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O mal menor

por João Campos, em 26.03.10

O Filipe Nunes Vicente iniciou uma reflexão interessante aqui, e deu-lhe continuidade aqui, aqui e aqui (os comentários e os contributos externos também merecem leitura). O meu muito modesto e ingénuo contributo para a discussão:

 

1) Veria com muito bons olhos o surgimento de partidos que dispensassem a formação de "jotas", autênticas escolinhas de formação de caciques. Não, não tenho uma imagem positiva das juventudes partidárias. Aliás, nem percebo a utilidade: ou um cidadão tem idade e discernimento para votar, e pode ser militante de um partido, ou não tem idade para votar. Caso seja maior de idade, estar no kindergarden partidário, onde esturrica em banho-maria muito para lá da idade "jovem", é para mim uma inutilidade, para dizer o mínimo.

 

2) Não imagino, a curto-médio prazo, o surgimento de novos partidos no espectro político português. Diria que o nosso regime tem uma particularidade muito curiosa: a necessidade constante da maioria absoluta. Não temos, na nossa Assembleia, uma tradição de negociação política, nem um espírito muito aberto à coligação. Um partido em maioria relativa governa, sim, mas a prazo: nunca sabe quando a Oposição arriscará uma moção de censura, ou quando um Presidente atirará a "bomba" da dissolução parlamentar, ou mesmo quando o líder do governo minoritário decide "dar de frosques". É governar "até ver". Nem há negociação ou debate: há a ameaça constante da "crise política" (tem-se visto ultimamente, aliás). E depois há os tiques "cão de fila", ou seja, a obediência cega à liderança partidária. O nosso Parlamento precisa de tudo menos de deputados aparentemente incapazes de pensar por si.

 

3) Um maior número de partidos políticos com assento parlamentar implicaria uma maior dispersão dos votos, e, dadas as peculiaridadades portuguesas, maior instabilidade política. Ninguém no PSD - "elite" ou "engrenagem do aparelho" - quer ser ingrediente nessa caldeirada. Mais vale continuar a brincar aos partidos políticos até o poder lhe voltar a cair no colo, até porque isso, mais cedo ou mais tarde, acontece. Essa é, aliás, outra particularidade do regime político português: o poder não se conquista, perde-se. No fundo, vivemos permanentemente no "mal menor". De resto, vale a pena perguntar: no PSD, as ditas "elites" distinguem-se realmente do "aparelho", ou precisam dele para sobreviver (leia-se: para chegar ao poder)?


5 comentários

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De Ana Vidal a 26.03.2010 às 12:37

Excelente reflexão, João. Concordo inteiramente com o ponto 1, e vou ainda mais longe: esse kindergarten partidário é perigoso, porque é redutor e deforma a liberdade de pensamento em mentes ainda em formação. Vejo-o como uma escola de vícios e de gestão de ambições pessoais, e desculpem-me a violência do julgamento os que discordam.
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De João Campos a 26.03.2010 às 13:19

Tem toda a razão, Ana. Como se tem visto, as "jotas" servem para espalhar cartazes com "frases de ordem" de tal qualidade que o partido jamais as poderia publicar sem causar polémica; e servem, passe a expressão, de tropa de choque (como os confrontos entre as "jotas" socialistas e sociais-democratas na última campanha bem demonstrou).
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De Pedro Correia a 26.03.2010 às 12:46

O maior problema político português é a falta de uma política clara de alianças entre as forças partidárias. O PS podia e devia ter uma cultura de negociação. Com Sócrates, como já se viu, isso nunca sucederá. Em todos os parlamentos europeus, excepto no português, os governos minoritários sentem-se na obrigação de formar maiorias com outras forças políticas. Sócrates continua a comportar-se como se tivesse maioria absoluta.
O PPD/PSD, como a própria sigla indica, são dois partidos num só. Há um PPD - um partido conservador, populista, com sólida implantação nas autarquias locais, largamente dominante nos órgãos nacionais do PPD/PSD, e um PSD - um partido social-católico, moderado e citadino, com alguns lampejos de "modernidade", mas cada vez menos influente na Rua de São Caetano à Lapa.
São duas linhas paralelas que não se encontram. Por isso a crise interna perdurará, independentemente de quem for o "líder" de ocasião.
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De João Campos a 26.03.2010 às 13:23

A questão, Pedro, é: conseguem o PPD e o PSD sobreviver separados? Pessoalmente, acho que não.

No resto, de acordo: falta à política portuguesa a cultura de alianças e acordo. Foi o que tentei transmitir com a referência à "caça" à maioria absoluta: um partido em maioria relativa devia ter todas as condições para governar. E a oposição, claro, devia ser oposição a sério, ou seja, não votar contra algo em oposição que vai a correr aprovar quando é governo (como se vê tantas vezes).

Também seria muito bom, creio, que se acabasse com a "disciplina partidária" (todos têm "rolhas"), e que as bancadas parlamentares dos partidos de Governo passassem a ser mais do que um rebanho de ovelhas muito bem apascentado pelo Primeiro-ministro (isto vale para todos). Mas isto já é muita fruta...
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De João Carvalho a 26.03.2010 às 21:44

Gostei de ler esta reflexão, John, e se tivesse tal engenho diria o que a Ana escreveu lá no alto e juntava-lhe a análise do Pedro aqui mais perto.

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