois. Critica-se muito a inércia dos tugas, mas a consciência de que o sistema judicial não funciona explica essa falta de iniciativa e de combatividade.
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De João André a 30.05.2010 às 14:07

A verdade é que não é um exclusivo português. Na Inglaterra funciona desde há séculos o sistema do "old boy", onde antigos colegas de escola fazem os jeitinhos uns aos outros. Na Holanda vejo a mesma coisa a suceder, apenas com o nome de "networking".

No resto da Europa continua a haver a corrupção generalizada. É compreendida na perfeição. Apenas será mais encapuçada ou mais discreta ou, em alternativa, funcionará paralelamente a um sistema de sociedade mais eficaz, o que significa que haverá um pouco menos de recurso a ela ou que será mais praticada quando as paradas são mais elevadas (uma vez que não haverá lucro em a ela recorrer em níveis mais baixos).

A corrupção e o compadrio são ferramentas humanas, não apenas portuguesas. O problema em Portugal é estas terem sido institucionalizadas a níveis mais baixos sem sistemas compensatórios. E é isso e só isso que nos foi diferenciando de outros países mais "evoluídos".
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De André Miguel a 30.05.2010 às 16:45

Concordo completamente consigo, na Europa também ocorre o mesmo.
Mas a grande diferença é que lá, como cá, se utilizam imenso as redes de contactos para diversos serviços, tais como recrutamento p.ex., mas com uma diferença fundamental: por muito bom que seja o contacto, se a pessoa não merecer esse "jeitinho" ou favor ganha as mesmas. Lá o mérito ainda existe.
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De João André a 31.05.2010 às 15:34

«Lá o mérito ainda existe»

é verdade, ainda existe. Por vezes é diluído e noutros casos está ausente, mas é verdade que as situações em que gente sem qualificações ou competências ascende a certos cargos são (muito) mais raras que em Portugal. 95% de acordo :)
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De lili a 01.06.2010 às 23:32

Hum, a Holanda é o país da Europa com a menor taxa de desemprego.
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De João André a 02.06.2010 às 14:43

não sei se será, mas não vejo em que é que isso tenha a ver com o assunto
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De Gi a 30.05.2010 às 20:20

Obrigada pela dica, Teresa, hei-de ler.
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De lili a 01.06.2010 às 23:35

É a cunha, Teresa, a famosa cunha tuga.

Que português se poderá gabar de nunca ter aceitado uma?

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