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A pandemia da blogosfera

por João Carvalho, em 23.04.10

"Portugal tem das mais altas taxas de mortalidade por gripe A". Quem o diz é a subdirectora-geral da Saúde (onde andará o comunicativo e sempre disponível George?), referindo-se aos números contabilizados e divulgados pelo Centro Europeu para a Prevenção e Controlo de Doenças. Um ano depois dos primeiros casos detectados no México, os mesmos números indicam que a gripe A afectou 214 países, que houve 17.798 mortes no mundo, que Portugal registou 121 mortes, que Espanha, França e Itália se ficaram pelas 0,31 a 0,6 mortes por cem habitantes e que Portugal teve 0,91 a 1,2 mortes por cem habitantes.

Com números tão precisos, fica por entender o quadro de variações das mortes por cada cem habitantes, mas isso são minudências. Adiante. Vale a pena dar atenção aos lucros fabulosos à custa da produção de vacinas, do alarme generalizado e da aquisição atabalhoada à sombra das campanhas de vacinação. Porém, a mesma subdirectora diz que "ainda é cedo para saber se estes números traduzem diferenças reais de mortalidade e não diferentes taxas de detecção e notificação" e que "os números são tão pequenos que a comparação se torna estatisticamente difícil".

Avancemos, pois, para outro dado: a Suécia, por exemplo, alcançou uma taxa de vacinação que parece ter rondado os 60 por cento; já em Portugal, referem as nossas autoridades que a cobertura se ficou pelos cinco por cento. O que diz sobre isto a subdirectora da Saúde? Diz, como não podia deixar de ser, que «os governos tiveram capacidade para se organizar», que "é preciso melhorar a comunicação" e que "com os media convencionais (jornais, TV, rádio) até correu bem", mas acrescenta: «Temos muito que aprender.» Porquê? Porque, «onde circularam as notícias mais estranhas sobre as vacinas, foi em blogues anónimos, no YouTube, Facebook, Twitter».

Ó ignomínia! Ainda bem que o DELITO DE OPINIÃO não é um blogue anónimo e não fica abrangido pela ilustre subdirectora, porque a verdade é que nos fartámos de andar aqui a desmascarar os disparates sobre a gripe A que foram sistemática e insistentemente oficializados pelas nossas instituições. É só reler o que temos arquivado no mesmo tag aqui patente. Claro que o DO é muito bem frequentado e por muita gente, mas nunca nos passou pela cabeça influenciar 95 por cento da nossa população. Tudo gente influenciável e pouco amiga de vacinas, pelos vistos.

Sendo assim, preferimos começar a colaborar:

— Senhora subdirectora, se é preciso melhorar a comunicação, deve ser por vir aí outra pandemia parecida, certo? É só dizer-nos, para não pormos a circular notícias estranhas. Já agora, talvez seja melhor encomendar mais vacinas, porque devem andar por aí umas toneladas fora de prazo, não?

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21 comentários

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De Anónimo a 23.04.2010 às 18:28

1,2% POR CEM HABITANTES DÁ EM PORTUGAL CEM MIL MORTES...
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De João Carvalho a 23.04.2010 às 22:25

Não precisa de gritar, não é? A notícia tem disparates maiores e disparates menores. Diícil é encontrar conteúdo que não seja disparatado.
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De João André a 24.04.2010 às 09:10

1,2% por cem habitantes não existe. Ou é 1,2 por cem habitantes ou 1,2%. 1,2% por cem habitantes é um disparate.
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De João André a 23.04.2010 às 18:37

João, como eu escrevi bastantes vezes na altura em comentários aos seus posts, não me parece que tenha desmascarado nada. Do meu ponto de vista apenas demonstrou um enorme cepticismo relativamente ao potencial do problema e alguma falta de conhecimento científico que lhe permitisse entender melhor os riscos que estavam em causa.

Fico é agora à espera do post contra os seguros que são feitos e dão monstruosos lucros às seguradoras quando a probabilidade de acidente é relativamente baixa.
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De João Carvalho a 23.04.2010 às 22:36

Como deve ter percebido, então e em outros momentos, não é meu hábito ultrapassar o meu chinelo. Ou seja: a minha falta de conhecimento científico sobre a gripe A nunca foi um obstáculo para perceber (como tanta gente) e dizer com todas as letras que a "pandemia" não passava de um logro com fins mais do que percebidos. Foi o que ficou demonstrado.

(Já agora, lembro-lhe que não aceito encomendas. Falarei de seguros se me apetecer e tiver tempo. Faça-o V. quando entender e achar que vem a propósito. Até porque não faz o meu tipo apontar o dedo às seguradoras, quando é a legislação que está em causa, o que torna o assunto eventualmente muito mais grave, se visto na perspectiva que V. sugere. Como pode novamente verificar, não costumo disparar à toa; sou a favor do tiro ao alvo.)
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De João André a 24.04.2010 às 09:23

João, eu raramente me incomodo com os seus posts. Incomodei-me com os seus porque sempre achei que estava a "demonstrar" (coloco entre aspas porque não demonstrou nada) que a epidemia era um logro.

Desde o início que foi dito que esta gripe tinha características que poderiam causar muitas mortes. Isso ESTÁ demonstrado sem qualquer dúvida. Mas ninguém disse, entre a comunidade científica, que a pandemia ia DE CERTEZA causar muitas mortes caso não houvesse vacinação. Apenas se recomendou a vacinação por causa do enorme risco potencial. Se quiser um paralelismo, é como dizer que é melhor usar cinto de segurança porque PODE haver um enorme risco ao não o fazer. Note que se ninguém conduzir depressa não há risco, mas não consegue ter a certeza.

As empresas farmacêuticas fizeram a sua parte: tentaram vender as vacinas que produziram. Muitas outras situações há em que produzem vacinas (com todos os restantes custos associados) para nada e têm prejuízo. Desta vez conseguiram ter lucro. É por isso que falei em empresas de seguros (o João escreve sobre elas ou outros assuntos só porque quer, não se abespinhe apenas por uma provocação), porque é uma situação semelhante: tantos seguros que nos tentam convencer a comprar quando o risco de ter que os usar é mínimo. Mas não nos queixamos.

Por isso falei na ignorância. A esmagadora maioria da população (não só portuguesa, mas do mundo inteiro) não percebe minimamente a linguagem científica e isso levou aos problemas de comunicação. Não é uma questão de se entender os mecanismos biológicos ou a virologia, antes de entender a linguagem que os cientistas usam. Quando um cientista diz ou escreve "há um risco potencial associado a X" os outros cientistas entendem-no, mas regra gera a população não o entende. E isso tanto pior é quando os jornalistas lêem a mesma coisa porque, se não entenderem, vão propagar o erro (escrevo "propagção" em termos científicos) para o resto da população. Nesse aspecto dou-lhe um bom exemplo através do cartoon abaixo:

http://asymptotia.com/wp-images/2009/05/science_news_cycle.jpg

Mantenha a sua posição há vontade, mas não venha é depois dizer que a comunidade científica éapenas grita lobo. Lembre-se que o lobo um dia surgiu.
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De João Carvalho a 24.04.2010 às 12:55

Meu caro, não precisa de GRITAR que eu conheço bem o valor das palavras.

Vai precisar de se esforçar mais e, sobretudo, de se incomodar muito mais para eu me abespinhar. O que não deverá conseguir, visto que não está para se incomodar com o que escrevo.

Entre a comunidade científica, como sabe, disse-se tudo e o seu contrário. Já eu, modestamente, falei sempre numsó sentido e o que sempre me chocou foi a OMS ter estado na origem de um alarme improvável: nunca houve epidemia nem pandemia, como rapidamente se podia ter percebido, apesar da insistência crescente dos comunicados e do negócio das vacinas.

O 'cartoon' que me apontou é interessante e tem o toque científico que lhe agrada. Mando-lhe um também
(http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/1424118.html) e peço-lhe desculpa por ser muito terra-a-terra, que é mais ao meu jeito: pouco científico, muito directo e factual, para que todos entendam numa rápida vista de olhos, como deve ser a comunicação. Ou seja: a comunicação deve ser prática, para todos (iletrados incluídos) e, acima de tudo, verdadeira.

Finalmente, na minha posição não "há" vontade. Há vontades várias, ora para um lado, ora para outro, conforme os casos. E estou à vontade para isso.
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De João André a 24.04.2010 às 13:32

Não compreendo o que é que precisa para perceber que houve de facto Pandemia mas não uma epidemia. Eu expliquei várias vezes a diferença nos comentários aos seus posts. A pandemia, repito, aconteceu de facto. E se continuar a não a querer aceitar então estamos perante um caso diferente da ignorância, mas muito pior (a ignorância resolve-se facilmente, todos são ignorantes relativamente a um assunto até o aprenderem, não é verdade?).

Os cientistas disseram que a pandemia poderia assumir contornos de epidemia grave. Os cientistas disseram que o vírus poderia evoluir para uma forme bastante mais perigosa e mortal. Os cientistas disseram ainda que a melhor forma de prevenção eram as vacinas e os medicamentos anti-virais de algumas empresas farmacêuticas. A OMS decidiu que preferia errar pelo lado da prevenção e aconselhou a compra e administração das vacinas e dos anti-virais. Houve pressão das empresas farmacêuticas? Sem dúvida, mas que eu saiba isso ainda é legítimo (mesmo que nem sempre moral). Houve embuste? Mas que embuste? Ninguém mentiu ali. A OMS sabia muito bem (melhor que o João ou eu) os riscos em volta do assunto e decidiu daquela forma. O resto será apenas ruído.

O seu cartoon tem muito boa razão de ser. Só que há um problema: não há vacinas para a SIDA nem para a malária (a diarreia é um caso à parte). Também não há cura para o cancro, como se sabe. Se houvesse curas e vacinas para estas doenças mas não para a gripe, o cartoon apareceria ao contrário. E os seus posts, imagino (talvez abusivamente) seriam contra as malfadadas companhias farmacêuticas que tentam impôr as vacinas contra a SIDA, malária, etc a uma OMS que se deixa levar.

Mas esteja à vontade. Diga que o lobo não existe. Só espero é que no dia em que apareça haja quem o possa matar (ao lobo).
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De João Carvalho a 24.04.2010 às 16:07

Ok. O que eu tinha a dizer já o disse.
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De João André a 24.04.2010 às 13:41

Já agora dois pontos extra: não grito, apenas pretendo deixar mais reforçado certos aspectos do que escrevi. Não me apeteceu colocá-los a bold (não me apeteceu usar as tags html), por isso foi em maiúsculas que é mais fácil. Chame-me preguiçoso, mas não diga que grito. Se eu quisesse gritar fazia como no primeiro comentário e usava maiúsculas em todo o texto. Não o fiz, como viu.

Segundo: sim, sou cientista. Coisas minhas. Gosto de tratar dos assuntos de forma clara. Gosto que as certezas sejam apontadas e as áreas de dúvida deixadas em claro. E nas áreas onde uma explicação está fortemente apoiada pelos dados, essa explicação deve ser apresentada apontando as possibilidades de estar errada e os factos que não apoiam completamente a explicação.

Assim é por exemplo com a questão das alterações climáticas. A explicação mais provável é apresentada. As falhas na teoria (e outras possíveis explicações) são também colocadas ao dispôr da comunidade (não só a científica). Não gosto de áreas do saber que julgam que os factos podem ser escolhidos ao sabor das interpretações e que uma teoria ou a certeza de um ponto de vista pode ser decidida de forma democrática.

São coisas minhas. Gosto dos factos e de falar ou escrever sobre o que compreendo minimamente. Por isso não falo nas questões judiciais em volta de Sócrates ou do PS. Não é a minha área (nem sequer compreendo alguns dos termos jurídicos) e por isso prefiro não falar do assunto.
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De João Carvalho a 24.04.2010 às 16:08

Ok. O que eu tinha a dizer já o disse. E sou um cientista da língua: compreendo muito bem o significado das palavras e o peso relativo delas em cada contexto.
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De João André a 24.04.2010 às 16:37

Temo que não. Pelo menos em alguns contextos. Mas pronto, fiquemos assim.

Já agora uma pergunta: pode dizer-me se entende porque razão digo que a pandemia foi real e se concorda com o que digo?
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De João Carvalho a 24.04.2010 às 19:24

Concordo, João, e até lhe digo porquê. Porque V., apesar de alguma crispação e um ou outro adjectivo infeliz (ignorância e coisas assim), não escorrega nem é atraído pela baixeza. «Respeita para seres respeitado», não é? Concordo, sobretudo, naquilo que não domino e que, naturalmenta, lhe serve para discorrer paralelamente ao que escrevo.

Continue a aparecer, que há-de habituar-se a perceber que comentar os meus 'posts' não é muito incómodo.
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De João André a 25.04.2010 às 10:22

Nunca deixei de o fazer e não vai ser agora. Até porque discordâncias, por maiores que sejam, não podem ser impedimento para uma boa discussão. Um abraço.
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De João Carvalho a 25.04.2010 às 10:50

Como está cheio de saber, é o que defendo.
Um abraço.
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De José Gomes André a 23.04.2010 às 19:16

O título deste post deveria ter sido "Portugal, país bizarro II". A culpa é do twitter, do facebook e blogosfera... Esta é nova! Ainda vão dizer que nós é que provocámos o défice de 10%!..

P.S. Não é 1,2 mortes por cem habitantes. É 1,2 por CEM MIL. O que mostra bem o quão ridículo tudo isto foi.
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De João Carvalho a 23.04.2010 às 22:39

Sem dúvida, José. O erro grosseiro deve ficar a dever-se aos blogues.
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De João Lisboa a 23.04.2010 às 20:23

Os numerozinhos:

http://lishbuna.blogspot.com/2010/04/somar-2-2-sff-ha-cerca-de-um-ano-08.html
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De João Carvalho a 23.04.2010 às 22:37

Os números, claro.
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De Ana a 24.04.2010 às 11:36

"touché"

Preparativos nos bastidores. A nível de trabalho já me alertaram para a nova onda da Gripe "prevista" para o final de 2010...
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De João Carvalho a 24.04.2010 às 12:37

Ou eu me engano muito, ou deve ser a epidemia grega que há-de vir aí.

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