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A política não é um chá em Seteais

por Pedro Correia, em 20.04.10

 

Como muitos portugueses, fiquei estupefacto com a incrível grosseria de que o Presidente checo Václav Klaus deu mostras, em duas ocasiões, durante a recente visita do homólogo português a Praga. Mas fiquei ainda mais estupefacto com a passividade demonstrada por Cavaco Silva, que escutou impávido a arenga do seu colega checo sem lhe responder com a firmeza e a dignidade que a situação impunha. Se, como já aqui afirmou a Ana Margarida, é uma impensável descortesia desconsiderarmos alguém que convidamos para nossa casa, mais grave ainda é quando esse gesto ocorre no plano das relações entre dois Estados, ainda por cima parceiros na União Europeia.

Se as palavras de Klaus foram ofensivas, o silêncio de Cavaco só contribuiu para as ampliar. O institucionalismo que noutras circunstâncias o Presidente Cavaco Silva tem evidenciado exigiria neste caso uma réplica pronta e sem qualquer ambiguidade em defesa da imagem externa do Estado português, que o checo pretendeu manchar.

Bastar-lhe-ia ter lembrado que Portugal é membro de pleno direito da Comunidade Económica Europeia - actual União Europeia - desde 1986 e foi também graças ao esforço solidário dos contribuintes portugueses que a República Checa beneficiou dos fundos estruturais que lhe têm permitido prosperar desde que ingressou no clube comunitário, em 2004.

Questiono-me como teria reagido Manuel Alegre em semelhantes circunstâncias. Ou até Fernando Nobre. E não tenho dúvida que qualquer deles se comportaria à altura da situação, deixando uma palavra de desagrado perante o destempero de Klaus.

A política não é um chá às seis da tarde em Seteais. Na hora de fazerem um balanço do mandato de Cavaco, os eleitores terão de o avaliar também por isto.

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16 comentários

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De Paulo Gorjão a 20.04.2010 às 18:21

Eu que às vezes me salta a tampa suspeito que na volta do correio tinha dito logo ao senhor Klaus que manso é a tia dele.
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De Pedro Correia a 20.04.2010 às 21:18

De uma coisa podemos estar certos: Klaus não é a tia de Louçã. Nada manso, o senhor.
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De jose-catarino a 20.04.2010 às 18:28

Eu fiquei esclarecido: os grandes homens revelam-se nos momentos críticos. Provavelmente fazem mais disparates por não colocarem mesquinhices ou cobardias à frente da dignidade -- pessoal e do país que representam ("Aqui sou mais do que eu / Sou um povo que quer o mar que é teu").
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De Pedro Correia a 20.04.2010 às 21:19

O presidente português optou por não dar cavaco. Fez mal.
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De Sérgio de Almeida Correia a 20.04.2010 às 19:37

Eu vi, ouvi e não gostei, mas o tempo tem-me escasseado para textos mais elaborados.
Já tinha reparado no comentário oportuníssimo da Ana Margarida e agora fiquei ainda mais satisfeito por ver que também o assinalas com a habitual categoria.
Há silêncios que pesam. E doem muito.
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De Acho eu a 20.04.2010 às 20:42

"E doem muito".

Nesses casos, um ben-u-ron é infalível.
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De João Carvalho a 21.04.2010 às 00:53

Isso é dose de criança. Os adultos tomam sempre dois "benurões", como faz a Fátima Campos Ferreira.
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De A.Nogueira a 20.04.2010 às 21:53

O politicamente correcto é o que dá. Preferia um Hugo Chavez português para responder à letra ao sr. Klaus e repor o sítio onde os portugueses os têm...
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De Pedro Correia a 21.04.2010 às 00:01

Obviamente, não vou tão longe. Chávez, só as do Areeiro.
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De Francisco a 21.04.2010 às 00:12

Acho, há muito tempo, que Cavaco não é benéfico ao país e que deve ter o maior e mais limpo umbigo de Portugal. Mas vejo vantagens na forma em como (não) reagiu.
Nestes tempos em que a salubridade da nossa economia está dependente da credibilidade daquilo que fazemos e no que dizemos que vamos fazer. Parece-me que a agressividade passiva de Cavaco teve alguma coisa de positivo.
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De Pedro Correia a 21.04.2010 às 10:57

Gostei desse conceito de "agressividade passiva". Parece-me uma boa causa fracturante.
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De Sérgio a 21.04.2010 às 01:48

Vamos por partes.

Que Vaclav Klaus prima pela grosseria e má educação não devia ser novidade para ninguém.

Segundo o artigo do Público, as afirmações em causa foram as seguintes:

"Fico muito surpreendido por Portugal não estar nervoso por ter um défice de oito por cento"

e, no dia anterior,

“inimaginável que alguns países europeus possam admitir determinados défices”

A minha pergunta é a seguinte: o Vaclav Klaus disse alguma mentira?

Na minha opinião, ele limitou-se a dizer, na cara de Cavaco Silva, o que muitos outros governos europeus dizem em privado, seja em Berlim, Bruxelas ou em Estrasburgo.

Acrescentaria que é precisamente por se tratar de outro país da UE que Vaclav Klaus, enquanto presidente de outro país da UE, pode (deve?) insurgir-se contra situações inadmissíveis que podem prejudicar não só o país em causa mas todo o conjunto.

Por outro lado, a República Checa, bem como qualquer dos outros chamados 'países A8', não têm que demonstrar qualquer tipo de gratidão eterna à UE pré 2004. Estes já sabiam ao que iam - desde os Alemães aos Portugueses.

Se tinham alguma objecção ao custos inerentes ao alargamento, tiveram, nessa altura, bastantes oportunidades para evitar que tal se realizasse. Se não o fizeram foi porque entenderam não o fazer.

Se fomos enxovalhados por Vaclav Klaus? Claro que sim! Mas a culpa não é dele. A culpa é de Portugal por permitir que se coloque nesta situação.

Quem quer ser respeitado tem que se dar ao respeito.

E fico-me por aqui que isto já vai longo... e tarde!
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De Pedro Correia a 21.04.2010 às 10:56

Conclusão: Klaus não é Santa. Nem é a tia do Louçã.
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De Sérgio a 21.04.2010 às 21:58

Sim, de facto, de Pai Natal tem muito pouco...

De Tia... nunca se sabe! lol
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De Pedro Correia a 22.04.2010 às 00:37

Pois. As aparências iludem.

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