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Não há coincidências (6)

por Ana Vidal, em 30.04.10

Um contra o outro (2010) - Deolinda

 

Interrompo os clássicos para dar-vos conta de um episódio (recorrente em mim, como já aqui expliquei) que voltou a acontecer-me recentemente. Desta vez, num concerto do grupo Deolinda. Gostei de vê-los/ouvi-los ao vivo e percebi que o seu grande trunfo é a comunicação directa com o público. Não sendo o tipo de música que oiço em casa, reconheço que Ana Bacalhau tem uma fortíssima presença em palco e pôs toda a gente a cantar e a dançar. Mas... mal tinham arrancado os primeiros acordes desta canção (foi a primeira do alinhamento, se não me engano) e eu já estava a ouvir outra. Uma outra letra, em inglês, que nem sequer recordava bem, mas - diga-se em abono da verdade - com muito menos graça e qualidade do que a letra portuguesa. Para além de um sopro familiar de António Variações no refrão, havia uma melodia conhecida a buzinar-me ao ouvido, que atravessava toda a canção. Cheguei a casa e fui investigar, claro. Encontrei as Baccara e o seu Yes, sir, I can boogie. Estava explicado.

 

Acredito piamente que Pedro da Silva Martins, apresentado no novíssimo álbum dos Deolinda como autor de todas as letras e músicas, não tivesse feito de propósito. Há memórias que nos ficam escondidas num canto qualquer do subconsciente e se insinuam, feiticeiras, nas criações que acreditamos serem nossas. Com as melodias isso deve acontecer muito. Pero que las hay, las hay... e o single de estreia de "Dois Selos e um Carimbo", Um contra o outro - cuja semelhança com uma canção anterior é mais subtil do que as que tenho aqui trazido - será talvez um bom exemplo disso. Ironicamente, começa assim a letra: "Anda/ Desliga o cabo/ Que liga a vida/ A esse jogo/ Joga comigo/ Um jogo novo/ Com duas vidas ...".

 

Ora bem, o que se passou comigo foi eu não ter conseguido desligar o cabo. Por isso fui parar à vida anterior deste "jogo com duas vidas".

 

 

Yes, sir, I can boogie - Baccara

 

Esta canção, que foi um êxito estrondoso desde o primeiro momento - o mais significativo na carreira das Baccara, se não o único - teve inúmeros covers. O último conhecido data de 1977, num álbum de êxitos chamado Top of the Pops, Volume 62 , que usou a canção sem atribuir os créditos devidos aos músicos originais. O último? Não. O último, para mim, é o refrão de "Um contra o outro", a canção dos Deolinda. Deixo ao vosso imperial polegar o julgamento da minha tese.


30 comentários

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De Luísa Correia a 30.04.2010 às 15:24

Ana, não há dúvida de que a sequência de acordes é a mesma. Mas o arranjo musical e até rítmico «disfarça» bem a semelhança, ou faz, pelo menos, que a associação não seja nada fácil. Pasmo com esse seu ouvido! :-)))
P.S.: Como refere, também não me custa admitir que a cópia tivesse sido inconsciente. Até porque a sequência de acordes parece muito básica.
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De Ana Vidal a 01.05.2010 às 18:43

A mudança de compasso ou de ritmo transforma bastante as sequências melódicas, Luísa. É um truque muito utilizado quando a cópia é propositada e se quer disfarçá-la. Mas, repito, não me parece que seja o caso (puro feeling, não tenho fundamento para dizer isto).
:-)
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De mdsol a 30.04.2010 às 16:59

Ana, mas que exercício este. Vou sempre conferir, [confesso que na maioria do scasos nunca tinha dado pelas "coincidências"] e às vezes a coisa não é fácil para um ouvido como o meu que se foi destreinando. Embora esta série me tenha lembrado que, muitas vezes, ao ouvir uma canção supostamente pela primeira vez, tive uma sensação de "déjà vu". Como sou muito despassarada não me lembrava de pensar que, se calhar, já tinha ouvido o essencial noutro lado...
Beijinho, Ana.

:))
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De Ana Vidal a 01.05.2010 às 18:45

Essa vaga sensação é muito comum, Maria do Sol. Acontece que não damos grande importância ao assunto, na maioria das vezes. Mas esse "essencial" está gravado na sua memória e por isso é reconhecido.
Beijinho.
:-)
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De Ana de Sá a 30.04.2010 às 17:18

B
R
A
V
O

:)))

Bom f.d.s
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De Ana Vidal a 01.05.2010 às 18:46

:-D Bom fds para si também, Ana!
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De João André a 30.04.2010 às 19:25

A semelhança é óbvia, mas custa-me imaginar que haja influência (mesmo que inconsciente). Claro que é possível, mas soa-me mais a uma coincidência de melodias. Mas claro que não tenho um ouvido muito treinado nestas coisas.
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De Ana Vidal a 01.05.2010 às 18:48

Como já disse, neste caso também me parece coincidência. Mas só o autor saberá se é ou não...
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De ariel a 30.04.2010 às 23:29

Talqualmente, como diria sinhôzinho Malta... isso é que a menina tem cá um ouvidozinho invejável....
:))
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De Pedro Correia a 01.05.2010 às 01:02

A Ariel roubou-me as palavras, Ana. Tens um ouvido notável.
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De Ana Vidal a 02.05.2010 às 19:33

Obrigada a ambos, embora eu não tenha nenhum mérito nisso. Em certos casos, garanto-vos que é mais uma desvantagem do que uma vantagem. E o mais curioso é que tenho alguma surdez a certos timbres de voz, sobretudo quando há muito ruído de fundo. Só em relação à música tenho este apuro auditivo.
:-)
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De Nicolina Cabrita a 30.04.2010 às 23:30

Se não são iguais estão muito próximas. Que dom, Ana!
Desculpe a curiosidade mas não resisto à pergunta: aprendeu música, toca algum instrumento?
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De João Carvalho a 01.05.2010 às 19:17

Tem o chamado "ouvido absoluto". E ter "ouvido absoluto" pode ser isto, entre outras coisas.
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De João Carvalho a 01.05.2010 às 19:18

Tarde, mas deixei-lhe uma resposta sobre os 'mal-amados'. Espero que tenha lido.
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De Nicolina Cabrita a 01.05.2010 às 22:56

Obrigada, João. Já respondi :-)
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De João Carvalho a 01.05.2010 às 23:13

Eu é que agradeço. Ganhei novo alento.
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De Ana Vidal a 02.05.2010 às 19:39

Aprendi alguma coisa em miúda, Nicolina, mas nunca desenvolvi muito. Já nem sei ler uma pauta. Quanto a instrumentos, toquei razoavelmente viola, mas de ouvido, e cheguei a aprender piano e flauta. Mas agora já só toco campaínhas de portas...
:-)
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De João Carvalho a 02.05.2010 às 22:26

Não somos muito diferentes. Aprendi solfejo e piano em garoto, não desenvolvi, aprendi viola de ouvido e reconheço as notas escritas, mas já não leio uma pauta.
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De Ana Vidal a 03.05.2010 às 11:43

Seremos nós um desses vulgaríssimos casos das novelas portuguesas, de gémeos separados à nascença?
;-)
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De João Carvalho a 03.05.2010 às 17:59

Hum... De novelas portuguesas não devemos ser, porque jamais seremos um 'vulgaríssimo' caso. Nem vulgar.
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De Ana Vidal a 04.05.2010 às 00:32

Não serei eu a contradizer-te...
:-)
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De Nicolina Cabrita a 03.05.2010 às 17:52

Engraçado, é mesmo puro dom. Não há dúvida que, em certas áreas, a aprendizagem é apenas polimento, porque ou se tem o dom, ou não se tem... Uma verdade «dura», para quem, como eu, gosta tanto de música, mas lá dizia o outro: é a vida!... :-)
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De Ana Vidal a 04.05.2010 às 00:35

Deixe lá, Nicolina. Antes dura a verdade do que duro o ouvido. E o seu não é duro de certeza, se gosta assim tanto de música.
:-)
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De Rui Pedro a 01.05.2010 às 04:25

Eu peço desculpa mas não vi qualquer semelhança entre estas duas canções, nem tentando imaginar a dos Deolinda num ritmo mais lento. O que é que vocês andam a fumar? Também quero!
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De João Carvalho a 01.05.2010 às 19:20

Quanto mais fumar, pior. Antes do apuro, o puro. Neste caso, o ouvido.
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De Ana Vidal a 02.05.2010 às 19:47

lol. Pela minha parte, por enquanto ainda não preciso de fuminhos para ter bom ouvido, amigo. E não é uma questão de ritmo, que nestes dois casos é quase o mesmo. Os arranjos e os instrumentos é que diferem bastante, o que faz parecer tudo diferente.
Vá treinando o ouvido, mas sem batotas de fumos.
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De Álvaro a 07.05.2010 às 02:48

Cara Ana,

Lamento, mas concordo com comentário anterior. Só com muito esforço e "minhoquice" vejo semelhanças entre as duas músicas. Pedro da Silva Martins é um excelente compositor e letrista (penso que seja muito mais jovem do que essa canção - que, confesso, não conhecia - logo, mesmo em termos de influência ou contaminação a hipótese parece-me também um pouco forçada) e o trabalho dos Deolinda é um grande exemplo de originalidade. Revelou que não ouve em casa, mas de bom grado lhe ofereço os dois CDs da banda para poder desfrutar um encontro muito feliz entre qualidade, originalidade e um enorme talento para fazer boas canções em português.

Perdoe-me a minha Deolindamania mas gosto mesmo do trabalho e talento destes moços e a profundidade da sua escrita. São muito mais complexos do que a uma primeira escuta podem parecer.


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De Ana Vidal a 07.05.2010 às 11:50

Meu caro Álvaro,

Se leu bem o que escrevi, verá que não ponho nenhuma carga negativa nesta coincidência e nem sequer culpo Pedro da Silva Martins de plágio. Será uma "minhoquice" minha, como lhe chama, mas o meu ouvido é "minhoqueiro" e a semelhança, para mim, é óbvia. Concordo consigo quanto à originalidade dos Deolinda, e não é por acaso que têm tido um enorme êxito e estão no top nacional de vendas desde que apareceram. Quanto às letras (e eu também sou letrista, por isso tenho sempre especial atenção a esse aspecto) são muito boas, como eu também referi no meu texto. Não me entenda mal: gosto imenso de música portuguesa e o facto de não ouvir esta música em casa não lhe retira nenhum valor.
De qualquer modo, agradeço a sua oferta para a minha total conversão. Os Deolinda não devem ter muitos fãs assim tão generosos!
:-)
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De Tiago a 21.03.2013 às 22:10

Bem cheguei aqui, porque estive aqui à dias com um grupo de portugueses no museu do automóvel em Bruxelas e estava a passar esta música a passar e questionamos logo se teriam feito uma versão ou cover em inglês afrancesado da música dos Deolinda, mas de facto a música parecia mais antiga. Claro que a letra dos deolinda é infinitamente superior mas que a música é parecida disso não me restam dúvidas.
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De Ana Vidal a 26.03.2013 às 12:55

Obrigada pelo seu contributo a este post, Tiago. É interessante que tenha pensado que o cover era a canção original. :-)

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