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Cartas do Japão - 1

por Teresa Ribeiro, em 02.04.10
1º dia
- Viagem para o outro lado do planeta. Grande pedra. Tomei dose reforçada de calmantes para ver se dormia. Não dormi.

 

2º dia - Escrevo num bloco-notas manhoso. São 18.40h e já estou a jantar. Preciso de comer cedo para me deitar cedo, a ver se recupero da directa que tenho em cima. Este é o meu primeiro dia em Tóquio. Cheguei de manhã, a tempo de circular umas horas pelas ruas, meio à toa, só para sentir esta cidade de fusão, mas agora estou knock-out. Janto na esplanada de um restaurante que se situa perto de uma estação de comboio. Observo o movimento da hora de ponta e penso: "Já vi isto". Os bandos de meninas com farda de colégio, os funcionários do terciário de telemóvel e pasta. Tudo cenas de reportagem ou de filme. Passou mesmo agora por mim uma mulher de quimono e chinelas. Parece que passou de propósito para a meter nesta carta. Pensava que já ninguém andava assim na rua, mas hoje vi uma meia dúzia de mulheres com esta indumentária.

Não é a primeira vez que me encontro rodeada de gente que não é da minha raça, mas neste caso estou a estranhar mais a situação. Já me interroguei porquê e cheguei a uma conclusão: aqui eles vivem num mundo que em muitos aspectos não contrasta com o nosso, por isso ficamos com a sensação de que estamos perante um paradoxo qualquer.

Bocejo. E outro e outro. Vou ter de interromper a escrita. O resto será somado aos poucos, imagino que nas mais diversas situações.

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22 comentários

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De João Carvalho a 02.04.2010 às 00:21

De repente, Wenceslau de Moraes cruzou as minhas memórias.
É preciso recuperar a frescura, para ver com olhos de ver. Por trás das coisas, estão sempre outras coisas - muito, muito complexas e bem menos visíveis.
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De Teresa Ribeiro a 03.04.2010 às 00:48

Nada como viajar para recuperar a frescura do olhar :)
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De up_north a 02.04.2010 às 00:49

Faz pouco mais de um ano também aí estava.

Adorei e já estou a preparar o mais que desejado regresso!

A escala de Tokyo é um choque imenso. Experimenta encontrar um canto sossegado na estação de Shinjuku em hora de ponta...

Andei que me fartei. Perdi-me mais ainda. Mas sempre feliz da vida.

E depois há a comida. O que gostei menos foi o tão falado sushi. Há tanto, mais e melhor.

Uma sugestão gastronómica. Experimente Unagi (enguia frita, numas pequenas espetadas que custavam Y100 cada, uma delícia!)

Que saudades - e inveja também! ;-)
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De João Carvalho a 02.04.2010 às 01:03

Como eu o entendo. Partilho isso.
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De Teresa Ribeiro a 03.04.2010 às 00:50

Pois, up north. É uma experiência tão forte que ficamos com vontade de voltar desde o primeiro minuto.
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De Joana Lopes a 02.04.2010 às 01:01

«aqui eles vivem num mundo que em muitos aspectos não contrasta com o nosso, por isso ficamos com a sensação de que estamos perante um paradoxo qualquer.»

Exactamente! É uma descrição perfeita da diferença entre estar no Japão ou em qualquer outro país asiático.
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De João Carvalho a 02.04.2010 às 01:59

Esse paradoxo é particularmente perturbador no Japão. Mais subtil do que exposto como em outros países do Extremo Oriente, mais escondido do que assumido, mas também mais poderoso, muito mais poderoso. É preciso estarmos muito atentos e ir alternando a sua captação com uma boa dose de reflexão sobre a recolha gradual e nunca completa que vamos fazendo desse estranho 'puzzle'.
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De Teresa Ribeiro a 03.04.2010 às 00:52

Estamos pois em sintonia, Joana :)
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De João André a 02.04.2010 às 09:43

«Não é a primeira vez que me encontro rodeada de gente que não é da minha raça, mas neste caso estou a estranhar mais a situação»

eu arriscaria que uma boa parte disso terá a ver com a sensação imediata de se ser um corpo estranho. Na maior parte das metrópoles que vamos conhecendo, o ambiente é fortemente cosmopolita e as pessoas de todas as raças são a norma. Em Tóquio, apesar da imensidão de gente, haverá menos variedade e por isso mesmo ficamos mais cientes de o quanto destoamos. Mas claro que a questão cultural é fundamental na história...
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De Teresa Ribeiro a 03.04.2010 às 00:55

É verdade, João André. Essa quase homogeneidade acentua a sensação de estranheza de que falei.
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De Ana Vidal a 02.04.2010 às 11:52

Grandes novidades, Teresa! Queremos saber mais sobre essas sensações estranhas. Vai contando, sim?

Sayonara.
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De Teresa Ribeiro a 03.04.2010 às 00:57

Sayonara, Ana :)
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De mike a 02.04.2010 às 15:04

をお楽しみください太陽が昇るの国でのご滞在。
では、また, Teresa. :-D
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De João Carvalho a 02.04.2010 às 20:15

Serão entregues.
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De Teresa Ribeiro a 03.04.2010 às 00:58

Mike, faço minhas as palavras do João Carvalho :))
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De José Gomes André a 02.04.2010 às 15:28

:) Grande crónica. Boa viagem, bom repouso e vai dando notícias. Beijos "delituosos"!
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De Teresa Ribeiro a 03.04.2010 às 00:59

Obrigada, José.
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De NanBanJin a 02.04.2010 às 16:11

Boa Viagem e "Yokoso" (Bem-Vinda)!

Algumas sugestões, se me permite:

1. Em Tokyo-To não se esqueça de ir bem cedinho pela fresca à Lota de Tsukiji, o maior mercado pesqueiro do Mundo — em si mesmo, um Mundo à parte.
2. Passe uma tarde pelo Ginza — sempre fascinante —, e não se assuste com os preços de um simples café ou de um gelado, afinal está no Ginza — a artéria comercial do metro-quadrado mais caro e cobiçado à face da Terra.
3. Pessoalmente, gosto mais de Shinjuku do que de Shibuya, se bem que o níveis de concentração populacional podem ser insuportáveis em ambos, especialmente ao final da tarde.
Se tiver a chance de "se perder" à noite em Shinjuku, procure um pequeno quarteirão de barzinhos minúsculos chamado "Goruden Gai (Golden Guy)" (merece algum destaque em certos guias de viagens). Muitos dos bares são realmente claustrofóbicos na estreiteza das suas dimensões — alguns só podem suportar a presença de 3 ou 4 fregueses de uma assentada — e alguns não são particularmente receptivos à presença de estrangeiros que não falem Japonês, mas aqueles onde toda a gente é bem-vinda, saiba ou não saiba exprimir-se na língua de cá, reconhece-os logo. Lugar genuinamente carismático.
4. Ah! quase me esquecia!: ao passar pela lota de Tsukiji (Sugest.1) dê um passeio por Hama'Rikyu — antigo jardim privado da família Tokugawa (o Clã que deteve o cargo de Shogun, de 1603 a 1867 e instituiu Edo [hoje Tokyo] como capita "de facto" do Japão), um pequeno refúgio idílico entre arranha-céus. Daí pode apanhar um barco que sobe o Rio Sumida e a leva até Asakusa, um verdadeiro "must" para quem por aí passa.
6. Também entre Shibuya e Shinjuku, a não perder, uma passeata entre Aoyama e Meiji-Jingu, pela frenética Omote-Sandô, espécie de "Champs Elysées de Tokyo", a alcançar Harajuku — o grande "freakshow" ao vivo e a côres dos Domingos à tarde — e a serenar os ânimos pelo inefável Santuário de Meiji adentro. Imperdível.
5. Por último, e a salvo de polémicas, se considerar de interesse, passe pelo "infâme" Yasukuni-Ginja, sim! esse mesmo Yasukuni-Ginja, espécie de "Vale dos Caídos" daqui, que sempre que visitado por um político Japonês, põe toda a gente na China e na Coreia em histeria colectiva a queimar Hinomarus (Hi-no-Maru = Bandeira do Japão) e a berrar slogans anti-nipónicos.
Não se assuste se vir por lá as sinistras carrinhas negras dos Uyoku-Dantai (fachozinhos de serviço por cá): são absolutamente inofensivos, não se importam minimamente com a presença de estrangeiros no seu lugar sagrado predilecto, e limitam-se a apregoar os seus "Banzai" e outros slogans patrioteiros em grandes altifalantes ou amplificadores em níveis decibélicos próximos do insuportável. Mas é mesmo só isso e só por lá passam de quando em vez. O museu militar — Yashukan —, paredes meias com o Santuário, apesar do seu notório tendenciosismo, é realmente fascinante para quem se interesse pela História do Japão, uma história de armas, por definição, quer se aceite bem ou não a ideia.
E tantos tantos, tantos, tantos, tantos outros lugares e ideias que aqui podia partilhar. Quiçá para outra oportunidade.

Por último, não sei se tem planos para outras paragens no Dai Nippon, mas se não pensou no caso, 'imploro-lhe' que vá a Kyoto...

Ki O Tsukete! Excelente viagem! Aproveite MUITO!


L.F. Afonso, NAN BAN JIN, Hakata, Japão





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De João Carvalho a 02.04.2010 às 20:16

Genericamente de acordo com a lista, que está bem elaborada e é criteriosa.
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De Teresa Ribeiro a 03.04.2010 às 01:07

Nanbanjin: Obrigada por todas as sugestões. Neste primeiro post não expliquei, mas esta viagem está condicionada por um tour. Na verdade só neste primeiro dia é que tive liberdade de movimentos. O tour foi uma opção, que habitualmente dispenso. mas que para viajar pelo Japão me pareceu vantajosa. Mas estas dicas não se perdem. Haverá para todas as que não segui uma segunda oportunidade.
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De Pedro Correia a 04.04.2010 às 18:22

Que boa surpresa este teu diário de viagem, Teresa. Faz-me lembrar as duas vezes que estive em Tóquio, uma cidade que nos vai fascinando aos poucos, à medida que a conhecemos melhor.
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De Teresa Ribeiro a 04.04.2010 às 23:45

Foi a primeira vez que decidi fazer um diário de uma viagem, mas creio que a partir de agora vou adoptar este costume. É sem dúvida a melhor forma de preservarmos a memória de tantas experiências que se concentram em poucos dias e nos marcam para sempre.

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