Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




O fingidor

por João Carvalho, em 18.02.09

«O que leva uma pessoa a perder sequer uma noite da sua vida a tentar impedir que outros se casem? É para mim um absoluto mistério.» A dúvida exposta aqui no Arrastão é do Daniel Oliveira. «É que se trata de uma coisa rara: estamos a falar de um direito para uns que não afecta os direitos de mais ninguém» — diz ele ainda. «O que os faz correr?» Como já perceberam, o desabafo não é sobre casamentos heterossexuais.

Quanto à dúvida, não adianta ele fingir-se pouco esclarecido. É de valores que se trata, não é dos direitos de uns sobre os direitos de outros: para uns, vale a pena defender os valores que têm cultivado; para outros, é mais interessante experimentar novos valores de substituição. Os segundos estão disponíveis para conceitos imensamente abrangentes, ao passo que os primeiros não impedem ninguém de casar: apenas procuram conservar um conceito que acham modelar e que legitimamente muito prezam.

Ele não é ingénuo. Ele sabe que um tema fracturante provoca uma fractura natural, a divisão entre os-que-sim e os-que-não. Ele sabe que a gente sabe que ele sabe. Mas ele é muito fingido...

Autoria e outros dados (tags, etc)


10 comentários

Sem imagem de perfil

De Luis Reis Figueira a 18.02.2009 às 02:52

"O Daniel é um fingidor, finge tão completamente, que chega a fingir que é dor, a dor que deveras sente."
Imagem de perfil

De João Carvalho a 18.02.2009 às 03:24

Só se for dor de consciência...
Sem imagem de perfil

De João André a 18.02.2009 às 09:09

João, se o Daniel é fingidor, o João também o parece ser.

De que valores se trata? Valores religiosos? É, em 90% dos casos (para usar um número muito curto) o que leva as pessoas a oporem-se ao casamento entre homossexuais. Para estas pessoas, há contudo o casamento religioso o qual deve manter-se, e muito bem, fechado a quem não lhe partilhe os valores. Mas estamos a falar de casamento civil. E, nesse sentido, pergunto: quais são os valores que norteiam o Estado que a permissão de casamento entre pessoas do mesmo sexo viriam a derrubar?
Imagem de perfil

De João Carvalho a 18.02.2009 às 12:12

Simples: o conceito de casamento (que é sempre civil, seja religioso ou não) é o consagrar laços de família entre duas pessoas de sexo diferente. Queira o João André ou não, trata-se de um valor com peso na sociedade e cuja alteração choca muito boa gente. A religião, presente ou ausente no juízo das pessoas, não é aqui chamada para a observação que fiz, por isso não a introduzi como factor relevante imediato.
Sem imagem de perfil

De João André a 18.02.2009 às 13:26

Essa é uma noção tradicional, não mais. No passado ter-se-à dito o mesmo do casamento inter-racial. Seria entre duas pessoas de sexo diferente e da mesma raça. Noutras alturas exigia-se a virgindade, sendo a falta da mesma (apenas verificável nas mulheres, é evidente) razão para anular um casamento. Também se considerou no passado que o adultério seria crime, hoje em dia nem por isso.

Quer o João Carvalho o reconheça, quer não, a noção de moralidade em Portugal está directamente relacionada com a religião. Isto não tem mal em si mesmo, é uma consequência natural da história do país. Mas mesmo nesses aspectos, a moral evolui e vai-se modificando.

Se ainda há uns anos a homossexualidade em si seria criminalizada, porque razão haveria o casamento, sendo actualmente entre pessoas de sexo diferente, ser uma excepção.

E, já agora, porque carga de água tem o casamento forçosamente que ser entre duas pessoas de sexo diferente? Porque razão não pode ser entre duas pessoas do mesmo sexo?
Imagem de perfil

De João Carvalho a 18.02.2009 às 16:44

As perguntas que me dirige, meu caro, estão respondidas por si mesmo. A moral comum,que constitui o conjunto de valores da sociedade, evolui. Ou melhor: costuma ir evoluindo. Paulatinamente. A sua alteração consciente e abrupta é que pode não ser pacífica, como se compreende. Daí que o tema seja fracturante e eu não ache isso espantoso.

De resto, é evidente que o conjunto de valores que prevalece tem uma base religiosa, como muito bem diz. Como sabe, a própria cultura ocidental em geral (e a europeia em particular) é de natureza sobremaneira cristã. O que não pode associar linearmente a prática religiosa a qualquer posição favorável ou desfavorável sobre a matéria em apreço.

Finalmente, por tudo isto me parece que coincidimos no essencial. A diferença está no facto de, pelo seu lado, ter por inaceitável a posição que se opõe à proposta em causa. Eu, como disse, considero essa posição natural; parecer-me-ia estranho que não houvesse uma oposição clara e que tenho por legítima. Por isso é que o assunto faz parte das matérias fracturantes, não é?
Imagem de perfil

De João Carvalho a 18.02.2009 às 16:52

Deixe-me ainda lembrar-lhe, João André, que não fiz neste 'post' a defesa ou o ataque a qualquer das duas posições que dividem a sociedade. Tem de aceitar que me limitei aqui a considerar que a dúvida (?) exposta pelo Daniel Oliveira é falsa e não colhe. Apenas isso. Porque a discussão sobre as duas posições em confronto não cabem aqui: a minha tolerância permite-me aceitar e entender que ambas existam, mas os espaços para debatê-las não incluem este meu modesto 'post', de sentido diverso e objectivo sobre um detalhe.
Sem imagem de perfil

De João André a 19.02.2009 às 08:11

João, eu não acho que seja estranho alguém opor-se ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. É, como diz, uma causa fracturante. Eu só não entendo a argumentação dos valores. Porque se são religiosos, embora sejam compreensíveis, não são reais, porque não se está a pedir o casamento religioso. Se não são valores religiosos (e já concordámos que a religião tem a sua natural influência, aqui fala-se de valores que não estão directamente imbuídos da religião), então não compreendo as objecções.

Eu compreendo que seja fracturante, quanto mais não seja porque as pessoas não estão habituadas. Acho que o argumento "do que é" é falso, porque preguiçoso. Mas compreendo que exista contudo. Só não sei porque é que se diz que Daniel Oliveira é fingidor. Racionalmente, não há realmente qualquer razão para tentar impedir esta medida.

Quanto ao resto, penso que a sua posição, de abertura às duas posições, é de louvar.

Abraço
Imagem de perfil

De João Carvalho a 19.02.2009 às 12:20

Meu caro, se bem percebi há coisas que é melhor perguntar a quem tenha uma (e a outra) posição sólida, coisa que eu claramente não sei se tenho. Limito-me a aceitar que existam ambas e, mais do que isso, ficaria espantado que não existissem. Porquè? Precisamente porque é de valores que se trata, muito arreigados nas nossas sociedades e na moral colectiva, provenientes certamente da nossa cultura comum cristã, sejam as pessoas religiosas ou não.

Já sobre o Daniel Oliveira, que foi o motivo exclusivo deste meu 'post' como já disse e como se podia perceber logo à primeira, chamei-lhe «fingidor» porque foi o melhor que me ocorreu: ele finge que não entende a existência das duas posições (ou melhor: de uma delas) sobre este assunto, mas qualquer um de nós sabe que existem e tem isso por natural e esperado. Apenas lhe deu jeito fingir que não entendia para que o 'post' dele a que eu me refiro pudesse surtir efeito. Não tem muita importância e não merece este desgaste: só me apeteceu meter-me com ele, por ele ter preferido o caminho mais fácil, que é fazer-se desentendido.

Abraço.
Sem imagem de perfil

De Luis Melo a 18.02.2009 às 11:54

Excelente João... é mesmo isso.

Comentar post



O nosso livro





Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2018
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2017
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2016
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2015
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2014
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2013
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2012
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2011
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2010
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2009
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D