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Cartas do Japão - 10

por Teresa Ribeiro, em 10.04.10

 

8º dia - À chegada a Hiroshima espera-nos Komiko. É simpática, mas percebe-se bem demais que está a cumprir serviço, portanto não cativa como as outras. O seu inglês é razoável, ou então sou eu que já os consigo perceber melhor. Komiko veste um quimono. Observo-a e de repente percebo porque ganharam as japonesas a fama de terem um andar gracioso. É que o quimono trava-lhes as pernas, obrigando-as a dar passos pequeninos. Com saias curtas ou calças a graciosidade evapora-se num ápice, por causa daquela curvatura que têm nas pernas. É assim que se desfazem certos mitos.

Está calor, mas uma neblina impede-nos de ver o céu azul. Já nem quero saber. É o último dia, nas tintas. O programa inclui uma visita à ilha Miyajima, onde vamos visitar o santuário xintoísta Itsukushima, considerado a terceira maravilha do Japão. Vejo a foto no prospecto que Komiko nos entregou e fico entusiasmada. Este santuário foi edificado sobre estacas para dar a impressão de que flutua sobre as águas do oceano. Viajamos para a ilha de barco. Tento fotografar o santuário, quando o descubro à beira da ilha, mas desisto por causa da neblina. A minha sina, nesta viagem, é não ver nada nas melhores condições, penso, conformada. Mas quando desembarcamos e percebo que está maré baixa e que aquele efeito do santuário a vogar nas águas não se pode observar na vazante, a irritação da véspera regressa em força. Entre raios e coriscos, desabafo: tive de imaginar Nikko sem chuva, o pavilhão dourado com Sol, as encostas de Quioto com flores e agora ainda tenho de imaginar o soi-disant "santuário flutuante" com água. Estou farta de puxar pela imaginação!

Há veados à solta na ilha, algo que já tinha observado em Nara. Estão tão habituados à presença das pessoas que não fogem, pelo contrário. Se percebem que temos alguma coisa que lhes possa interessar, até nos perseguem. E o que lhes interessa? Comida e... papel. Um deles roubou de supetão um mapa a uma turista desprevenida e começou a comê-lo. Adorei a cena. Graças aos bichos recuperei a minha boa disposição. Almocei à japonesa, descalça e sentada no chão. Menu? Ostras. Nunca vi ostras tão grandes. Estavam uma delícia.

Não tinha grandes expectativas em relação a Hiroshima do ponto de vista arquitectónico, por motivos óbvios. Porém, a visita a esta ilha foi uma surpresa e na cidade ainda existe um castelo bem bonito. Naturalmente trata-se de uma reconstrução, pois localiza-se muito perto da zona de impacto zero, onde tudo foi completamente arrasado. Há coisas que não esquecemos, como uma elevação no terreno onde estão enterradas as cinzas de milhares de corpos que não foi possível identificar e, claro, o museu que lhes é dedicado. Sente-se um silêncio pesado à nossa volta assim que entramos. Os visitantes ficam ensimesmados, sem vontade de fazer sequer comentários de circunstância. Um dos documentos que está em exposição é a carta que Einstein escreveu a Roosevelt informando-o de que os alemães estavam adiantados nas investigações sobre a bomba, mas que o seu grupo de investigação também já se encontrava em condições de avançar, se ele quisesse. Em poucas ocasiões um documento histórico me fez arrepiar tanto.

No fim os visitantes podem deixar mensagens em livros que se encontram dispostos para o efeito. Apeteceu-me registar a frase que ecoou durante toda a tarde na minha cabeça Tu nas vu rien a Hiroshima. Assinei, registei data e país. Esse filme, que roda ao ritmo do texto de Duras, é hipnótico. Faz sentido evocá-lo naquele lugar.

Chego tarde a Tóquio, só a tempo de dormir algumas horas. Virei o mundo do avesso, agora tenho de voltar a pô-lo no sítio. Amanhã regresso a casa.

 

Fotos: santuário Itsukushima 

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