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Não há coincidências (4)

por Ana Vidal, em 23.04.10

 

American Tune (1975) - Paul Simon

 

Há quem defenda que este caso, ao contrário dos que já apresentei anteriormente, é pura coincidência. E eu confesso que tenho vontade de acreditar que sim, que Paul Simon seria incapaz de usar uma melodia de Bach sem atribuir os créditos devidos ao autor original. E também de acreditar que Paul Simon, senhor de uma criatividade e de uma qualidade musical muito acima da média, não precisaria de copiar ninguém. Mas... vejo-me obrigada a admitir que tendemos, todos nós, a usar dois pesos e duas medidas nas nossas avaliações, consoante se trate de quem admiramos ou de quem não consideramos ou não gostamos de todo. E tenho de admitir também que a descoberta desta "coincidência" que hoje trago aqui, a fiz sozinha, primeiro intrigada e depois desiludida, durante um concerto maravilhoso. Já contei o caso aqui, para quem estiver interessado em saber a história toda. O certo é que, pelo menos no disco de Paul Simon que tenho onde consta American Tune, não há qualquer alusão a Bach. Para mim, e por mais que me custe, é um claro caso de plágio.

 

 

Matthaus Passion.1.11.Choral.Ich will hier bei dir stehen - J.S. Bach

 

O que eu não sabia – só descobri nas pesquisas para esta série – e me deixou muito mais aliviada, devo confessar, é que este  magnífico coro de Bach já é também, ele próprio, uma espécie de cover de "Mein Gmüth ist mir verwirret" (sem video disponível), uma melodia criada por um compositor anterior: Hans Hassler. Curiosamente, um outro grupo da Pop Music – Peter, Paul and Mary – fez dela "Because All Men Are Brothers" (video aqui), um dos seus muitos êxitos. Toda esta sequência de aproveitamentos prova, uma vez mais, que a tentação da cópia não poupa ninguém, nem os músicos mais talentosos.


30 comentários

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De João Carvalho a 23.04.2010 às 12:19

«Ouvido absoluto» é para uma em cada dez mil pessoas. Enquanto tu e eu formos vivos, saberemos sempre que há pelo menos vinte mil pessoas vivas no mundo...
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De Ana Vidal a 23.04.2010 às 17:40

Também tu, Brutus?
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De João Carvalho a 23.04.2010 às 22:55

Brutus é a tua tia, pá.
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De Ana Vidal a 23.04.2010 às 23:52

A minha tia não é brutus, pá. Mas é surdus.
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De João Carvalho a 24.04.2010 às 13:04

:o)
Acho que ela não ia gostar de me ouvir...
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De Pedro Correia a 23.04.2010 às 12:38

Grande série esta, Ana. Cada vez mais interessante. Ando a gostar de conhecer esta tua faceta "detectivesca".
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De Ana Vidal a 23.04.2010 às 17:41

Obrigada. Dá algum trabalho mas é divertido, e aprende-se sempre mais alguma coisa sobre música.
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De ariel a 23.04.2010 às 14:56

Ana, acabo de me zangar consigo, isso não se faz a uma devota de Paul Simon , é uma crueldade, e logo com a Matthaus Passion de Bach. Reconheçamos que o rapaz não se assoou a qualquer guardanapo e "soube" fazê-la......
:))
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De Ana Vidal a 23.04.2010 às 17:42

Eu também sou devota... e de ambos! Deu-me algum gozo, confesso, saber que Bach também copiou alguém. Ninguém escapa, Ariel...
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De Luísa Correia a 23.04.2010 às 15:43

Há aquela tese, Ana, de que determinadas sequências de notas implicam uma nota específica de finalização; que não há como fugir a esse «determinismo» musical. Mas, neste caso, não são sequências de notas, mas de frases inteiras. Fico abalada, Ana, em relação ao nosso inspirado Paul Simon.
P.S.: Será que a coisa nunca foi assumida publicamente, mesmo se não inscrita no disco?
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De Ana Vidal a 23.04.2010 às 17:46

Penso que foi assumida mais tarde (não sei se por escrito ou em entrevistas), aliás porque não há como negar as evidências. Mas no álbum de estreia de American Tune não há qualquer referência a Bach, como eu digo no post. Fraquezas, até nos mais inspirados...
;-)
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De Luís Reis Figueira a 23.04.2010 às 15:57

Isto já não se pode considerar bem um plágio mas mais um 'replágio', tantas foram já as apropriações feitas por diversos autores de um mesmo tema ao longo dos tempos. Como V. muito bem investigou, Ana, (sem dúvida alguma, ajudada pelo seu ouvido absoluto) tudo terá começado com o tal Hans Hassler, continuado por J.S. Bach, interpretado pelos Peter, Paul & Mary (que, contudo, têm o cuidado de citar a fonte) e finalizado pelo Paul Simon. No fim disto tudo, resta-nos a consolação de podermos considerar que "Mein Gmüth ist mir verwirret", "Ich will hier bei dir stehen", "The Whole Wide World Around" e "American Tune" são, todas, sem excepção, composições fantásticas sobre um mesmo tema.
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De Ana Vidal a 23.04.2010 às 17:50

Quando a fonte é citada não se pode falar de plágio, evidentemente. Justiça feita aos Peter, Paul and Mary, que o fizeram desde o primeiro momento. Masd tenho de dar-lhe razão: esta sequência melódica é tão boa que todas as "derivações" resultaram. Sugiro que oiça também a versão de American Tune da Eva Cassidy, que acho excelente.
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De João Carvalho a 23.04.2010 às 23:01

Com essa do "replágio" fizeste-me lembrar de uma canção francesa com um refrão qualquer que dizia 'à la plage', Luís. Claro que voltar lá no dia seguinte seria ir 'à la replage'. Isto de canções está tudo ligado.
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De Ana Vidal a 23.04.2010 às 23:54

Tudo ligao! Esta minha série de plágios é a Face Oculta da música...
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De Ana Vidal a 23.04.2010 às 23:55

ligado, ligado, ligado. irra.
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De 100anos a 23.04.2010 às 16:29

Cara Ana,
Se for verificar na Wikipedia, está lá, preto no branco, com toda a naturalidade que parte da melodia do "American Tune" se baseia numa melodia de JS Bach - "The tune is based on a melody line from Johann Sebastian Bach's chorale from "St. Matthew Passion," itself a reworking of an earlier secular song, "Mein Gmüth ist mir verwirret," composed by Hans Hassler.[2] The melody used for American Tune can be heard quite distinctly in part 1, number 21 and number 23 and in part 2, number 53". -
http://en.wikipedia.org/wiki/American_Tune

Paul Simon não tem necessidade de plagiar ninguém, como aliás sugere no seu post, pois é um indivíduo com uma criatividade artística fantástica.
De qualquer modo, obrigado pela notícia - eu toco e canto o "American Tune" há muito e agrada-me saber que naquela lindíssima melodia há também muito de JS Bach, um dos meus heróis.

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De Ana Vidal a 23.04.2010 às 17:57

Caro 100 anos,

eu não disse que tinha descoberto a pólvora, disse só que tinha descoberto este plágio por mim própria, sem ter lido sobre o assunto em parte nenhuma. Mas deixe-me lembrar-lhe que quando Paul Simon gravou American Tune ainda a Wikipedia estava a muitos anos de ver a luz do dia (ou do éter), pelo que o que diz nada prova. A verdade é que ele não citou a fonte, e isso está explícito no disco que lançou a canção (pelo menos na edição que eu tenho). Quanto a "criatividade artística fantástica", quer melhor exemplo do que o próprio Bach? E no entanto...
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De Paulo a 23.04.2010 às 19:53

Os Maranata do António Sala também cantaram uma versão sobre a Sinfonia nº 40 de Mozart que, mal comparado, foi o que fizeram Peter, Paul and Mary a partir de Bach. Mas a canção de Paul Simon até que saiu muito bem.
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De Ana Vidal a 23.04.2010 às 23:58

Não sabia dos Maranata, Paulo. Quanto à canção de Paul Simon, adoro. Até pela letra, que é óptima.
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De Nicolina Cabrita a 23.04.2010 às 22:23

E haverá algum compositor, por mais talentoso que seja, que consiga fugir totalmente ao plágio, em maior ou menor medida, da música de J.S.Bach? Recentemente têm feito umas experiências de «fusão» da música de Bach com a de outras culturas (estou a recordar-me de um disco recente, com música tradicional africana e música de Bach), nem todas particularmente bem sucedidas (reconheça-se) mas que ainda assim evidenciam o aspecto «genético» da obra de Bach. Talvez porque Bach não se via como um «artista», no sentido de «criador original» (modelo que corresponde ao período romântico) mas como um servidor da Música. Julgo que ele próprio não tinha problemas em ser «compilador» das boas ideias dos outros, e como também era um criador genial, o resultado foi uma obra que, na minha modesta opinião, não é comparável a qualquer outra na História da Música (talvez Mozart, ainda que Mozart seja genial por razões diferentes).

Seja como for, gostei muito do post, porque conheço todas estas músicas e nunca me tinha ocorrido a ligação. Excelente! Parabéns, Ana!

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De Ana Vidal a 24.04.2010 às 00:10

Concordo, Nicolina. E também sobre a genialidade de Mozart, ainda que por razões diferentes das que fazem Bach um compositor único.
Conheço algumas dessas experiências e fusões, também no Brasil se fez um "sanbach" curiosíssimo (a expressão é minha, foi o que me ocorreu).

Se tiver dicas para esta série, venham elas.
:-)
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De Ana de Sá a 23.04.2010 às 23:35

É isso aí! São tantos os casos, Ana V., muito mais do que poderá imaginar. Mais um para a colecção:

Sergey Prokofiev
Lieutenant Kije - Romance
http://www.youtube.com/watch?v=wf5w-PP6UQo&feature=player_embedded


Sting
Russians
http://www.youtube.com/watch?v=4rk78eCIx4E&feature=player_embedded#!

Bom f.d.s.
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De Ana Vidal a 24.04.2010 às 00:15

Esse já estava na minha lista, Ana. Embora a cópia tenha sido desde logo assumida por Sting, o que só lhe ficou bem.

Mas agradeço na mesma.
:-)
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De mdsol a 24.04.2010 às 13:26

Esta série é interessante e muito pedagógica, Ana. Estamos conversadas quanto ao Paulo Simão [que mal que isto soa :))] e ao Bach.

Gostei de saber do seu ouvido absoluto. Eu não chego a tanto. Só me disseram: "tens muito bom ouvido". A ironia, e por isso falo do assunto, é que de facto tenho muito bom ouvido, mas não ouço quase nada do ouvido direito. Tem a sua piada, não tem?

:))))
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De Ana Vidal a 24.04.2010 às 17:17

Ou seja, Maria do Sol: tem um ouvido absoluto e outro partidário... é isso?
;-)

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