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Estado de desconfiança

por Sérgio de Almeida Correia, em 21.05.10

A discussão e votação da moção de censura apresentada pelo Partido Comunista Português (PCP) pode não ter servido para derrubar o governo de José Sócrates, para mudar o rumo da governação ou melhorar o estado da República, mas serviu para clarificar aos olhos de todos o estado em que esta se encontra e nas mãos de quem é que ela está.

 

1 - O primeiro ponto que há a sublinhar é a irrelevância dos comunistas. Por muito que se esforce o PCP não consegue ganhar mais protagonismo do que aquele que lhe é conferido pelas regras da democracia que temos. E este é igual a zero aos olhos da opinião pública. Bernardino Soares queixa-se das políticas de direita que há décadas tomaram conta do país, mas há décadas que os portugueses ja disseram, nas urnas e por repetidas vezes, que apenas contam com o PCP como enfeite do regime nas bancadas de S. Bento. O "povo e os trabalhadores" - convém assinalar que para o PCP não são a mesma realidade - até hoje foram incapazes de dar uma vitória eleitoral ao PCP - não falo em termos autárquicos -; um resultado que pudesse projectá-lo para outro papel social e político. Por essa razão, a importância e o impacto da moção apresentada estão de acordo com a emissão da TVI24, que no exacto momento em que o líder parlamentar do PCP discursava, interrompia a emissão para assinalar a chegada de Cristiano Ronaldo ao estágio da selecção nacional de futebol, na Covilhã. O PCP continua sem entender o esclerosamento do seu discurso político e está convencido de que será com os Bernardinos, as Ritas e outros promissores jovens comunistas com mentalidade de velhos que um dia chegará ao poder. 

 

2 - A moção comunista também permitiu aos portugueses perceberem as virtualidades - se é que não as conheciam já - do discurso parlamentar de Paulo Portas e do CDS/PP. Efectivamente, não fosse o jargão marxista-leninista da moção e Portas teria pedido aos seus que votassem favoravelmente a moção do PCP. Ou seja: para o CDS/PP votar ao lado dos mesmos que apoiaram a lei da interrupção voluntária da gravidez e promoveram o casamento entre pessoas do mesmo sexo até seria irrelevante se a moção apresentada viesse numa linguagem menos esquerdizante. Uma vez mais Paulo Portas mostrou que as suas semelhanças políticas com o falecido Álvaro Cunhal vão para além da mera combatividade e camaleónica capacidade de se ir adaptando às circunstâncias sem mudar de discurso. Só falta agora o líder do CDS/PP vir esclarecer a razão pela qual as últimas decisões da chanceler alemã em matéria fiscal, como todos sabem uma perigosa socialista, são boas para a Alemanha e porquê que idênticas decisões, quando tomadas em relação a Portugal, são más. Notável a todos os títulos.

 

3 - Outro aspecto a realçar é que o PSD, por mais líder que  Passos Coelho seja, e eu não duvido da sua vontade, continua a ter muita dificuldade em assumir-se como verdadeira alternativa ao PS. O PSD é de há muitos anos a esta parte uma das muletas que permite a subsistência de um regime que cada dia que passa é mais fraudulento em relação às promessas e valores constitucionais que proclama. Ainda há dias Passos Coelho sublinhava o sentido de estado do partido que lidera, para logo a seguir se abster na votação da moção do PCP. Para o PSD seria indiferente que a moção do PCP vingasse. Por isso se abstém. Se o Governo caísse, essa seria outra questão, e aqui nem sequer é o discurso comunista que afasta o PSD do PCP. É mais o tacticismo político. As meias-tintas. A falta de coragem e de frontalidade política na hora da separação das águas, um pouco à semelhança do seu deputado Miguel Frasquilho, que nos dias ímpares é capaz de atacar a política do Governo e nos dias pares de exaltá-la nos relatórios que assina e envia para os investidores estrangeiros. Talvez também por estas e outras é que o fundador e militante número 1 do PSD, Francisco Pinto Balsemão, dizia ontem numa entrevista a Judite de Sousa que está mais próximo de Manuel Alegre do que do actual Presidente da República, que se identifica mais com o socialista do que com o prof. Cavaco Silva. Vindo de quem vem, ou seja, de quem não precisa nem depende deste Governo, nem de Manuel Alegre, nem do PSD, nem de Cavaco Silva ou do próximo Presidente da República, para nada, isso não deixa de ser elucidativo da diferença que separa o militante número 1 do PSD do actual líder. E compreende-se por que motivo a bancada parlamentar do PSD suspira pelo anúncio da recandidatura de Cavaco Silva. Talvez aí possa encontrar o cimento que lhe falta em matéria de ideias e de projectos.

 

4 - Pensarão alguns que depois do que acima escrevi vou agora partir para o discurso laudatório das qualidades do primeiro-ministro. Não se iludam. Este Governo foi o melhor que se arranjou. E José Sócrates foi o líder que o PS escolheu. A bancada parlamentar do PS é o reflexo dessa escolha. Os bons e os maus resultados passam por aí, pelas escolhas que foram feitas. Por muito infelizes que os portugueses estejam, e eu admito que sim, essa é que é a realidade. Convém que tenhamos a noção disso. Se o PS é hoje poder foi porque não havia mais ninguém em quem os portugueses confiassem. A Dr.ª Manuela Ferreira Leite e o Dr. Paulo Portas podem não gostar de ler isto, mas essa foi a verdade. Tivessem sido eles capazes de fazer melhor e não teriam agora motivo de queixa. Se não temos hoje melhores líderes, melhores dirigentes, uma classe política mais capaz, isso também partiu dos próprios portugueses que dão mais importância a Cristiano Ronaldo do que ao cumprimento dos deveres de cidadania. A falta de participação, o desinteresse, o discurso demagógico e populista, a falta de renovação dos partidos e das instituições democráticas, é que nos conduziu até aqui. Ao contrário do que pensa Pacheco Pereira, a culpa não é de José Sócrates, nem do PS, e menos ainda de Mota Amaral. O regime não chegou a este estado por culpa do PS. O regime chegou a este estado porque a democracia foi incapaz de renovar-se, porque as suas estruturas anquilosaram precocemente, porque o importante para as figuras gradas do regime era comprar "BMW's",  ter telemóveis da 3ª geração ou ir de férias para Cancun com recurso ao crédito fácil. Por isso hoje continuamos todos de tanga, a mostrar aos amigos os calções de banho comprados na Quinta do Lago e dizendo alto para todos ouvirem que a sangria do Gigi estava magnífica, enquanto se desliga a chamada telefónica do chato do "meu gestor de conta" - o melhor símbolo do novo-riquismo e da parolice em que temos vivido -, que insiste em alerta-nos para a falta de pagamento da prestação do cartão de crédito. Mas num país onde um ex-primeiro-ministro revelou numa entrevista, para justificar o esforço que tinha feito em prol da pátria, que depois de sair do Governo teve de pedir emprestados 50.000 euros à banca para manter o seu nível de vida, de que é que estavam à espera?

 

5 - Por estas e por outras é que a votação da moção do PCP é mais uma daquelas boutades que não aquecem nem arrefecem. Numa lixeira a céu aberto faz pouca diferença o estar-se ao ar livre porque o cheiro não deixa por isso de ser insuportável. Ao invés do que sonha o meu amigo Pedro Correia, não é o PS nem o primeiro-ministro que estão alheados da realidade. É todo um país que se alheou de si próprio. É todo um país que definha e que há muito perdeu o sentido de si, enquanto os membros da sua classe política mais não fazem do que oferecerem a si próprios a tranquilidade de se imaginarem importantes. Jorge de Sena chamou-lhes uma camarilha. Eu não tenho nem um milésimo da sua autoridade e da sua coragem para colocar as coisas nesses termos. Por isso me abstenho de qualificá-los. Não quero ofender ninguém.

 

Em tempo: Este post que acabei de ler só confirma o que acima escrevi. O rei vai nu, sabe que vai nu e ainda se diverte com a figura que faz. A minha esperança é que o Ricardo Araújo Pereira também concorra às próximas eleições presidenciais. Já deve ter passado os 35 anos e o Pedro Mexia sempre poderia ser o seu mandatário nacional. Mesmo com a crise isto havia de animar.


1 comentário

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De Pedro Correia a 22.05.2010 às 00:21

Esta tua análise não está assim tão em desacordo com o que escrevi, Sérgio. Referi-me ao progressivo alheamento das realidades de Sócrates e Cavaco, não só de Sócrates. Um é primeiro-ministro, outro Presidente da República. Simbolizam bem o alheamento geral dos portugueses a que aludes (e bem) também aqui.

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