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Vemos, ouvimos e lemos

por Pedro Correia, em 21.03.10

 

Manuel Alegre, dando voz ao que pensam muitos portugueses, deixa clara a sua oposição ao Pacto de Estabilidade e Crescimento divulgado pelo Governo: "Não há constrangimentos de Bruxelas que justifiquem a privatização da REN e dos CTT." Mário Soares, por uma vez de acordo com Alegre, exclama: "Não compreendo como é que se vai privatizar os CTT e uma empresa bandeira como é a TAP, ou outras companhias." Ana Gomes também não esconde a sua oposição à proposta governamental: "Quero juntar a minha voz à daqueles que não compreendem que se contemple a privatização de empresas que trabalham em sectores de interesse estratégico ou de interesse geral. Estou a falar de empresas como a REN, os CTT, a GALP. Do meu ponto de vista, é errado que o Estado prescinda da posição que deve aí ter." João Cravinho deixa um sério aviso: "O PS entrou numa deriva à direita da qual vai ser muito difícil regressar sem que haja grandes alterações na direcção.”

O visado nestas duras palavras é José Sócrates, que em entrevista ao Jornal de Notícias continua a falar como se não fosse primeiro-ministro há cinco anos nem tivesse violado uma só promessa eleitoral. Fala de um país que só existe na cabeça dele, ignorando as críticas que já fervem no seu próprio partido. Confunde a crítica política com "insultos e malidecência". Alude a "campanhas negras", imitando o pior de Santana Lopes. Continua sem esclarecer as inúmeras questões em que se foi enredando ao longo do seu mandato. Fala com a arrogância de sempre aos jornalistas que cumprem o dever de lhe fazer perguntas. Alude com inaceitável sobranceria ao Parlamento, como se não fosse politicamente responsável perante os deputados. Continua a defender o inenarrável Rui Pedro Soares, deixando por explicar como deixou o boy socialista invocar o seu nome no abortado negócio entre a PT e a Prisa para a aquisição da TVI.

Enfim, mais do mesmo. Por maiores que sejam os sinais do seu iminente naufrágio político, o primeiro-ministro continua a viver no mundo do faz-de-conta, confundindo a opinião dos yes men que ainda o rodeiam com o pensamento dos portugueses. O pior é que o PS vai naufragando com ele, como muitos socialistas já se aperceberam. Muito pior ainda: também o País está em risco de se afundar. O último a aperceber-se disso é Sócrates. "Uso a minha inteligência emocional para ignorar tanta coisa que se escreve e se diz", declara ao JN, numa frase extremamente reveladora.

Nós - ao contrário dele - vemos, ouvimos e lemos. Não podemos ignorar.


8 comentários

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De Amêijoa Fresca a 21.03.2010 às 21:52

E por que não versejar um pouco?

É desta imoralidade
de políticas deliradas
que se esconde a verdade
em locuções mal aclaradas.

Nestes tempos encantados
por pessoas delirantes
surgem-nos cromos pintados
em formas descolorantes.
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De Pedro Correia a 22.03.2010 às 00:09

E porque não versejar um pouco? Excelente pergunta, Amêijoa. Só mesmo com poesia, pois com esta prosa já não vamos lá.

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