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O horror.

por Luís M. Jorge, em 30.03.10

Portugal descobriu a pedofilia a 23 de Setembro de 2002. Nesse ano a opinião pública concluiu subitamente que era um crime hediondo e repugnante aquilo que antigamente lhe parecia uma conquista singela da ascensão social.

 

Durante toda a minha adolescência, e uma boa parte da idade adulta, não desconhecia que no parque Eduardo VII alguns meninos pobres trocavam favores com senhores importantes. Lisboa inteira tratava pelo petit nom deputados e ministros que divagavam à noite entre as alamedas frondosas, aspirando o perfume vivificante das acácias.

 

Quem travou amizades na mailing list do circuito Lux-Frágil pôde discorrer entre vodkas-tónicos sobre as orgias homossexuais de um figurão das noites Lisboetas — eventos cuidadosamente encenados, dizia-se, em que os mais jovens não iam para a cama com o Vitinho.

 

Fora de Lisboa o fenómeno tinha outro bucolismo: o pai chegava bêbado a casa, dava um sopapo na mulher e uma pinocada na filha. Na manhã seguinte esta ia guardar cabras, como de costume, e aos treze anos dava o salto para França com o irmãozinho nos braços.

 

Agora, em 2010, a Igreja assume que encobriu a pedofilia.

 

Dizem que leva umas décadas de atraso. Pois leva. Mas não é a única, nem somos todos parvos.

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32 comentários

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De Teresa Ribeiro a 30.03.2010 às 11:48

Claro que não é a única, Luís. Mas cabe-lhe fazer a diferença em questões de ordem moral. Não são eles afinal os pastores das ovelhas ranhosas que todos nós somos?
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De Renato Seara a 30.03.2010 às 11:52

A Teresa Ribeiro diz exactamente o que eu me preparava para dizer. Moralmente a Igreja ficará numa posição muito fragilizada se limitar a sua acção a pedidos de desculpa. É preciso "correr" com os padres pedófilos do seio da instituição Igreja.
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De Luís M. Jorge a 30.03.2010 às 19:01

Para quem é religioso talvez. Para mim, não há diferença de grau entre um canalha assumido que viola uma criança e um falso moralista que faz o mesmo.
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De Ana Vidal a 31.03.2010 às 16:32

Para a criança é o mesmo, de facto. Mas para a sociedade e para quem analisa friamente (se é que isso é possível) todos os contornos do crime, a diferença de grau é enorme, Luís. E o que digo não tem só que ver com religião.
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De Luís M. Jorge a 31.03.2010 às 16:45

Não concordo, Ana. Só se por sociedade em geral entenderes a parte da sociedade que é católica. Eu não sou, e as doutrinas morais da Igreja nunca me afectarem.

Trata-se de um problema penal, puro e simples.
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De Ana Vidal a 31.03.2010 às 17:05

Não é isso o que quero dizer, Luís. Seja-se ou não católico (ou outra coisa qualquer em termos de crença religiosa, ou agnóstico, ou ateu), religião e moral não são a mesma coisa. Moralmente, o falso moralista tem pelo menos uma culpa agravada em relação ao canalha assumido: a da hipocrisia. E isso faz toda a diferença no que toca à ilusão de confiança que provoca nas suas vítimas, que lhe facilita o crime e o torna ainda mais ignóbil. Tenho a certeza de que esse "pormenor" pesará na sentença de qualquer legislador.
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De Ana Vidal a 01.04.2010 às 14:21

de qualquer juíz, digo.
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De Jorge Gabriel a 31.03.2010 às 12:24

Ainda não consegui perceber o prquê de os padres não se casarem.
Enquanto a igreja católica continuar a não o permitir; situações destas sucederão constantemente.
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De José Manuel Faria a 30.03.2010 às 11:56

O problema da Igreja é o excesso de pastores, pois, se não os houvesse em demasia, a probabilidade de cometer pecado era muito inferior.

O ambiente seminarista é extremamente sombrio.

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De Luís Lavoura a 30.03.2010 às 11:57

O Luís Jorge mistura neste post um conjunto de coisas diferentes e que não deveriam ser confundidas.

A homossexualidade é uma coisa que nada tem a ver com a pedofilia. Há homossexuais pedófilos tal como há heterossexuais pedófilos. As "orgias homossexuais de um figurão da noite lisboeta" não envolviam invariavelmente, creio eu, crianças.

Os "meninos pobres [que] trocavam favores com senhores importantes" faziam-no voluntariamente, que eu saiba. Não podem ser confundidos com a filha que era violada pelo pai, nem com os meninos da Casa Pia que eram violados (ou oferecidos para violação) pelo Bibi. Não se deve confundir atos sexuais voluntários (prostituição) com atos sexuais forçados (violação).

No caso da Igreja estamos a tratar de violações. Não estamos a tratar de meninos pobres que decidem ganhar dinheiro na prostituição. São coisas diferentes.

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De Luís M. Jorge a 30.03.2010 às 19:03

Luis Lavoura, sugiro-lhe que pensa dois minutos antes de escrever aqui todos os disparates que lhe passam pela cabeça.
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De Ana Vidal a 31.03.2010 às 16:38

"Voluntariamente"????? "Meninos" que "decidem" ganhar dinheiro na prostituição?????
Para si é, então, assim uma espécie de escolha consciente e alegre nas "novas oportunidades"? Já reparou bem no que está a dizer, Luís Lavoura?

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De Luís Lavoura a 31.03.2010 às 17:54

Podem não ter sido eles quem decidiu e sim os seus pais, não sei.

Em todo o caso, é diferente um miúdo que é violado (levado a fazer sexo à força) de um miúdo que, por sua própria iniciativa ou por ser induzido a tal pelos pais, faz sexo em troca de dinheiro. O primeiro miúdo faz sexo mediante coação violenta, o segundo faz sexo para obter dinheiro.

É a mesma diferença entre uma criança que trabalhe em regime de escravatura e uma outra criança que, voluntariamente ou por decisão da família, trabalha numa fábrica em troca de dinheiro (trabalho infantil).
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De Ana Vidal a 31.03.2010 às 18:12

Não precisa de explicar-me a diferença entre violação e oferecimento de favores sexuais. Para mim, TODO E QUALQUER acto sexual com crianças (mesmo que APARENTEMENTE consentido e proveitoso) é uma VIOLAÇÃO. Desculpem-me a gritaria, mas este assunto põe-me fora de mim.

(Caso não saiba, a maior parte destas crianças não têm sequer contacto com os pais, porque vivem ou viveram em instituições. Portanto, se alguém os empurra para esta vida somos nós, sociedade. Eu e você incluídos, Luís Lavora.)
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De Luís Lavoura a 01.04.2010 às 10:06

Para si, todo e qualquer ato sexual com crianças é uma violação. Para mim, não.
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De Ana Vidal a 01.04.2010 às 13:06

Lamento sinceramente. Por si.
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De Miguel Madeira a 01.04.2010 às 11:48

Se a Ana Vidal fosse uma criança, era-lhe indiferente ser violada à força ou andar a prostituir-se por sua vontade?
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De Ana Vidal a 01.04.2010 às 13:05

Que pergunta facciosa, Miguel Madeira. Mas vou tentar responder-lhe, embora sem personalizar (pede-me um "e se..." numa situação que felizmente não vivi, e à qual é impossível responder sem tê-la vivido). Mesmo assim:

1. Nenhuma criança se prostitui por sua vontade.
2. Se o faz, já deixou de ser criança por dentro (mesmo que o seja aparentemente).
3. Se eu fosse uma criança com essa escolha pela frente, penso que a própria vida me seria indiferente.
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De Luís Lavoura a 01.04.2010 às 13:24

Eu diria que a maior parte das pessoas, e a totalidade das crianças, não trabalha por sua vontade, mas sim para obter dinheiro. As crianças que se prostituem não são exceção a esta regra geral: elas trabalham na prostituição, não porque gostem de trabalhar ou "por sua vontade", mas porque precisam de dinheiro para viver. Portanto, dizer que "nenhuma criança se prostitui por sua vontade" não tem nenhuma relevância especial. Da mesma forma, uma criança que se prostitui, tal e qual como uma criança que executa qualquer outro trabalho por dinheiro, já deixou de ser criança por dentro, pelo que, mais uma vez, o ponto 2. da Ana nada significa de especial.

O que eu quero dizer é que todo o trabalho infantil é certamente condenável, e a prostituição infantil dificilmente o será mais do que qualquer outro. Em todo o caso, o trabalho infantil não pode de forma nenhuma ser confundido com a violação (estupro, sexo à força) de uma criança.
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De Ana Vidal a 01.04.2010 às 14:20

Não sei o que mais me impressiona em si, Luís: se o facto de nada, para si, parecer ter "relevância especial", se o facto de meter tranquilamente no mesmo saco o trabalho adulto, o trabalho infantil, a prostituição e a violação. Desisto. E peço-lhe que não veja na minha desistência qualquer superioridade, é que não consigo discutir com uma pessoa que fala uma língua diferente da minha. As nossas premissas são tão divergentes, que ficaríamos aqui toda a tarde a andar em círculos e não chegaríamos a parte nenhuma.
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De Daniela Major a 30.03.2010 às 12:13

A mim não me parece que seja essa a questão Teresa. O argumento de dizer que isto é pior com a Igreja porque eles têm uma posição moral que têm que manter é algo um bocado da Idade Média. Uma Igreja ou uma religião, não são só os homens. Os homens são homens e são capazes das maiores atrocidades que podem existir. Quando alguém vai rezar a uma Igreja ou a uma mesquita, não lá vai pelo padre ou pelo sacerdote da cerimónia. Ele é simplesmente um ligação entre duas partes mas que pode perfeitamente ser ignorada. Na religião Católica os sacerdotes têm de facto um papel importante, mas não é o mais importante.

Um dos problema deste escândalo dos padres pedófilos é que se confunde sistematicamente as coisas. Uma coisa é a religião e a Igreja em si, os preceitos da Igreja, outra muito diferente são os homens que estão à frente dela e há muitos exemplos de falta de virtude entre estes. Basta ver os Papas que tinham filhos abertamente à frente de todos. Leão X dizia: "deram-nos o papado agora vamos aproveita-lo". Não me parece que Jesus algum dia tenha dito: olhem violem mas é as criancinhas.

O Luís tem razão no que diz. Há muita gente que é muito rápida a denunciar os crimes dos padres aproveitando-se para atacar uma religião. Mas quando os mesmo crimes se passam noutras esferas - que já não lhes interessa - então ninguém diz nada. É só quando convém. É outro tipo de encobrimento mas mais sofisticado.
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De Luís Lavoura a 30.03.2010 às 14:33

Não me parece que a Daniela tenha totalmente razão.

No judaísmo ou no islamismo (sunita), de facto, os homens não são muito importantes. Há milhares de rabinos e milhares de xeques e, se uma pessoa não gosta de um, e muitos crentes de facto não gostam, troca-o por outro. Ou não usa nenhum.

Na Igreja Católica, no entanto, os homens e a hierarquia religiosa são muito importantes. É através deles e da verdade que eles propagam que se acede a Deus. Na Igreja Católica a verdade não está tanto num livro (a Bíblia) como na interpretação que dele é feita, nos dogmas, nos sacramentos concedidos, etc.

Enquanto que não existe uma instituição "judaísmo" ou "islamismo", a Igreja Católica é uma instituição, não é apenas uma religião. A instituição, como a sua hierarquia, com os homens que a compõem, é essencial para a própria religião. Uma pessoa não pode dizer que é realmente católica se não vai regularmente à missa, se não respeita a palavra do papa, se não toma os sacramentos, etc. E o padre que uma aldeia tem não é aquele que os fieis dessa aldeia preferem, é aquele que a instituição impõe.
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De Ana Cleto a 30.03.2010 às 19:14

Mon Dieu! Quando será que V., Lavoura, vai parar com tanto disparate?
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De Daniela Major a 30.03.2010 às 19:35

Caro Luis, o que eu quis dizer foi que a religião é algo espiritual, interior, é mais do que homens e pedras. E é tempo de alguém fazer a distinção.
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De Miguel Madeira a 01.04.2010 às 11:47

Não sei se para a Igreja Católica isso não será uma heresia (um exemplo - o conceito de "confissão" só faz sentido se assumirmos que as pessoas fisicas dos sacerdotes são importantes; se não fosse assim bastava o pecador arrepender-se, não precisa de ir confessar-se)
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De Teresa Ribeiro a 31.03.2010 às 00:05

Daniela, no caso particular dos padres católicos, que se assumem como intermediários entre Deus e os homens, ouvindo estes em confissão, não me parece abusivo exigir-lhes mais responsabilidades que ao comum dos mortais. Todavia, nem é deles que falo, mas dos seus chefes. Tantas vezes tão rigorosos a ditar a moral e os costumes dos seus fiéis e tão benevolentes com os seus membros.
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De Zé a 30.03.2010 às 14:24

Muito bem.

Ferreira Fernandes, hoje, no Diário de Noticias:

«Dir-me-ão: mas não é claro que ninguém generaliza à Igreja Católica os abusos sexuais a menores? Não, não é claro. Jeff Anderson, o advogado americano especializado em processos à Igreja Católica por abusos de menores, considera que esse problema, a pedofilia, é "verdadeiramente endémico na cultura clerical [católica]" (Le Monde, ontem). Endemia: doença que grassa num povo ou numa região, e que depende de causas meramente locais. Na minha vida, dei com alguns padres repugnantes (e jornalistas também, mas estes não vêm ao caso). Ora, essa tal doença endémica nos padres, escapou-me, a mim, ateu desde sempre. Mas o que não me escapa agora é a caça ao padre. Já começou, e vai continuar. Vai, vai. É uma fé que tenho: acredito na má-fé dos imbecis. Imbecis, porquê? Quem em nome de uma causa (combater a pedofilia) atira a torto e a direito, serve aqueles que combate porque banaliza os pulhas e até acaba por os ocultar. Imbecis, portanto. »
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De AJDiogo a 30.03.2010 às 18:49

Em 2003??
http://outubro10.spaces.live.com/blog/cns!E0B1952B675A321D!2193.entry
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De Miguel Madeira a 01.04.2010 às 11:51

De qualquer forma, acho que toda esta conversa de "pedofilia" é um bocado inquinado por normalmente se misturar pedofilia (sexo com crianças no sentido biológico do termo) com efebofilia (sexo com adolescentes).

(diga-se que não faço a minimia ideia se os padres "pedófilos" de que se fala são pedófilos ou efebofilos)

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