Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Honra - um conceito ultrapassado

por Ana Vidal, em 28.04.10

Recebi ontem, por mail, o texto que aqui partilho. É escrito na primeira pessoa e a história é comprovadamente verdadeira. Antes que me caia o mundo em cima, aqui fica também uma declaração de princípios: não, não sou saudosista, não suspiro por um novo Salazar nem a figura do próprio me foi alguma vez particularmente simpática. A conquista da democracia é para mim um valor inestimável e, espero, sem retorno. O que me parece importante destacar neste texto é a atitude de um país perante os seus compromissos, que mudou radicalmente em tão pouco tempo. Bem sei que as alterações de fundo na posição de Portugal perante o exterior são enormes desde então, que o facto de pertencermos a uma comunidade económica mudou definitivamente as regras do jogo e que deixámos de ter capacidade para tomar posições isoladas. Apesar dessa inevitável perda de autonomia, não hesito em afirmar: ainda bem que já não estamos "orgulhosamente sós". Mas a verdade é que, pelo caminho, entre as muitas vantagens que ganhámos, alguns princípios fundamentais se perderam. Um deles, para mim o mais importante, é a "velha" noção de Honra. Como se constata pelas escandaleiras nacionais que nos invadem diariamente, em que até as instituições mais sagradas são postas em causa e perderam todo o prestígio, a Honra - tanto a nível particular como colectivo - transformou-se num conceito ultrapassado. Por isso deixo aqui este testemunho, que transcrevo na íntegra, memória de algum conforto nos dias lamacentos e ameaçadores que atravessamos.

 

«Corria o ano da graça de 1962. A Embaixada de Portugal em Washington recebe pela mala diplomática um cheque de 3 milhões de dólares (em termos actuais algo parecido com € 50 milhões) com instruções para o encaminhar ao State Department para pagamento da primeira tranche do empréstimo feito pelos EUA a Portugal, ao abrigo do Plano Marshall.

 

O embaixador incumbiu-me – ao tempo era eu primeiro secretário da Embaixada – dessa missão.

 

Aberto o expediente, estabeleci contacto telefónico com a desk portuguesa, pedi para ser recebido e, solicitado, disse ao que ia. O colega americano ficou algo perturbado e, contra o costume, pediu tempo para responder. Recebeu-me nessa tarde, no final do expediente. Disse-me que certamente havia um mal entendido da parte do governo português. Nada havia ficado estabelecido quanto ao pagamento do empréstimo e não seria aquele o momento adequado para criar precedentes ou estabelecer doutrina na matéria. Aconselhou a devolver o cheque a Lisboa, sugerindo que o mesmo fosse depositado numa conta a abrir para o efeito num Banco português, até que algo fosse decidido sobre o destino a dar a tal dinheiro. De qualquer maneira, o dinheiro ficaria em Portugal. Não estava previsto o seu regresso aos EUA.

 

Transmiti imediatamente esta posição a Lisboa, pensando que a notícia seria bem recebida, sobretudo num altura em que o Tesouro Português estava a braços com os custos da guerra em África. Pensei mal. A resposta veio imediata e chispava lume. Não posso garantir a esta distância a exactidão dos termos mas era algo do tipo: "Pague já e exija recibo". Voltei à desk e comuniquei a posição de Lisboa.

 

Lançada estava a confusão no Foggy Bottom: - não havia precedentes, nunca ninguém tinha pago empréstimos do Plano Marshall; muitos consideravam que empréstimo, no caso, era mera descrição; nem o State Department, nem qualquer outro órgão federal, estava autorizado a receber verbas provenientes de amortizações deste tipo. O colega americano ainda balbuciou uma sugestão de alteração da posição de Lisboa mas fiz-lhe ver que não era alternativa a considerar. A decisão do governo português era irrevogável.

 

Reuniram-se então os cérebros da task force que estabelecia as práticas a seguir em casos sem precedentes e concluíram que o Secretário de Estado - ao tempo Dean Rusk - teria que pedir autorização ao Congresso para receber o pagamento português. E assim foi feito. Quando o pedido chegou ao Congresso atingiu implicitamente as mesas dos correspondentes dos meios de comunicação e fez manchete nos principais jornais. "Portugal, o país mais pequeno da Europa, faz questão de pagar o empréstimo do Plano Marshall"; "Salazar não quer ficar a dever ao tio Sam" e outros títulos do mesmo teor anunciavam aos leitores americanos que na Europa havia um país – Portugal – que respeitava os seus compromissos.

 

Anos mais tarde conheci o Dr. Aureliano Felismino, Director-Geral perpétuo da Contabilidade Pública durante o salazarismo (e autor de umas famosas circulares conhecidas ao tempo por "Ordenações Felismínicas" as quais produziam mais efeito do que os decretos do governo). Aproveitei para lhe perguntar por que razão fizemos tanta questão de pagar o empréstimo que mais ninguém pagou. Respondeu-me empertigado: - "Um país pequeno só tem uma maneira de se fazer respeitar – é nada dever a quem quer que seja".

 

Lembrei-me desta gente e destas máximas quando há dias vi na televisão o nosso Presidente da República a ser enxovalhado pública e grosseiramente pelo seu congénere checo a propósito de dívidas acumuladas.

 

Eu ainda me lembro de tais coisas, mas a grande maioria dos Portugueses de hoje nem esse consolo tem.

 

Estoril, 18 de Abril de 2010


Luís Soares de Oliveira»

 

(Nota: Descobri entretanto que este texto foi publicado em primeira mão neste blogue.)

Tags:


41 comentários

Sem imagem de perfil

De Bic Laranja a 28.04.2010 às 13:07

A honra que tanta vez ouço apregoada 'honorabilidade' que se está mesmo a ver no havia de dar: um rodriguinho de linguagem cheio de nove horas.
Quanto a Salazar faz hoje anos que nasceu. O que tem uma certa ironia.
Cumpts.
Imagem de perfil

De Ana Vidal a 28.04.2010 às 17:59

Caro Bic, a honra transformou-se em honorabilidade quando o sustento se transformou em sustentabilidade, a razão em razoabilidade, e por aí fora. Ou seja, foi-se a simplicidade dos conceitos e, com ela, o seu verdadeiro valor. Raramente as complicações desnecessárias dão bom resultado, porque escondem sempre a intenção de iludir.
Imagem de perfil

De João Carvalho a 28.04.2010 às 18:24

Concordo e fazes bem em não te deixar tentar pela iludibilidade.
Imagem de perfil

De Ana Vidal a 28.04.2010 às 18:30

Não fazia ideia da data, Bic. Mas tem razão, não deixa de ser irónico.
Imagem de perfil

De Luísa Correia a 28.04.2010 às 13:17

Minha querida Ana, quem já não sabe o que é honra, não quer saber do respeito. Quer, quando muito, ser famoso, conhecido, na medida em que a fama, em Portugal, parece, por estes dias, trazer sempre proveito. E para isso, lá diz o sábio Oscar Wilde que «It is only by not paying one’s bills that one can hope to live in the memory of the commercial classes». :-)
Imagem de perfil

De Ana Vidal a 28.04.2010 às 18:00

O Wilde nunca me desilude, Luísa...
;-)
Sem imagem de perfil

De teresinha a 28.04.2010 às 13:27

Boa, Ana.
Fantástica lembrança, melhor, ainda, lição.
Haja alguém que leve esta carta ao largo do rato, os obrigue a ler 20 vezes e exija que deêm a "palavra de honra" de que entenderam o seu conteúdo.
Imagem de perfil

De Ana Vidal a 28.04.2010 às 18:02

O problema é que essa "palavra de honra" já não vale o que valia, Teresinha. O tempo dos Egas Moniz (o primeiro, claro) já lá vai...
Sem imagem de perfil

De Pitucha a 28.04.2010 às 14:21

Era uma vez um jovem que, proveniente de família de parcos recursos, estudou sempre com bolsas de estudo.
Por isso, fez sempre questão de ter as melhores notas possíveis e, findo o curso superior, de ir trabalhar para o Estado até achar que estava paga a dívida, altura em que deixou a função pública.
Este senhor foi meu Pai e nestes valores me educou.
Compreendo muito bem essa história.
Um beijo para ti Ana
Imagem de perfil

De Ana Vidal a 28.04.2010 às 18:04

Foram os valores em que me educaram também, Pitucha. Felizmente, digo eu, embora os saiba muito desactualizados.
Outro para ti.
Imagem de perfil

De Leonor Barros a 28.04.2010 às 14:33

Independentemente de Salazar e do episódio que relatas, é um facto que se perdeu totalmente o conceito de honra, o pudor e o respeito. Se assim não fosse, alguns dos episódios que temos testemunhado ultimamente teriam tido consequências e seriam escândalos, assim são só 'idiossincrasias' da vida lusa.
Sem imagem de perfil

De zeparafuso a 28.04.2010 às 15:13

Subscrevo na totalidade o comentário. Hoje sem distinção partidária, já não se " fabrica " gente assim! (não há regra sem excepção ).
Imagem de perfil

De Ana Vidal a 28.04.2010 às 18:20

Eu não digo que já não há gente assim, Zeparafuso. Mas muitos dos que são assim fogem da ribalta como o diabo da cruz, com medo do contágio ou do descrédito. E é isso o que é mais preocupante. Há excepções, claro! Felizmente.
Imagem de perfil

De Ana Vidal a 28.04.2010 às 18:05

É isso, Leonor. Tudo é "normal", hoje em dia.
Sem imagem de perfil

De Pedro a 28.04.2010 às 17:04

Não se que diga. É mais do mesmo fadinho: antigamente é que havia pessoas honradas e de boa cepa, e agora os politicos são todos uns trastes. O João Gonçalves, do Portugal dos Pequeninos, diz isso trinta vezes por dia. Eu responderia ao dr. Felismino, esse Pilar da Honra e Integridade Perdidas, blablabla, que a melhor forma de um país pequeno se fazer respeitar é tratar bem os seus cidadãos e dar-lhes um mínimo de dignidade de vida (já nem falo nessa coisa que se chama liberdade), ainda que fique a dever. Isso não é honra, é arrogância presunçosa.
Imagem de perfil

De Ana Vidal a 28.04.2010 às 18:07

É a sua opinião, meu caro. Graças à liberdade que temos, respeito-a. Graças à educação que me deram, não lhe chamo "fadinho".
Sem imagem de perfil

De Pedro a 29.04.2010 às 10:37

A Ana está mesmo a dar-me um ralhete por causa das minhas maneiras ;)? LOL. mas ok, se calhar mereci. Portanto, já não há honra, honestidade, dignidade, educação, instrução, cultura, boas maneiras... (ufa), excepto em algumas pessoas que, no entanto, vivem mais ou menos na clandestinidade ;)

Eramos verdadeiramente respeitadíssimos por causa disso, internacional e universalmente, pois claro..

Ana, agora a sério, eu poderia contar-lhe alguma coisa sobre o que era a honra e as maneiras dos baronetes e senhoritos da alta função pública (e da baixa) e politicos do antigamente, com histórias passadas com familiares próximos e conhecidos. Do que era a impiedade e o desprezo, a prepotência, do que era a corrupção, do que era a boçalidade. Mas já vi que está demasiado enraizado esse mito urbano e não adianta nada.
Imagem de perfil

De Ana Vidal a 29.04.2010 às 11:35

Touchée, Pedro! Gosto de quem me responde à letra e além disso ainda tem graça. Também eu mereci essa piada da clandestinidade. Estamos quites?
:-)

Engana-se numa coisa: eu não acho que antes é que era bom nem que agora é tudo mau. E sei bem que sempre houve gente sem carácter, abusadora, arrogante, presunçosa, etc, em cargos públicos. Mas convenhamos que, além de não serem tão visíveis como agora, esses exemplos eram menos frequentes e menos descarados. De qualquer maneira, o que eu quis salientar foi a imagem externa do país, e não a interna.
Sem imagem de perfil

De Pedro a 29.04.2010 às 12:09

Ana, a “imagem externa” era má, e a interna não era melhor. Quanto à imagem externa, seio-o eu muito bem porque tenho há muitos anos familiares estrangeiros. E ainda que assim não fosse, bastar-me-ia ler os relatos de estrangeiros, na imprensa, etc. Quanto à falta de visibilidade, precisamente, é também aí que a porca torce o rabo. Claro que esses exemplos não era tão visíveis Ana, nem pouco mais ou menos e não custa muito perceber porquê. Não sendo visíveis, não eram hhhmmm tão “frequentes”, claro… Mas a verdade é que era mais ou menos universal. Os detentores de cargos públicos (funcionalismo ou politico) eram quase inamovíveis e detinham, cada um à sua escala, no seu guichet ou gabinete, um poder imenso, enraizado na tradição. Ninguém se atrevia sequer a queixar-se de prepotência e abusos. Ia-se com o chapéu na mão e cabeça baixa rogar o carimbo ou o favorzinho, com a prendinha para o todo poderoso Senhor Doutor, ou para o funcionário tal ;). Mesmo aqueles que não se corrompiam por dinheiro, eram corrompidos pela sensação de poder, pelo gosto de rebaixar os outros. Melhorou imenso, apesar de tudo: as pessoas reclamam, refilam, habituaram-se a isso, os tribunais administrativos e fiscais estão cheios de recursos, petições, a provedoria de justiça, etc. Corrupção e prepotência, é óbvio, sempre houve e sempre haverá, mas menos agora, menos. Não percamos a noção das proporções, do grau. Só quem tem a memória curta, ou não conheceu esses tempos desconhece também, por exemplo, a diferença (em média, atenção) na qualidade do atendimento aos cidadãos no “antes” e no “depois”. Cumprimentos, Ana, e desculpe qualquer coisa menos incorrecta.
Imagem de perfil

De Ana Vidal a 29.04.2010 às 12:56

Tenho de dar-lhe razão em muito do que diz. Mas desviámo-nos do assunto, concorda? A noção de "honrar compromissos" desapareceu, como o provam os muitos e descarados escândalos e respectivas impunidades. Os tribunais estão cheios de reclamações, petições, recursos, etc? Ah, pois estão, e como! E de que adianta, com os atrasos cada vez maiores na justiça, que levam a inevitáveis prescrições? Os direitos dos cidadãos estão estabelecidos no papel e aí melhoraram muitíssimo, concordo. Mas a prática não corresponde a nada disso, admita.

Não tem nada que pedir desculpa, ora essa.
:-)
Sem imagem de perfil

De Pedro a 29.04.2010 às 15:19

Ana, a História está cheia de crápulas que pagam o que devem. E assassinos sem vícios, etc. Sinceramente, não me impressionou muito a história que se conta no post. Não me suscita um átomo de emoção. É um acto de orgulhosa soberba para inglês ver.
E como é que diz que o “honrar compromissos” desapareceu? Muito me espanta. A Ana honra concerteza os seus compromissos e milhões de pessoas os honram. Já não há políticos sérios, que os honram e que se preocupam? Escândalos não havia porque, volto a dizer, por definição, para haver escândalo é preciso haver noticias, logo... Quanto aos direitos, começa por ser uma vantagem enorme (mesmo) os mesmos estarem em papel. É sinal de que são reconhecidos, é sinal que houve quem tenha tido a honestidade e a generosidade de os reconhecer e colocar no papel. Quanto ao resto, com prescrições e atrasos, resulta sim, em muitas situações. Tenho conhecimento directo de acções ganhas contra o Estado, por exemplo. E sei também perfeitamente que o Estado funciona agora com muito mais transparência do que funcionava antes. Cada um de nós é um fiscal do Estado. O próprio facto de haver um provedor de justiça é um grande avanço. Posso dar-lhe exemplos de excelentes resultados, só em matéris de direitos dos cidadãos. Aliás, basta ir aos sites institucionais certos na net: a provedoria, o STA, etc, etc.
É claro, volto igualmente a dizer, que muita coisa está mal, há atrasos na justiça, etc. Curiosamente, o atraso nas decisões judiciais é devido, muitas vezes, às garantias processuais que entretanto beneficiaram os cidadãos. Não é irónico?

Um abraço e obrigado pela paciência. You're a good sport ;)
Imagem de perfil

De Ana Vidal a 29.04.2010 às 15:55

I am, but you're pushing it a little bit...

Mas enfim, gosto de saber que no meio deste caos à nossa volta ainda há quem veja as coisas através um tão simpático filtro cor-de-rosa. São precisos muitos optimistas (tantos como os realistas, pelo menos) para que o país avance e não ser atire, em desespero, da ponte Salaz... perdão, 25 de Abril!!
(vá, faça lá um sorriso e ficamos assim)
Sem imagem de perfil

De Pedro a 29.04.2010 às 16:16

caos, desespero, suicídio colectivo... ai, ai. Ana, admito perfeitamente, comparado com tais sentimentos e estados de espírito, assumo-me, sem problemas, como um anjinho a viver numa nuvem cor de rosa ;).

Não se irrite.
ps. uma pequena provocação: falta a história do-professor-salazar-que-criava-galinhas-no-quintal-e-morreu-povrezinho.
Imagem de perfil

De Ana Vidal a 29.04.2010 às 16:51

...que-é-inteiramente-verdadeira, já agora (miserabilista, ridícula, mas verdadeira). Para grande pena de muita gente, que nunca conseguiu apanhar-lhe dinheiros públicos na carteira que usava para pagar as galinhas.
Mas não vou tirar-lhe o púlpito: conte lá V. a história, se a acha tão relevante. É que eu não lhe vejo grande interesse.

Boa estadia aí na sua nuvem cor-dr-rosa. E não saia daí, olhe que apanha um susto!
:-)
Sem imagem de perfil

De Pedro a 29.04.2010 às 17:19

A história é tão relevante e interessante como essa do post. É também um exemplo de honradez e probidade extrema que fez a glória da Pátria e continua a ser dada como exemplo para esta choldra. Porque é que a Ana não lhe acha interesse? ora essa…: Reza assim e é absolutamente verdade: o doutor Salazar era um homem absolutamente honrado e integro e probo. Criava galinhas em são bento, comia frugalmente, e usou as mesmas botas desde que nasceu até ao fim da vida e nunca ficou a dever um tostãozinho a ninguém, nem ao padeiro, nem ao tio Sam. Era só dono de um País inteiro e dos seus habitantes. Fim


Ana, também cá tenho os meus problemas, dificuldades, as minhas angústias, etc. que não interessam a mais ninguém. Mas garanto-lhe que vivo numa nuvem cor de rosa, não só em comparação com o que a Ana sente, como em comparação com o que os meus avós viveram. Não era dificuldade para pagar a prestação da casa e do carro. Era mesmo dificuldade para dar de comer aos seus filhos e a dificuldade que ainda por cima teve o meu avô para sair do país (pois) para poder alimentar os filhos e mandar os filhos, os rapazes, claro, para a escola. Mas não a vou maçar mais com desgraças para não a sobrecarregar ;).
Imagem de perfil

De Ana Vidal a 29.04.2010 às 17:47

Caramba, homem, você não desarma! Claro que eu conhecia a história, embora essa sua versão deixe muito a desejar nos pormenores. Mas não a acho especialmente interessante, e concordo - quantas vezes já concordei consigo, já reparou? - que ela é sintomática de um miserabilismo confrangedor, para além de uma "falta de mundo" que nos condenou ao isolamento durante anos. O que digo é que depois se caíu no extremo oposto (em quase tudo menos no tal "mundo", infelizmente), em que cada um pensa em si próprio e no curto espaço de tempo que tem para enriquecer, assim que se apanha com o poder nas mãos. Os exemplos são inúmeros e estão bem à vista. Não são todos os políticos que fazem isto? Não, claro que não. Mas são muitos, e com muito descaramento. E por uma vez dê-me razão, porque eu sei que a tenho!
Sem imagem de perfil

De Pedro a 29.04.2010 às 18:03

Ana, tem razão em indignar-se com o que muitos politicos fazem, sei bem disso, não sou parvo, nem ingénuo, nem estou de má fé, acredite. Muitos politicos passam pela politica para enriquecer. Isto está assente. Vamos é concordar os dois que antigamente era o mesmo, já agora. Enfim, os politicos não mudavam tanto, é verdade ("benefícios" da falta de eleições e de partidos). Mas muitos do que lá estavam, como sabe, enriqueceram e muito com as transacções que havia entre os cargos politicos e os grandes grupos empresariais do regime, por intervenção directa, até, do senhor presidente do conselho, como era tradição e é do conhecimento geral. Era só isso que eu queria dizer.
Imagem de perfil

De Ana Vidal a 29.04.2010 às 18:33

Acredito que não está de má fé, Pedro. Nem eu estou. É a única forma de mantermos uma conversa civilizada, mesmo não concordando.

Mas vamos aos políticos: no tempo do senhor com pés de chinesa (essa teve graça, João), muitos dos políticos tinham nome e fortuna pessoal muito antes de ocuparem cargos públicos. Eram escolhidos por isso também, pela sua influência dentro e fora do país. Estava errado o critério? Admito que sim. Mas não se deslumbravam com tanta facilidade, as tentações eram menores e havia um nome a defender e a honrar, em muitos casos, antes de se aventurarem em falcatruas. Estou a ser elitista, eu sei. A possibilidade de ascensão pelo mérito puro é bem mais justa. Mas também agora não é a isso que se assiste sempre. E em tudo há vantagens e desvantagens. Voilà.
:-)
Sem imagem de perfil

De Pedro a 29.04.2010 às 21:19

Ana, eles nem sequer precisavam de falcatruas, os políticos. As benesses (os lugares nos conselhos de administração, as concessões de actividades de monopólios na colónias e na metrópole, etc ) eram-lhes concedidas por lei e tradição. Tudo legal. Eram ricos de berço, sim senhor, mas quer-se sempre mais, e sobretudo quer-se poder, que é o mais importante. Não basta o titulo e o nome de família.
Imagem de perfil

De Ana Vidal a 29.04.2010 às 21:38

Nem sempre é assim, Pedro. O poder não atrai toda a gente por igual, além de que há muitas formas de poder para lá da ribalta política. Mas... rendo-me. Você consegue ser mais persistente do que eu, o que não é fácil. Tiro-lhe o chapéu.
:-)
Sem imagem de perfil

De Pedro a 30.04.2010 às 09:52

Claro que nem sempre é assim, Ana. E de facto há muitas formas de poder.Tivemos aqui um bom debate. :)
Imagem de perfil

De João Carvalho a 29.04.2010 às 17:48

Caro Pedro, é sempre de reter dois pormenores de uma história um tanto miserabilista e desinteressante (concordo com a Ana) entre o que V. aqui recorda.

1. Ainda não havia galináceos de aviário e o seu peso e altura não obedecia a directivas obtusas de Bruxelas. Na época, de Bruxelas eram só as couves, para o bem e para o mal.

2. Nunca constou, mas Salazar devia ter pés de chinesa, uma vez que usou as mesmas botas desde o berço até ao caixão. O certo é que, mesmo que tivesse comprado alguma vez botas novas, não o fez com cartão de crédito nem as debitou a um saco azul.

Registados estes pontos mais emocionantes, resta registar o mais importante: o seu espírito desportivo. É algo que encaixa no DO, pode crer.
Sem imagem de perfil

De Pedro a 29.04.2010 às 21:04

Obrigado, João. E é claro que a minha versão da história das botas era uma caricatura ; Se era do saco azul, ou não, não sei. Ele teve muito mais do que um saco azul; teve um pais cinzento só dele, durante uma eternidade. Quer melhor? Nenhum saco azul compra isso. Saudades das galinhas a sério, pois, e saudades, já agora, dos porcos gordos com toucinho para fazer boa sopa :)
Imagem de perfil

De Ana Vidal a 29.04.2010 às 18:07

Só mais uma coisa, Pedro: não acredito que ache mesmo que a história das botas e das galinhas tem alguma comparação com a do post, em termos de interesse. Não exagere.
Imagem de perfil

De Nicolina Cabrita a 29.04.2010 às 20:56

Estou tentada a dizer, como o Henrique IV, «têm os dois razão»! :-)



Compreendo a sua ideia, Ana. Concordo com a conclusão (isto é, que nos dias de hoje está a perder-se a noção de valores fundamentais, com a palavra e a honra) mas não concordo com as premissas. Parece-me que a situação actual não é comparável a 1962. É preciso não esquecer que as classes dirigentes dessa altura mantinham o país no mais profundo subdesenvolvimento. Para o país teria sido, com certeza, muito melhor se Salazar tivesse governado menos em função de conceitos e mais em função das pessoas em concreto. A verdade é que as pessoas concretas lhe interessavam pouco. Se eram analfabetas, se morriam por falta de cuidados de saúde, se se matavam a trabalhar fora do país para sustentar os seus, se os jovens se matavam para manter um império em desmembramento, tudo isso não lhe interessava. Aliás, vendo bem as coisas, nem sei bem o que lhe interessava. Provavelmente a ideia de ficar na História como o «chefe de estado exemplar», que livrou Portugal da II Grande Guerra. Ideias, apenas ideias...
E é preciso não esquecer, também, que o lema do «orgulhosamente sós» é muito responsável pelo estado de dependência a que chegámos. Não quisemos ajuda, agora estamos na mais vil dependência. A verdade é esta...

Imagem de perfil

De Ana Vidal a 29.04.2010 às 21:28

Estou de acordo com tudo isso, Nicolina. Não defendo, de forma nenhuma, que este país estava melhor em 62 do que agora. Até porque sou mulher (não só por isso, como é evidente) e as mulheres portuguesas devem à democracia os mais básicos actos de justiça em relação à sua condição de "gente".
Sem imagem de perfil

De Belzebu Catita a 28.04.2010 às 23:46

Uma coisa é certa, o maior problema de Portugal foi ter sempre umas elites presunçosas, demasiado católicas (estranho...), que acha "piada ao pobre" no seu lodaçal amoral. Porque é assim que se separa socialmente dele. Isso sempre levou a que se cuidasse mais das aparências (e do nome de Portugal no exterior) do que a dividir justamente. Quanto a honra não sei (encontro algumas impossiblidades na palavra "honra"). Creio que a palavra dignidade - e a sua praxis - é bem mais pragmática. Vai dar ao mesmo, mas a dignidade é um valor mais universal. E nunca passará de moda nem será apanágio de elites. A honra, como se vê, sai muito cara.
Imagem de perfil

De Ana Vidal a 29.04.2010 às 02:22

Francamente, Belzebu Catita (que nick, hein?), eu encontro tantas impossibilidades em perceber o seu comentário como V. encontra na honra. Mas deve ser natural, já que V. mesmo acha estranho aquilo que escreve...
Imagem de perfil

De João Carvalho a 29.04.2010 às 08:47

O Belzebu é a mudança de paradigma em pessoa. Acho catita.
Sem imagem de perfil

De Rui Monteiro a 30.04.2010 às 02:36

Qualquer comparação entre o funcionamento do Estado e do Governo numa ditadura como a que tivemos e num regime democrático é ... sei lá. Muitos de nós conhecemos os tempos e os espaços que nos povoam a memória desses tempo de ditadura.
A história é simplesmente tontinha, mas pode ser uma oportunidade para se falarem de coisas sérias. Portugal foi dos poucos países da Europa Ocidental que não aproveitou o Plano Marshall. Sem ele, sem a democratização do regime, condenaram-se milhões de portugueses e várias gerações a uma vida miserável.
Mas o que é isso quando comparado com o orgulho do senhor da mala.
Já agora, o que o senhor da mala fez não é mais do que todos nós temos feito no nosso regime democrático: pagar o que se deve. O Estado português do pós 25 de Abril não tem um historial de incumprimento de dívidas. Com o FMI provámos isso duas vezes e não foi preciso o senhor da mala.
Imagem de perfil

De Ana Vidal a 30.04.2010 às 11:40

Não acho a história simplesmente tontinha, mas fico satisfeita por saber que sempre lhe encontra alguma utilidade. Falar de coisas sérias foi exactamente o que aconteceu nesta caixa de comentários, em consequência deste post. E todos os contributos são bem-vindos.
Volte sempre.

Comentar post



O nosso livro



Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.




Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2019
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2018
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2017
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2016
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2015
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2014
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2013
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2012
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2011
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2010
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2009
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D